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Como referi anteriormente, eu prestava serviço na CSJD/QG/CTIG - Chefia de Serviço de Justiça e Disciplina do Quartel General do Comando Territorial Independente da Guiné, onde, como Furriel Miliciano Amanuense, coadjuvava um Alferes Miliciano na Secção de “Doenças”. Esta Secção tratava dos processos de doenças, acidentes, ferimentos e mortes (em campanha, em serviço ou em combate) e a minha principal tarefa, para além dos registos, controle e arquivo, era a de verificar se os mesmos estavam devidamente instruídos, isto é; se continham todos os documentos obrigatórios (ficha do militar, testemunhos, relatórios médicos, etc.) e devolvê-los às Unidades instrutoras, se fosse caso disso. Como devem calcular, durante a minha comissão militar na Guiné, passaram-me pelas mãos inúmeros processos daqueles, proporcionando-me um bom conhecimento do que, oficialmente, sucedeu em muitas das acções em que as NT (nossas tropas) sofreram baixas (ferimentos ou mortes) por acção directa ou indirecta do IN (inimigo – PAIGC). Sendo o território da Guiné-Bissau muito pequeno (área equivalente ao nosso Alentejo), qualquer “embrulhanço” (ataque IN) sofrido pelas NT, era rapidamente conhecido em Bissau e os respectivos pormenores eram transmitidos facilmente de boca em boca. Contudo, à boa maneira portuguesa onde; “quem conta um conto acrescenta um ponto”, as notícias chegavam quase sempre exageradas, com algumas bravatas e inúmeras baixas à mistura, factos que não eram minimamente confirmados nos processos que, havendo feridos ou mortos, mais tarde me vinham “parar às mãos”. Num determinado dia em Bissau, constou ter havido um “embrulhanço” às portas da cidade, sofrido por uma qualquer coluna de reabastecimento que dali saíra. Falava-se então à boca cheia, entre militares, ter sido esse “embrulhanço” fruto de uma acção muito violenta do IN e onde morreram algos militares e muitos outros ficaram feridos. Nestes casos mais “mediáticos” eu tinha por hábito registar a notícia no meu “disco duro” e ficar a aguardar os eventuais processos referentes aos feridos e mortos, se os houvesse. E houve! Não mortos, mas apenas dois ou três feridos ligeiros e os respectivos processos lá me vieram parar às mãos mais tarde e, se bem me lembro, o que afinal acontecera terá sido o seguinte: Era uma pequena coluna de reabastecimento cujo destino já não me recordo. Lembro-me que na frente seguia um Unimog com milícias, no meio da coluna duas ou três viaturas com a carga e, a fechar, outro Unimog, mas com militares. A data altura rebenta um pneu da viatura da frente, o pessoal atira-se de imediato para o chão e desata a disparar a torto e a direito. Resumindo: na queda uma milícia partiu um pé, outra deslocou um braço e acho que foi só isso que aconteceu… Passaram-me pelas mãos muitos processos do género, mas também muitos em que os nossos militares foram gravemente feridos ou mortos em circunstâncias horríveis. Muitos deles por falta de assistência, principalmente após a introdução na guerra, por parte do PAIGC, dos misseis Strella, que impediam a Força Aérea de prestar o apoio célere que até aí prestavam às forças terrestres. Mas havia também muita bazófia e esta julgo que se estendia aos três TO’s (Teatros de Operações); Angola, Moçambique e Guiné e era usada mais frequentemente e provavelmente por quem, naquelas guerras, levou uma vida sossegada. Um dos militares mais condecorados do Exército Português, o famoso Alferes Graduado Comando e guineense Marcelino da Mata (hoje Tenente- Coronel), embora reconhecidamente um grande guerreiro, exagerava imenso nos relatos das suas façanhas, referindo algumas vezes ter enfrentado e derrotado, com reduzido número de efectivos, um número elevado de elementos IN, verificando-se posteriormente em relatórios oficiais que nem o seu grupo era tão reduzido, nem o grupo IN tão elevado. Por vezes referia também árvores com mais de cem metros de altura [??]