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A vida da CENG 2686 não se limitou a uns joguitos de futebol, uma bebedeira ou outra e ao jogo da “lerpa”. Houve também muito trabalho efectuado em condições extremamente adversas, tanto pelo isolamento e clima, como pela forte presença do IN. Apesar disso, alguns trabalhos foram executados em tempo recorde, tendo a Companhia sido alvo de público louvor do Comandante da R.M.M. – Região Militar de Moçambique, que a seguir se transcreve: Pág. 1406 Continuação da O.S. nº 141 do R.E.1 de 16/6/1972 III – JUSTIÇA E DISCIPLINA Artº 4º: - Louvor Transcrição: Da Nota nº 023719-Pº.H.156.72 do Q.G./1ª Rep. de 27/5/1972, se transcreve: “Encarrega-me o Exmº Brigadeiro Comandante Interino da Região Militar de Moçambique, de remeter a V.Exª. para efeitos de publicação e averbamento, a adjunta O.S. nº 40 da R.M.M. de 20/5/72, q2ue insere no seu artigo 2º. O louvor concedido à C.E. 2686. Mais solicito se digne promover que seja acusada a recepção da mencionada O.S.”. Transcrição do artigo acima referido: Que, por seu despacho de 9/5/72, louvou a Companhia de Engenharia nº. 2686/R.E.1 pela capacidade e qualidades técnicas e humanas de que deu repetidas e permanentes provas no decurso da sua missão de serviço na R.M.M., totalmente cumprida em sectores de actividade inimiga e em zonas de grande isolamento, nomeadamente Candulo, Chiulezi, Lusannhando e Nangade. Numa compreensão plena das suas missões e num querer unânime pouco depois da sua chegada à R.M.M., arrancou para trabalhos em locais afastados mais de 300 quilómetros da sua base de apoio e construiu num tempo notável (três meses) cento e trinta e cinco quilómetros de estrada para todo o tempo, setenta dos quais com respectivas obras de arte correntes. Numa segunda época de trabalhos de estrada, apesar de não haver sido rendida, da não substituição das suas baixas, por esgotamento físico, acidentes de acção directa do inimigo,; da dispersão dos seus destacamentos; das condições em que teve de viver em sucessivos meses de trabalho, nunca deu indícios de hesitação ou de afrouxamento, como nunca se furtou ao cumprimento exacto e cabal das missões que lhe foram atribuídas, ainda encontrando tempo e vontade para apoiar as unidades que a protegiam quer na melhoria das suas condições de vida, quer na acção psicológica que desenvolviam junto das populações. A actividade técnica, que se desenvolveu também na época das chuvas, traduz-se pela abertura, construção, reconstrução de quase três centenas de quilómetros de estrada para todo o tempo, incluindo algumas obras de arte com certo vulto, construção de pistas para aviões ligeiros e médios, conclusão da construção dum quartel de companhia e o estabelecimento inicial da infra-estrutura da vila de Nangade. Assim, pelo seu estoicismo e inquebrantável espírito de cumprimento do dever; pela decisão e coragem serena de que os seus elementos deram repetidas provas; pela capacidade técnica e espírito de iniciativa; pela forma como soube superar todas as dificuldades, sacrifícios e perdas; pelo exemplar espírito de corpo; a C.Engª. 2686 honrou por forma notável a Arma a que pertence e conquistou o direito a público louvor como testemunho dos serviços prestados à R.M.M. e à Província de Moçambique. In memoriam: Militares da C. Engª 2686 mortos na guerra, em Moçambique: BENTO VALENTE PICA Soldado Vila Nova de São Bento - Serpa 04-07-1970 ANTÓNIO MARIA RODRIGUES Soldado Variz - Penas Roias - Mogadouro 22-09-1970 JOSÉ JOAQUIM MORGADO CORREIA Soldado Alcaria Ruiva - Mértola 17-07-1970 DIAMANTINO DE SOUSA 1º Cabo Cem Soldos – Madalena – Tomar 24-08-1971
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Fotos de viaturas destruídas por minas Outras fotos Dálio Magro no Quartel da Cª Engª 2686 Marrupa – Moçambique - 1971 Marrupa – Moçambique – 1971 O Tarzan de Marrupa Marrupa 1971 Junto à messe com o Furriel Pessoa |
A gesta de seis irmãos que cumpriram Serviço Militar em África (Angola, Guiné e Moçambique).
