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domingo, 20 de dezembro de 2015

Fernando Magro
A Mobilização


Em Setembro de 1969 sou mobilizado, sendo integrado num Batalhão que estava a ser formado em Chaves com destino à Guiné.

O Comandante de uma das Companhias, Capitão Pardal (do quadro permanente) baixou ao Hospital Militar e eu fui designado para o substituir. Munido das análises e do relatório médico dirigi-me a Chaves, onde cheguei ao fim de um determinado dia.

Na manhã seguinte apresentei-me ao Comandante de Batalhão e referi-lhe o que tinha acontecido comigo, relatando-lhe a cólica renal de que teria sido acometido e mostrando-lhe os documentos que me acompanhavam.

- Já tomou o pequeno almoço? - perguntou-me o Comandante.

- Não, ainda não, respondi-lhe.

- Então venha daí comigo e enquanto o tomamos juntos vamos conversando.

Nessa conversa que tivemos fiz-lhe ver que para o Batalhão que comandava não era aconselhável ter um Comandante de Companhia (um capitão) fisicamente diminuído e que me parecia dever procurar-se, em primeiro lugar, o meu restabelecimento completo antes de iniciar funções.

Concordou comigo e mandou chamar o médico para me observar. Dessa inspecção médica resultou que, nesse mesmo dia, fui mandado para o Hospital Militar do Porto.

Aí apresentei as minhas queixas no que respeitava à parte renal mas também fiz questão em referir que fazia a digestão dos alimentos com dificuldade e tinha permanentemente azia.

Fui por isso sujeito a diversas análises à urina e ao sangue.

Quando os resultados foram conhecidos pelo médico este chamou-me ao seu consultório e fez-me algumas perguntas:

- O Senhor Capitão consome bebidas alcoólicas com frequência?

- Não. Raramente bebo vinho e quando o faço é com muita moderação. Quando muito bebo um copo a certas refeições.

- Nunca teve hepatite?

- Não, que eu saiba não.

- Olhe Senhor Capitão, para África o Senhor não vai, concerteza. Há aqui uma análise que nos dá valores muito altos: quatro cruzes.

- Quatro cruzes? Mas isso é um cemitério. Doutor, o que se passa? Estou a ficar intranquilo.

O médico acabou por me aconselhar calma e decidiu que, durante quinze dias, passaria a fazer uma rigorosa dieta e que, no final dessas duas semanas, voltaria a fazer novas análises.

Com este contratempo, em Chaves não puderam esperar mais por mim e fui substituído no Batalhão que estava para partir para a Guiné.

As novas análises apresentaram somente duas cruzes, o que já não foi considerado grave.

Quanto às minhas queixas na região lombar verificou-se que, além de pedras nos rins, eu tinha uma deficiência congénita: uma das vértebras finais da minha coluna vertebral não tinha ossificado completamente, pelo que, possivelmente, era essa anomalia a causadora da incomodidade que sentia quando estava algum tempo na posição de pé.

Defeito de fabrico. Nada que fizesse parte da lista de doenças que impedissem o cumprimento do serviço militar.

Tive, por isso, alta do Hospital, e apresentei-me na minha unidade de origem: o Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 3, em Paramos, Espinho. Unidade essa que, no caso de Portugal ser atacado, fazia parte da defesa antiaérea da cidade do Porto.

Parada actual do ex-GACA 3 – Paramos. Espinho

Nunca percebi porque pertencendo eu a uma arma de artilharia antiaéria teria de integrar uma Companhia de Infantaria.

Como já havia sido mobilizado para a Guiné, fiquei, por isso, hipotecado a essa província ultramarina, como acontecia então.

Passei a fazer parte de uma lista de rendição individual. Quando chegasse a minha vez renderia na Guiné um Capitão que, porventura, viesse a ser evacuado por doença ou ferimento. Nessa situação e com base numa disposição vigente na altura, ofereci-me para efectuar uma comissão civil no território da Guiné, solicitando, por isso, que a minha futura mobilização fosse suspensa.

O resultado dessa minha iniciativa foi o seguinte:

"Por despacho de S.Exª o Secretário de Estado do Exército foi indeferido o requerimento em que o Cap. Milº de Artª Fernando de Pinho Valente2 do G.A.C.A. 3 requer suspensão da mobilização para o C.T.I. (Comando Territorial Independente) da Guiné, até ser despachado o seu oferecimento para o mesmo C.T.I. em cumprimento de comissão civil.
Nos termos do mesmo despacho deverá ser o oficial informado que a sua passagem à comissão civil está a ser considerada."


Perante isto resolvi escrever uma carta pessoal ao General Spínola, Governador e Comandante-Chefe da Guiné.

Nessa carta referia que, não sendo militar profissional, tinha dúvidas acerca da minha futura actuação como Comandante de uma Companhia Operacional. Não estava em causa a minha colaboração no esforço que estava sendo levado a efeito na Guiné, mas pela formação que tinha e pelas boas provas que já havia prestado como técnico de engenharia, julgava eu que poderia dar muito melhor rendimento no desenvolvimento sócio-económico que sabia estar a verificar-se na Província do que propriamente no campo militar.

Uns dias antes de me chegar a mobilização para substituir o Capitão Milº Quintela que havia sido alvejado com um tiro num braço na região de Serpa Pinto, recebi uma carta do Secretário do General Spínola onde me era dito que o Senhor Governador e Comandante-Chefe tinha tomado em muito boa conta as palavras da minha carta e que, quando chegasse à Província, lhe pedisse audiência que ele me receberia.

Na altura fiquei optimista e lembro-me de dizer à Lena:
- Olha, suponho que a guerra da Guiné está ganha.

Ela queria que eu pedisse uma nova Junta Médica, mas resolvi esperar pela nova mobilização. Mobilização que passados dias chegou.


António Sebastião Ribeiro de Spínola
(Estremoz, 1910 - Lisboa, 1996)
Presidente da República (de 15 de Maio de a 30 de Setembro de 1974)
Retrato a óleo pelo pintor Jacinto Luís. Presidência da República Portuguesa.


Procurei lugar num dos táxis da praça de Viseu, que se dirigiam a Lisboa regularmente nessa altura. Acabei por arranjar lugar num deles.

Os meus companheiros de viagem deram-me o lugar da frente.

Despedi-me da Lena e do miúdo que ficaram lavados em lágrimas.

Pus uns óculos escuros e durante alguns quilómetros não falei. As lágrimas rolaram-me ininterruptamente pela cara.

Às 2 horas da manhã desse dia voava na TAP para a Guiné.

Cheguei a Bissau num voo da TAP, cerca das 7 horas da manhã do dia 10 de Abril de 1970 (sexta-feira).

Depois de me apresentar no Quartel-General procurei de saber onde se situava o Palácio do Governo e tentei imediatamente marcar uma entrevista com o General Spínola.

Quem me recebeu no Palácio foi o Capitão Almeida Bruno (hoje General). Mostrei-lhe a carta que tinha recebido do Secretário do Governador e pedi-lhe que me conseguisse um contacto com o General o mais rapidamente possível.

Na quarta-feira seguinte, dia 15 de Abril, fui recebido pelo General Spínola. Recebeu-me com muita afabilidade e disse-me que não estava de acordo com a nossa (minha e dos meus companheiros oficiais milicianos na disponibilidade) chamada para a guerra.

Disse-me que a minha qualidade de técnico de engenharia iria ser aproveitada e que seria integrado numa actividade civil embora como militar.

Que continuasse a aguardar no Quartel-General que em breve teria notícias.

Fui colocado nos Serviços de Reordenamentos Populacionais.

Inicialmente, e durante cerca de dois meses, trabalhei no Planeamento, no Comando-Chefe, na Amura. E depois chefiei os Serviços no Batalhão de Engenharia 447, em Brá.

Da sua actividade militar e civil na Guiné, dar-se-á conhecimento mais à frente.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Fernando Magro
A Agonia do Império

Fernando de Pinho Valente (Magro)
ex-Capitão Miliciano de Artilharia
BENG 447 - Bissau - Guiné - 1970/1972
Texto publicado por Fernando Magro no seu blog "Portugal e o Passado" http://portugalpassado.blogspot.pt/


O Império Colonial Português abrangia em 1960 uma superfície total de 2.031.935 Km2 correspondendo à soma das superfícies dos seguintes países europeus: Portugal Continental, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suíça, Alemanha e Inglaterra. Em área Portugal ocupava em 1960 o quarto lugar do mundo entre os impérios coloniais nessa altura.Os territórios que estavam sobre o domínio de Portugal eram, além do rectângulo europeu e das ilhas adjacentes da Madeira e dos Açores, o arquipélago de Cabo Verde, a Guiné, São Tomé e Príncipe, São João Baptista de Ajudá, Angola, Moçambique, Estado da Índia (composto por Gôa, Damão e Diu), Macau (na China) e Timor (na Indonésia).

A partir porém de 1960 este vasto Império começa a desmoronar-se, devido a movimentos armados dos respectivos povos.
A primeira perda foi a de São João Baptista de Ajudá, uma presença simbólica portuguesa na costa do Daomé, uma vez que era praticamente constituída por uma fortaleza e um pequeno território a envolvê-la.

A dezassete de Dezembro de 1961 a União Indiana ocupa militarmente o Estado Português da Índia e anexa Gôa, Damão e Diu ao seu território. Nesse mesmo ano, em Angola é iniciada uma guerra de guerrilhas contra a nossa permanência naquela área de África, guerra que se estende rapidamente em 1962 à Guiné e em 1963 a Moçambique.

Essa guerra, em três frentes, tornar-se-á longa obrigando a um grande esforço material e humano, com sacrifício de várias gerações de jovens soldados, enquadrados por sargentos e oficiais do quadro permanente e do quadro de complemento (milicianos).

No caso da minha família (Valente Magro) todos os meus cinco irmãos e eu próprio fomos chamados a prestar serviço militar obrigatório e todos fomos mobilizados: um para Moçambique, como alferes miliciano, dois para Angola sendo um deles no posto de furriel e o outro como cabo especialista da Força Aérea e três para a Guiné, sendo eu, o mais velho, como capitão miliciano, o mais novo como furriel e o imediatamente a seguir ao mais novo como primeiro-cabo auxiliar de enfermeiro.