. Se mesmo aqueles cujos actos heroicos eram reconhecidos gostavam de acrescentar uns “pontos”, imaginem os outros que nunca se viram na necessidade de dar um tiro. Recordo-me que, já depois do 25 de Abril e numa das minhas vindas de férias à Metrópole, ter-se passado comigo um pequeno episódio ao qual me lembrei de dar o título de : “Um herói à minha porta”. Morava eu então na cidade do Porto, na Rua Aníbal Cunha onde, perto da minha residência, estava instalada a DORN do PCP. Estávamos no mês de Agosto ou princípios de Setembro de 1974 e houve uma tentativa de assalto àquela sede do PCP, com tiros à mistura, pelo que havia dois cordões militares; um junto à Rua da Torrinha e outro junto à Faculdade de Farmácia (portanto, um no início e outro quase no final da rua) para impedir a passagem de pessoas. A mim deixaram-me passar por ser morador, mas fiquei por ali, junto à porta de entrada da minha residência, a ver o evoluir dos acontecimentos. Acalmados os ânimos e abrandada a segurança, chega-se junto a mim um camarada da Guiné, dali daquelas Unidades Militares perto do QG/CTIG e que por cá se encontrava de férias, ou tinha terminado a comissão (não me recordo) e, acompanhado da respectiva namorada / mulher (?), começa com esta conversa: “- Ó Magro, estes gajos aqui a brincar às guerrinhas! Queria ve-los lá na Guiné, como nós, a aguentar aqueles ‘embrulhanços’!” Claro que não tive coragem para desmascarar o “herói do ar condicionado” junto da namorada, ou mulher, mas aquela narrativa era bem demonstrativa da bazófia que alguns dos nossos camaradas usavam junto de familiares e amigos para se arvorarem em bravos combatentes, ainda que muitos deles não tivessem dado qualquer tirito. Provavelmente “arrumavam com eles à chapada”! Nunca se sabe…, ele há “heróis” p'ra tudo…! |
A gesta de seis irmãos que cumpriram Serviço Militar em África (Angola, Guiné e Moçambique).
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Abílio Magro
Um Herói à Minha Porta
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Fernando Magro
O Meu Irmão Álvaro
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O esforço humano (e material) dos portugueses para responder às guerras de África, nas três frentes (Angola, Guiné e Moçambique) era enorme no final da década de sessenta e nos primeiros anos da década de setenta. No caso da minha família nós éramos (e somos) oito irmãos, seis dos quais homens. Todos os seis foram chamados a prestar serviço militar obrigatório e todos foram mobilizados: um para Moçambique, como alferes miliciano, dois para Angola sendo um deles no posto de furriel e o outro como cabo especialista da Força Aérea e três para a Guiné, sendo eu o mais velho, como capitão, o mais novo como furriel e o imediatamente a seguir ao mais novo como primeiro-cabo auxiliar de enfermeiro. A vida militar deste último cruzou-se mesmo com a minha, pois fazendo parte da Companhia de Artilharia 3493, foi mobilizado para a Guiné e colocado em Mansambo, na região de Bafatá, quando eu me encontrava ao serviço do Batalhão de Engenharia 447. Fui esperá-lo, subindo ao barco que o trouxe e fundeou ao largo de Bissau, nos primeiros dias de Dezembro de 1971. Pedi ao seu Comandante que, logo que possível, o deixasse passar comigo alguns dias em Bissau, o que aconteceu em princípios de Janeiro de 1972. Ele, nessa altura, queixou-se muito da vida difícil e perigosa que levava no mato e eu, depois de ele regressar à sua Companhia, comecei a congeminar um processo de o trazer para o Hospital Militar de Bissau. O que determinou a minha diligência nesse sentido foram as notícias que dele recebi em Fevereiro de 1972. Nelas me dizia que tinha entrado numa operação militar de um dia e duas noites e que, a certa altura, no meio do mato, foi dada ordem pelo Alferes, Comandante do seu pelotão, para que o pessoal descansasse por algum tempo. Como havia perdido a noite anterior, acabou por adormecer, protegido pela vegetação. Quando acordou foi grande o seu espanto ao se encontrar completamente só no meio do mato, numa região que sabia ser frequentada por “terroristas”. No aerograma que me enviou relatava, desta maneira, o sucedido: "Não imaginas o meu estado de espírito ao ver-me só e perdido dentro daquela mata densa. Andei cerca de uma hora perdido, cheio de medo. Cheguei a pensar que seria apanhado pelos terroristas e que nunca mais voltaria a ver a família. Procurei encobrir-me com a vegetação, mas se porventura tinha de atravessar uma clareira, fazia-o rastejando. Por fim encontrei um trilho por onde segui algum tempo, encharcado em suor. Finalmente vi, ao longe, um pequeno grupo de militares. Aproximei-me deles correndo o mais que pude