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sábado, 19 de dezembro de 2015
Dálio Magro
Louvor à Companhia de Engenharia nº 2686
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Dálio Magro
Uma Grande Bebedeira do Maçarico
IN MEMORIAMEx-Cap. Milº Engª Jorge Maçarico O Capitão Maçarico (Jorge Maçarico) , engenheiro civil na Câmara de Aveiro, depois de ser chamado para o curso de capitães milicianos, foi mobilizado em rendição individual para Moçambique. Como ia em rendição individual ficou com a ideia que iria para uma cidade e até levou o seu automóvel «Peugeot 304» . Contudo, o Maçarico deve ter sido tramado por aqlguém e foi parar a Marrupa para substituir o capitão Rosas Leitão que terminava a sua comissão de serviço. Portanto, a partir de Julho/Agosto de 1970, o Maçarico passou a ser o comandante da Companhia de Engenharia nº.2686. Como já relatei anteriormente, durante a época das chuvas a Companhia de Engenharia permanecia todo o tempo no seu aquartelamento em Marrupa. Festa de aniversário de um dos furriéis Em Marrupa o pessoal passava o tempo a jogar futebol, a jogar a lerpa, na caça e a emborcar cerveja e whisky que eram as únicas bebidas que existiam para além da «fanta» e da coca-cola. Na maioria das vezes jogávamos as cartas e emborcávamos na nossa messe, onde havia electricidade toda a noite ao contrário do aquartelamento ao lado (C.C.S.) onde a electricidade era desligada às 21h30 /22h00. De vez em quando o pessoal também ia até à vila, onde existia um bar, cujo nome suponho que era o “ás de paus”. Um certo dia o Maçarico veio ter comigo , dando-me a seguinte ordem: - Ó Magro anda comigo até à vila que hoje quero apanhar uma grande bebedeira! De seguida passa-me a sua carteira para mãos, dizendo-me: Dálio Magro, "fardado" a rigor, dando de beber à dor no bar do aquartelamento de Marrupa - Pega lá para pagares todas as despesas. Chamou o condutor de serviço para nos levar até à vila e pediu-lhe para nos ir buscar por volta da 01h30. Depois de termos conversado longamente sobre diversos assuntos e emborcado algumas cervejas, o Maçarico “virou-se” para o whisky e só parou quando já não se aguentava em pé. Finalmente lá chegou o condutor que nos levou para o nosso aquartelamento e aí começou o trabalho de tentar deitar o Maçarico , cuja tarefa se mostrava quase impossível. Comecei a tirar-lhe os sapatos, mas de imediato o Maçarico reage e com uma voz rouca informa-me que: “primeiro são as calças e só depois é que são os sapatos!” A muito custo lá consegui levar a cabo esta ingrata tarefa e quando terminei a mesma já o Maçarico dormia como um passarinho. No dia seguinte, para espanto meu, a primeira coisa que o Maçarico me disse foi: -Ó Magro tenho que ir à vila procurar a minha carteira! -Ó Maçarico a tua carteira está comigo, não te lembras que ma entregaste? -Não me lembro. Achei muito estranho, uma vez que quando me entregou a carteira estava perfeitamente sóbrio. Então perguntei-lhe: - não te lembras de que me disseste que querias apanhar uma grande bebedeira? -Sim é verdade. E achas que apanhei mesmo? - Claro e das grandes! -Era o que eu queria e ainda bem. Com o relato deste episódio fica aqui a minha sincera homenagem ao saudoso amigo Maçarico e quando nos tivermos de encontrar seja lá onde for, terás de me esclarecer o motivo pelo qual desejaste apanhar aquela grande bebedeira. |
Dálio Magro
Um ataque de Abelhas
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A Companhia de Engenharia nº. 2686 tinha uma frente de trabalhos localizada no Chiulézi , os quais eu estava a dirigir e que constavam da construção de uma picada localizada próximo da zona que indico no mapa à esquerda. Para a realização da referida picada era necessário derrubar várias árvores, algumas das quais de grande porte. Para verificar/analisar o terreno era costume ir uns metros à frente, de modo a procurar as melhores soluções para se evitar grandes trabalhos de movimentação de terras e, quando possível, evitar que a picada tivesse curvas que eram sempre propícias a emboscadas. Após este trabalho de «reconhecimento do terreno», dirigi-me para junto do operador do «caterpillar» (máquina de lagartas) dando-lhe indicações sobre a direcção que deveria seguir e quais as árvores que teriam de ser abatidas. Decorridos alguns minutos e após o derrube de uma grande árvore fui atacado por um enorme enxame de abelhas que começaram a pousar nas minhas faces, orelhas, testa e a entrar pela gola da camisa. No primeiro instante fiquei estático com a arma entre os braços mas, decorrido alguns minutos, atirei-me para o chão e com os dois braços tapei a gola da camisa de modo a que não entrassem mais abelhas para as minhas costas e peito. Quando o sistema nervoso atingiu os limites, comecei a vociferar: - Fo*** , não há nenhum c*** que pegue num bocado de capim e faça um archote para afugentar as abelhas?! O meu pedido de socorro foi bem sucedido pois que, passado pouco tempo, houve um corajoso que se abeirou de mim e, agarrando-me pelas pernas, me levou de rastos até a um riacho que existia mais abaixo. De seguida fui transportado numa viatura para o acampamento do Chiulézi, onde me foram prestados os primeiros socorros pelo 1º. Cabo enfermeiro «Tiano». Atendendo a que após alguns minutos comecei a ter vómitos, o capitão Rosas Leitão (comandante da companhia naquela altura) decidiu pedir a minha evacuação para o hospital. No hospital, os médicos informaram-me que tinha tido alguma sorte pois a quantidade de veneno que tinha no corpo era muito significativa e que não seria o primeiro caso em que ferradelas de abelhas tinham provocado a morte. Como relatei atrás, quando me atirei para o chão a arma ficou debaixo do meu corpo e como fui arrastado pelas pernas, a G3 lá ficou. Ainda no acampamento do Chiulézi informei o capitão Rosas Leitão sobre o problema da falta da arma que me poderia trazer consequências graves. O capitão Rosas Leitão foi de imediato com um grupo de soldados ao local para bater toda a zona e tentar encontrar a G3. Apesar de, durante três ou quatro dias, não se ter feito qualquer outra coisa que não fosse procurar a arma no local onde ocorreu o ataque das abelhas, a G3 não apareceu e já se admitia que a mesma tivesse sido surripiada, pelo que seria necessário preparar um auto para esclarecimento da situação. Ao quinto dia, quando se reiniciavam os trabalhos, a G3 lá estava e junto à mesma foram encontrados alguns panfletos da acção “psico” (ver abaixo). Portanto tudo leva a crer que as famigeradas abelhas se teriam arrependido e entregaram a arma. (a fraca qualidade das imagens deve-se à idade dos panfletos – à volta de 45 anos) Cique nas imagens para as ampliar Transcrição do panfleto GENTE FOI TRABALHAR FRELIMO GENTE ENGANADA FRELIMO GENTE FUGIU NO MATO MEDO FRELIMO FRELIMO ESTÁ PERDER GUERRA FORÇA FRELIMO ESTÁ ACABAR MESMO FRELIMO ENGANOU TODA GENTE - Toda gente deixar Frelimo acaba milando mesmo com Governo Português. - Vai apresentar autoridades Governo. AUTORIDADES É ADMINISTRADOR, CHEFE POSTO, TROPA, MILÍCIA. - Quando apresentar, Governo VAI PERDOAR, NINGUÉM CASTIGA - Quando apresentar, acaba fome, acaba frio, acaba doença, acaba sofrer. - QUANDO APRESENTAR, TEM MULHER, TEM FILHO, TEM AMIGO, TEM MACHAMBA, NINGUÉM CHATEIA. - Muita gente Frelimo enganou, já deixou mato, acabou milando, vive bem, tem sorte. - GOVERNO PORTUGUÊS TEM MUITA FORÇA PARA DEFENDER TODA GENTE. - GENTE FUGIU MATO E GENTE FAZ SERVIÇO GUERRA FRELIMO SÓ PODE APRESENTAR QUANDO VER DIA, PARA MOSTRAR DIREITO DEIXOU MESMO FRELIMO. - Gente deixou serviço guerra Frelimo quando tem espingarda traz espingarda nas costas levanta mão para autoridade ver bem e receber direito. - Governo dá grande mata-bicho dinheiro quando gente entrega espingarda. Mata-bicho é mais grande quando gente entrega espingarda tirou bandido do mato GOVERNO PORTUGÊS TEM CADA VEZ MAIS FORÇA FRELIMO ESTÁ PRRDER GUERRA GOVERNO DESCULPA, PERDOA, TRATA BEM GENTE DEIXAR FRELIMO - Mostra este papel teu amigo e fala teu amigo este papel - Teu amigo também quer deixar Frelimo e acabar milando VAI APRESENTAR AUTORIDADES GOVERNO PORTUGUÊS (Transcrição do mesmo panfleto escrito em linguagem nativa) ATHU AHORWA MTEKO WA FRELIMO ATHU AHOTYEPIA NI FRELIMO ATHU AHOTYANA MTAKWANI UOVA IFRELIMO FRELIMO ANAPERETERE