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Durante os cerca de 30 meses em que permaneci nas fileiras do Exército, em cumprimento do Serviço Militar obrigatório, muito enriqueci o meu vocabulário à custa da chamada "linguagem de caserna", particularmente na Guiné. E se em relação aos vocábulos "ordinários", pouco tinha a aprender, confesso, já no que se refere a expressões mais "pacíficas", o ganho foi substancial. Efectivamente aprendi e usei expressões (e ainda uso algumas) que, embora sendo consideradas calão, não são pejorativas e fazem, também elas, parte integrante da história de uma época e de um contexto onde todos nós, ex-combatentes, vivemos durante algum tempo da nossa juventude. Com o fim da guerra colonial, muitas daquelas expressões caíram em desuso e, para que se preserve este valioso património, tentarei usar e abusar, nesta "Tabanca", de expressões usadas entre os militares em serviço na Guiné e que me ficaram na memória. Dito isto, vamos aos "famosos" patrulhamentos no Pilão. O Pilão (assim se designava habitualmente o Cupilom) era o maior bairro negro de Bissau e situava-se perto das instalações Militares de Santa Luzia, onde estava instalado o QG/CTIG. Era composto por numerosas tabancas, sem energia eléctrica, sem água canalizada e sem rede de esgotos. Era ali que vivia a maior parte da população pobre de Bissau. Era também ali que havia "manga de fudi-fudi"(1) onde muitos militares iam "desenferrujar o prego". À noite era perigoso andar por ali sozinho. Recordo-me de, ainda na Metrópole e terminadas a férias que antecediam o embarque, ter-me deslocado a uma barbearia para um corte de cabelo curto, e o barbeiro que me atendeu ter-me perguntado se ia para a tropa. Tendo-lhe respondido que não, que já lá andava há quási um ano, mas que ia para a Guiné, ele logo me avisou: "Cuidado com o Pilão, um 'gajo' entra lá e sai com a cabeça debaixo do braço!". Fiquei esclarecido. Efectivamente, vim a constatar depois que, à noite no Pilão, havia constantes conflitos por variadíssimas razões, entre as quais o "fudi-fudi". Era também habitual o rebentamento de granadas naquela bairro e constava até, que por lá havia muita gente simpatizante do PAIGC e que alguns guerrilheiros ali vinham passar os fins de semana, recolhendo informações. Os patrulhamentos estavam a cargo do pessoal da CCS do QG/CTIG e eram efectuados em três turnos; 20h-24h, 24h-04h, 04h08h e eram controlados por um Capitão do COMBIS (Comando de Defesa de Bissau). E é neste contexto que este vosso camarada "operacional do ar condicionado", apenas com alguns dias de Guiné, é chamado a efectuar o seu primeiro patrulhamento nocturno ao Pilão. "Piriquito"(2) como era, estava decidido a seguir à risca todas as instruções que me fossem transmitidas para o efeito. Munido de G3, telemóvel matulão (já não sei como se chamava aquilo) e um croquis mal-ajambrado, com notas escritas à máquina e envolto num plástico transparente, lá vou eu comandar uma patrulha de seis homens, transformados em guarda-nocturnos. Vamos de Unimog e largam-nos no local indicado no croquis. Este, tinha aspecto de já ter cumprido dezassete comissões e apresentava-se com a farda toda esfarrapada. Isto é: o plástico estava a desfazer-se e o papel mal se conseguia ler. Então de noite, sem luz, era giro! Mas eu estava determinado a fazer tudo certinho direitinho (era mesmo muito "pira"!(2)) e esforço-me por estudar o croquis, quando um elemento da patrulha me diz que o "télélé" tinha lanterna o que me levou a concluir que, afinal, a tropa portuguesa estava bem equipada. Às apalpadelas tentei acertar com o botão respectivo, mas acabou por ser o tal elemento da patrulha a dar à luz. Logo pensei: "este deve ser Engenheiro". Os caracteres esbatidos daquele croquis já se me apresentavam mais legíveis e tratei de perceber qual o trajecto que teria de seguir para cumprir cabalmente a misão que me havia sido confiada, quando dou com o seguinte fragmento de texto: "(...) junto a um mangueiro com uma faixa branca (...). "Porra! Esta merda está toda rota, a luz é fraca comó caraças, um gajo num bê a ponta dum chabelho e, ainda por cima, estes gajos num sabem escreber, ou estom a gozar comigo?! Como é que bou encontrar uma mangueira com uma risca branca, no meio desta escuridom?! Tá tudo doido!" (Em 1973, com 4 ou 5 dias de Guiné, sabia lá eu que existiam mangueiros!) Fartei-me de olhar para o chão à cata da tal mangueira! Resumindo: perdi-me completamente e, a páginas tantas: "- kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto. - kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto.". O "télélé" tinha acordado - era o Capitão do COMBIS! Respondo: "- celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto - celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto (duas vezes - tinham-me dito que era assim). Do outro lado respondem: "kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto - kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto". E eu novamente: "- celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto - celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto Aquilo até estava a ser giro, mas o tal "engenheiro" diz-me: "- Meu Furriel, tem de carregar num botão aí ao lado! (o tipo sabia mesmo daquilo!). Carreguei no botão, mas a conversa continuava monótona como tinha começado: "kalar, kalar para cá - celta, celta para lá" e já começava a chatear! Então o "engenheiro" diz: "Meu furriel, tem um botão de cada lado, tem de carregar nos dois ao mesmo tempo! Aí convenci-me mesmo que o "bacano" era Engenheiro, e dos bons! Talvez electrotécnico. Bom, lá consegui chegar à fala com o Capitão que me perguntou onde é que eu estava, e eu lá tive de lhe dizer que me tinha enganado no autocarro, que era a 1ª vez, etc. e tal e ele lá me disse que estava junto à igreja, o que me deixou mais sossegado pois, provavelmente, estaria em meditação e dava-me algum tempo para lá chegar. Como não fazia a mínima ideia onde ficava a igreja, perguntei ao pessoal e um dos negros que compunham a patrulha lá nos encaminhou até lá. Chegados lá, nem Capitão, nem Padre, nem Sacristão, nem o raio que os parta! Recomeça a cantoria: "- kalar, kalar..." A sério que me apeteceu mesmo mandá-lo calar, mas lá carreguei nos dois botões (a gente está sempre a aprender) e o Capitão pergunta-me: "- Então, onde é que você anda?! O tom de voz dele já não me estava a agradar. Respondi-lhe com alguma sobranceria: "Estou junto à Igreja!" E ele: - "Junto à Igreja estou eu e não vejo aqui ninguém!" $#"&%/$"$#!!! - Eu, afinal, estava junto a uma mesquita!! "Ai meu Deus que desta é que eu vou parar a São Crincalho! Já me estava a imaginar no centro de Madina de Boé a fazer patrulhamentos com uma moca de Rio Maior na mão e uma fisga no bolso!" Lá me explicou mais ou menos onde ficava a Igreja e, como o pessoal mostrou conhecer o caminho, para lá avançamos a todo o vapor! Lá chegados, continuei com as minhas desculpas e não notei nele grande ressentimento. Julgo que era Capitão Milº. Assinei o mapa de controlo e lá me embrenhei novamente na "densa mata", até ser rendido. Eu era de rendição individual, estava há três ou quatro dias na Guiné e ainda não tinha tido tempo para conhecer todos os "cantos à casa". Vim mais tarde a saber como a "coisa" funcionava e, até ao fim da comissão, agi de acordo com as regras vigentes e..., "tá na mala!"(3) Então era assim: O Capitão do COMBIS ligava para o Oficial de Prevenção - Alf. Milº - informando-o da hora e local onde seria efectuado o controlo. O Oficial de Prev. avisava o Sargento de Ronda. Este seguia directamente com a patrulha para perto do local de controlo e, minutos antes da hora marcada, avançava destemido para o "objectivo". Nunca falhava! Eu nunca dormia (forte sentido de responsabilidade), mas algum pessoal era "tiro e queda!". Uma das vezes dei comigo a guardar seis "bacanos" a ressonar! "Oh c'um carago, mas que é isto?! Tudo a "ferrar o galho" e eu aqui feito camelo, de sentinela a velar por eles?!" "- Toca a acordar pessoal, vamos dar uma volta que estou a ficar com frio!" Acordaram e lá foram, meio a resmungar. Em Setembro de 1973, vim de férias à Metrópole e, regressado a Bissau, "tungas, bora lá alinhar" numa rondazinha ao Pilão. Era o turno das 20h às 24h, o pior em termos de conflitos. Eu tinha regressado no dia anterior e estava atarefado a tentar descansar da azáfama das férias. Sossegadinhos no canto de uma tabanca (do lado de fora, claro), fomos sobressaltados com o rebentamento de uma granada. Ouvi, registei e esperei. Logo de seguida, rebenta outra, depois outra... Mau, vim ontem de férias e ainda me sinto em convalescença, sem vontade para entrar em "festas"!. Continuam a rebentar, tenho de ir, pois vai aparecer o COMBIS de certeza. Inicio, então, a deslocação das tropas exactamente em