No meu caso particular fui duas vezes incorporado obrigatoriamente na vida militar. Em 1959 iniciei o cumprimento da minha primeira obrigação militar na escola prática de artilharia em Vendas Novas como cadete tendo acabado como aspirante oficial miliciano no Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 3, em Paramos, Espinho. Somente regressei à vida civil em Fevereiro de 1960 como alferes miliciano, tendo sido promovido mais tarde a tenente miliciano na disponibilidade.

Estive nas fileiras do exército nessa primeira fase durante vinte meses. Depois disso entrei ao serviço do Ministério das Obras Públicas como engenheiro técnico, casei e nasceu o meu filho Fernando Manuel em 1961, precisamente no ano da invasão e anexação pelas tropas da União Indiana das possessões de Gôa, Damâo e Diu.

Também em 1961 teve início a guerra colonial de Angola, que se estendeu rapidamente à Guiné e a Moçambique como já referi anteriormente.

Na altura, em 1961, ainda receei ser mobilizado como alferes [tenente], mas tal não se verificou. Mas em 1968, passados sete anos, tive conhecimento que, por haver muita falta de comandantes de companhia (capitães) o governo estava incorporando os tenentes milicianos na disponibilidade a fim de frequentarem obrigatoriamente um curso de promoção a capitães, tendo em vista a sua mobilização, nesse posto, para as guerras coloniais em África.

O aviso para me apresentar em Mafra a fim de frequentar o referido curso de promoção a capitão chegou-me a vinte e oito de Fevereiro de 1969. Em Março desse mesmo ano fui pela segunda vez incorporado no exército e só passei à disponibilidade em trinta de Junho de 1972, isto é, passados quarenta messes. Como na minha primeira incorporação tinha estado vinte meses ao serviço do exército, com esta segunda incorporação perfiz sessenta meses, isto é cinco anos de vida militar obrigatória.

Vida militar que na segunda fase compreendeu uma comissão na Guiné de dez de Abril de 1970 a 30 de Junho de 1972. Essa comissão que inicialmente estava para a ser cumprida comandando uma companhia operacional no mato, acabou por ser levada a efeito no Batalhão de Engenharia 447, em Bissau por intervenção do Governador e Comandante Chefe da Guiné, General Spínola, que decidiu colocar-me no referido batalhão de engenharia aproveitando a minha formação civil.

Aí chefiei os Serviços de Reordenamentos Populacionais.Tratava-se de um serviço dirigido por militares que era essencialmente destinado às populações civis. Tinha em vista proceder ao agrupamento de diversas pequenas "tabancas"(*) com o fim de constituir aldeamentos médios onde fosse rentável dotá-los com algumas infraestruturas tais como escolas, postos sanitários, fontanários, tanques de lavar, cercados para o gado, mesquitas ou capelas.

Além disso tinha-se também em vista, com a execução dos reordenamentos, a defesa e o controle das populações.

A minha actividade não estava por isso circunscrita à cidade de Bissau. Tinha por vezes que me deslocar ao interior do território para resolver localmente problemas que surgiam durante as obras dos reordenamentos populacionais. Fiz, por isso, algumas viagens para o interior da Guiné em helicóptero ou em avião militar (Dornier). Essas viagens tinham alguns riscos devido aos independentistas, a certa altura, se terem apetrechado com mísseis terra-ar e devido aos tornados que por vezes se formavam e que eram perigosos principalmente para as pequenas aeronaves.

Durante a minha estadia na Guiné ocorreu um acidente justamente com um helicóptero que transportava cinco deputados da Assembleia Nacional e que um tornado fez despenhar no rio Mansoa tendo morrido todos os seus ocupantes.

Comigo as deslocações ao interior da Guiné correram sempre sem perigo, mas para outros militares não foi sempre assim.

O Batalhão de Engenharia 447 tinha como funções dar apoio às tropas aquarteladas na Guiné no âmbito de garantir o regular funcionamento dos quartéis, promover o fornecimento de geradores eléctricos, orientar e apoiar as obras de reordenamentos populacionais, fornecer material de manutenção, construir estradas, pontes e portos de atracagem, quartéis e abrigos subterrâneos, etc. Muitos elementos do BENG 447 tinham de se deslocar ao mato frequentemente em colunas por via terrestre e alguns correram grandes riscos como podemos constatar pelo relato trágico que o Furriel Miliciano de Engenharia Pedro Manuel Santos fez no livro "A Engenharia Militar na Guiné" (no qual também colaborei) quando descreve uma emboscada que sofreu uma coluna de dez viaturas, em que ele mesmo seguia, da seguinte forma:

"No dia 22 de Março de 1974 quando regressava de Piche para Nova Lamego, em coluna militar, e após termos percorrido cerca de dez quilómetros entre Benten e Cambajá, cerca das 8:30 horas, sofremos uma emboscada de grande violência.

O PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) tinha colocado à beira da estrada cerca de 110 abrigos e outra grande quantidade de guerrilheiros em cima de mangueiros. O número de guerrilheiros estimou-se entre duzentos e duzentos e cinquenta elementos...

A nossa coluna militar era constituída por dez viaturas, sendo duas chaimites, uma white, três berliets e quatro unimogs.

Quando deflagrou a emboscada as duas chaimites da frente foram as primeiras a ser atacadas com RPGês bem como uma white e um unimog.

A primeira chaimite onde ia o capitão Luz Afonso passou e saiu da estrada protegendo-se no mato no lado oposto ao dos guerrilheiros tendo sido ainda atingida por um rocket de raspão. A segunda chaimite, onde ia eu, apanhou uma rocketada à frente, bem como no lugar onde ia o condutor e o Furriel Soares que a comandava. Perfurou o blindado e cortou as pernas aos dois referidos camaradas que começaram a gritar por ajuda.

O cabo Augusto Graça que ia na metralhadora, com uma enorme frieza dispara durante algum tempo até que a velha máquina se encravou. Durante uns minutos, que me pareceram anos, a chaimite começou a arder pela frente e as chamas envolveram os companheiros que tinham sido atingidos pela rocketada e que já estavam sem pernas.

Lembro-me de olhar nos olhos o Furriel Soares, que comandava a chaimite, e que me pediu para o não deixar morrer ali.

Por segundos tentei pegar num deles mas a viatura já se encontrava com um nível de calor muito elevado e o perigo de ficarmos todos lá dentro era eminente.

O cabo atirador Augusto Graça apenas teve tempo de abrir metade da escotilha do blindado e gritar para fugirmos. Já não pude fazer mais nada. Tive de abandonar o blindado.

Saí eu, o capitão miliciano Fernando e o cabo Augusto Graça. Corri cerca de cem metros e logo atrás de mim um guerrilheiro do PAIGC tentou agarrar-me à mão. De imediato os depósitos da chaimite rebentaram e deu-se uma enorme explosão.

Ainda me lembro de ouvir as balas e as granadas que estavam dentro do blindado a rebentar e os últimos gritos dos meus dois camaradas!

Nesse momento o guerrilheiro que correu atrás de mim, em volta de um enorme morro de formigas "baga baga", desistiu, presumo que assustado pela enorme explosão da chaimite e consegui despistá-lo fugindo para o mato. A minha G3 tinha ficado no blindado.

Segundo Manuel Monteiro, foi nesta chaimite que morreu o Fur. Milº Soares, bem com o respectivo condutor
Foto retirada, com a devida vénia, do blog “Antigos combatentes da Guiné”

Dentro do mato encontrei o capitão Fernando... ele trazia uma pistola Walter e disse-me: esta pistola é para nos suicidar-mos se formos agarrados à mão!

A partir de aí perdi por completo a memória, não sei por onde andei nem durante quanto tempo, mas dizem-me que foi por um dia inteiro. Tenho uma vaga ideia de ir ter sozinho à estrada e encontrar o Furriel Fidalgo que fazia segurança ao material queimado. Senti o cheiro de carne humana queimada que saia da minha chaimite e que até hoje nunca mais me saiu do nariz.

Levaram-me para Piche onde o nosso capitão Luz Afonso já se encontrava à espera de transporte para Bissau. Segui, depois, para Nova Lamego onde fui tratado a uma perna que ficou ferida ao sair por metade da escotilha da chaimite. Fui depois evacuado para o Hospital Militar de Bissau...

A minha arma foi entregue mais tarde no BENG 447 apenas com a parte de ferro crivada das balas que rebentaram dentro da chaimite.

O Furriel Fidalgo disse-me que quando apareci do mato e o encontrei junto à estrada só gritava para ele: "Foge que vem aí os amarelos!" (referindo-me aos fardamentos do guerrilheiros do PAIGC ) e que estava completamente baralhado da cabeça. Chamaram-me o "morto-vivo" por ter sido dado como morto e depois aparecer com vida.

Nesta emboscada tivemos seis mortos, dezasseis feridos muito graves e três feridos ligeiros. Tenho na memória alguns camaradas a respirar pelas costas e já sem vida. Alguns completamente desfeitos. Outros a serem tratados com garrotes.

Quando regressei à metrópole para junto da minha família... senti-me completamente abandonado e entregue a mim próprio. Ninguém me perguntou se estava bem ou mal, se precisava ou não de qualquer tipo de ajuda. Tinha de recomeçar a minha vida ...

Hoje, passados quarenta anos, acho imprescindível este desabafo para que alguém com poderes para isso não deixe que a história se repita neste capítulo. Esta é apenas uma história entre outras que em dois anos sucederam e que não gosto de contar mas entendo que a devia escrever. A todos os ex-combatentes ainda vivos deixo uma palavra de coragem para acabarmos os dias que nos falta viver.

As gerações vindouras que não esqueçam a brutalidade a que o Governo de então submeteu os jovens da nossa geração. Quando se fala de ex-combatentes deve tributar-se o respeito que eles merecem pois marcaram e fazem parte de uma página da história que, em nome da Pátria, foram obrigados a cumprir e muitos a darem, inclusivé, a sua própria vida."