e quando me pareceu que a minha voz poderia por eles ser ouvida, gritei com quanta força tinha. Era tropa da minha Companhia, embora não fosse do meu pelotão. Contei o que havia acontecido, quase sem poder falar, por estar muito cansado. Não tive nenhuma culpa do sucedido." Eu conhecia o Director do Hospital, embora não tivesse com ele grandes relações. Conhecia-o dum jantar festivo a que ele compareceu, como convidado, no Batalhão de Engenharia. Lembrei-me de o procurar. Relatei-lhe que tinha um irmão como cabo enfermeiro no mato, irmão que tinha tido, quando adolescente, problemas de saúde e mesmo uma paralisia facial. Contei-lhe o que havia sucedido por dele se terem esquecido, quando adormeceu de cansaço no meio da vegetação. Perguntei-lhe, depois, quantos cabos enfermeiros faziam serviço no seu Hospital e se todos mereciam estar lá colocados. Referiu-me que tinha algumas dezenas de cabos enfermeiros e que, pelo menos um deles, teria de o castigar severamente e de o mandar para o mato porque tinha roubado alguns militares feridos ou doentes. Estes militares, como de resto acontecia com todos, quando chegaram ao Hospital Militar receberam um pijama próprio e as suas fardas e haveres foram guardados em armários metálicos individuais. Esse cabo enfermeiro conseguiu ter acesso a alguns desses armários e havia roubado dinheiro e outros pertences dos doentes. "- E, ainda por cima, ontem embriagou-se e fez por aí uma série de disparates. Vai com certeza apanhar alguns dias de prisão e, por via disso, terá de ser colocado numa companhia destacada no mato", referiu o meu interlocutor. Perante este relato do Director do hospital perguntei-lhe se não seria possível que o cabo enfermeiro, cujo comportamento merecia uma punição exemplar, fosse colocado por troca na companhia do meu irmão. Evitar-se-ia, continuei eu, que na caderneta militar do rapaz fosse averbado um castigo que, naturalmente, lhe poderia trazer prejuízo na sua vida futura. Com a sua ida para uma unidade de combate, sofreria de qualquer forma uma pesada punição e essa situação talvez o obrigasse a reflectir no sentido de melhorar o seu comportamento. Assegurei ao Director, por outro lado, que a conduta do meu irmão Álvaro seria irrepreensível no caso de vir a ser colocado naquele Hospital Militar. Por isso responsabilizar-me-ia eu próprio. O Coronel-médico reflectiu e depois ditou-me os termos de uma declaração, em que o meu irmão teria de assinar em como concordava ser transferido para o Hospital Militar de Bissau em troca com o tal 1º cabo auxiliar de enfermagem mal comportado. Disse-me o Director que iria chamar o rapaz à sua presença e que o aconselharia a requerer a sua transferência para a companhia de artilharia 3493 de Mansambo por troca com o meu irmão Álvaro. No caso de ele concordar, a minha pretensão seria bem sucedida e eu estava convicto que ele iria dar o seu acordo porque não poderia continuar mais tempo ali, tendo inevitavelmente de ser castigado e enviado para o mato. Despedi-me do Coronel-médico com a continência regulamentar e aguardei os acontecimentos. A 20 de Fevereiro de 1972 foi publicada uma nota da 1ª repartição do Quartel-general do Comando Territorial Independente da Guiné que continha a oficialização da referida transferência. Dois dias depois, quando entrei em casa vindo do quartel, tinha à minha espera o meu irmão Álvaro. |
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Fernando Magro
A Minha Casa em Bissau
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Em 24 de Junho de 1970 a Lena e o meu filho Fernando Manuel chegaram a Bissau, depois de cumprido o ano escolar de 1969-1970. Foram viver para uma pequena moradia situada na Avenida Arnaldo Schultz, que eu tinha conseguido alugar. (o meu carro junto à minha casa em Bissau) A nossa casa localizava-se muito próximo do Quartel da Polícia. Era uma pequena vivenda, com uma sala de estar, outra de jantar, dois quartos, cozinha e casa de banho. Mas tinha à sua volta um pequeno jardim no qual havia duas bananeiras e uma linda acácia rubra. Dada a minha posição na hierarquia militar tive direito a um impedido. Foi-me atribuído para exercer essas funções um soldado negro, que anteriormente havia sido "terrorista", de nome Moba, de religião muçulmana. Tinha já três mulheres quando entrou ao meu serviço e