sentido contrário ao do som dos rebentamentos (cautelas e caldos de galinha...). O pessoal alerta-me, mas eu não ouço. É para este lado e "mai nada!" Rebenta mais outra e aqueles "camelos" insistem: "- Meu Furriel é para ali!" (militares impreparados!). Lá tive de inverter o sentido da marcha. Aqueles "gajos" não estavam a facilitar nada. "Calma, nada de pressas", ordenei eu! Entretanto rebenta uma granada incendiária que provocou um grande clarão e pude ver que já lá se encontrava alguma tropa e aí sim, acelerei a marcha. Não façam já juízos precipitados! Acelerei a marcha, não porque me sentisse mais seguro, mas porque estavam lá camaradas meus que podiam necessitar da minha ajuda (a isto chama-se altruísmo!). O Capitão da COMBIS manda-me fazer um cordão de segurança ao local (eu mais 6 homens, quando muito uma cordinha!), pois estava uma granada descavilhada junto à porta de entrada da casa de um 1º Sargento e era preciso fazer segurança aos homens que iriam tentar resolver o assunto. Aquela granada podia rebentar por simpatia a qualquer momento. Colocaram sacos de areia junto à entrada da casa. Pensou-se em dar um tiro de longe à granada, mas não seria fácil acertar-lhe e, além disso, parece que havia uma determinação qualquer que não permitia tiros em Bissau. Se algum tabanqueiro tiver informações àcerca do assunto, seria interessante divulgá-las aqui na Tabanca, pois sempre me pareceu absurda a ideia, tanto mais que era frequente o rebentamento de granadas, mas, realmente e apesar da quantidade de armas que por ali circulavam, nunca tive conhecimento de cenas de tiroteio em Bissau. Talvez eu andasse distraído, não sei. Aquilo demorou uma eternidade. Toda a gente dava palpites e eu, experimentado como era no assunto, também dou o meu. "E se se abrissem algumas munições e se fizesse no chão um carreiro de pólvora até à granada e se espalhasse em cima desta alguma pólvora. Depois, era só chegar fogo à outra extremidado do carreiro e proteger-mo-nos." A sugestão foi bem recebida, mas o pior veio a seguir. Era preciso um voluntário... "Querem ver que estes gajos estão a pensar na minha pessoa para pôr em prática o meu plano?! Estão doidos!" Realmente, isto de fazer planos para os outros executarem é muito lindo. Não deixavam de ter razão, mas eu tinha regressado de férias no dia anterior, carago! Era só por isso, mais nada. E não é que um "bacano" do meu "grupo de combate" se oferece como voluntário?! Este gajo é maluco! Esta merda ainda rebenta, o "gajo" vai pelos ares, e eu fico com um "molho de bróculos" nas mãos do carago! O "bacano" lá começa a fazer o carreiro de pólvora até à granada e eu sempre a "rezar" para que ela se aguentasse muda e queda e a pedir que o "bacano" se despachasse. Quando chega à granada e começa a despejar pólvora em cima dela, eu já tremia todo só de imaginar a "gaja" a explodir, o "bacano" a ficar feito em fricassé e eu a "sentar o cu no mocho". Lá terminou sem problemas aquela tarefa e, então, chegou fogo à pólvora no início do carreiro que tinha feito. Todos nos abrigamos a aguardar os acontecimentos. A pólvora lá foi ardendo pelo e carreiro e, quando chegou à granada, dá-se um clarão e... "um autêntico flato em pantufas!". A "gaja" não rebentou, chegou o pelotão para me render, eu regressei a quarteis e no dia seguinte soube que lá tinha ido o pessoal das minas e armadilhas que tratou do assunto. A esta distância (40 anos) estes episódios são relatados com esta ligeireza da "calma, descontração e estupidez natural", mas não deixei de apanhar alguns "cagaços" e temos de levar em conta que o meu nome completo inclui os apelidos Valente e Magro e que, o último me assentava na perfeição, à época. (1) - "manga de fudi-fudi" - muito sexo (2 - "piriquito" ou "pira" (abrev.) - expressões que designavam um militar recém chegado à Guiné e cujo camuflado, com pouco uso, nos levava a assemelhá-lo ao periquito verde da Guiné (papagaio do Senegal). (3) - "tá na mala!" - Está feito, siga! |
A gesta de seis irmãos que cumpriram Serviço Militar em África (Angola, Guiné e Moçambique).
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Abílio Magro
Patrulhamentos no Cupilom (Pilão)
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Acácio Magro
A Diáspora dos Magros
Acácio Alberto Lamares Magro
ex-Comandante da Companhia "Os Magros do capim"
(Tentei apropriar-me do espírito jocoso tão caracterítico de El Comandante, fazendo estas aldrabadas rimas imaginando-o hoje, entre nós, a escrever sobre a diáspora dos Magros do capim.
Se consegui retratar minimamente a sua subtil jocosidade, não sei. Fica a intenção em sua memória. AM)
ex-Comandante da Companhia "Os Magros do capim"
(Tentei apropriar-me do espírito jocoso tão caracterítico de El Comandante, fazendo estas aldrabadas rimas imaginando-o hoje, entre nós, a escrever sobre a diáspora dos Magros do capim.
Se consegui retratar minimamente a sua subtil jocosidade, não sei. Fica a intenção em sua memória. AM)
Tantos anos a procriar
Seis mancebos vi crescer
A tropa os veio buscar
Como era de prever
Foram todos p'ro Quartel
Aprenderam a marchar
Apanharam um batel
Rumaram ao Ultramar
Na vida sempre a sorrir
Muitas vezes quis chorar
Vendo seis filhos partir
Para terras de além-mar
Uns após outros partiram
Pra guerra, com valentia
Foram seis, todos saíram
Ficou a casa vazia
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Rogério 1967/1969 Foi pra guerra o Rogério Para Angola, pr'o Lumbala Zona de mato a sério Vai pedrada se não há bala No "meco" a roupa lavava No Zambeze tomava banho E na Diamang fumava No seu cachimbo castanho Uma linda escola ergueu Um rádio velho consertou Um bom cabrito recebeu Muita picada no cú levou Operações, rancho e escola Renderam-lhe alguma estima Os frangos viraram-lhe a "tola" "Meta-os pelo cú acima!" Fernando 1970/1972 Pra Guiné segue o Fernando Que na tropa já tinha andado Dão-lhe galões pro comando De pessoal todo artilhado Pelo Kako é recebido Expõe-lhe seus argumentos O General é convencido Fica nos Reordenamentos Foi professor em Bissau E a Tecnil apoiou Encheu bolsos com "cacau" Enquanto a tropa durou Sempre bem acompanhado Com mulher, filho e "canito" Nunca se sentiu atacado E não deu qualquer "tirito" Dálio 1970/1972 E o Dálio marcha também Para as minas e armadilhas Com os "turras" não se dá bem Vai p'ra bola com sapatilhas Em Moçambique - Marrupa Organiza alguns joguitos Esquece os filhos da tupa E vai marcando uns golitos Cria os super-Marrupões Joga ao centro e pelas alas Vai à final, são campeões Festa rija pros "magalas" Tem problemas num dente Vai à "cata" dum dentista É tratado como um Valente Sem anestesia, por um "artista" |
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Carlos 1970/1972 Em Angola na aviação No Luso e Henrique Carvalho O Carlos com o heli-canhão Manda tudo p'ra São Crincalho! Integrou os Saltimbancos Na Siroco também entrou Evacuou pretos e brancos Com o heli-canhão lidou Nos Alouettes, os noviços Pouco sabiam da matéria Pra ele, pelos bons serviços Seis anos de Força Aérea! A mulher foi lá pró ver Foi amor e uma cabana Viu-se a barriga a crescer Oh Marta, és Angolana! Álvaro 1971/1973 Para a Guiné marcha também Pelo mano é hospedado Umas férias sabem-lhe bem Passa uns dias descansado Em Mansambo tem estadia “Boa comida e rico vinho” Sai p'ro mato co'a Companhia Adormece..., fica sozinho! Queixa-se ao mano capitão Da vida dura, do mato mau Este pensa numa solução Pro trazer para Bissau O "mais velho" não descansa De o ajudar, tem vontade Quem porfia, sempre alcança Traz o Álvaro pra cidade! Abílio 1972/1974 Se já foram cinco pra guerra Porquê mais um, acto tão vil? Ó generais da nossa terra Ouçam bem o Augusto Gil: Que quem é atirador Vá pro mato, tudo bem! Mas o "finguelas" Senhor, Porque lhe dais tanta dor? Porque o quereis lá também? General Spínola, meu General! O que vai este fazer p'ra Guiné?! O rapaz é enfezado, come mal Tem varizes, não s'aguenta em pé! Deixem-no comigo, por favor Encarregar-me-ei de o encorpar Torná-lo-ei num bravo atirador Mais dez anitos pro preparar! |
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Dálio Magro
Cancioneiro do Niassa