Fernando Magro
Fim da Comissão - O Regresso


A nossa vida continuou sem grandes percalços naquelas paragens africanas.
A Lena era professora na Escola Preparatória, dava explicações em casa e convivia muito com as esposas dos militares que estavam em Bissau, particularmente com a esposa do meu Comandante Tenente-Coronel Lopes da Conceição, com a Maria da Graça Areosa, mulher do major Leal de Almeida, dos Comandos Africanos e com a Etelvina Moritz, esposa do Engenheiro Lourenço Pinto.
Eu também tinha os meus dias muito ocupados.
A minha actividade não estava, no entanto, somente circunscrita à cidade de Bissau.
Tinha, por vezes, de me deslocar ao interior do território para resolver localmente problemas que surgiam durante as obras dos reordenamentos populacionais.
Dessas deslocações ao interior, a de que me recordo como a mais desconfortável, foi quando uma vez desci de um helicóptero, sozinho, em pleno mato. Era aguardado por milícias guineenses (não havia tropa portuguesa na região).
Parte dos elementos da milícia ficou de guarda ao helicóptero e a outra parte em fila indiana (bicha de pirilau, como se dizia entre os militares) encaminhou-me, mato dentro, para o sítio dos trabalhos do reordenamento local.
Para minha defesa pessoal estava armado com uma pistola Parabelum. Também me estava distribuída uma metralhadora FBP.
No início, nas minhas primeiras saídas para o mato, levava comigo a metralhadora mas, mais tarde, mais confiante, passei somente a colocar à cintura a pistola Parabelum.
Aos domingos, na época seca, dava com a família um pequeno passeio de carro até ao Cumeré, Nhacra ou João Landim.
Mas a maioria das vezes dirigíamo-nos ao quartel da Companhia de Caçadores 2572, em Nhacra, que era comandado por um amigo meu e que distava menos de vinte quilómetros de Bissau. Nesta companhia havia vários pequenos macacos com que brincávamos. Durante a viagem passávamos por enormes montículos com mais de metro e meio de altura feitos por formigas (baga-baga).
Na época das chuvas, os passeios eram menos frequentes uma vez que o tempo não permitia grandes viagens fora da cidade.
Era mesmo arriscado, em certas alturas, circular na estrada pois por vezes o vento soprava com uma força incrível dando origem a autênticos tornados.
Esses tornados surgiam inesperadamente, sem que os europeus os adivinhassem, o que não acontecia com os guinéus. Muitas vezes parecendo estar calma a atmosfera surpreendia-me a ver correr os naturais da Guiné para as suas palhotas, procurando abrigo. Passados poucos minutos desabava uma chuvada acompanhada de grande ventania. Pelo bulir das folhas das árvores ou por outros sinais a população indígena conseguia prever o temporal que se avizinhava, o que não acontecia com a população branca.
Esses tornados eram perigosos, principalmente para as pequenas aeronaves. Durante a minha estadia na Guiné deu-se um grande incidente que vitimou quatro deputados portugueses, de visita ao território, quando o helicóptero em que viajavam se despenhou no Rio Mansoa.
Quando terminava a época das chuvas, pelo mês de Maio, apareciam as pragas.
Lembro-me de uma dessas pragas, a dos grilos. Bissau foi literalmente inundada de grilos.
Os automóveis a circular nas ruas faziam um som característico quando os seus pneus passavam por cima deles.
. Os varredores camarários juntavam os cadáveres dos grilos em montes na margem das ruas para depois serem transportados para os aterros.
Em Abril de 1972 a minha comissão militar estava no fim.
Devido ao meu filho ser estudante do 1º ano do Ciclo Preparatório e eu e a Lena sermos professores, pedi que o fim da minha comissão coincidisse com o final do ano escolar.
Em Maio começamos a preparar-nos para regressar a casa.
Despedi-me da Tecnil e, tendo em vista a compensação de possíveis falhas na minha assiduidade, não aceitei o recebimento do último mês de trabalho.
Despedi-me do Moba - o meu impedido - a quem ofereci alguma roupa e utensílios de casa que desistimos de trazer.
Vendi o carro.
E em princípios de Junho começámos a preparar os caixotes de madeira onde haviam de ser transportados por barco os objectos que adquirimos na Guiné e que decidimos trazer connosco.
Desses objectos fazia parte uma bicicleta inglesa, que oferecemos ao nosso filho Fernando Manuel aquando da sua aprovação nos exames da 4ª classe e de admissão ao Liceu.
Foi desmantelada e metida num caixote que, depois, se extraviou.
Já no Continente tive de me deslocar duas vezes ao RALIS, em Lisboa, onde eram depositadas as bagagens dos militares regressados à Metrópole, sem que o referido caixote aparecesse.
Até que, por sugestão de um sargento, passámos em revista a arrecadação onde se encontravam os haveres dos militares que haviam falecido na Guiné e, para meu espanto, vim a encontrar lá o caixote que andava desaparecido.
Em meados de Junho despedi-me do Director e dos Professores da Escola Industrial e Comercial de Bissau e tive, no Batalhão de Engenharia, a minha festa de despedida.
Visitamos as pessoas das nossas relações e preparámo-nos para regressar a casa.
Em trinta de Junho de 1972 subimos para o avião militar e iniciamos a viagem de regresso com escala na Ilha do Sal, Cabo Verde.
Quando chegámos ao Aeroporto de Figo Maduro e o avião aterrou, o nosso filho Fernando Manuel deu um grande suspiro de alívio.
A aventura da Guiné tinha acabado.
Estavamos todos juntos e de boa saúde.
Nas nossas vidas a passagem pela Guiné era um episódio encerrado.
Para trás tinham ficado dois anos de algum sofrimento e angústia que nos era ocasionada pela ausência da família e dos amigos, pela insegurança em que vivíamos o dia a dia, devido à guerra, e pelo clima que era desgastante para os europeus.
Mas, mal chegamos a Viseu, também não deixamos de recordar com saudade as amizades novas que fizemos na Guiné, os jantares festivos no Batalhão de Engenharia, as festas no clube de oficiais, os golfinhos que saltavam nas águas límpidas do arquipélago de Bijagós, as belíssimas acácias rubras que floriam em Bissau, as ostras e camarões da Guiné, o Scotch Wisky com água Perrier e pedacinhos de gelo que por lá consumíamos.
E sentia-me recompensado quando pensava que os dois anos que passei na Guiné não foram em vão, uma vez que pude colaborar como engenheiro técnico em algumas obras públicas e de construção civil em Bissau, além dos reordenamentos populacionais no interior do território.
Como professores, também a Lena e eu procuramos transmitir os nossos conhecimentos aos jovens daquelas paragens.
E a certeza de que essa actividade específica não tinha sido em vão, foi-me demonstrada, passados alguns anos, por um jovem guinéu numa feira de motonáutica e de equipamentos de campismo no pavilhão Rosa Mota (antigo Palácio de Cristal), no Porto, quando me surpreendeu de longe:
- Professor, Senhor Professor!
- É comigo? Está a chamar por mim?
- O Senhor foi meu professor em Bissau. Como estou contente por voltar a vê-lo! Nós em Bissau gostavamos muito do Professor e da sua família. Professor, deixe-me abraçá-lo.

Era o encontro com as memórias da Guiné que selei com um forte abraço ao jovem negro, meu ex-aluno em Bissau.


Fernando de Pinho Valente
LOUVOR
Transcrição do louvor publicado em Ordem de Serviço do QG/CTIG


Louvado pelo Exmº Comandante do Batalhão de Engenharia 447, porque durante o período de quase dois anos em que prestou serviço no Batalhão de Engenharia da Guiné, como Chefe da Secção de Ordenamento, revelou qualidades de sensatez na análise dos problemas e de exemplar organizador, contribuindo notóriamente para a eficiência que caracterizou o conjunto de actividades a seu cargo. Oficial meticuloso e sensato, soube sempre manter um contacto perfeito com os diferentes órgãos do Comando-Chefe, responsáveis pelo planeamento dos reordenamentos das populações, conseguindo manter informados todos os órgãos do Batalhão de Engenharia das necessidades em materiais e assistência técnica indispensáveis à resolução com oportunidade daquele magno problema. Encarregado ainda dos estágios para Oficiais e demais graduados destinados a dirigir reordenamentos, conseguiu o melhor rendimento didáctico nestas atribuições através de métodos de trabalho de uma acção de presença disciplinada e disciplinadora no cumprimento dos seus horários e programas de ensino. O entusiasmo e generosidade postos ao serviço pelo Capitão Valente simultâneamente como Chefe e colaborador junto do pessoal da Secção que chefiou, muito contribuíram para a homogeneidade e espírito de corpo que sempre caracterizou a Secção de Reordenamentos do Batalhão de Engenharia. O Comando justificadamente torna público o apreço que lhe mereceram as actividades deste distinto Oficial que ao deixar a Unidade cria uma vaga no serviço difícil de preencher.







Fernando Magro
O Meu Irmão Álvaro


O esforço humano (e material) dos portugueses para responder às guerras de África, nas três frentes (Angola, Guiné e Moçambique) era enorme no final da década de sessenta e nos primeiros anos da década de setenta.

No caso da minha família nós éramos (e somos) oito irmãos, seis dos quais homens.

Todos os seis foram chamados a prestar serviço militar obrigatório e todos foram mobilizados: um para Moçambique, como alferes miliciano, dois para Angola sendo um deles no posto de furriel e o outro como cabo especialista da Força Aérea e três para a Guiné, sendo eu o mais velho, como capitão, o mais novo como furriel e o imediatamente a seguir ao mais novo como primeiro-cabo auxiliar de enfermeiro.

A vida militar deste último cruzou-se mesmo com a minha, pois fazendo parte da Companhia de Artilharia 3493, foi mobilizado para a Guiné e colocado em Mansambo, na região de Bafatá, quando eu me encontrava ao serviço do Batalhão de Engenharia 447.

Fui esperá-lo, subindo ao barco que o trouxe e fundeou ao largo de Bissau, nos primeiros dias de Dezembro de 1971.

Pedi ao seu Comandante que, logo que possível, o deixasse passar comigo alguns dias em Bissau, o que aconteceu em princípios de Janeiro de 1972.

Ele, nessa altura, queixou-se muito da vida difícil e perigosa que levava no mato e eu, depois de ele regressar à sua Companhia, comecei a congeminar um processo de o trazer para o Hospital Militar de Bissau.

O que determinou a minha diligência nesse sentido foram as notícias que dele recebi em Fevereiro de 1972. Nelas me dizia que tinha entrado numa operação militar de um dia e duas noites e que, a certa altura, no meio do mato, foi dada ordem pelo Alferes, Comandante do seu pelotão, para que o pessoal descansasse por algum tempo.

Como havia perdido a noite anterior, acabou por adormecer, protegido pela vegetação.