IKHOTO IKURU YA FRELIMO IRI MUOMALA FRELIMO AHATHANKANYA ATHU OTHENE - Athu othene ahye Frelimo imala milato ni Guverunu ya Putukezi. - Uroeke waprezentar uzirikarini y Guverunu. SIKIRARI PI, MUSHATORO, CHEFE POSTO, ITROPA, NIMILICIA - Mwarezentariki, inamala ítala, inamala ipyo, inamala ikwerere, inamala uhuva. - MWAPREZENTARIKI, MNOKALANA NTIYANA, MNOKALANA MWANA, MNOKALANA NPWANA, MNOKALANA IMATA KANNANTHIPIA NINTHU - Athu entchi Frelimo ihatapye, ahohia itakhwa chihomala milato, anokaia rata, ahaná iparakha. - GUVERUNU PUTUKESI IHANA IKURU TCHINTCHI TCHOWASUGELA ATHU OTHENE. - ATHU ATYWILE NTAKWANI NATHU ANOVARA MTEKO AKHOTO YA FRELIMOANAWORYA WAPREZENTARI IYONA UTHANA, ETHONYERE RATA WIRA AHOHIYA KWELI FRELIMO. - Athu ahile mteko wakoto ya Frelimo kama ahana kaputhi ayareke utuli ateche mono iyonie rata ni sirikari nu wakheleia sawsawa. - Guverunu inavaha isakwato ywlupale yonsuruku nthu ahokoloshaka ikaputi inatepa unuwa nthu anhokolocha kaputi anhankumiha pantitu muini. GUVERUNU PUTUKESI IHANA KULA MARA KULA MARA IKURU CHOTEPA FRELIMO ANAPARETERE IKHOTO GUVERUNU INAULEVANI, USWAMIHINI NI UPANKANI TCHOMBONE ATHU MUHIYERE FRELIMO - Mtonyereke ila iwarakha mpwanaa numhimerya awaa ila iwarakhela. - Mwaparaa nie anathuna whiya Frelimo tchimaleke milato. UROEKE WAPREZENTARI SIRIKARI GUVERUNU PUTUKESI Instrução de tiro aos condutores Aldeamento em Marrupa – Moçambique 1971 |
quarta-feira, 20 de março de 2013
Dálio Magro
A Primeira Coluna – (Marrupa – Candulo – Chiulézi )
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Em finais de Abril de 1970, sob o meu comando, saiu a primeira Coluna da Companhia de Engenharia 2686 com destino ao Chiulézi para alargamento e arranjo de uma pequena pista em saibro já existente e a construção de uma nova picada. O trajecto seria efectuado em 2 etapas (a 1ª entre Marrupa e Candulo e a 2ª entre Candulo e Chiulézi). Considerando que, uns dias antes, o aquartelamento do Candulo tinha sido alvo de um ataque com morteiros, o nosso "cagaço" era enorme. Antes da partida fui informado que a meio caminho entre Marrupa e Candulo (cerca de 80/90 Kms) havia um pontão em madeira sobre o Rio (? Maúa ?) e que era aconselhável passar ao lado (onde houvesse menos água) com os veículos pesados e não sobre o dito pontão. Ao chegar ao local, já com algum atraso, comecei a raciocinar: - se passo com os veículos pela água, alguns vão atascar e vou ter de pernoitar na picada e não no aquartelamento do Candulo, como estava programado; - considerei a informação superior que me havia sido transmitida como um conselho ou previsão e como, apesar de naquela época não existir Gaspar, as previsões poderiam estar erradas. Decidi, perante estes factos , efectuar um teste à resistência da construção sem a intervenção do L.N.E.C.. Assim, qual Edgar Cardoso lá do sítio, fui até ao meio da ponte e dei 3 ou 4 pulos para verificar a reacção dos materiais e concluí que a solidez da ponte merecia a minha confiança. Dirigi-me para o meio da ponte e feito de "arrumador" comecei a sinalizar e orientar a passagem dos vários veículos; "venha… venha… venha… sempre a direito… venha". Estava tudo a correr às mil maravilhas e ainda não tinha recebido qualquer gorjeta, quando para surpresa minha o atrelado que transportava um D7 (escavadora Caterpillar) que se encontrava quase 75% na outra margem fez ruir a ponte e ficou meio dependurado com a máquina em cima. Por tal motivo foi necessário recorrer a uma outra máquina e a um guincho para se conseguir rebocar o atrelado. O problema com a ponte foi rapidamente resolvido, uma vez que não estávamos na "Gasparlândia" e por tal motivo não foi necessário recorrer ao O.E. nem à intervenção de qualquer P.P.P. A coluna prosseguiu o seu trajecto e quando estávamos a cerca de 10/12 Kms do Candulo, fomos surpreendidos por uma rajada o que nos levou a reagir prontamente saltando das viaturas para a picada e ripostando "tra… tra… tra… tra…". Ao meu lado ,atrás de uma árvore, estava o Furriel Tavares (já falecido) que deixou ficar a G3 na viatura. A dada altura o Tavares chamou-me a atenção dizendo que estava a ouvir vozes e eu respondi-lhe de