vários filhos. Andava sempre com dificuldades financeiras. Muitos dias antes do pagamento do pré1 pedia-me adiantamentos e isto quase todos os meses. Dizia-me que não tinha dinheiro para comprar a "vianda" para os meninos. E eu adiantava-lhe o pré. A sua religião proibia-o de beber vinho. Mas para ele vinho somente era o tinto. Desta forma iludia as suas próprias convicções religiosas, pois dizia-me que o vinho branco era água de Lisboa e como tal não lhe estava proibido bebê-lo. Quando a sede lhe apertava pedia-me: - Capitão, dá-me um copo de água de Lisboa. E eu, em regra, satisfazia-lhe o pedido. Um dia pediu-me férias. - Férias nesta altura, Moba? Sim, Capitão. Preciso de alguns dias de férias para casar. - Outra vez?! - admirei-me eu. Já tens três mulheres e não sei quantos filhos e queres casar outra vez? O dinheiro não te chega a nada, estás sempre a pedir-me adiantamentos e ainda queres outra mulher? Preciso, Capitão. Vou casar com uma "bajuda". Quando eu e as minhas outras mulheres envelhecermos ela tratará de nós. Perante esta explicação não pude deixar de dar férias ao meu impedido Moba. E a explicação que me deu levou-me a considerar que a organização social dos muçulmanos protege a velhice dos seguidores dessa religião. Também entre as várias mulheres de um só homem não se verifica a existência do ciúme. Era usual pentearem-se umas às outras em frente das palhotas, convivendo amigavelmente. Tivemos também uma lavadeira negra de nome Inácia. Durante o tempo que esteve ao nosso serviço o marido adoeceu gravemente e acabou por morrer. (A Lena e a lavadeira Inácia) Ficamos muito tristes com o infausto acontecimento uma vez que tínhamos muita estima pela Inácia, que era muito boa mulher. Sempre que me irritava com alguma traquinice do meu filho e lhe ralhava ela punha-se imediatamente à frente e rogava-me: - Capitão, não batas ao menino. Capitão, por favor. Por isso quisemos saber da futura situação da Inácia e do seu pequeno filho. Ela informou-nos que tudo estava assegurado. Passaria a pertencer a um cunhado e o "tiozinho" passaria a ter a responsabilidade de tratar e criar o miúdo. Era uma criatura paciente, humilde e meiga. Gostava muito do meu filho. Dizia a respeito dele, muitas vezes: - Menino, tem esperto na cabeça. Tivemos também uma "bajuda" para a limpeza. Era uma rapariga muito nova que, findo o trabalho, se despia completamente nas traseiras da nossa casa e se lavava com a mangueira do jardim. Encontrei o meu filho, algumas vezes, por detrás da persiana, gozando o espectáculo que a "bajuda" oferecia sem o mínimo pudor. (O meu filho Fernando Manuel com duas bajuditas) A nossa alimentação vinha da Messe de Oficiais do Batalhão de Engenharia pelo que não cozinhavamos. Também tivemos um pequeno cão, o Perna Longa, e um periquito. Uns tempos antes de regressarmos a Portugal demos o cão. O Moba tratou de o levar para o novo dono que habitava longe de nós. O animal procurou e conseguiu voltar a nossa casa, orientando-se não sei como por entre aquele emaranhado de bairros de palhotas que circundavam a cidade. Só depois de ser preso pelo novo dono é que deixou de nos aparecer. Quanto ao periquito ofereci-o ao Major (é hoje General) Carlos Azeredo. Ele tinha um periquito que morreu. O major falara-me do seu passamento com alguma tristeza. Perto de regressarmos , para aliviar a tristeza do major, ofereci-lhe o periquito. Nutria por este major uma certa simpatia, enquanto permaneci na Guiné. Mais tarde vim a saber que entre a minha família e a dele havia fortes relações, dada a proximidade das "casas" a que ambos pertencemos. Ele é oriundo da Casa do Cabo de Marco de Canavezes e eu da Casa da Seara de Magrelos. Enquanto durou a minha comissão na Guiné a Lena trabalhou como professora na Escola Preparatória de Bissau e o nosso filho Fernando Manuel fez lá a 4ª classe, a admissão ao Liceu e o 1º ano do Ciclo Preparatório. |
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quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Abílio Magro
Guerra "Copofónica"