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O turra das minas Pequeno e traquinas Lá vai na picada E a malta escondida Na mata batida Monta a emboscada O turra passou A malta esperou Já toda estafada E a Berliet Sempre foi estoirada Há mortes e feridos E os mais aguerridos Somos sempre nós Vamos pelos ares Gritando por todos Até pelos avós Oh Turras bairristas Mas pouco fadistas Já é tradição Ser para-quedista Sem tirar o curso Ai isso é que não Oh turra das minas A tua vida agora É por as marmitas Pela picada fora Oh turra das minas A tua arma soa Por léguas e léguas Aqui no Niassa Onde a guerra entoa ---X--- (letra para a música do Fado ‘Ó Júlia Florista’) Há erva lá na picada Pisam-na os guerrilheiros O coração do soldado Pisam-na os coronéis E ajudam os machambeiros Que culpa tem o soldado de ter raiva à sua sorte Se vem um filho da puta que o mete numa farda e o manda para a morte E o sr. Brigadeiro vive muito descansado Até comprou um balança Para pesar o dinheiro Que rouba ao pobre soldado Quando será Deus do Céu Que um dia haverá verba Quando será Deus do Céu Que um dia haverá verba Para a malta comer pão e os xicos merda.. merda merda …merda --- X --- Canção feita em Nampula em 1970. Inspira-se numa conhecida canção da guerra civil espanhola: "La hierba de los caminos la pisan los caminantes y la mujer de lo obrero la pisan quatro tonantes de essos que tienen dinero" (...) (João Maria Pinto -1999) http://blogueforanada.blogspot.pt/2004_05_09_blogueforanada_archive.html Todos os cabecinhas Têm as suas caminhas Com lençol e almofadas Mas a malta cá no Norte Já está com muita sorte Se não dormir na picada Eles comem em sua mesa E com decoro e subtileza demonstram a sua arte Mas a malta variando cá continua lerpando é a ração de combate Estou farto deles que da guerra não sabem nada só chateiam a rapaziada para fazer um figurão É descansando que o tempo vai passando (Ai) Só estamos esperando acabar a comissão Andei cá pelo Norte Lado a lado com a morte Lutando sempre na frente Mas eles sem fazerem nada Vão vestindo a sua farda Como se não tivessem medo Vão mandando suas bocas Mostrando suas ideias loucas para estes e para aqueles Por isso digo a quem passa Em Mueda ou no Niassa Estou mesmo farto deles Que da guerra não sabem nada só chateiam a rapaziada para fazerem um figurão È descansando que o tempo vai passando (Ai) Só estamos esperando acabar a comissão --- X --- (Letra adaptada para o Fado do Cacilheiro de José Viana) Estranha forma de vida Estranha comparação Vive-se em Lourenço Marques Vive-se em Lourenço Marques Cá estoura-se o coirão Vida boa vida airada Boites é só festança Lá não se fala em matança Lá não se fala em matança Nem em turras à sá morgado Niassa por onde dança Guerra como essa ignorada Conversa que é evitada Conversa que é evitada Pelos que vivem na abastança Falar da nossa desdita Fica ao lado e aborrece E como lembrar evita E como lembrar evita Toda a gente se entristece Ao passar pela cidade Com tanta tranquilidade Deu-me para comparar Ao passar pela cidade com tanta tranquilidade deu-me para comparar Meninas de mini-saia Mandai-as para as nossas praias Para a manobra de atracar Meninas de mini-saia Mandai-as para as nossas praias Para a manobra de atracar Pipis com carros “Gts” Mandai-os para as Berliets Tirai-lhes as modas finas Pipis com carros “GTS ” Mandai-os para as Berliets Tirai-lhes as modas finas Menús afeminados eram bem utilizados para fazer rebentar minas Menús afeminados eram bem utilizados fazer rebentar minas Bem como essas tais meninas Que apesar de enfiesadinhas Mas com ar da sua graça Bem como essas tais meninas Que apesar de enfiezadinhas Mas com ar da sua graça Serviam muito a jeito para salvar a dor de peito Cá da malta do Niassa Serviam muito a jeito Para salvar a dor de peito Cá da malta do Niassa Mas se não for só por pirraça Hão-de lá continuar E nós temos de lerpar Mas se não for só por pirraça Hão-de lá continuar E nós temos de lerpar Invertam-se as posições Troquem-se as situações Continuamos a aguentar Invertam-se as posições Troquem-se as situações Continuamos a aguentar Eles os daqui naturais Gastando dinheiro aos pais Vão para o Matola Rios Os daqui naturais Gastando dinheiro aos pais Vão para o Matola Rios Acabe-se com a tradição Entre-se na mobilização Utilize-se a manada Acabe-se com a tradição Entre-se na mobilização utilize-se a manada Dentro de poucas semanas Como quem come bananas Estará a guerra acabada Dentro de poucas semanas Como quem come bananas Estará a guerra acabada |
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Dálio Magro
Cantigas do Capim
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O Primeiro-Sargento da Companhia era muito miltarista e implicava com os cabelos compridos dos condutores quando estes iam a Marrupa para reabastecimento de material. Então, eu escrevia na tampa de uma ração de combate (não havia papel no meio do mato) uma declaração em que autorizava o condutor a usar os cabelos compridos durante o período que levaria a fazer o trajecto entre o mato e o Quartel e respectivo regresso.
A primeira coluna para o mato (Chiulezi) foi chefiada por mim, mas, para meu espanto, com a segunda coluna não seguiu qualquer oficial. Os condutores queixavam-se que o Primeiro-Sargento tinha construído um jardim à entrada do aquartelamento que dificultava a manobra dos camiões. Pelos motivos acima apontados o "vidrinhos" fez algumas quadras que o pessoal passava a vida a cantarolar. |
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O Primeiro-Sargento Bruno Há injustiças que tanto puno Já estamos fartos do Sargento Bruno do Sargento Bruno Que mal tão grande e derradeiro Artilharia mandou um primeiro mandou um primeiro Já cheira mal, a merda é tanta Sempre nos lixam, mas a malta canta mas a malta canta O artilheiro fez um jardim Mas cá o Magro não o quis assim não o quis assim Oh artilheiro a ideia é sua E o capitão pô-lo na rua pô-lo na rua Com o capitão ninguém se mete E arrasou tudo com o D7 tudo com o D7 Eles bem se escondem lá no buraco Mas o Jesuino já cá veio ao mato Já cá veio ao mato Dizem que o Bruno é muito vera Mandem para o mato essa grande fera essa grande fera Se ele aqui vem, ai que grande carola Pois os mauzões cá baixam a bola Cá baixam a bola O Laranjinha que grande rato Foi para o conjunto para se safar do mato para se safar do mato Já me esquecia cá do xarola Que no morteiro é um pintarola É um pintarola Versos feitos na picada entre o Candulo e o Xiulezi Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Chegamos ao Xiulezi não trouxemos oficiais Ficaram em Marrupa para mandarem vir mais Chegamos ao Xiulezi não trouxemos oficiais ficaram em Marrupa para mandarem vir mais Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Vamos arranjar a pista para virem de avião eles mandam muitas papaias mas não gostam da confusão Vamos arranjar a pista para virem de avião eles mandam muitas papaias mas não gostam da confusão Mandem os xicos para o mato Já estou farto desta merda Mandem os xicos para o mato já estou farto esta merda O medo era mato do Candulo para cá mas houve um dos valentes que preferiu ficar lá O medo era mato do Candulo para cá mas ouve um dos valentes que preferiu ficar lá Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Dos sorjas nem se fala eles só estão preocupados com o braçal de sargento de dia Dos sorjas nem se fala eles só estão preocupados com o braçal de sargento de dia Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Para a guerra não querem ir recusam-se a todo o momento Assim também eu queria ser segundo sargento Para a guerra não querem ir recusam-se a todo o momento assim também eu queria ser segundo-sargento Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Se um dia a sorte mudar e a gente puder mandar vir serão sempre eles a alinhar e há-de ser até partir Se um dia a sorte mudar e a gente puder mandar vir serão sempre eles a alinhar e há–de ser até partir Mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda mandem os xicos para o mato já estou farto desta merda Estou farto deles Estou farto deles da xicalhada Só mandam vir e não fazem nada E não fazem nada E não Fazem nada Vai para o mato xico lateiro Por esse andar chegas a 1º Chegas a primeiro Chegas a primeiro Estou farto deles da xicalhada Eles no quartel e nós na picada E nós na picada E nós na picada Só há trabalho e maus tratos e na picada a fome é mato A fome é mato A fome é mato O vagomestre que grande pinta Está a cortar-se com a ração trinta Com a ração trinta Com a ração trinta Ai que cheirinho a verde pinho Só não cheiramos o nosso vinho O nosso vinho O nosso vinho Não é só o vinho a nossa luta Mas o lerpanço é também na fruta É também na fruta è também na fruta Tanta miséria que devaneio Ainda por cima não temos correio Não temos correio não temos correio De tanta merda já não estranho há quinze dias que não tomo banho que não tomo banho que não tomo banho Tudo a ralhar com razão Ainda por cima também não há pão Também não há pão Também não há pão Não há pão come borracha Pois nem sequer trouxeram bolacha Trouxeram bolacha Trouxeram bolacha Que vida esta tão desgraçada Se um homem fala leva uma porrada Leva uma porrada Leva uma porrada De tanta dor ninguém contesta Se vem os turras é o fim da esta è o fim da festa é o fim da festa |
Dálio Magro
O Futebol e os Super-Marrupões