Quando acordou foi grande o seu espanto ao se encontrar completamente só no meio do mato, numa região que sabia ser frequentada por “terroristas”.

No aerograma que me enviou relatava, desta maneira, o sucedido:

"Não imaginas o meu estado de espírito ao ver-me só e perdido dentro daquela mata densa. Andei cerca de uma hora perdido, cheio de medo. Cheguei a pensar que seria apanhado pelos terroristas e que nunca mais voltaria a ver a família.

Procurei encobrir-me com a vegetação, mas se porventura tinha de atravessar uma clareira, fazia-o rastejando.

Por fim encontrei um trilho por onde segui algum tempo, encharcado em suor.

Finalmente vi, ao longe, um pequeno grupo de militares.

Aproximei-me deles correndo o mais que pude e quando me pareceu que a minha voz poderia por eles ser ouvida, gritei com quanta força tinha.

Era tropa da minha Companhia, embora não fosse do meu pelotão.

Contei o que havia acontecido, quase sem poder falar, por estar muito cansado.

Não tive nenhuma culpa do sucedido."


Eu conhecia o Director do Hospital, embora não tivesse com ele grandes relações.

Conhecia-o dum jantar festivo a que ele compareceu, como convidado, no Batalhão de Engenharia.

Lembrei-me de o procurar.

Relatei-lhe que tinha um irmão como cabo enfermeiro no mato, irmão que tinha tido, quando adolescente, problemas de saúde e mesmo uma paralisia facial.

Contei-lhe o que havia sucedido por dele se terem esquecido, quando adormeceu de cansaço no meio da vegetação.

Perguntei-lhe, depois, quantos cabos enfermeiros faziam serviço no seu Hospital e se todos mereciam estar lá colocados.

Referiu-me que tinha algumas dezenas de cabos enfermeiros e que, pelo menos um deles, teria de o castigar severamente e de o mandar para o mato porque tinha roubado alguns militares feridos ou doentes.

Estes militares, como de resto acontecia com todos, quando chegaram ao Hospital Militar receberam um pijama próprio e as suas fardas e haveres foram guardados em armários metálicos individuais.

Esse cabo enfermeiro conseguiu ter acesso a alguns desses armários e havia roubado dinheiro e outros pertences dos doentes.

"- E, ainda por cima, ontem embriagou-se e fez por aí uma série de disparates.
Vai com certeza apanhar alguns dias de prisão e, por via disso, terá de ser colocado numa companhia destacada no mato"
, referiu o meu interlocutor.

Perante este relato do Director do hospital perguntei-lhe se não seria possível que o cabo enfermeiro, cujo comportamento merecia uma punição exemplar, fosse colocado por troca na companhia do meu irmão. Evitar-se-ia, continuei eu, que na caderneta militar do rapaz fosse averbado um castigo que, naturalmente, lhe poderia trazer prejuízo na sua vida futura. Com a sua ida para uma unidade de combate, sofreria de qualquer forma uma pesada punição e essa situação talvez o obrigasse a reflectir no sentido de melhorar o seu comportamento.

Assegurei ao Director, por outro lado, que a conduta do meu irmão Álvaro seria irrepreensível no caso de vir a ser colocado naquele Hospital Militar. Por isso responsabilizar-me-ia eu próprio. O Coronel-médico reflectiu e depois ditou-me os termos de uma declaração, em que o meu irmão teria de assinar em como concordava ser transferido para o Hospital Militar de Bissau em troca com o tal 1º cabo auxiliar de enfermagem mal comportado.

Disse-me o Director que iria chamar o rapaz à sua presença e que o aconselharia a requerer a sua transferência para a companhia de artilharia 3493 de Mansambo por troca com o meu irmão Álvaro.

No caso de ele concordar, a minha pretensão seria bem sucedida e eu estava convicto que ele iria dar o seu acordo porque não poderia continuar mais tempo ali, tendo inevitavelmente de ser castigado e enviado para o mato.

Despedi-me do Coronel-médico com a continência regulamentar e aguardei os acontecimentos. A 20 de Fevereiro de 1972 foi publicada uma nota da 1ª repartição do Quartel-general do Comando Territorial Independente da Guiné que continha a oficialização da referida transferência.

Dois dias depois, quando entrei em casa vindo do quartel, tinha à minha espera o meu irmão Álvaro.






Fernando Magro
A Minha Casa em Bissau


Em 24 de Junho de 1970 a Lena e o meu filho Fernando Manuel chegaram a Bissau, depois de cumprido o ano escolar de 1969-1970.
Foram viver para uma pequena moradia situada na Avenida Arnaldo Schultz, que eu tinha conseguido alugar.

(o meu carro junto à minha casa em Bissau)

A nossa casa localizava-se muito próximo do Quartel da Polícia. Era uma pequena vivenda, com uma sala de estar, outra de jantar, dois quartos, cozinha e casa de banho. Mas tinha à sua volta um pequeno jardim no qual havia duas bananeiras e uma linda acácia rubra.
Dada a minha posição na hierarquia militar tive direito a um impedido. Foi-me atribuído para exercer essas funções um soldado negro, que anteriormente havia sido "terrorista", de nome Moba, de religião muçulmana.
Tinha já três mulheres quando entrou ao meu serviço e vários filhos.
Andava sempre com dificuldades financeiras. Muitos dias antes do pagamento do pré1 pedia-me adiantamentos e isto quase todos os meses.
Dizia-me que não tinha dinheiro para comprar a "vianda" para os meninos. E eu adiantava-lhe o pré.
A sua religião proibia-o de beber vinho. Mas para ele vinho somente era o tinto. Desta forma iludia as suas próprias convicções religiosas, pois dizia-me que o vinho branco era água de Lisboa e como tal não lhe estava proibido bebê-lo.
Quando a sede lhe apertava pedia-me:
- Capitão, dá-me um copo de água de Lisboa.
E eu, em regra, satisfazia-lhe o pedido.
Um dia pediu-me férias.
- Férias nesta altura, Moba?
Sim, Capitão. Preciso de alguns dias de férias para casar.
- Outra vez?! - admirei-me eu. Já tens três mulheres e não sei quantos filhos e queres casar outra vez? O dinheiro não te chega a nada, estás sempre a pedir-me adiantamentos e ainda queres outra mulher?
Preciso, Capitão. Vou casar com uma "bajuda". Quando eu e as minhas outras mulheres envelhecermos ela tratará de nós.
Perante esta explicação não pude deixar de dar férias ao meu impedido Moba.
E a explicação que me deu levou-me a considerar que a organização social dos muçulmanos protege a velhice dos seguidores dessa religião.
Também entre as várias mulheres de um só homem não se verifica a existência do ciúme. Era usual pentearem-se umas às outras em frente das palhotas, convivendo amigavelmente.
Tivemos também uma lavadeira negra de nome Inácia. Durante o tempo que esteve ao nosso serviço o marido adoeceu gravemente e acabou por morrer.

(A Lena e a lavadeira Inácia)

Ficamos muito tristes com o infausto acontecimento uma vez que tínhamos muita estima pela Inácia, que era muito boa mulher.
Sempre que me irritava com alguma traquinice do meu filho e lhe ralhava ela punha-se imediatamente à frente e rogava-me:
- Capitão, não batas ao menino. Capitão, por favor.
Por isso quisemos saber da futura situação da Inácia e do seu pequeno filho.
Ela informou-nos que tudo estava assegurado. Passaria a pertencer a um cunhado e o "tiozinho" passaria a ter a responsabilidade de tratar e criar o miúdo.
Era uma criatura paciente, humilde e meiga. Gostava muito do meu filho. Dizia a respeito dele, muitas vezes:
- Menino, tem esperto na cabeça.
Tivemos também uma "bajuda" para a limpeza. Era uma rapariga muito nova que, findo o trabalho, se despia completamente nas traseiras da nossa casa e se lavava com a mangueira do jardim.
Encontrei o meu filho, algumas vezes, por detrás da persiana, gozando o espectáculo que a "bajuda" oferecia sem o mínimo pudor.

(O meu filho Fernando Manuel com duas bajuditas)

A nossa alimentação vinha da Messe de Oficiais do Batalhão de Engenharia pelo que não cozinhavamos.
Também tivemos um pequeno cão, o Perna Longa, e um periquito.
Uns tempos antes de regressarmos a Portugal demos o cão. O Moba tratou de o levar para o novo dono que habitava longe de nós.
O animal procurou e conseguiu voltar a nossa casa, orientando-se não sei como por entre aquele emaranhado de bairros de palhotas que circundavam a cidade. Só depois de ser preso pelo novo dono é que deixou de nos aparecer.
Quanto ao periquito ofereci-o ao Major (é hoje General) Carlos Azeredo. Ele tinha um periquito que morreu. O major falara-me do seu passamento com alguma tristeza.
Perto de regressarmos , para aliviar a tristeza do major, ofereci-lhe o periquito.
Nutria por este major uma certa simpatia, enquanto permaneci na Guiné. Mais tarde vim a saber que entre a minha família e a dele havia fortes relações, dada a proximidade das "casas" a que ambos pertencemos. Ele é oriundo da Casa do Cabo de Marco de Canavezes e eu da Casa da Seara de Magrelos.
Enquanto durou a minha comissão na Guiné a Lena trabalhou como professora na Escola Preparatória de Bissau e o nosso filho Fernando Manuel fez lá a 4ª classe, a admissão ao Liceu e o 1º ano do Ciclo Preparatório.