imediato: "fo….. você em vez de trazer a G3 trouxe o transístor!" Mas, de imediato lembrei-me que tinha sido informado que um grupo da Cª.de Caçadores do Candulo viria ao nosso encontro e então dei ordens para pararem com o fogo. Foi então que comecei a ouvir: "Oh 'checas'(1) do ca…, vocês não percebem nada disto, pois nem conseguem distinguir o som do tiro da G3!" e passados alguns minutos apareceu um grupo de soldados e um alferes com quem tive um "bate papo" bastante azedo sobre a "emboscada" que poderia ter causado problemas sérios para não falar na quantidade de munições que ali foram desperdiçadas. O alferes, cujo nome não me recordo, explicou-me que era habitual fazerem estas recepções aos "checas" e depois de me pedir desculpa, informou-me que tinha dado instruções para prepararem umas "bazucas"(2) fresquinhas para o pessoal confraternizar no quartel. No dia seguinte demos início à 2ª. etapa do percurso (Candulo – Chiulézi) com cerca de 60 Kms, mas bastante problemático devido às minas serem "mato"(3). A meio da viagem fizemos uma pequena paragem para almoçarmos a ração de combate que tinha sido distribuída a cada um dos "turistas". Ao lado da picada havia várias árvores caídas que aproveitamos para lá nos sentarmos e saborear o lauto "almoço". Terminado o "repasto" e quando nos preparávamos para continuar a viagem turística, um soldado ao passar sobre uma das árvores, aonde estivemos sentados, calcou uma mina antipessoal tendo ficado com uma perna desfeita. O pessoal levantou-se todo de imediato e num pequeno intervalo de tempo foram deflagradas mais 3 minas antipessoais que provocaram ferimentos muito graves em 2 outros soldados e num negro que era contratado pela tropa por ser um dos melhores "guias e pisteiro". De imediato foram dadas instruções ao radio telegrafista para solicitar as evacuações dos feridos, enquanto o enfermeiro procedia aos 1ºs. socorros. Após este acontecimento o ânimo das tropas ficou bastante afectado, tendo sido abordado por alguns soldados que me pediam para regressarmos ao Candulo. Tentei afincadamente esclarecer que não podia fazer isso e que tinha sido incumbido de uma missão que teria forçosamente de levar até ao fim. Constatei que, de um modo geral, a minha argumentação não satisfez e ouvi algumas "bocas" de que era tudo "papaias"(4) e que eu não tinha amor à vida. Finalmente ao anoitecer lá chegamos ao Chiulézi e prometi a mim mesmo não voltar a fazer estas "viagens turísticas". Coluna para o Chiulézi – Marrupa – Moçambique 1971 Chiulézi, uma espécie de Tarrafal ! Toda a gente que foi ao Chiulézi, passou pelo "Chapéu de Coco", tremeu de medo... ali era a segunda "fronteira" da guerra. A primeira seriam as "Pedreiras do Candulo", isto para quem viajasse no sentido de Mecula para o Chiulézi. (Foto e fragmento de texto retirados do site: http://serramecula.blogspot.pt com a devida vénia) Notas: (1) - "checas" – maçaricos, periquitos, novatos; (2) - "Bazuca" – garrafa de cerveja de 1 L da 2 M ou Laurentina; (3) - "mato" – muito, grande quantidade; (4) - "papaias" – letra , garganta (Fotos retiradas da internet) |
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Dálio Magro
Cancioneiro do Niassa
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O turra das minas Pequeno e traquinas Lá vai na picada E a malta escondida Na mata batida Monta a emboscada O turra passou A malta esperou Já toda estafada E a Berliet Sempre foi estoirada Há mortes e feridos E os mais aguerridos Somos sempre nós Vamos pelos ares Gritando por todos Até pelos avós Oh Turras bairristas Mas pouco fadistas Já é tradição Ser para-quedista Sem tirar o curso Ai isso é que não Oh turra das minas A tua vida agora É por as marmitas Pela picada fora Oh turra das minas A tua arma soa Por léguas e léguas Aqui no Niassa Onde a guerra entoa ---X--- (letra para a música do Fado ‘Ó Júlia Florista’) Há erva lá na picada Pisam-na os guerrilheiros O coração do soldado Pisam-na os coronéis E ajudam os machambeiros Que culpa tem o soldado de ter raiva à sua sorte Se vem um filho da puta que o mete numa farda e o manda para a morte E o sr. Brigadeiro vive muito descansado Até