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A Companhia de Engenharia 2686 foi formada sem comandante, uma vez que o Capitão que tinha sido nomeado fez uma exposição alegando que existia um capitão a mais na Região Militar de Moçambique. Assim, o comando da Companhia foi entregue ao Alferes mais antigo (Alferes Ferreira já falecido em virtude de ter sido atingido com um estilhaço de uma granada que se alojou no cérebro e que o deixou em coma durante bastante tempo). Embarcamos no paquete Vera Cruz, tendo a viagem terminado em Nacala após 22 dias com paragem em S.Vicente (Cabo Verde) para carregar algum material que o “Niassa” teria deixado em virtude de ter ocorrido um pequeno incêndio a bordo, e com paragem também em Luanda. A Companhia era constituída por quatro Alferes , doze Furriéis e quatro Segundo-Sargentos. Já em Moçambique apresentou-se um Primeiro Sargento, oriundo da arma de artilharia, bem como o Capitão de Engenharia Rosas Leitão que passou a ser o Comandante da Companhia até ao termo da sua comissão (cerca de 7 meses) sendo, então, substituído pelo Capitão Jorge Maçarico que era Engenheiro na Câmara Municipal de Aveiro e que já faleceu. O Capitão Maçarico foi em rendição individual e parece que estava previsto ficar numa cidade (até tinha levado o seu automóvel Peugeot 404, que depois fomos buscar à cidade da Beira), mas como era miliciano foi empurrado para o mato. Ao fim de um ano foi deslocado para Tete e para o substituir foi nomeado o Capitão Deus Alves, oriundo da arma de Engenharia e que chegou a brigadeiro. Normalmente havia sempre um Alferes em Marrupa para dar apoio logístico aos trabalhos que se iam realizando no mato (abertura de picadas, arranjo e alargamento de pistas, etc.). De um modo geral as diversas companhias que nos davam protecção aos trabalhos, eram atacadas devido ao barulho das niveladoras e rectroescavadoras que denunciavam ao inimigo a nossa localização. Em face das missões que teríamos de realizar, a permanência no aquartelamento era apenas durante a época das chuvas que normalmente ocorriam entre Novembro e Abril e mais cerca de um mês por ano, relativo ao roulement que era efetuado entre os Alferes. Durante a permanência no aquartelamento organizei vários torneios de futebol, de cinco e de onze, como se pode verificar nas fotos que anexo. Fiquei bastante surpreendido com a força das claques, pois com pouco mais de 15 dias de permanência em Moçambique já havia grafitis no campo de futebol a saudar o Alferes Magro (fotos abaixo). Antes de iniciarmos os preparativos da deslocação para o mato apareceu um dentista em Marrupa para efectuar uma vistoria à dentição do contingente militar e no que à minha pessoa dizia respeito, detectou que existia um dente que tinha um buraquito. Andou a escarafunchar e aplicou uma massa que, passados alguns dias, acabou por sair e apareceu-me um enorme abcesso no céu da boca junto à garganta. Ora como tinha muita dificuldade em respirar, fui a Nova Freixo ao consultório de um dentista que ficou alarmado com a situação e que disse: - "Vou ter de lhe lancetar isso mas não tenho qualquer anestesia e como é 'Valente' vai ter de aguentar." Quando o vi com um objecto em brasa que parecia quase um ferro de soldar e a introduzi-lo na minha boquinha comecei a transpirar e o sistema nervoso a trabalhar em rotações aceleradas. Terminado este serviço o doutor perguntou-me se era alérgico à penicilina e se já tinha levado alguma injecção. Respondi-lhe que tinha sido a primeira vez que tinha ido ao médico e que, portanto, desconhecia se era ou não alérgico à penicilina. "Oh pá não há alternativa, tens mesmo que levar uma injecção!", retorquiu o médico. Depois de me levantar da cadeira e ter percorrido 2 ou 3 metros caí redondo no chão e quando acordei estava a receber respiração boca a boca. À despedida o médico estava tão assustado que me pediu encarecidamente para não voltar lá mais. |
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Adelina Valente
Batatas a Pataco
ex-2ª Comandante da Companhia "Os Magros do capim"
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Teria eu os meus 12, 13, 14 anos (não sei bem) mas estaríamos, seguramente, no início ou meados da década de 60. El Comandante ter-se-ia encontrado na rua com um antigo cantoneiro de Valença que já não via há alguns anos (julgo que se chamava Seixas, nome muito comum naquela região). Chega ao Quartel muito entusiasmado com a notícia de que tinha encontrado o Seixas e que este lhe teria proposto a venda de batatas a um preço que já não me recordo, mas que pela expressão da 2ª Comandante (Adelina P. Valente), seria ao preço da "uva diurética". El Comandante, com ar triunfal, declara então ter encomendado dois sacos de batatas e que até já os tinha pago (talvez com receio da subida de preços) e que no dia seguinte as entregariam lá no Quartel. De imediato, a 2ª Comandante, eu, Carlos e julgo que o Álvaro também, olhamos uns para os outros e ficamos logo ali com a nítida sensação de que: "já foste comido de cebolada!". A 2ª Comandante, com um sorriso matreiro nos lábios proferiu em surdina uma frase que, traduzida para linguagem actual, seria do tipo: "É que é já a seguir, bem podes esperar sentado!". Claro que, a partir desse dia, fartamo-nos de "matraquear" a cabeça de El Comandante com a ideia de que tinha sido levado no "conto do vigáro", ao que ele retorquia de imediato com: - "Oh, oh, o Seixas ia lá fazer uma coisa dessas!" A partir daí, todos os dias e sempre que chegava ao Quartel para almoçar ou no fim das operações militares do dia, vinha com a pergunta sacramental: - "Então, as batatas já vieram?". E dia após dia lá vinha a pergunta e nós sempre a "dar música". Julgo que a cena se repetiu durante, pelo menos, 2 semanas. Até que, já fartos daquilo e constatando que El Comandante ainda não se convencera de que tinha sido "comido de cebolada", resolvemos, com o conluio da 2ª Comandante, encher um saco de serapilheira com jornais amarrotados e, por cima, todas as batatas que lá havia em casa e que não eram muitas, nem grandes. Colocamos o saco (só um) ao cimo das escadas de acesso ao Quartel de modo a que ele, ao chegar, desse logo com elas de frente e, à hora prevista da sua chegada, combinamos lugares estratégicos (2ª Comandante incluída) para assistir à reacção de El Comandante. Eis, então, que se ouvem passos nas escadas! Cada qual ocupa a posição previamente combinada! A 2ª Comandante, que se encontrava no Departamento de Alimentação, é avisada! Os passos são cada vez mais audíveis! O momento aproxima-se! Nas "guaritas" o silêncio é total! Ainda El Comandante não tinha transposto os últimos degraus e, vislumbrando já a parte superior do saco, exclama: - "Ah, vieram, ou não vieram?!" E subindo mais um degrau: - "Só um saco?! O outro também há-de vir!" Claro que os "observadores", nos seus postos de vigília, começavam a ter dificuldade em conter o riso e a "explosão" deu-se quando, finalmente transpostos todos os degraus, El Comandante se abeira do saco, vê e apalpa as batatas, e afirma com algum desalento: - "Afinal são pequenitas". A risada é geral, os "observadores" saem das "guaritas", a 2ª Comandante retira-se para o seu Departamento com um sorrisinho cúmplice no rosto, como quem diz: - "toma e embrulha!" El Comandante verificando mais abaixo que apenas havia papel, riu-se da "tramóia" e nunca mais perguntou pelas batatas. Moral da história: El Comandante estava sempre pronto a brincar com tudo e com todos, mas também aceitava com grande "fair play" e com um sorriso nos lábios qualquer partida de que fosse alvo, ainda que daí resultassem prejuízos para a sua pobre carteira. Abílio Magro |
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Rogério Magro
Gratidão