Fernando Magro
Os Movimentos Subversivos


De acordo com algumas fontes, Kwame Nkrumah (Presidente do Gana) e Sekou Touré (Presidente da República da Guiné), pouco tempo depois da independência da Guiné Conacry (Novembro de 1958), teriam tido a ideia de criar uma Federação de Estados Unidos da África Ocidental que englobaria a Libéria, a Serra Leoa, a Gâmbia, a Costa do Marfim, o Gana, a Nigéria e a República da Guiné, alargando-se, se possível, à Guiné-Bissau.
Existia, por isso, anteriormente a 1960, interesse dos chefes políticos dos países vizinhos da Guiné Portuguesa que este território se tornasse independente de Portugal. Em Conacry as emissões de rádio incentivavam, já em 1959, a população da Guiné-Bissau a sublevar-se e a não aceitar mais o domínio dos portugueses. Possivelmente em resultado dessa campanha, deu-se em 3 de Agosto de 1959, o primeiro incidente grave no território com uma greve no Porto de Pijiguiti (Bissau) de que resultaram alguns mortos e feridos.
Depois deste acontecimento e a partir de Março de 1960 as notícias sobre a Guiné Portuguesa proliferaram, revelando existir por detrás dos acontecimentos uma organização subversiva com alguma amplitude.
Em Londres, um indivíduo que mais tarde foi identificado como sendo o engenheiro agrónomo Amílcar Cabral, natural da Guiné mas filho de pai cabo-verdiano, distribuiu à imprensa um comunicado da "Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colónias Portuguesas" que teve alguma divulgação.
O referido Amílcar Cabral aparecia como representante de um agrupamento político que tinha em vista a independência da Guiné e Cabo Verde e que se intitulava "Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde" (PAIGC).
Os dirigentes do PAIGC estavam radicados em Conacry, onde beneficiavam de um bom acolhimento do Governo da República da Guiné e da concessão de todas as facilidades necessárias para a sua actividade subversiva.
Outros movimentos surgiram, de menor dimensão, visando também a independência do território sob administração portuguesa, como foi o caso do Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde (M.L.G.C.) e a União Popular para Libertação da Guiné (U.P.L.G.), ambos com sede em Dakar (Senegal).
O Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde acabou mais tarde por ser dissolvido e deu origem à União das Populações da Guiné (U.P.G.). A certa altura ganhou alguma notoriedade o movimento "União dos Naturais da Guiné Portuguesa", com sede também em Dakar, cujo chefe, Benjamim Pinto Bull, era professor de português no Liceu da capital Senegalesa.
Este movimento era reformista mas partidário do diálogo.
Mas o principal movimento subversivo foi, sem dúvida, o PAIGC, que em 1962 apresentou por intermédio de Amílcar Cabral, na Comissão de Curadorias da ONU, uma petição onde, além de pedir a independência da Guiné, declarou que os militantes do PAIGC deveriam ser considerados soldados da ONU pois desempemhavam funções semelhantes às dos "capacetes azuis" que nessa altura se encontravam no Congo.
A partir de 1963 os ataques às forças armadas portuguesas e aos chefes tradicionais que maior dedicação demonstravam a Portugal tornam-se cada vez mais frequentes.
No sul da província, segundo afirmou o Ministro da Defesa Nacional na altura, "grupos numerosos e bem armados, possuidores de certa preparação de guerra subversiva, feita no Norte de África e em países comunistas, penetravam no território nacional numa zona correspondente a 15 por cento da superfície da província".
Segundo o mesmo ministro português, numa entrevista a um jornal de Lisboa, "os grupos provinham e tinham base na República da Guiné". Tendo por apoio um estudo de João Baptista Pereira Neto, no mesmo se refere que "de acordo com numerosos artigos que apareceram na imprensa estrangeira e em especial por algumas entrevistas com Amílcar Cabral, ficou a saber-se que o PAIGC fora fundado em 1956 pelo próprio entrevistado e por Rafael Barbosa, que a paralisação de trabalho verificada em 3 de Agosto de 1959 no Porto de Bissau havia sido decretada por aquele partido e que a passagem da luta política para a acção directa tinha sido decidida durante uma reunião clandestina do partido, realizada em Bissau em 19 de Setembro de 1959".
Na fase inicial o PAIGC seria constituído, de acordo com as palavras de Amílcar Cabral, por pequenos burgueses radicais e membros de organizações operárias e profissionais. Depois de ter mudado radicalmente, a massa de guerrilheiros passou a ser recrutada entre operários e camponeses, na sua maior parte balantas, que eram os que emigravam mais para a República da Guiné e que, devido à sua educação, se tornavam ladrões exímios e que apenas encaram o roubo como desonroso quando o autor é apanhado. Eles conheciam perfeitamente os terrenos pantanosos e rodeados de canais, onde tinham as suas plantações de arroz.
A enquadrar essa massa operária e camponesa estavam principalmente indivíduos jovens que abandonaram a Guiné durante ou após a frequência dos Cursos Liceal ou Técnico, e que depois de prestarem provas durante alguns meses em escolas de guerrilha, eram mandados para os países situados para além da cortina de ferro para aproveitarem das bolsas de estudo postas à disposição do PAIGC para frequência de cursos médios.
Deste modo o PAIGC conseguiu quadros jovens altamente qualificados à escala africana.
Parece que, enquanto a massa era principalmente guineense, os quadros eram essencialmente compostos por jovens cabo-verdianos.
O seu chefe incontestado, Amílcar Cabral, embora nascido em Bafatá era também, como já referi, filho de cabo-verdiano.
Era Engenheiro agrónomo, formado em Lisboa e casado com uma senhora natural da Metrópole, de raça europeia.
De acordo com as pessoas que com ele privavam, tratava-se de um indivíduo de fino trato, vestindo com sobriedade e que falava várias línguas tais como o português, o francês e o inglês.
Estas suas qualidades eram-lhe muito vantajosas nas demoradas viagens que, frequentemente, fazia às capitais de diversos países africanos comunistas e ocidentais.
E devido à sua actividade política e perspicácia, o PAIGC foi ganhando o reconhecimento de muitos países e recebendo auxílio de alguns deles e da O.U.A. (Organização de Unidade Africana).
Segundo Pereira Neto, o PAIGC parece ter sido um movimento firmemente suportado pelos países de leste, em especial pela Rússia e pelos países africanos com especial relevo para a República da Guiné, a Argélia, o Gana, Marrocos e, evidentemente, a O.U.A..
Amílcar Cabral numa viagem ao Norte de África e à Europa Ocidental, em 1965, viagem que teve uma primeira etapa em Argel, afirmou numa conferência de imprensa nesta cidade que: "as forças revolucionárias tinham cerca de 10.000 homens, treinados em Conacry, que recebiam auxílio militar directamente de Sekou Touré, que já dispunham de armas pesadas e que dominavam quase metade (40%) do território da Guiné-Bissau".
Em Abril de 1965, em Londres, pediu à Inglaterra não armas, para que aquele país se não comprometesse, mas abastecimentos, remédios, material escolar e artigos afins e afirmou que poderiam abrir oitenta a cem escolas com três mil alunos.
Não foi todavia em Inglaterra que foi impresso o Novo Livro - 1ª classe, editado pelo Comissão Social e Cultural do PAIGC, mas em Uppsala na Suécia.
Possuo um exemplar desse livro que me foi oferecido por um pára-quedista que, numa das operações militares de que fez parte, ocupou uma escola do PAIGC tendo recolhido diversos documentos dessa escola, incluindo livros.
O livro que possuo era pertença da menina Teixeira e é elaborado totalmente em língua portuguesa.
Transcrevo a seguir a página 24, onde consta o texto intitulado "O Combate".

O combate

Fogo! Fogo!
O inimigo foge
Que combate fácil
Em fila, os combatentes voltam à base
Todos os camaradas estão contentes

Vamos copiar: Todos os camaradas estão contentes

Do livro se depreende que Amílcar Cabral e o PAIGC prezavam a língua portuguesa e sabiam que ela seria um óptimo instrumento aglutinador do povo da Guiné e um excelente veículo cultural.
Também no seu apelo aos Portugueses Cabral afirma:
"Os nossos Povos fazem a distinção entre Governo Colonial fascista e o Povo de Portugal. Não lutamos contra o povo português.
Repetimos o que muitas vezes temos afirmado: nós queremos libertar a nossa terra para criar uma vida nova de trabalho, justiça, paz e progresso, em colaboração com todos os povos do Mundo e muito particularmente com o povo português."
Em Março de 1972 elaborou um documento secreto que distribuiu aos quadros do PAIGC, no qual, segundo o seu pensamento, sintetiza o plano português para destruir o seu partido e vencer a luta armada na Guiné. Nele faz referência à invasão da Guiné-Conacry em 22 de Novembro de 1970, de que darei notícias no próximo capítulo.
No mesmo documento parece prever também a proximidade do seu fim.
Transcrevo na íntegra, seguidamente, o referido documento:

As três fases do plano Português

"O objectivo principal do inimigo é a destruição do nosso Partido, porque em África e no Mundo inteiro o seu prestígio e o prestígio dos seus principais dirigentes estão no seu apogeu.
Ele está convencido de que a prisão ou a morte do principal dirigente significaria o fim do Partido e da nossa luta.
Por isso mesmo, o objectivo real dos portugueses na sua tentativa de invasão da República da Guiné (Conacry), em 22 de Novembro de 1970, era o assassinato do Secretário Geral do Partido e a destruição da base na rectaguarda da revolução constituída pelo regime de Sekou Touré.
Numa palavra, destruir o Partido agindo no seu interior.
O plano inimigo far-se-à em três fases:

Primeira fase

Actualmente, muitos compatriotas abandonaram Bissau e outros centros urbanos para se juntarem às nossas fileiras. Nesta ocasião, o General Spínola espera poder introduzir agentes (antigos ou novos membros do Partido) nas nossas fileiras.
A sua tarefa: estudar as fraquezas do nosso Partido e tentar provocações apoiando-se no racismo, no tribalismo, opondo muçulmanos aos não muçulmanos, etc.

Segunda fase

1. Criar uma redce clandestina (penetrando, por exemplo, no Partido e nas Forças Armadas).
2. Criar uma direcção paralela, se possível com um ou dois agentes e alguns dirigentes actuais do Partido (de entre os descontentes).
3. Desacreditar o Secretário Geral, para preparar a sua eliminação no quadro do Partido ou, se a necessidade se impuser, pela sua liquidação física.
4. Preparar a nova direcção clandestina para fazer dela o verdadeiro organismo dirigente do PAIGC.
5. Paralelamente, lançar uma grande ofensiva para aterrorizar as populações dos territórios libertados.

Terceira fase

a) No caso de falhar a segunda fase, tentar um golpe contra a direcção do Partido, fazendo assassinar o seu Secretário Geral.
b) Formar uma nova direcção baseada no racismo e opondo guineenses e cabo-verdianos, utilizando o tribalismo e a religião (muçulmanos contra não muçulmanos).
c) Impedir a luta no interior do País, liquidar os que permanecem fieis à linha do Partido.
d) Entrar em contacto com o Governo Português. Falsa negociação, autonomia interna, criação de um governo fantoche na Guiné-Bissau que seria designado por "Estado da Guiné" e faria parte da Comunidade Portuguesa.
e) Postos importantes estão prometidos pelo General Spínola a todos os que executarem o plano.