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Pelas tarefas que desempenhava na CSJD/QG/CTIG (Serviço de Justiça), fui-me apercebendo que muitas doenças, ferimentos e até mortes eram resultantes do abuso da ingestão de bebidas alcoólicas, mas quem, durante a sua comissão, não apanhou a sua "tosgazita"? Porém, quando estamos num TO e somos possuidores de uma arma de guerra, uns copitos com os camaradas e algum descontrolo podem resultar em tragédia. Este pequeno episódio que se passou comigo é bem elucidativo disso mesmo, e se o multiplicarmos por dezenas, ou até centenas (durante toda a guerra colonial, talvez milhares) e o transpusermos para uma qualquer companhia no mato, não será difícil adivinhar a quantidade de incidentes com finais trágicos que ocorreram durante aquela guerra. Numa das minhas várias seguranças nocturnas que fiz às instalações da PIDE/DGS em Bissau, junto ao bairro do "Pilão", comandando um pequeno grupo de seis ou sete homens, deu-se um episódio que me deixou bastante incomodado e "acagaçado". O pessoal que integrava estes pelotões pertencia à CCS/QG e apresentava-se à noite, para efectuar o "serviço", já bastante cansado das muitas “picadas” percorridas durante o dia entre gabinetes e, alguns com muitas paragens para reabastecimento no Bar. Por norma, estacionávamos numa pequena ruela, nas traseiras da DGS, que dava acesso ao Bairro do Cupilom e ali, junto a uma tabanca, o pessoal "ferrava o galho" com uma "pinta do caraças"! Eu nunca dormia e não era por medo ..., não senhor! Era pelo meu elevado sentido de responsabilidade e pela obrigação moral de zelar pelo merecido descanso daqueles bravos militares. Nessa noite, íamos talvez fazer o turno das 00h00 às 04h00 e tínhamos acabado de chegar ao "objectivo" quando entra na ruela um táxi conduzido por um negro e com um "pendura" negro também. De repente, um "fabiano" do pelotão manda parar o táxi, puxa a culatra a trás, e apontando a arma ao "pendura", indaga: - "Quem és tu, para onde vais!?" Oh valha-me Deus, “carago”, que é isto!? Pergunto-me a mim próprio, completamente apalermado. Passados uns segundos logo me apercebi que o "fabiano" estava com uma valente "tosga", daquelas chamadas de "caixão à cova". Ai meu Deus se o “gajo” dispara aquela merda! Com “pinças” e tentando manter a calma do "fabiano" (eu tremia todo e devia estar azul - ai s'aquilo dispara!), a muito custo, mas muito de levezinho, lá consegui retirar-lhe a arma e desarmá-la, apetecendo-me logo de seguida dar-lhe uma valente coronhada na "tola", mas lembrando-me de algumas "tosgas" próprias, lá pedi desculpas ao taxista e Cª e mandei-os seguir viagem. Pelo "telemóvel" contactei o Af.Milº de prevenção (um amigo dos tempos do QG de Lisboa) e, com receio de possíveis escutas, disse-lhe apenas que precisava da presença dele pois havia um pequeno problema. Apareceu passado pouco tempo de Unimog e com mais um pelotão, meio confuso por não perceber nada do que se estava a passar. Chamei-o à parte e lá lhe contei o que acontecera. Substituiu-se o "fabiano" que seguiu de Unimog para o Quartel e tudo o resto decorreu normalmente. Acordamos depois que não faríamos qualquer participação e o "fabiano" livrou-se duma valente "porrada". Eu ..., apanhei mais um valente "cagaço". |
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Fernando Magro
A Economia da Guiné
A Feira De Amostras De 1971
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Para um observador pouco informado, como eu era, sobre a economia da Guiné, não foi difícil constatar que, nos princípios dos anos setenta, o território possuía muito poucas indústrias. Os principais estabelecimentos industriais situavam-se em Bissau e resumiam-se às actividades de descasque de arroz , extracção de óleos vegetais, fabrico de sabão, gelo, refrigerantes e construção naval. Em Farim, principalmente, também a actividade de serração de madeira tinha algum significado. Era a agricultura a base económica da Guiné. E a sua prática desenvolvia-se segundo dois tipos: - Sedentária, de bolanha, no litoral, dedicada principalmente à cultura do arroz. - A de mato, com queimadas e rotação de culturas, no interior, cultivando-se mancarra (amendoim), milho, mandioca, cana sacarina, feijão.... A Guiné, à excepção dos terrenos de Boé, dispõe, do ponto de vista agrícola, de solos ricos, que oferecem condições para a intensificação das culturas tradicionais e outras, porventura mais rentáveis como, por exemplo, a cultura intensiva de banana, de acordo com Vasco Fortuna (Estruturas económicas da Guiné). No aspecto da exploração das florestas, trata-se de uma