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No início de 1969, instalados no Dundo, capital da Diamang, mais concretamente no quartel do Camaquenzo, por sinal muito bem instalados comparados com os 18 meses de intensa actividade operacional, a Companhia de Caçadores 1719 encontrava-se a descomprimir e a repousar, exceptuando as duas vezes que tivemos que aguentar na zona do Dala, um mês de cada vez, ainda em actividade operacional. Um magnata no Quartel - Dundo - capital da Diamang - 1969 No Dundo não faltava nada, era uma pequena cidade onde habitavam os funcionários da Diamang que na altura tinha o monopólio da exploração de diamantes em Angola e como tal havia de tudo. Todos os espectáculos de teatro e/ou variedades que passavam por Luanda, vinham igualmente actuar no Dundo, que tinha uma sala de espectáculos formidável. Feito este pequeno preâmbulo, vamos directos à história. O Capitão manda-me chamar, entrega-me uma planta com o desenho de uma escola e ordena-me que recrute dois ou três pedreiros e um carpinteiro no pessoal da Companhia e que, junto dos serviços da Diamang, proceda ao levantamento de todos os materiais para a construção da escola que se iria erigir no aldeamento do Fucaúma, o qual se situava a cerca de 20 Kms do quartel do Camaquenzo. Nunca me tinha passado pela cabeça vir a ser mestre de obras, mas foi aí que eu dei os primeiros passos na ligação à construção civil. Também nunca percebi porque quando era preciso fazer algo de novo o Capitão se lembrava sempre de mim, muito embora houvesse 3 alferes, 7 furrieis e dois sargentos, mas enfim, lá fui eu com dois pedreiros e um carpinteiro tratar de construir a escola no Fucaúma que, segundo afirmavam, seria o único aldeamento naquela zona que ainda não possuía escola. Lá fui com uma GMC requisitar o cimento e os tijolos ao armazém da Diamang e lá me dirigi para o Fucaúma. Fui ter com o soba, um velhote estimável que não falava português, mas através de um sipaio que fez de tradutor do dialecto quioco para o português, lá fizemos as apresentações. Ele já estava informado ao que íamos e prontificou-se a arranjar alguns homens para nos ajudarem na construção da escola, nomeadamente irem buscar água ao rio para encher os bidões de 200 litros que levamos. Diariamente saíamos de jeep do quartel pelas 8 horas. Ao meio dia o jeep ia-nos buscar para o almoço e depois do almoço lá voltávamos para a obra e às cinco horas o jeep tornava a ir buscar-nos. A escola tinha o formato rectangular e, se bem me lembro, teria aí uns 20 metros de comprimento por 12 de largura, duas janelas de cada lado e uma porta larga na entrada. Tudo correu sempre sem problemas, à excepção de um dia em que o pessoal não apareceu para encher os bidões de água e tive que chamar o soba para lhe pedir que arranjasse pessoal para ir ao rio buscar água para a obra não parar. Lá conseguiu arranjar alguns homens, trazidos pelo sipaio, mas foram mais as mulheres que ajudaram a ir buscar água ao rio. A obra lá se foi erguendo, ainda que por dois meses (um de cada vez intercalados) estivesse parada, dado termos ido para o Dala em operações militares. Durante o tempo que permanecemos no dia a dia na aldeia, fomos sempre bem tratados e era usual transportarmos de boleia as pessoas que se apresentavam pelas cinco horas, aquando do nosso regresso ao quartel e, nomeadamente quando traziamos a GMC (camião), havia alturas em que este ficava superlotado. Tenho vários episódios que, durante o tempo que demorou a construção da escola, me ficaram na memória, mas este que vou passar a referir foi, de todos, para mim, o mais marcante. Estava eu sentado à sombra de um embondeiro, numa cadeira de ripas verdes que o soba todos os dias lá colocava, quando se dirigiu a mim com um rádio na mão, um homem muito alto e já com alguma idade. Como não falava português, não o entendi e, após ter chamado alguém que traduzisse o dialecto da etnia quioco, fiquei a saber que ele me pedia para consertar o rádio, dado que o mesmo tinha deixado de funcionar. Tratava-se de um rádio a pilhas, grande e com uma pega na parte superior. Eu não percebia nada de rádios, mas como estava a dirigir a obra que, tijolo a tijolo, ia avançando, disse-lhe que deixasse o rádio que eu ia ver se o conseguia compor. Com um canivete, que sempre me acompanhou e que ainda hoje tenho guardado, pus-me a desapertar os parafusos e lá consegui abrir o rádio. Verifiquei que havia um fio que se tinha dessoldado, encostei-o no sitio devido, liguei o rádio e este começou a tocar. Fechei novamente o rádio e mandei chamar o sipaio para transmitir ao homem alto e velho que ia levar o rádio para o quartel e que no dia seguinte o traria a funcionar. No quartel pedi na oficina auto que me soldassem o fio que estava solto. No dia seguinte, quando chegamos ao aldeamento, lá estava o homem alto e velho à espera junto á palhota do soba. Eu, maldosamente, tinha escondido o rádio debaixo do banco da frente do jeep e, quando saí sem o rádio, observei que o homem estava com uma cara de grande decepção. Dei a volta ao jeep, tirei o rádio debaixo do assento e, junto dele, liguei-o e de imediato começou a tocar. Vi logo no rosto do homem uma grande satisfação. Entreguei-lhe o rádio e ele, sempre muito sorridente e agradecido, puxou do bolso uma nota toda embrulhada de cem escudos de Angola e estendeu a mão para ma dar. Ralhei-lhe e mandei transmitir-lhe pelo sipaio que a reparação não custara nada e que ele guardasse o dinheiro, o que fez com alguma relutância. Voltou a agradecer-me, bateu palmas e lá desapareceu com o rádio a tocar. Durante bastante tempo deixei de ver o homem alto e velho até que um dia, ao chegar à sanzala pelas nove horas, vi que junto ao embondeiro estava no chão um cabrito com as quatro patas amarradas, mas não dei grande atenção à situação. Passados alguns minutos aparece-me o homem alto e velho e, no seu dialecto e com alguns gestos, deu-me a entender que o cabrito era para me oferecer. Mandei chamar o sipaio para ele melhor traduzir o que eu adivinhava entender e este confirmou que ele fazia muito gosto em me oferecer o cabrito. Eu não estava lá muito pelos ajustes e perguntei ao sipaio se ele tinha cabritos e este respondeu-me que não, que o homem alto e velho era muito pobre. Então pedi-lhe para ele perguntar ao velho aonde ele tinha arranjado o cabrito. Após o sipaio lhe ter efectuado a pergunta, este respondeu-me que ele tinha ido comprar o cabrito a uma sanzala que se situava a mais de 100 Kms do local em que estávamos. Fiquei ainda mais perplexo e respondi que lamentava muito mas não podia aceitar o cabrito. Após diálogo entre o sipaio e o homem velho, o sipaio transmitiu-me que a ser assim, ele, homem velho, ficaria muito triste. Então eu respondi-lhe que até ao meio dia, quando nos viessem buscar de jeep, eu tomava uma decisão final. O jeep chegou perto do meio dia e o homem alto e velho esteve durante toda a manhã a aguardar pela sua vinda junto ao cabrito. Eu solicitei então a um soldado que colocasse o cabrito no jeep e dirigi-me ao homem alto e velho e disse-lhe, obrigado. O homem alto e velho de imediato começou a bater palmas de contentamento e mal o jeep arrancou, percorreu alguns metros atrás do mesmo a bater palmas e com um sorriso de contentamento que ainda hoje guardo na memória e que eu gravei como o maior acto de gratidão que registei em toda a minha vida. Nota : O cabrito foi bem recebido no quartel e deu lugar a uma caldeirada que acabou muito bem regada. "A gratidão é o único tesouro dos humildes." (William Shakespeare) |
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Acácio Magro
Discuro de El-Comandante
Acácio Alberto Lamares Magro
ex-Comandante da Companhia "Os Magros do capim"
Discurso proferido por "El Comandante" no início das obras do Quartel de Aníbal Cunha
ex-Comandante da Companhia "Os Magros do capim"
Discurso proferido por "El Comandante" no início das obras do Quartel de Aníbal Cunha
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Decorria o ano de 1971 (mais coisa, menos coisa). Talvez início do ano de 72. O Quartel de Aníbal Cunha estava reduzido a 2 elementos - O Comandante (Acácio Magro) e um raquítico mancebo de 53 Kg de peso a quem chegaram a dar, por analogia, o cognome de isca de fígado. A restante prole, que desde a década de 30 do século passado tinha vindo a ser produzida quase de modo contínuo, foi sendo chamada a cumprir o mais alto dever pátrio, que era o de defender o Portugal multi-racial de aquém e além-mar. Nessa altura, encontravam-se a cumprir serviço militar nas antigas Províncias Ultramarinas os seguintes elementos: Guiné - Fernando (parte II) e Álvaro; Moçambique - Dálio; Angola - Carlos Entretanto, o Rogério tinha terminado a sua comissão em Angola, mas não regressou àquele Quartel. As manas Olga e Etelvina tinham abandonado o Quartel ainda antes da guerra se ter iniciado. A mana Valdívia, embora tendo visitado o Quartel algumas vezes, julgo nunca lá ter pernoitado o que, em boa verdade, terá sido uma opção inteligente atendendo à superlotação da "caserna". O "isca de fígado" estava na calha e pretendia fazer algum exercício físico no intuito de adquirir a robustez suficiente que lhe permitisse aguentar umas botas com cerca de meio quilo cada. Foi então que El Comandante teve a ideia de efectuar alguns trabalhos de "embelezamento" do Quartel, talvez na secreta esperança de um dia ali receber Sua Excelência o Sr. Presidente do Concelho - Prof. Marcello Caetano, portador que fosse de uma qualquer medalha por tão valoroso contributo para o esforço de guerra. El Comandante entendia que, com a sua superior orientação, alicerçada nos vastos ensinamentos obtidos na Escola Politécnica do Porto (Construção Civil e Química) e na Escola do Magistério Primário, poderia levar de vencida aquela batalha à frente de uma companhia composta de, apenas, um elemento. Parecendo-me pouco provável que tal intento seria coroado de êxito, propuz que se recorresse à assessoria de um oficial superior perito no manejo de equipamento. Concordou