Conclusão

O inimigo tentou corromper os nossos homens, mas a esmagadora maioria dos responsáveis contactados não aceitou vender-se, comportando-se como dignos militantes do nosso Partido e contribuiram mesmo para castigar severamente os portugueses que tentaram comprá-los, como foi o caso dos quatro oficiais, próximos colaboradores de Spínola, liquidados no norte do País."


Nota: A foto acima tem vindo a ser divulgada como sendo dos quatro oficiais assassinados pelo PAIGC no Pelundo, Teixeira Pinto, Guiné-Bissau em 20 de Abril de 1970, contudo o Alferes que aparece na foto junto dos majores, não se trata de Joaquim João Palmeiro Mosca, mas sim do ex-Alferes Milº Fernando Giesteira Gonçalves, hoje médico. A foto do Alf. Milº Mosca encontra-se sobreposta no canto inferior direito da foto acima. (clique na foto para a aumentar)
Certo dia, reparando o Dr. Fernando Giesteira Gonçalves numa foto que vinha publicada num destacável do Correio da Manhã que sai todas as quartas-feiras, terá afirmado surpreso: “- Olha... eu estou aqui com os majores. Logo um coro se fez ouvir ..Oh Dr. tem a certeza? olhe que esse é o Alferes Mosca que foi morto juntamente com os majores. Ele não desarma e reafirma: desculpem, este sou eu, tenho a certeza. O Mosca foi-me substituir uns meses mais tarde à data desta foto ter sido tirada; o Mosca nem na Guiné estava nesta altura. Era eu que fazia parte do CAOP e ele foi-me substituir por ter chegado ao fim a minha comissão.”
AM

Fonte: Tabanca de Matosinhos & Camaradas da Guiné




Fernando Magro
A Incorporação na Vida Militar


Em Agosto de 1968, uns dias antes de partirmos de férias para o Sul de Espanha, a Lena1 apareceu com os olhos amarelados.
Como se não encontrasse bem de saúde chamei o médico.
Na opinião deste tratava-se de icterícia, o que obrigava a repouso, a uma dieta e à administração de medicamentos que prescreveu.
Sobre as nossas férias, foi de opinião que devíamos desistir da viagem para a Costa do Sol e em seu lugar procurar umas termas onde pudéssemos usufruir de uma estadia calma e fazer uma cura de águas.
Recomendou-nos as Termas de Monte Real.
Resolvemos seguir os conselhos do médico pelo que nos primeiros dias de Setembro dirigimo-nos para a referida estância termal, acompanhados do nosso filho Fernando Manuel, de 7 anos de idade.
Aí, pela manhã de um determinado dia, encontrei no "buvete" um antigo companheiro meu do Curso de Oficiais Milicianos de Artilharia que teve lugar em 1958 na Escola Prática de Vendas Novas. Fiquei admirado por o ver ali, tanto mais que esse meu antigo companheiro, além de saudável, era muito bem constituído fisicamente.
- Tu por aqui, a águas?! - perguntei-lhe admirado.
Explicou-me ele, então, que estava mobilizado para Angola e que resolveu fazer, antes de partir, um tratamento nas Termas, até porque havia realizado, em Lamego, exercícios militares em que a sua alimentação havia sido à base de rações de combate o que lhe tinha provocado uma indisposição gástrica e intestinal.
- Mas o quê, tu ficaste na tropa?, perguntei.
Que não, que não, respondeu-me o meu amigo. Que era economista, mas que havia sido incorporado obrigatoriamente na vida militar com o posto de tenente e havia sido compelido a frequentar um Curso de Capitães na Escola Prática de Infantaria em Mafra.
Que com o posto de capitão iria dentro de alguns dias fazer a guerra em Angola, comandando uma Companhia de Caçadores com cerca de 150 homens. Que eu também devia ser chamado muito em breve, pois dos duzentos e quarenta cadetes do Curso de Oficiais Milicianos de Artilharia de 1958, estava o Exército incorporando grupos de sessenta de cada vez, para a frequência obrigatória do Curso de Capitães.
Eu não queria acreditar...
A minha mulher, que tinha mantido uma conversação ocasional com a esposa deste meu companheiro das lides militares, apercebeu-se das suas últimas palavras e ficou estupefacta.
Não podia ser. Isso não era verdade.
Eu tinha cumprido a minha obrigação militar como Cadete em Vendas Novas e como Aspirante a Oficial Miliciano no Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 3, em Paramos, Espinho, tendo regressado à vida civil em Fevereiro de 1960 como Alferes Miliciano. Na disponibilidade, fui promovido a Tenente Miliciano.

Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas
Foto: Carlos Vinhal
(com a devida vénia)
Depois disso casei-me e coloquei-me como técnico de engenharia na extinta Junta Autónoma de Estradas, em Viseu.
Em Maio de 1961 nasceu o meu filho Fernando Manuel.
Nesse ano de 1961 deu-se a invasão e anexação pelas tropas da União Indiana das nossas possessões de Goa, Damão e Diu, na Índia, e teve início a guerra colonial em Angola.
Na altura ainda receei vir a ser mobilizado. Mas passados sete anos já estava completamente fora da minha expectativa tal acontecimento.
Nessa mesma tarde (do dia em que tive conhecimento da possibilidade de vir a ser incorporado no Exército), depois do almoço, segui com a família para Lisboa no meu próprio automóvel.
Procurei saber na Secção de Oficiais do Ministério do Exército o que me estava reservado. E aí foi-me dito que, efectivamente, fazia parte de um próximo Curso de Capitães, em Mafra.
E que, depois de promovido, teria de, obrigatoriamente, servir como militar em África. Que não tinha outra saída a não ser que me oferecesse como civil para uma comissão de serviço em Angola, Guiné ou Moçambique e, dado que era diplomado em engenharia, talvez viesse a ser atendido.
Ficamos, eu e a Lena, desolados, regressando às Termas de Monte Real num estado de espírito deplorável.
E foi ainda nesse estado de espírito que voltamos para Viseu poucos dias depois, terminado o tratamento nas Termas.

Antes de 1961, ano em que, como referi, se iniciaram as guerras em África, a Academia Militar tinha boa frequência.
Terminado o curso complementar dos Liceus candidatavam-se inúmeros jovens ao ingresso na referida Academia, os quais eram submetidos a um rigoroso processo de selecção.
Isto acontecia porque o oficial do exército tinha um estatuto muito especial. Disfrutava de uma posição social estimulante. O seu emprego era automático e vitalício. Geralmente usufruia de almoço gratuíto nos Quartéis e tinha assistência de graça na doença para si e para a sua família.
A vida, desde que não houvesse guerra, desenrolava-se tranquilamente. E havia também, principalmente para os jovens, o incentivo das fardas.
Depois que as guerras de África começaram, as candidaturas de acesso à Academia Militar baixaram drasticamente.
E baixaram porque a situação se alterou. Os oficiais do quadro permanente eram constantemente mobilizados. Deixavam o aconchego da família, permanentemente. Em África faziam a guerra e como tal eram colocados em lugares inóspitos. A sua alimentação era assegurada com dificuldade. Muitas vezes tinham de consumir alimentos enlatados, tipo rações de combate. Corriam riscos. Adoeciam. Eram feridos e alguns até mortos.
Por isso muito poucos jovens em 1968 tinham interesse na carreira de Oficial do Exército.
Segundo me informaram, na altura, as candidaturas reduziram-se drasticamente e aqueles que tentavam a admissão à Academia geralmente não escolhiam as armas: cavalaria, infantaria e artilharia. Quase todos pretendiam os serviços.
O enquadramento dos nossos soldados por oficiais a nível de Capitão começou a ser um problema pelo que o Governo teve de recorrer aos milicianos que, como eu, estavam na disponibilidade com o posto de Tenente.

Escola Prática de Infantaria de Mafra
Foto: Página do Exército
(com a devida vénia)

No dia seguinte ao terramoto que todo o Portugal sentiu (28 de Fevereiro de 1969) chegou o aviso de que tinha de me apresentar na Escola Prática de Infantaria em Mafra para frequentar o Curso de Promoção a Capitão.
Embora fosse um acontecimento esperado por mim, o que é certo é que a notícia me trouxe alguma intranquilidade e tive de começar a resolver rapidamente uma série de assuntos ligados à minha actividade pública e privada.
Também tive de me deslocar aos Armazéns Militares do Porto a fim de adquirir o meu próprio fardamento.
Em Mafra, onde permaneci entre Março e Julho de 1969, encontrei diversos companheiros meus do tempo de Vendas Novas.
Procurei, com paciência, executar os exercícios físicos que me eram impostos, alguns dos quais me foram particularmente penosos como correr com um saco de areia às costas e rastejar alguns metros por baixo de arame farpado.
Nessa altura já contava 33 anos de idade e fisicamente tinha limitações até porque tinha engordado alguns quilos.
Em Mafra foram-me ministrados ensinamentos sobre a guerra de guerrilhas, uma guerra desleal e traiçoeira feita de emboscadas e golpes de mão.
Este curso terminou com 4 dias na Serra de Montejunto, onde dormi ao relento, no chão, debaixo de pinheiros e me alimentei a rações de combate.
Um dos exercícios foi o assalto a uma aldeia completamente abandonada no cimo da serra. Esta aldeia foi tomada por soldados que comandávamos. Nela estavam abrigados outros soldados da Escola Prática de Infantaria, fazendo de inimigos, que nos receberam com grandes rebentamentos a que nós, naturalmente, respondemos.
Ainda viemos a Lamego, onde estava instalada uma Companhia de Comandos, para assistirmos a diversos "briefings" sobre a guerra que decorria nas três frentes: na Guiné, em Angola e em Moçambique.
Esses "briefings" foram-nos ministrados por oficiais experientes que já haviam cumprido Comissões nesses teatros de guerra.
Em Agosto estava pronto, no entendimento dos meus instrutores, para comandar uma companhia operacional com cerca de 150 homens e fazer frente à guerrilha que era movida em África. Entrei de licença e fiquei à espera da mobilização.
Mas, possivelmente devido aos exercícios físicos a que já há muito não estava habituado, tive uma enorme cólica renal e urinei sangue. Fiz análises e o tratamento recomendado pelo meu médico particular, mas fiquei a ter queixas de cansaço e mal estar na região lombar sempre que me mantinha por algum tempo na posição de pé.
Esse mal estar já eu o havia sentido antes, mas depois da crise porque passei, muitíssimo dolorosa, acentuou-se. Incomodidade essa que, naturalmente, atribuí ao mau funcionamento dos rins.
Tratei-me, repousei e esperei pela mobilização.