comprou um balança Para pesar o dinheiro Que rouba ao pobre soldado Quando será Deus do Céu Que um dia haverá verba Quando será Deus do Céu Que um dia haverá verba Para a malta comer pão e os xicos merda.. merda merda …merda --- X --- Canção feita em Nampula em 1970. Inspira-se numa conhecida canção da guerra civil espanhola: "La hierba de los caminos la pisan los caminantes y la mujer de lo obrero la pisan quatro tonantes de essos que tienen dinero" (...) (João Maria Pinto -1999) http://blogueforanada.blogspot.pt/2004_05_09_blogueforanada_archive.html Todos os cabecinhas Têm as suas caminhas Com lençol e almofadas Mas a malta cá no Norte Já está com muita sorte Se não dormir na picada Eles comem em sua mesa E com decoro e subtileza demonstram a sua arte Mas a malta variando cá continua lerpando é a ração de combate Estou farto deles que da guerra não sabem nada só chateiam a rapaziada para fazer um figurão É descansando que o tempo vai passando (Ai) Só estamos esperando acabar a comissão Andei cá pelo Norte Lado a lado com a morte Lutando sempre na frente Mas eles sem fazerem nada Vão vestindo a sua farda Como se não tivessem medo Vão mandando suas bocas Mostrando suas ideias loucas para estes e para aqueles Por isso digo a quem passa Em Mueda ou no Niassa Estou mesmo farto deles Que da guerra não sabem nada só chateiam a rapaziada para fazerem um figurão È descansando que o tempo vai passando (Ai) Só estamos esperando acabar a comissão --- X --- (Letra adaptada para o Fado do Cacilheiro de José Viana) Estranha forma de vida Estranha comparação Vive-se em Lourenço Marques Vive-se em Lourenço Marques Cá estoura-se o coirão Vida boa vida airada Boites é só festança Lá não se fala em matança Lá não se fala em matança Nem em turras à sá morgado Niassa por onde dança Guerra como essa ignorada Conversa que é evitada Conversa que é evitada Pelos que vivem na abastança Falar da nossa desdita Fica ao lado e aborrece E como lembrar evita E como lembrar evita Toda a gente se entristece Ao passar pela cidade Com tanta tranquilidade Deu-me para comparar Ao passar pela cidade com tanta tranquilidade deu-me para comparar Meninas de mini-saia Mandai-as para as nossas praias Para a manobra de atracar Meninas de mini-saia Mandai-as para as nossas praias Para a manobra de atracar Pipis com carros “Gts” Mandai-os para as Berliets Tirai-lhes as modas finas Pipis com carros “GTS ” Mandai-os para as Berliets Tirai-lhes as modas finas Menús afeminados eram bem utilizados para fazer rebentar minas Menús afeminados eram bem utilizados fazer rebentar minas Bem como essas tais meninas Que apesar de enfiesadinhas Mas com ar da sua graça Bem como essas tais meninas Que apesar de enfiezadinhas Mas com ar da sua graça Serviam muito a jeito para salvar a dor de peito Cá da malta do Niassa Serviam muito a jeito Para salvar a dor de peito Cá da malta do Niassa Mas se não for só por pirraça Hão-de lá continuar E nós temos de lerpar Mas se não for só por pirraça Hão-de lá continuar E nós temos de lerpar Invertam-se as posições Troquem-se as situações Continuamos a aguentar Invertam-se as posições Troquem-se as situações Continuamos a aguentar Eles os daqui naturais Gastando dinheiro aos pais Vão para o Matola Rios Os daqui naturais Gastando dinheiro aos pais Vão para o Matola Rios Acabe-se com a tradição Entre-se na mobilização Utilize-se a manada Acabe-se com a tradição Entre-se na mobilização utilize-se a manada Dentro de poucas semanas Como quem come bananas Estará a guerra acabada Dentro de poucas semanas Como quem come bananas Estará a guerra acabada |
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Dálio Magro
Cantigas do Capim
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O Primeiro-Sargento da Companhia era muito miltarista e implicava com os cabelos compridos dos condutores quando estes iam a Marrupa para reabastecimento de material. Então, eu escrevia na tampa de uma ração de combate (não havia papel no meio do mato) uma declaração em que autorizava o condutor a usar os cabelos compridos durante o período que levaria a fazer o trajecto entre o mato e o Quartel e respectivo regresso.