e, assim, recorremos ao Albino Seixas Ferreira (vulgo, "bigodes" - foto ao lado), trolha e meu amigo de infância que morava ali na Trav. da Carvalhosa. Uma bela noite, quando nos preparava-mos para dar início aos trabalhos, surge-nos El Comandante, em pijama, com os óculos na ponta do nariz, com um papel na mão e, posicionando-se atrás de uma tábua de passar a ferro que ali se encontrava aberta a servir de apoio aos técnicos, começou a proferir, de improviso e em tom de orador político da época, um discurso de início dos trabalhos. Atendendo à distância temporal que nos separa dos factos, é-me impossível reproduzir fielmente a totalidade daquele discurso, pelo que me limitarei a algumas frases que retive, mas que são demonstrativas do elevado sentido de humor do nosso saudoso Comandante. Discurso de "El Comandante " "É com imenso orgulho e com a voz embargada pela emoção que vejo, finalmente, dar-se início às tão adiadas obras de remodelação, pintura e, quiçá, de embelezamento do 3º andar do número 21 da Rua Aníbal Cunha, local de grandes tradições monárquicas! (Nesta altura, o "bigodes" em cima da escada e de trincha na mão, ria já que nem um perdido o que fazia com que a escada abanasse e via-se em dificuldades para segurar a lata de tinta) O discurso foi continuando no mesmo tom e, sempre com pinceladas humorísticas, lá foi debitando algumas frases alusivas às obras que se iriam iniciar, até que, apercebendo-se da iminência da queda da lata de tinta e já não conseguindo conter o riso, resolveu terminar o discurso da seguinte forma: "Dou, assim, por iniciados os trabalhos. Rapazes, agarrem-se ao pincel!" Claro que, nesta altura, o "bigodes", desfeito em risos, se desiliquibrou completamente e eu, tentanto ajudá-lo e salvar a lata de tinta, levei uma valente pincelada na "tromba" e El Comandante, rindo até às lágrimas, bateu em retirada, abandonando as suas tropas. (Abílio Magro) |
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Abílio Magro
O Meu 25 de Abril
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No dia 25 de Abril de 1974, logo pela manhã, com uma molhada de documentos debaixo do braço, dirigi-me como de costume, à repartição que possuía o selo branco do CTIG (1ª, 2ª ???) a fim de o apor, nas assinaturas do Brig. Alberto da Silva Banazol, Comandante do CTIG. Esta repartição era chefiada por um Major do SGE, já de meia idade e de quem já não me recordo o nome. Eram talvez 9h30 da manhã, estava eu muito entretido a "trincar" o Banazol com o selo branco e entra o Capitão Cirne (julgo que Miliciano) e, virando-se para o Major, de braços abertos e punhos cerrados "grita", mais ou menos em surdina: - "vive la revolution, vive la revolution!" e continua: "o Marcelo refugiou-se no Quartel da GNR, no Carmo e está cercado pela tropa!". Claro que orientei logo as "antenas" para o Capitão Cirne e aguardei o desenvolvimento da conversa, mas este deitou-me um olhar que transparecia alguma felicidade, mas algum receio também, e diz: -"Furriel ...!" como quem diz: "Tem lá calma pá e vê lá o que vais para aí espalhar!". A conversa pareceu-me ter alguma consistência e como, umas semanas antes, tinha havido aquele episódio da coluna das Caldas da Rainha que avançara sobre Lisboa, fiquei intrigado e, na CSJD tratei de contar aos meus camaradas o que tinha ouvido e aguardar algum "feed back". Nessa altura já o tal 1º Sargento, a quem o Major Lobão chamava de "gebo", tinha terminado a comissão e tinha sido substituído por um 1º Sargento que usava sempre chapéu de pala. Em 18 meses de Guiné, julgo nunca ter visto nenhum militar do Exército usar chapéu de pala. O homem tinha mesmo queda para polícia e, tendo ouvido o meu relato, tratou logo de dizer: - "Tenha cuidado com o que anda para aí a dizer, que ainda pode ter chatices...". Claro que eu traduzi para: "Põe-te a pau que eu conheço uns gajos na Pide e não tarda nada vais até Guiledje tomar conta daquilo sozinho!" Enfiei a viola no saco. Entretanto o «PIFAS» (Programa de Informação das Forças Armadas - julgo que era assim) dedicava-se à música sinfónica, o que fazia pensar que efectivamente havia qualquer coisa no ar, embora ainda se tivesse ouvido, nesse dia, um discurso qualquer do Ministro dos Negócios Estrageiros - Dr. Rui Patrício. Mas, pasmem-se, também se ouviu, aqui e ali, alguma música do Zeca Afonso! Das mais suavezinhas, é certo, mas - alto lá, que aqui há coisa! Aguardava-mos com alguma ansiedade pela hora do almoço, altura em que o «PIFAS» transmitia um serviço noticioso mais elaborado. Na messe de Sargentos havia uma aparelhagem de som com várias colunas espalhadas pelo recinto - Bar, Esplanada e Sala de Jantar. Na sala de jantar as mesas eram para 4 pessoas e, embora não houvesse lugares marcados, os "habitués da casa" sentavam-se sempre nos mesmos lugares. Numa mesa à minha direita, com outra de permeio, sentavam-se quatro camaradas sui generis, já que dois deles eram completamente fanáticos pelos seus clubes (um do Belenenses e outro do Sporting) discutindo constante e acaloradamente sobre futebol e, os outros dois, aguentavam impávidos e serenos. O fanatismo era de tal ordem que, tanto um como outro, chegavam ao ponto de relatar com algum pormenor a vida dos futebolistas do seus clubes (onde e quando nasceram, onde moravam, que clubes representaram e em que ano, etc., etc.) numa demonstração de grande cultura futebolística. Pois naquele dia 25 de Abril de 1974, à hora do almoço, quando toda a gente, em silêncio, aguardava com alguma ansiedade novas de Lisboa sobre o que por lá estaria a passar-se na realidade, estavam aqueles dois "fabianos" em acesa discusão acerca, provavelmente, da cor das cuecas que determinado jogador usou no jogo tal, marimbando-se completamente para o que se estava a passar na Capital do Império! Nesse dia foram-se adensando as suspeitas de que algo de importante se estaria a passar em Lisboa. Aos poucos as notícias foram chegando, mas nada de oficial. Eram transmitidas de boca em boca e, nessa situação, não havia que fiar e continuava-se a combater no mato. O Brigadeiro Alberto da Silva Banazol, estaria a banhos na Ilha de Bubaque, mas tardava em aparecer. O General Bettencourt Rodrigues nada dizia. Começa a "boatice". Que houve um golpe de Estado liderado pelo Gen. Spínola..., que o Gen. Bettencourt estava contra..., que íamos ficar sem reabastecimentos de Lisboa..., etc., etc.. Baixou a qualidade da alimentação... Faz-se um levantamento de rancho... Fazem-se reuniões por tudo e por nada... A confusão é mais que muita... O Brig. Banazol desaparece... O QG/CCFAG - Amura é cercado e o Gen. Bttencourt preso. Em Bissau os estabelecimentos são pilhados... É reforçado o pratulhamento nas ruas... A sede da Pide em Bissau corre perigo ... Sou escalado para Sargento de piquete e, à noite, põem-me uma HK-21 nas mãos e o respectivo pente de balas... Não sei o que hei-de fazer com aquilo... Mandam-me com mais 6 homens fazer segurança à Pide/DGS... Eu sou Amanuense, mas ninguém quer saber... Eu também já não quero saber... Só quero que ninguém me chateie... E lá vou eu! Coloco a fita de balas ao pescoço e cruzo-o no peito, qual Pancho Villa liofilizado (podem verificar as semelhanças na foto ao lado, colocando o ponteiro do rato em cima da imagem). Seguimos de Unimog em direcção ao objectivo - Sede da PIDE/DGS, em Bissau. Lá chegados, havia que montar o dispositivo de segurança... Começam os problemas... Nas Caldas da Rainha tinha tido uma formação em HK-21 de cerca de ... 10 minutos e recordava-me bem de como colocar a arma com o tripé no chão, mas como se metia o pente, aí é que já era pior..., tinha-se-me varrido completamente. Um homem nunca se atrapalha: - "Há aqui algum atirador?" - "Eu sou!", responde alguém. - "Então monta lá isso e anda para aqui!" O equipamento estava montado no meio da ruela que passava por detrás da DGS. Havia agora que colocar estratégicamente o pessoal, e assim fiz: - "Sentem-se aí nesse canto e façam pouco barulho" (estratégia para não espantar a caça). Entretanto, como já me estava a dar o sono por ouvir ressonar, levantei-me e fui andar um pouco para perto da HK, não fosse alguém a "gamar", e vi uma caixa de papelão que me deu uma ideia genial! A HK ali sozinha, montada no chão, não fazia muito sentido. Era conveniente pôr lá um homem a apontar para qualquer lado (o factor psicológico é muito importante nestas ocasiões). Como a arma me tinha sido entregue a mim, parecia-me óbvio que o homem seria eu. Mas eu sou pacifista e, além disso, tinha de me deitar no chão e ia sujar-me todo naquela terra barrenta. Desfiz a caixa de papelão e fiz uma espécie de tapete que coloquei atrás da HK. Chamei o atirador e disse-lhe para se deitar que a cama já estava feita. E ali estava, em todo o seu esplendor, uma segurança com preocupações estéticas, de higiene e de conforto. E foi neste quadro burlesco que a força que nos veio render nos encontrou, às 4 horas da madrugada, não se tendo registado qualquer incidente. |