1 Diminutivo de Maria Helena, esposa do autor.
2 O nome do autor destas Memórias é Fernando de Pinho Valente. Pertence, no entanto, pelo lado paterno, à família dos Magros, uma família portuguesa muito antiga, pelo que decidiu adoptar o nome de Fernando Magro.



Fernando Magro
O Império Colonial Português


É historicamente reconhecido que navegadores de diversos países, anteriormente ao Século XV, se fizeram ao mar e “acharam” novas terras.
Mas é facto assente que o surto dos descobrimentos se verificou a partir do referido Século XV e entre os vários povos que para ele contribuíram, os Portugueses figuram em primeiro lugar, cronologicamente, e a sua acção descobridora exerceu-se, a partir do segundo quartel de 1400, durante séculos, incidindo em todos os Oceanos e em todos os Continentes.

No oceano setentrional descobriram as ilhas dos Açores entre 1427 e 1452.

A costa Atlântica de África, do Cabo Bojador à Serra Leoa, foi descoberta pelos portugueses entre 1434 e 1460 e as ilhas orientais do arquipélago de Cabo Verde entre 1456 e 1460.

A Costa Africana, da Serra Leoa ao Cabo Catarina e às ilhas do Golfo da Guiné, foi pela primeira vez visitada pelos nossos navegadores entre 1466 e 1475; a Costa de África, do Cabo Catarina à Serra Parda, entre 1482 e 1486, e da Serra Parda ao Cabo da Boa Esperança entre 1487 e 1488.

No Atlântico Equatorial e Austral foram descobertos pelos portugueses o Brasil (1500), as ilhas Ascensão (1502) e de Santa Helena (1503).

Nos Oceanos Índico e Pacífico, na rota marítima para a Índia, foi descoberta a Costa Africana Oriental, desde o Rio do Infante a Mogadoxo (1497), Madagáscar e a costa de Mogadoxo a Berbem (1500), a Costa Meridional da Arábia, Ilhas Curia-Muria (1503), ilhas Canacani (1504), a Costa Ocidental do Industão (1500-1503), Ceilão (1507), Mar Vermelho (1513), Golfo de Bengala (1516), Maldivas (1511), Seychelles ou Ilhas do Almirante (1513), Malaca (1508), Molucas (1512), Timor (1512), Austrália (1525), parte das Ilhas Carolinas (1537), China (1514) e Japão (1541).

“Os descobrimentos portugueses constituíram o primeiro passo na europeização do Mundo, deslocaram do Mediterrâneo para o Atlântico o intercâmbio comercial da Europa; deram a Lisboa características de primordial cidade europeia, estabelecendo-se nelas agências ou sucursais das mais categorizadas casas comerciais da Europa.” (3)

Portugal atingiu também, nos séculos XV e XVI, a tecnologia mais avançada do Mundo na arte de marear.

O Infante D. Henrique teve ao seu serviço alguns dos mais categorizados cartógrafos e cosmógrafos.

A prolongada e intensa actividade marítima de Portugal, de que resultou o descobrimento de inúmeras terras em todas as latitudes, como ficou atrás referido, veio juntar-se posteriormente a exploração dos continentes em que se inseriam.

Dessa gesta resultou que Portugal se tornou um dos maiores países do Mundo e dos mais ricos também.

De tal maneira rico que, quando do casamento da Infanta D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, em Junho de 1661, fizeram parte do dote da nossa princesa duas cidades; Tânger, no norte de África (que possuíamos por conquista, com outras que hoje fazem parte do Reino de Marrocos) e Bombaím (na Índia), que passaram a pertencer desde essa data à Coroa Inglesa.

Mapa anacrónico do Império Português (1415-1999).
Vermelho - possessões efectivas | Verde Oliva - explorações | Laranja - áreas de influência e comércio | Rosa - reivindicações de soberania | Verde claro - postos comerciais | Azul - principais explorações marinhas, rotas e áreas de influência.

O Império Colonial Português foi o primeiro império global da história, sendo considerado o mais antigo dos impérios coloniais europeus modernos, abrangendo quase seis séculos de existência, a partir da Conquista de Ceuta, em 1415, até a devolução da soberania sobre Macau à China em 20 de Dezembro de 1999.
Fonte: Wikipédia


Esse imenso Império, onde o sol nunca se punha, foi-se reduzindo, ao longo dos séculos, por variadíssimas circunstâncias; quer por guerras que nos moveram franceses e holandeses, quer porque algumas das nossas colónias não voltaram mais à posse de Portugal na restauração de 1640, quer, como aconteceu com o Brasil em 1822, por este grande país da América do Sul se ter tornado independente.

De qualquer forma, ainda em 1960, o Império Colonial Português abrangia uma superfície total de 2.031.935 Km2, correspondendo às superfícies dos seguintes países europeus: Portugal continental, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suíça, Inglaterra e Alemanha.

Em área, Portugal ocupava em 1960 o quarto lugar do Mundo entre os Impérios coloniais dessa altura.

Os territórios que estavam sob o domínio de Portugal eram, além do rectângulo europeu e das ilhas adjacentes, constituídas pelos arquipélagos da Madeira e dos Açores, o arquipélago de Cabo Verde, a Guiné, S. Tomé e Príncipe, S. João Baptista de Ajudá, Angola, Moçambique, Estado da Índia (composto por Goa, Damão e Diu), Macau (na China) e Timor (na Indonésia).

Mas a partir de 1960 este ainda vasto Império começa a desmoronar-se, devido a movimentos de emancipação dos seus povos.

A primeira perda foi a de S. João Baptista de Ajudá, uma presença portuguesa simbólica na costa do Daomé, uma vez que era constituída praticamente por uma fortaleza e um pequeno território – o Sarame – a envolvê-la.

A dezassete de Dezembro de 1961 a União Indiana ocupa militarmente o Estado Português da Índia e anexa Goa, Damão e Diu ao seu território.

Nesse mesmo ano de 1961, em Angola, é iniciada uma guerra de guerrilha contra a nossa permanência naquela área de África, guerra que se estende rapidamente à Guiné e a Moçambique.

Essa guerra, em três frentes, tornar-se-á longa, obrigando a um grande esforço material e humano, com sacrifício de várias gerações de jovens soldados, enquadrados por sargentos e oficiais do quadro permanente e do quadro de complemento (milicianos).

(3) – Damião Peres – Enciclopédia Luso-Brasileira



terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Fernando Magro
A Economia da Guiné
A Feira De Amostras De 1971


Para um observador pouco informado, como eu era, sobre a economia da Guiné, não foi difícil constatar que, nos princípios dos anos setenta, o território possuía muito poucas indústrias.
Os principais estabelecimentos industriais situavam-se em Bissau e resumiam-se às actividades de descasque de arroz , extracção de óleos vegetais, fabrico de sabão, gelo, refrigerantes e construção naval.
Em Farim, principalmente, também a actividade de serração de madeira tinha algum significado.
Era a agricultura a base económica da Guiné. E a sua prática desenvolvia-se segundo dois tipos:
- Sedentária, de bolanha, no litoral, dedicada principalmente à cultura do arroz.
- A de mato, com queimadas e rotação de culturas, no interior, cultivando-se mancarra (amendoim), milho, mandioca, cana sacarina, feijão....
A Guiné, à excepção dos terrenos de Boé, dispõe, do ponto de vista agrícola, de solos ricos, que oferecem condições para a intensificação das culturas tradicionais e outras, porventura mais rentáveis como, por exemplo, a cultura intensiva de banana, de acordo com Vasco Fortuna (Estruturas económicas da Guiné).
No aspecto da exploração das florestas, trata-se de uma actividade de futuro pois existem na Guiné espécies valiosas em matas relativamente homogéneas.
A exportação de madeiras, como o bissilão, o pau-sangue, o pau-preto, o pau-ferro e outros poderá contribuir no futuro para a melhoria da balança comercial do território.
De acordo com Celes Alves, a criação de gado tinha um papel secundário, embora a criação de gado bovino fosse a de maior importância, seguindo-se-lhe o gado caprino, suíno, ovino e asinino.
No que se refere à actividade piscatória, alguns povos do litoral dedicam-se a essa actividade, como os Manjacos e os Bijagós, mas de um modo artesanal.
Os mares da Guiné encerram, no entanto, um bom potencial no capítulo da pesca.
Quanto ao subsolo, a Guiné também não é rica em minérios. Apenas as bauxites e a ilmenite são susceptíveis de exploração.
No mar alto há perspectivas da existência de petróleo.
Nos primeiros anos de setenta a agricultura era a fonte principal da riqueza da Guiné, embora muito prejudicada devido ao conflito armado existente no território.
O arroz (base da alimentação das populações guineenses) cultivava-se nos terrenos mais baixos e nas margens dos canais de fácil irrigação e a sua produção chegou a ser excedentária, antes da guerra, fazendo parte dos produtos exportados tal como a mancarra (amendoim), o coconote, couros, madeira, óleo de palma, cera e borracha.
No tempo em que vivi na Guiné, Bissau era uma cidade com uma actividade comercial significativa.
O território importava quase tudo, pois as suas indústrias eram praticamente inexistentes. A Guiné importava: tecidos, tabaco, vinhos e cerveja, gasolina, ferro e aço, óleos e combustíveis, cimentos, medicamentos, ferramentas, maquinismos e todos os bens de consumo e apetrechos que as sociedades desenvolvidas fabricam.
Este comércio era feito com o interior, principalmente através dos cursos de água como os rios Cacheu, Mansoa, Geba e Cacine e ao longo da ria de Bissau, embora também se pudesse efectuar por estradas principalmente na época seca, antes da guerra.
Também existiam algumas ligações aéreas entre a capital e o interior.
Bissau, com o exterior, tinha ligações aéreas e marítimas com Cabo Verde e Portugal continental.
No espaço de dois anos que permaneci em Bissau pudemos satisfazer todas as necessidades a que eu e a minha própria família estávamos habituados.
As casas comerciais de Bissau eram abastecidas regularmente praticamente de tudo.
Como a água de consumo público muitas vezes se não apresentava nas melhores ccondições, sendo aconselhável que, além de filtrada, fosse fervida, em nossa casa tomámos uma atitude radical: nunca a utilizámos. Saciámos a nossa sede com água do Luso, que adquiria aos garrafões sempre que um barco chegava da metrópole e água Vichy que sempre se encontrava com facilidade, possivelmente vinda do Senegal, país francófono, vizinho da Guiné.
Para juntar ao whisky, a água que usávamos era também a francesa Perrier.
O comércio, como disse, era significativo em Bissau.
Na parte baixa da cidade as casas comerciais proliferavam e algumas delas eram propriedade de libaneses, como a de Taufik Saad e a de Azis Harfouche.