actividade de futuro pois existem na Guiné espécies valiosas em matas relativamente homogéneas. A exportação de madeiras, como o bissilão, o pau-sangue, o pau-preto, o pau-ferro e outros poderá contribuir no futuro para a melhoria da balança comercial do território. De acordo com Celes Alves, a criação de gado tinha um papel secundário, embora a criação de gado bovino fosse a de maior importância, seguindo-se-lhe o gado caprino, suíno, ovino e asinino. No que se refere à actividade piscatória, alguns povos do litoral dedicam-se a essa actividade, como os Manjacos e os Bijagós, mas de um modo artesanal. Os mares da Guiné encerram, no entanto, um bom potencial no capítulo da pesca. Quanto ao subsolo, a Guiné também não é rica em minérios. Apenas as bauxites e a ilmenite são susceptíveis de exploração. No mar alto há perspectivas da existência de petróleo. Nos primeiros anos de setenta a agricultura era a fonte principal da riqueza da Guiné, embora muito prejudicada devido ao conflito armado existente no território. O arroz (base da alimentação das populações guineenses) cultivava-se nos terrenos mais baixos e nas margens dos canais de fácil irrigação e a sua produção chegou a ser excedentária, antes da guerra, fazendo parte dos produtos exportados tal como a mancarra (amendoim), o coconote, couros, madeira, óleo de palma, cera e borracha. No tempo em que vivi na Guiné, Bissau era uma cidade com uma actividade comercial significativa. O território importava quase tudo, pois as suas indústrias eram praticamente inexistentes. A Guiné importava: tecidos, tabaco, vinhos e cerveja, gasolina, ferro e aço, óleos e combustíveis, cimentos, medicamentos, ferramentas, maquinismos e todos os bens de consumo e apetrechos que as sociedades desenvolvidas fabricam. Este comércio era feito com o interior, principalmente através dos cursos de água como os rios Cacheu, Mansoa, Geba e Cacine e ao longo da ria de Bissau, embora também se pudesse efectuar por estradas principalmente na época seca, antes da guerra. Também existiam algumas ligações aéreas entre a capital e o interior. Bissau, com o exterior, tinha ligações aéreas e marítimas com Cabo Verde e Portugal continental. No espaço de dois anos que permaneci em Bissau pudemos satisfazer todas as necessidades a que eu e a minha própria família estávamos habituados. As casas comerciais de Bissau eram abastecidas regularmente praticamente de tudo. Como a água de consumo público muitas vezes se não apresentava nas melhores ccondições, sendo aconselhável que, além de filtrada, fosse fervida, em nossa casa tomámos uma atitude radical: nunca a utilizámos. Saciámos a nossa sede com água do Luso, que adquiria aos garrafões sempre que um barco chegava da metrópole e água Vichy que sempre se encontrava com facilidade, possivelmente vinda do Senegal, país francófono, vizinho da Guiné. Para juntar ao whisky, a água que usávamos era também a francesa Perrier. O comércio, como disse, era significativo em Bissau. Na parte baixa da cidade as casas comerciais proliferavam e algumas delas eram propriedade de libaneses, como a de Taufik Saad e a de Azis Harfouche. Medalha comerativa da II Feira de Amostras da Guné - 1971 No mês de Maio de 1971 realizou-se a II Feira de Amostras de Bissau, com trinta stands expositores. Além da amostragem das actividades económicas, onde era possível rapidamente conhecer os artigos comerciáveis em Bissau e os seus preços, também no decorrer da II Feira foi organizado um programa de recreio e cultura, sendo divulgados o artesanato e o folclore da Guiné. Durante cerca de vinte dias decorreu o certame que se realizou defronte do Palácio do Governo, na Praça na altura designada por Praça do Império. Houve uma exposição de arte, diversas sessões de folclore, variedades, conjunjos musicais, uma tarde de juventude e uma noite das Forças Armadas. Os Serviços públicos também expuseram as suas actividades com a divulgação de: - Realização de cursos; - Planeamento de obras futuras; - Dados estatísticos. E as Entidades Administrativas tais como Administrações de Bafatá, Bijagós, Bissau, Bolama, Cacheu, Catió, Farim, Fulacunda, Gabú, Mansoa e S. Domingos apresentaram vários aspectos das suas actividades, dos seus usos e costumes e do artesanato das áreas que administravam. Pude aperceber-me na II Feira de Amostras de