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Álvaro Magro
Perdido no Mato
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Em Fevereiro de 1972, quando se encontrava ao serviço da CART 3493 em Mansambo, participou numa operação militar que durou um dia e duas noites e onde, a dada altura, no meio do mato, o Alferes Comandante do deu pelotão, deu ordem para que o poessoal descansasse um pouco. Cansado e não tendo dormido na noite anterior, acabou por adormecer protegido pela vegetação. Quardo acordou, viu-se completamente só, no meio do mato, numa região que sabia ser frequentada por "terroristas". Num "bate estradas" (aerograma) que enviou para o irmão Fernando em Bissau, relatou assim a "odisseia": "Não imaginas o meu estado de espírito ao ver-me só e perdido dentro daquela mata densa. Andei cerca de uma hora perdido, cheio de medo. Cheguei a pensar que seria apanhado pelos terroristas e que nunca mais voltaria a ver a família. Procurei encobrir-me com a vegetação, mas se porventura tinha de atravessar uma clareira, fazia-o rastejando. Por fim encontrei um trilho por onde segui algum tempo, encharcado em suor. Finalmente vi, ao longe, um pequeno grupo de militares. Aproximei-me deles correndo o mais que pude e quando me pareceu que a minha voz poderia por eles ser ouvida, gritei com quanta força tinha. Era tropa da minha Companhia, embora não fosse do meu pelotão. Contei o que havia acontecido, quase sem poder falar, por estar muito cansado. Não tive nenhuma culpa do sucedido." |
Fernando Magro
A Invasão de Conacry
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No dia 23 de Novembro de 1970, Bissau ficou completamente às escuras. Não havia energia eléctrica em parte alguma. Toda a gente ficou a pensar que o gerador tinha avariado. Naquelas paragens, dadas as altas temperaturas que por lá se registam durante todo o ano, a energia eléctrica torna-se essencial para a maneira de viver a que os europeus estão habituados. Sem energia o ar condicionado deixa de se fazer sentir, as ventoinhas deixam de funcionar e os frigoríficos deixam de conservar os alimentos e de refrescar as bebidas… No dia seguinte a conversa de todos os europeus e porventura de muitos africanos era a falta de energia que se havia sentido durante a noite. Que teria acontecido? Começa a espalhar-se, muito em segredo, a notícia de que Bissau ficou às escuras na noite de 23 para 24 de Novembro e iria continuar sem qualquer iluminação nas noites seguintes porque se temia que os aviões MIG da República da Guiné-Conacry atacassem a cidade. E depois começou a circular a notícia de que essa acção poderia vir a dar-se por retaliação, porquanto Conacry tinha sido atacada pelos portugueses na noite de 22 para 23 desse mesmo Novembro de 1970. As notícias desse acto de guerra eram porém muito vagas e quando se falava nisso era muito em surdina, quase em segredo. Resolvi saber o que se passou em concreto e sintonizei o meu rádio na frequência da Rádio Conacry. Comecei a ouvir notícias em francês que me desconcertaram, deixando-me boquiaberto com o que estava a ser divulgado nessa rádio. E a data altura foi anunciado que o Tenente Januário dos Comandos Africanos, que eu conhecia bem, e que havia sido aprisionado em Conacry, iria relatar tudo quanto se passou. Gravei o testemunho do Tenente Januário e o seu relato explosivo que reproduzirei mais à frente. E comecei a tirar conclusões. A pouco e pouco, ao longo do tempo, compus um "puzzle" que julgo não andar longe do que verdadeiramente aconteceu. A Guiné Conacry e o seu Presidente Sekou Touré, davam um total apoio ao PAIGC de Amílcar Cabral, movimento subversivo que combatia os portugueses. Em Conacry estava instalado o Quartel-general Central do PAIGC e as suas bases na República da Guiné. Por outro lado a oposição interna ao Presidente Sekou Touré estava continuamente aumentando e até já havia colaboração de guineenses de Conacry com os Comandos Africanos Portugueses. Segundo Mário Matos Lemos, talvez tivesse partido dessa oposição a ideia da invasão da Guiné-Conacry. Com efeito, Gago de Medeiros, no seu livro "Um Açoreano no Mundo", afirma que um representante da Frente de Libertação Nacional (Front National de Liberation) da República da Guiné o procurou em Genebra, em Setembro de 1967, pedindo-lhe que o pusesse em contacto com o Governo Português, o que terá acontecido. Há quem atribua, contudo, a ideia da invasão ao Comandante Alpoim Calvão, apoiado pelo General Spínola. Seja como for, a ideia seria invadir Conacry e colocar um Governo na República da Guiné discretamente favorável à política colonial portuguesa. "A esse governo nada mais se lhe exigiria que a interdição das actividades do PAIGC em território da República da Guiné. A PIDE e outros serviços secretos da Europa (franceses e alemães) mais a CIA, estabeleceram contactos. Tratava-se de saber se diversos países seriam ou não favoráveis a um golpe de estado que depusesse Sekou Touré. Spínola avista-se com Marcelo Caetano a quem expõe a ideia, solicitando-lhe o seu acordo. Ao que parece Caetano não ofereceu grande resistência. pondo, no entanto, o seu governo fora do assunto. O Governo Português não teria conhecimento de nada do que se viesse a passar. Reserva-se, porém, o direito de vetar o governo fantoche que seria imposto à Guiné-Conacry se dele discordasse."(*) O receio de se poderem verificar nacionalizações por parte do governo de Sekou Touré levaram multinacionais e serviços secretos a concordarem com a invasão. Por outro lado, o porto de Bissau e as Ilhas de Cabo Verde são considerados pelo Estado-Maior da Nato como bases estratégicas essenciais. Iniciam-se, então, os contactos para formação do governo fantoche a cargo da PIDE. São estabelecidas ligações com vários indivíduos dissidentes do regime de Sekou Touré e com refugiados políticos não só na Europa como em alguns países limítrofes da Guiné-Conacry. Realizam-se várias reuniões na Europa. Alpoim Cakvão desloca-se à Suíça a fim de participar numa dessas reuniões. A ela compareceu também Jean Marie Doré, primeiro e principal candidato a Presidente após o golpe de estado. Doré esteve quase a ser aceite para o cargo, no entanto viria a ser posto de lado em virtude da sua conduta moral (...). É então designado para Presidente o Coronel Diallou (ex-sargento do exército francês) pois oferecia maiores garantias que o anterior. Escolhido o novo gorverno havia que arranjar os executores do golpe de estado. Paralelamente às negociações com os políticos, os serviços secretos estabeleceram contactos com mercenários e refugiados da Guiné-Conacry que se encontravam em países fronteiriços. Duas camadas de refugiados foram recrutadas: os dissidentes por motivos ideológicos e políticos e os que apenas tinham motivos raciais. Uma vez contactado um número bastante elevado de indivíduos, navios de guerra portugueses foram às águas territoriais de vários países vizinhos, nomeadamente à Gâmbia e Serra Leoa, durante a noite, buscar grupos de indivíduos recrutados pelos contactos locais da PIDE, dispostos a participar no golpe. Uma vez recolhidos pelos navios da Armada Portuguesa foram transportados para a ilha de Soga no arquipélago de Bijagós, onde seriam treinados por um grupo de oficiais portugueses, à frente dos quais estava o Comandante Rebordão de Brito."(*) Anteriormente, com vários meses de antecedência, haviam sido construídas instalações para albergar este pessoal. Esta ilha de Soga foi escolhida por se ter considerado ser um lugar bastante discreto onde se podia realizar o treino do pessoal sem dar nas vistas. Na ilha de Soga vieram juntar-se aos mercenários e dissidentes de Sekou Touré, num total de 200 homens, mais 220 militares do Exército e Marinha Portugueses. "A invasão de Conacry veio a receber o nome de código de «Operação Mar Verde». Esta operação foi planeada com mais de um ano de antecdedência e para ela contribuiram investimentos estrangeiros. O ojectivo político da operação era a substituição do regime de Sekou Touré por um regime não favorável ao PAIGC e simultâneamente favorável às multinacionais e aos interesses estrangeiros na Guiné Conacry."