Medalha comerativa da II Feira de Amostras da Guné - 1971
No mês de Maio de 1971 realizou-se a II Feira de Amostras de Bissau, com trinta stands expositores.
Além da amostragem das actividades económicas, onde era possível rapidamente conhecer os artigos comerciáveis em Bissau e os seus preços, também no decorrer da II Feira foi organizado um programa de recreio e cultura, sendo divulgados o artesanato e o folclore da Guiné.
Durante cerca de vinte dias decorreu o certame que se realizou defronte do Palácio do Governo, na Praça na altura designada por Praça do Império.
Houve uma exposição de arte, diversas sessões de folclore, variedades, conjunjos musicais, uma tarde de juventude e uma noite das Forças Armadas.
Os Serviços públicos também expuseram as suas actividades com a divulgação de:
- Realização de cursos;
- Planeamento de obras futuras;
- Dados estatísticos.

E as Entidades Administrativas tais como Administrações de Bafatá, Bijagós, Bissau, Bolama, Cacheu, Catió, Farim, Fulacunda, Gabú, Mansoa e S. Domingos apresentaram vários aspectos das suas actividades, dos seus usos e costumes e do artesanato das áreas que administravam.
Pude aperceber-me na II Feira de Amostras de Bissau, da actividade artesanal do povo daquele território.
Constatei que os Manjacos e os Balantas sobressaíam na olaria; os Brames, os Fulas, os Mandingas e os Nalus na cestaria; os Manjacos e os Papeis na tecelagem; os Fulas e os Mandingas em ourivesaria e trabalhos de pele e couro.
Os Fulas eram famosos também na feitura de chinelos, almofadas, bolsas, sacolas, baínhas de alforges e de punhais, guarnição e vasilhas, selins e outras peças de couro.
Eu próprio adquiri alguns punhais Fulas, uma espada Mandinga, cestinhos Bijagós, uma colecção de cachimbos Bijagós, pulseiras e anéis de Bafatá, uma bilha de Catequese, pinguelins, rodas de ráfia, um tambor e um corá, além de algumas peças esculturais em pau-preto.






Fernando Magro
Férias da Páscoa em Bubaque - Bijagós


Na Páscoa de 1971 consegui uns dias de férias.
Resolvemos eu, a Lena e o nosso filho Fernando Manuel, passá-las no arquipélago de Bijagós.
Esse arquipélago "ocupa uma área de 1.478 Km2, distribuídos por cerca de cinquenta ilhas e ilhéus, que emergem do extenso planalto submarino que se localiza a menos de vinte metros do nível das águas"(1).
As ilhas mais importantes do arquipélago de Bijagós são: Orango, a maior, com 313 Km2; Bubaque, sede de circunscrição, com 48 Km2; Caravela (117 Km2); Formosa (115 Km2); Orangosinho (94 Km2); Roxa (90 Km2); Uno (82 Km2); Coraxe (72 Km2); Maio (52 Km2); Ponta (35 Km2); Meneque (35 Km2); Cagono (27 Km2); Uracane (27 Km2); Rubane (18 Km2); Unhacomo (13 Km2); João Vieira; Cavalos; Meio; Poilão; Soga ...
A origem do povo do arquipélago de Bijagós é duvidosa.
Lemos Coelho diz ter recolhido a tradição de ter este povo sido expulso do continente pelos Beafadas.
Durante séculos os Bijagós exerceram pirataria na costa, trazendo nativos da parte continental com os quais se cruzavam.
"Os Bijagós distinguem-se dos demais povos por viverem em regime de matriarcado, no qual a mulher, como dirigente da economia familiar, desfruta de prerrogativas especiais.
É ela que toma a iniciativa do casamento.
O convite é expresso por um cabaço de arroz cozido enviado ao pretendido.
No caso de separação é ela também que toma a iniciativa. Põe a esteira e os apetrechos do companheiro à porta da palhota, significando com isso não o desejar mais no lar"(1).
Àlvares de Almeida já em 1594 diz que os homens Bijagós nada mais fazem na vida do que três coisas: guerra, embarcações e tirar vinho da palma.
As mulheres, essas fazem as casas, as searas, pescam e mariscam e todo o mais serviço que fazem os homens em outras partes.
Na Páscoa de 1971 desloquei-me em barco militar para a Ilha de Bubaque, sede administrativa do arquipélago.
A viagem foi muito agradável , de tal forma agradável que, por muitos anos que viva, não mais a poderei esquecer.
O mar estava calmo, o céu luminoso, o ar quente.
Quando comecei a aproximar-me do arquipélago fiquei surpreendido com as ilhas que se me desfilavam ao longe.
Os golfinhos davam grandes saltos na proximidade da embarcação.
Entrando propriamente na área do arquipélago, o mar era um canal e a vista sobre as ilhas deslumbrante.
Até ali nunca tinha feito um cruzeiro no Mar Jónio, visitando as ilhas gregas. Na altura supunha que seria uma situação parecida com a que estava a viver.
Mais tarde, quando tive oportunidade de fazer esse cruzeiro pelo Arquipélago Grego, cheguei à conclusão de que a viagem por Bijagós me foi mais agradável, dando-me maior prazer.
Em Bubaque instalámo-nos na Estalagem do Teodoro.
O Teodoro era um negro, já aculturado, que explorava a única instalação hoteleira de todo o Arquipélago.
Essa instalação era composta por umas tantas palhotas que, exteriormente, eram semelhantes às dos Guinéus, mas que interiormente eram dotadas de um quarto, uma saleta e um quarto de banho, divisões devidamente equipadas.
As refeições tinham lugar numa construção de madeira com dois pisos.
No piso superior havia um amplo terraço sobranceiro ao mar onde eram servidas as refeições.
Jantar nesse terraço com o mar praticamente por baixo, o mar que era um canal, uma vez que defronte, não muito longe, se viam perfeitamente outras ilhas; com os golfinhos a exibirem-se continuamente, jantar naquele terraço era uma situação de encantamento e muito prazer.
Aí encontramos o Major Lemos Pires (que mais tarde viria a ser o último Governador de Timor e hoje é General), que também se encontrava em Bubaque em gozo de umas curtas férias com a sua esposa.
Logo que nos viu convidou-nos para a sua mesa, pelo que desfrutámos da sua agradável companhia por alguns dias.
Mais tarde encontrei também o meu colega Linderbrün (engenheiro técnico como eu mas de uma especialidade diferente - enquanto a minha especialidade era engenharia civil a dele era engenharia mecânica).
Estava colocado como Capitão Miliciano em Bissau no Serviço de Material.
Era bom pescador e marisqueiro.
Muitas vezes nos convidou (a mim e à minha família) para a sua palhota, onde preparava peixe grelhado e assava ostras.
Também estava em Bubaque, nessa mesma altura, o Capitão Otelo Saraiva de Carvalho (o estratega do 25 de Abril de 1974) mas não se instalou na Estalagem do Teodoro. Era convidado, segundo julgo, do Administrador.
Os oito dias de férias em Bubaque decorreram com muita satisfação e calma.
Fazíamos praia. A algumas centenas de metros da areia havia, mar dentro, uma protecção contra tubarões, que existiam naquelas paragens. A sua presença era notada sempre que víamos cardumes de pequenos peixes fugindo da sua perseguição até terra firme.
Conversávamos com o casal Lemos Pires.
Comíamos peixe de grande qualidade na Estalagem do Teodoro. E muitas vezes apanhávamos um fartote de ostras na palhota do Linderbrün.
Quando as férias acabaram voltámos a Bissau num barco militar.
Nele vinha o Capitão Otelo Saraiva de Carvalho, a sua mulher e os três filhos, o Intendente e a esposa, o Linderbrün e a mulher e outros de que não me recordo.
A viagem foi iniciada dentro da maior normalidade.
O barco vinha superlotado.
Pouco tempo depois de zarparmos de Bubaque, o vento começou a fazer-se sentir com alguma intensidade.
O mar começou a encapelar. As ondas atingiram alguns metros de altura.
O nosso barco parecia uma casca de noz no meio daquele mar imenso.
As pessoas começaram a assustar-se.
O Intendente, homem já de certa idade, foi-se abaixo.
Numa ocasião em que o nosso barco caíu no cavalo de uma onda para aí de oito metros de altura, a esposa do Capitão Otelo agarrou-se às minhas mãos e, aflita, gritou:
- Senhor Capitão, vamos morrer todos aqui!
Serenei-a como pude, enquanto o marido protegia os filhos.
Surpreendentemente, a Lena e o Fernando Manuel enfrentaram a situação com alguma coragem.
Anoiteceu. Estavamos relativamente perto de Bissau.
As luzes da cidade eram perfeitamente visíveis.
Acabámos por entrar no rio Geba que, tal como o mar, estava também com ondas alterosas. Parecia que o tormento nunca mais acabava.
Finalmente aportámos sãos e salvos.
Foi um alívio.
Desta situação o Capitão Otelo Saraiva de Carvalho, mais tarde, em 1990, sendo entrevistado pelo jornal Público, e sendo-lhe perguntado qual a pior recordação de férias da sua vida, respondeu assim:
"- Na Páscoa de 71, na Guiné-Bissau, regressávamos eu, minha mulher e os nossos três filhos da ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, depois de duas óptimas semanas de férias, quando o barco em que seguíamos, superlotado, esteve prestes a naufragar com um rio/mar encapelado e tormentoso como o Geba o pode ser."

Como não mais me esquecerei da viagem de Bissau até Bubaque por ter sido muito agradável e pelos momentos de encantamento que me proporcionou, não poderei também esquecer, por muitos anos que viva, a viagem de regresso a Bissau, pelas razões que descrevi.

(1) - Enciclopédia Luso-Brasileira