Bissau, da actividade artesanal do povo daquele território. Constatei que os Manjacos e os Balantas sobressaíam na olaria; os Brames, os Fulas, os Mandingas e os Nalus na cestaria; os Manjacos e os Papeis na tecelagem; os Fulas e os Mandingas em ourivesaria e trabalhos de pele e couro. Os Fulas eram famosos também na feitura de chinelos, almofadas, bolsas, sacolas, baínhas de alforges e de punhais, guarnição e vasilhas, selins e outras peças de couro. Eu próprio adquiri alguns punhais Fulas, uma espada Mandinga, cestinhos Bijagós, uma colecção de cachimbos Bijagós, pulseiras e anéis de Bafatá, uma bilha de Catequese, pinguelins, rodas de ráfia, um tambor e um corá, além de algumas peças esculturais em pau-preto. |
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Fernando Magro
Passagem de Ano na Associação Comercial
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Fernando Magro
Actividades não Oficiais
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Na esplanada do café Bento, em Bissau, encontrei o Inocêncio, que conhecia da Metrópole. Ele tinha sido funcionário da Câmara Municipal de Viseu e era genro de um capataz de obras públicas da Junta Autónoma de Estradas onde eu trabalhara. Fez-me uma festa. - O Senhor Engenheiro aqui, na Guiné?! Expliquei-lhe a situação em que me encontrava como Capitão ao serviço do Exército. Disse-me ele que estava colocado nos Serviços Administrativos da Tecnil, uma empresa de construções, especialmente vocacionada para a abertura e pavimentação de estradas, cujos donos eram oriundos de Viseu. Também me disse que, naquela altura, não tinham nenhum técnico qualificado na empresa e que o Governo havia adjudicado à Tecnil as pavimentações de diversos arruamentos de Bissau. Que iria telefonar à noite para Lisboa ao Engenheiro Ramiro Sobral (um dos donos), como diariamente fazia, e o iria informar que eu estava em Bissau. - O Senhor Engenheiro não nos quererá dar uma ajuda? Disse-lhe que me era impossível, uma vez que estava preso ao serviço militar praticamente das 9 horas da manhã até às 17 horas. Respondeu-me que bastaria que passasse todos os dias pela obra às oito horas da manhã, no início dos trabalhos, para combinar com o encarregado a tarefa do dia tirando-lhe qualquer dificuldade que tivesse. Depois, durante o dia mesmo à hora do almoço bastava que passasse rapidamente pela obra para me assegurar que os trabalhos corriam com regularidade. E isso chegava. Nessas condições disse-lhe que poderia contar com a minha colaboração. No dia seguinte o Inocêncio apareceu-me no Batalhão de Engenharia comunicando-me que o Engenheiro Ramiro Sobral me pedia que entrasse imediatamente ao serviço da Tecnil e começasse por estudar os processos de adjudicação das obras e as condições em que as mesmas teriam de ser levadas a efeito para que, logo que possível, os trabalhos pudessem ser iniciados. Assim entrei ao serviço da empresa sem sequer saber qual seria meu ordenado. Só o vim a saber passados três meses, quando o Engenheiro Ramiro Sobral se deslocou a Bissau e me perguntou quanto queria ganhar. Informei-o do tempo diário que dedicava à Tecnil, tanto nos locais das obras como com os estudos dos projectos. E disse-lhe que ele sabia melhor do que eu, naquelas condições, quanto poderia valer o meu trabalho. Adiantou-me um valor mensal que era sensivelmente o que auferia a tempo inteiro em Viseu, na J.A.E.. Aceitei imediatamente a sua proposta. Trabalhando para a Tecnil, orientei os trabalhos de arranjo e modificação do perfil da Avenida da República junto ao Largo de Nuno Tristão e ao edifício da Sociedade Gouveia e do Café Bento, local onde, quando chovia, se juntava muita água e cujo escoamento era difícil. Orientei ainda os trabalhos de pavimentação das ruas de Angola e de Moçambique e da estrada de Bor, desde o Largo de Teixeira Pinto até à estrada de Santa Luzia. Projectei e executei, quase completamente, o edifício das novas instalações da Tecnil junto à estrada de Santa Luzia. Também encontrei em Bissau o Dr. Moniz, que conhecia de Viseu como professor da Escola Industrial. O Dr. Moniz, que possuía uma casa senhorial em Rio de Moinhos, em certa ocasião necessitou de umas árvores e arbustos e dirigiu-se à Direcção de Estradas de Viseu no sentido de conseguir o que pretendia dos viveiros da J.A.E.na Queiriga. O