(*) E favorável aos interesses de Portugal com interdição das actividades do PAIGC. Os objectivos militares da operação eram os seguintes, de acordo com uma entrevista dada ao Diário de Notícias, em 22 de Novembro de 2000, por Alpoim Calvão: Em primeiro lugar destruir o Quartel-General Central do PAIGC. Não se tratava de eliminar os seus dirigentes, mas aprisioná-los se possível. Em segundo lugar libertar os prisioneiros portugueses que se encontravam em Conacry. Em terceiro lugar destruir as vedetas e embarcações do PAIGC e da República da Guiné que estivessem no Porto de Conacry. O quarto objectivo militar era a neutralização da aviação que se encontrasse no aeroporto. Finalmente, o quinto e último objectivo da Operação Mar Verde era proporcionar o desembarque em Conacry dos elementos do "Front National de Liberation", opositores de Sekou Touré, que acompanhavam os portugueses na referida operação. Durante a tarde do dia 20 de Novembro de 1970, o General António de Spínola, acompanhado do Comandante Alpoim Calvão, Capitão Almeida Bruno e Luciano Bastos, na altura Comandante Naval da Guiné, dirige-se à ilha de Soga, onde a bordo de um dos navios faz uma exortação aos Comandos Africanos, com viata à acção que iriam empreender. Esta exortação, em português, é traduzida para crioulo pelo capitão de raça negra João Bacar Jaló (que eu conheci também). Após o jantar, no mesmo dia 20, os navios Oriane (barco patrulha), Cassiopeia (barco patrulha), Dragão (barco patrulha), Bombordo (barcaça de desembarque) e Montante (barcaça de desembarque)(**) zarpam para o largo de onde tomariam o rumo de Conacry. A bordo de um dos navios Alpoim Calvão comandaria todas as operações. Embarcaram também nesse navio o Tenente Januário, Zacarias Saiegue e Marcelino da Mata, todos de raça negra. Noutros navios seguem, além da Companhia de Comandos Africanos (com o Major Leal de Almeida e o Capitão Bacar), um destacamento de fuzileiros especiais também africanos, o governo do Coronel Diallou e os grupos de combate compostos por dissidentes e refugiados do regime de Sekou Touré, bem como uma força de mercenários. Durante todo o tempo que durou a operação, Alpoim Calvão teria estado em contacto rádio com o General Spínola. À uma hora e trinta minutos de 22 de Novembro de 1970 Spínola terá enviado para Lisboa uma mensagem rádio dando por iniciada a Operação Mar Verde. A essa hora desembarcaram em Conacry a Companhia de Comandos Africanos, o Destacamento de Fuzileiros Especiais e o Grupo de dissidentes e mercenários. "Os 220 militares do Exército Português e da Marinha e os cerca de 200 militares do Front National de libération, chegaram nessa noite a ter o controlo quase completo da capital da República da Guiné. Destruiram as vedetas rápidas da Marinha Guineense e do PAIGC, assegurando o domínio do mar. Atingiram a central eléctrica, deixando a cidade às escuras, ganhando maior efeito de surpresa. Tomaram a prisão «La Montaigne», libertando 26 militares portugueses lá detidos. Destruiram cinco edifícios do PAIGC, eliminando sentinelas e militares que estavam nas imediações, mas Amílcar Cabral não foi encontrado. Na ânsia de encontrar o Presidente Sekou Touré e de o eliminar, revistaram o Palácio Presidencial, abandonado pela guarda, aterrorizada com o ataque e tomaram a residência secundária do Presidente, mas Touré não estava em nenhum dos locais. Ocuparam ainda o Quartel da Guarda Republicana e o Campo Militar Samory, destruindo viaturas e originando centenas de baixas... Penetraram na base militar, mas os caças MIG tinham sido enviados para outro local. Obtido o quase total domínio em terra, as forças portuguesas e da oposição guineense não conseguiram o domínio do ar" (***) Mas houve outros acontecimentos que correram francamente mal. Uma vez em terra, o Tenente Januário com o seu grupo de 20 homens, que tinha por objectivo a destruição dos MIG, deserta. Por seu lado, Zacarias Saiegue e o seu grupo não conseguiram tomar a estação de rádio, de onde devia ser feita uma exortação ao país pelo Coronel Diallou e a proclamação da destituição de Sekou Touré. "Alpoim Calvão ao tomar conhecimento do falhanço da não tomada da estação de rádio e sabedor que os MIG não estavam no aeroporto, ordena a retirada levando os militares portugueses libertados. O Coronel Diallou, Presidente indigitado para a República da Guiné retira, também, abandonando os seus homens à sua sorte. Às 9 horas e 15 minutos de 22 de Novembro de 1970 o Presidente Sekou Touré faz na rádio uma comunicação em que afirma que a situação se encontra normalizada e diz estarem ainda à vista os navios do invasor colonialista, o que era factualmente verdade." (*) (*) - Jornal Expresso de 3 de Janeiro de 1976 (**) - Meios navais utilizados na operação Mar Verde: LFG-Cassiopeia, LFG-Dragão, LFG-Hidra, LFG-Orion, LDG-Bombarda e LDG-Montante (LFG=Lancha de Fiscalização Grande, LDG=Lancha de Desembarque Grande). www.forumarmada.no.sapo.pt (***) - José Manuel Barroso. Diário de Notícias de 22 de Novembro de 2000. |
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Rogério Magro
Batatas cozidas, ou puré, com bacalhau?!
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As atribulações do responsável improvisado pelo rancho, continuaram. Imediatamente após o episódio dos frangos com o irmão António da missão católica, o nosso Furriel vaguemestre em exercício muito precário (a arrecadação dos géneros era uma GMC com capota) que tinha de ter guarda, caso contrário lá iam os chouriços e tudo o resto. Face ao fracasso da "operação frangos", comecei a magicar a maneira de arranjar uma refeição melhorada e, após muito matutar, resolvi ir à procura pelas sanzalas (correndo alguns riscos) tentando comprar pelo menos dois cabritos. Ao fim de muito esforço, de alguns Kms e de algum perigo, lá consegui arranjar dois cabritos e ordenei ao cozinheiro que no dia seguinte fizesse uma caldeirada de cabrito. Foi um esforço notável, mas o contentamento do pessoal e os elogios do Capitão compensaram o esforço. Numa ida à cidade de Henrique Carvalho (Saurimo) consegui no quartel do Batalhão arranjar algum bacalhau, o que me deu a possibilidade de ir melhorando a ementa. Foi o bacalhau posto de molho (com sentinela a guardá-lo) e dei instruções para que fosse cozinhado o famoso prato de batatas cozidas com bacalhau. Tudo a correr "nos conformes", o tempo foi passando e constatei que o rancho estava um pouco atrasado nesse dia. O Capitão mandou-me chamar e interpelou-me: - "Ouça lá, hoje não se come?!" Eu respondi: - "Está um pouco atrasado mas já vai sair." Dirijo-me para o local da cozinha improvisada e dou com o cozinheiro, também ele improvisado, Mata de seu nome, e encontro-o numa discussão muito acesa com o seu camarada Cesário a pontos de quase chegarem a "vias de facto". Acabo com a discussão e junto do Mata berrei-lhe e disse-lhe: - "Ó pá, acaba com essa merda, o Capitão já me chamou a atenção! O rancho já está com um atraso de meia hora!" (o pessoal já fazia fila no local habitual onde eram servidas as refeições quentes). "As batatas já estão cozidas", respondeu o Mata, "vou coar a água já". O Mata estava muito nervoso e ao coar a água do panelão das batatas, grande parte delas foram parar ao chão juntamente com a água. "Bonito serviço, só me faltava esta, as batatas no chão cheias de terra! E agora meu cara de car#@§€!, meu grande sacana como vamos sair desta?!" gritava eu. O Mata diz-me: - "Eu vou já cozer mais batatas!" "Tu vais o quê?! Traz-me já essa merda do panelão ali para dentro da arrecadação!" O Mata assim fez. "Onde tens a colher de pau?! Vai buscá-la já!" Trouxe a colher de pau e eu ordenei-lhe: - "Pega nessa merda e esmaga-me as batatas, esmaga mais..., mais..., mais!" "Já chega" - disse, por fim. O Mata olhava para mim sem perceber nada. "Leva agora o panelão para a cozinha, Ok?! Agora vai buscar o prato para levar a comida a provar ao Capitão" (Antes de servir o rancho é necessário que este seja autorizado pelo oficial de serviço). Ele lá levou o prato de batatas com bacalhau cozido e regado com azeite. Tal como eu já estava à espera, o Capitão mandou-me chamar. Mal eu chego junto dele, dirige-se-me em voz alta: - "Ouça lá, a ementa é batatas com bacalhau, ou puré com bacalhau?" Eu respondi-lhe com toda a serenidade: - "Meu Capitão, as batatas foram fornecidas pelos serviços de Intendência do quartel em Henrique de Carvalho, não tenho culpa alguma da sua qualidade. Estou de acordo que estas batatas eram boas para a sopa ou para puré, mas não tenho culpa alguma da sua qualidade e é o que há, na cozedura esfarelaram todas". - "Mande lá servir o rancho que já são horas" - respondeu o Capitão. Finda a refeição constatei que ainda sobraram batatas no panelão. Moral da estória; com serenidade e imaginação, os grandes problemas acabam sempre por se resolver ainda que muitas das vezes nos deixem à beira de um ataque de nervos, como foi o caso. Quanto ao Mata, sempre que nos encontramos nos almoços anuais da tropa leva sempre com este episódio e atira as culpas para o seu camarada Cesário que o desorientou naquela altura, o que me ia arranjando um sarilho dos diabos, pois se havia pessoal à espera do rancho, era nesse dia. Batatas cozidas com bacalhau, no mato, era um luxo e, mesmo sendo quase puré, também marchou, ai não que não marchou! |
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