A primeira coluna para o mato (Chiulezi) foi chefiada por mim, mas, para meu espanto, com a segunda coluna não seguiu qualquer oficial. Os condutores queixavam-se que o Primeiro-Sargento tinha construído um jardim à entrada do aquartelamento que dificultava a manobra dos camiões. Pelos motivos acima apontados o "vidrinhos" fez algumas quadras que o pessoal passava a vida a cantarolar. |
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O Primeiro-Sargento Bruno Há injustiças que tanto puno Já estamos fartos do Sargento Bruno do Sargento Bruno Que mal tão grande e derradeiro Artilharia mandou um primeiro mandou um primeiro Já cheira mal, a merda é tanta Sempre nos lixam, mas a malta canta mas a malta canta O artilheiro fez um jardim Mas cá o Magro não o quis assim não o quis assim Oh artilheiro a ideia é sua E o capitão pô-lo na rua pô-lo na rua Com o capitão ninguém se mete E arrasou tudo com o D7 tudo com o D7 Eles bem se escondem lá no buraco Mas o Jesuino já cá veio ao mato Já cá veio ao mato Dizem que o Bruno é muito vera Mandem para o mato essa grande fera essa grande fera Se ele aqui vem, ai que grande carola Pois os mauzões cá baixam a bola Cá baixam a bola O Laranjinha que grande rato Foi para o conjunto para se safar do mato para se safar do mato Já me esquecia cá do xarola Que no morteiro é um pintarola É um pintarola Versos feitos na picada entre o Candulo e o Xiulezi Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Chegamos ao Xiulezi não trouxemos oficiais Ficaram em Marrupa para mandarem vir mais Chegamos ao Xiulezi não trouxemos oficiais ficaram em Marrupa para mandarem vir mais Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Vamos arranjar a pista para virem de avião eles mandam muitas papaias mas não gostam da confusão Vamos arranjar a pista para virem de avião eles mandam muitas papaias mas não gostam da confusão Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Mandem os xicos para o mato já estou farto esta merda O medo era mato do Candulo para cá mas houve um dos valentes que preferiu ficar lá O medo era mato do Candulo para cá mas ouve um dos valentes que preferiu ficar lá Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Dos sorjas nem se fala eles só estão preocupados com o braçal de sargento de dia Dos sorjas nem se fala eles só estão preocupados com o braçal de sargento de dia Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Para a guerra não querem ir recusam-se a todo o momento Assim também eu queria ser segundo sargento Para a guerra não querem ir recusam-se a todo o momento assim também eu queria ser segundo-sargento Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Se um dia a sorte mudar e a gente puder mandar vir serão sempre eles a alinhar e há-de ser até partir Se um dia a sorte mudar e a gente puder mandar vir serão sempre eles a alinhar e há–de ser até partir Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Estou farto deles Estou farto deles da xicalhada Só mandam vir e não fazem nada E não fazem nada E não Fazem nada Vai para o mato xico lateiro Por esse andar chegas a 1º Chegas a primeiro Chegas a primeiro Estou farto deles da xicalhada Eles no quartel e nós na picada E nós na picada E nós na picada Só há trabalho e maus tratos e na picada a fome é mato A fome é mato A fome é mato O vagomestre que grande pinta Está a cortar-se com a ração trinta Com a ração trinta Com a ração trinta Ai que cheirinho a verde pinho Só não cheiramos o nosso vinho O nosso vinho O nosso vinho Não é só o vinho a nossa luta Mas o lerpanço é também na fruta É também na fruta è também na fruta Tanta miséria que devaneio Ainda por cima não temos correio Não temos correio não temos correio De tanta merda já não estranho há quinze dias que não tomo banho que não tomo banho que não tomo banho Tudo a ralhar com razão Ainda por cima também não há pão Também não há pão Também não há pão Não há pão come borracha Pois nem sequer trouxeram bolacha Trouxeram bolacha Trouxeram bolacha Que vida esta tão desgraçada Se um homem fala leva uma porrada Leva uma porrada Leva uma porrada De tanta dor ninguém contesta Se vem os turras é o fim da esta è o fim da festa é o fim da festa |
Dálio Magro
O Futebol e os Super-Marrupões
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A Companhia de Engenharia 2686 foi formada sem comandante, uma vez que o Capitão que tinha sido nomeado fez uma exposição alegando que existia um capitão a mais na Região Militar de Moçambique. Assim, o comando da Companhia foi entregue ao Alferes mais antigo (Alferes Ferreira já falecido em virtude de ter sido atingido com um estilhaço de uma granada que se alojou no cérebro e que o deixou em coma durante bastante tempo). Embarcamos no paquete Vera Cruz, tendo a viagem terminado em Nacala após 22 dias com paragem em S.Vicente (Cabo Verde) para carregar algum material que o “Niassa” teria deixado em virtude de ter ocorrido um pequeno incêndio a bordo, e com paragem também em Luanda. A Companhia era constituída por quatro Alferes , doze Furriéis e quatro Segundo-Sargentos. Já em Moçambique apresentou-se um Primeiro Sargento, oriundo da arma de artilharia, bem como o Capitão de Engenharia Rosas Leitão que passou a ser o Comandante da Companhia até ao termo da sua comissão (cerca de 7 meses) sendo, então, substituído pelo Capitão Jorge Maçarico que era Engenheiro na Câmara Municipal de Aveiro e que já faleceu. O Capitão Maçarico foi em rendição individual e parece que estava previsto ficar numa cidade (até tinha levado o seu automóvel Peugeot 404, que depois fomos buscar à cidade da Beira), mas como era miliciano foi empurrado para o mato. Ao fim de um ano foi deslocado para Tete e para o substituir foi nomeado o Capitão Deus Alves, oriundo da arma de Engenharia e que chegou a brigadeiro. Normalmente havia sempre um Alferes em Marrupa para dar apoio logístico aos trabalhos que se iam realizando no mato (abertura de picadas, arranjo e alargamento de pistas, etc.). De um modo geral as diversas companhias que nos davam protecção aos trabalhos, eram atacadas devido ao barulho das niveladoras e rectroescavadoras que denunciavam ao inimigo a nossa localização. Em face das missões que teríamos de realizar, a permanência no aquartelamento era apenas durante a época das chuvas que normalmente ocorriam entre Novembro e Abril e mais cerca de um mês por ano, relativo ao roulement que era efetuado entre os Alferes. Durante a permanência no aquartelamento organizei vários torneios de futebol, de cinco e de onze, como se pode verificar nas fotos que anexo. Fiquei bastante surpreendido com a força das claques, pois com pouco mais de 15 dias de permanência em Moçambique já havia grafitis no campo de futebol a saudar o Alferes Magro (fotos abaixo). Antes de iniciarmos os preparativos da deslocação para o mato apareceu um dentista em Marrupa para efectuar uma vistoria à dentição do contingente militar e no que à minha pessoa dizia respeito, detectou que existia um dente que tinha um buraquito. Andou a escarafunchar e aplicou uma massa que, passados alguns dias, acabou por sair e apareceu-me um enorme abcesso no céu da boca junto à garganta. Ora como tinha muita dificuldade em respirar, fui a Nova Freixo ao consultório de um dentista que ficou alarmado com a situação e que disse: - "Vou ter de lhe lancetar isso mas não tenho qualquer anestesia e como é 'Valente' vai ter de aguentar." Quando o vi com um objecto em brasa que parecia quase um ferro de soldar e a introduzi-lo na minha boquinha comecei a transpirar e o sistema nervoso a trabalhar em rotações aceleradas. Terminado este serviço o doutor perguntou-me se era alérgico à penicilina e se já tinha levado alguma injecção. Respondi-lhe que tinha sido a primeira vez que tinha ido ao médico e que, portanto, desconhecia se era ou não alérgico à penicilina. "Oh pá não há alternativa, tens mesmo que levar uma injecção!", retorquiu o médico. Depois de me levantar da cadeira e ter percorrido 2 ou 3 metros caí redondo no chão e quando acordei estava a receber respiração boca a boca. À despedida o médico estava tão assustado que me pediu encarecidamente para não voltar lá mais. |
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