meu Director mandou-o entender-se comigo, uma vez que, na altura, além da responsabilidade da conservação da rede rodoviária nacional da área de Viseu, também geria o referido viveiro da Queiriga. Facultei-lhe o que pretendia. O nosso conhecimento teve origem nesse facto e ele ficou-me sempre agradecido. O Dr. Moniz informou-me que era Director da Escola Comercial e Industrial de Bissau e que precisava de porfessores. - O Senhor Engenheiro é que poderia resolver-me um problema. Não tenho professores de Matemática nem de Desenho. Disse-lhe que era absolutamente impossível satisfazer o que pretendia uma vez que saía do Quartel cerca das 17 horas. - Mas o meu problema é justamente no horário nocturno. Retorqui-lhe que já tinha o serviço da Tecnil e que, depois do jantar, ficava por casa a fazer companhia à família e a descansar. - No entanto, continuou o Dr. Moniz, o horário nocturno aqui em Bissau começa justamente às 18 horas e o serviço docente a partir dessa hora é pago a dobrar. Não quererá o Sr. Engenheiro ao menos leccionar duas horas por dia das 18 às 20 horas? Nessas condições aceitei o que o Dr. Moniz me propunha e passei a ser professor de Matemática e de Desenho Geral na Escola Comercial e Industrial de Bissau, exercendo essa actividade durante dois anos lectivos (1970-1971 e 1971-1972). Fiquei com o meu tempo completamente preenchido até às 20 horas. Nos fins-de-semana, e em casa à noite, ainda tive tempo de realizar alguns projectos de engenharia civil, a saber: - Projecto de um edifício misto, com snack-bar, apartamentos e armazém para a Sociedade Comercial Ultramarina de colaboração com o Arquitecto Fernando Pereira Morgado, Capitão miliciano como eu; - Projecto das infra-estruturas de um bairro de casas económicas para a Caixa de Previdência dos Funcionários Civis; - Projecto de um bloco de apartamentos com rés-do-chão comercial para António Amaro; - Projecto de um bloco de apartamentos e das instalações para uma fábrica de camisas. Algumas pessoas que me estavam mais ligadas começaram, a dada altura, a aperceber-se destas minhas actividades bem como dos rendimentos que auferia e, por isso, na área militar passei a ser conhecido como "Capitão Caça-níqueis". |
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Abílio Magro
Bombas em Bissau
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Bomba no Café Ronda O Café Ronda situava-se na Av. da República, um pouco mais abaixo do cinema UDIB e do lado contrário ao deste. Segundo me recordo, possuía uma espécie de esplanada coberta e ali se juntavam muitos militares (uns fardados, outros trajando à civil) que lá bebiam o seu cafézinho ou "bejeca", entre outras coisas. Tinha também um pequeno balcão que dava para uma rua transversal e onde também se podia beber o "cimbalino" ou a "bejeca" de pé e do lado de fora, com um atendimento muito mais célere. Numa determinada noite do ano de 1973, eu e mais dois ou três camaradas meus, tomamos o nosso cafézinho no balcão referido e seguimos de imediato para o cinema UDIB para assistir à exibição de um qualquer filme que por lá andava. Poucos minutos depois do início da exibição do filme, dá-se um tremendo rebentamento lá fora e, quase de seguida se ouvem diversas viaturas com buzinadelas e sirenes, indiciando haver constante transporte de feridos. É interrompida a exibição do filme e surge uma voz aos altifalantes do cinema, solicitando a todos os médicos que eventualmente por ali se encontrassem, o favor de se dirigirem de imediato ao Hospital Militar. Estão mesmo a ver onde este vosso camarada se dirigiu para ver o resto do filme, né? Pois, acertaram! Direitinho às Instalações Militares de Santa Luzia, onde se encontrava implantado o seu maravilhoso "T2"! Tinham colocado uma bomba no Café Ronda, que explodiu quando este se encontrava repleto de clientes, tendo causado alguns mortos e muitos feridos. Nesse atentado ficou gravemento ferido um "piriquito" com 2 ou 3 dias de Guiné e que eu tinha conhecido no dia anterior, pois tratava-se do "pira" que ia substituir na CSJD o meu camarada Fur. Milº Costa que terminara a sua comissão e tinha já viajado para a Metrópole. Aquele "piriquito" acabou por ser evacuado para Lisboa e soubemos mais tarde que fora dado como incapaz. Recordo-me do nome - Romão. Como é sabido, tratando-se de pessoal de 'rendição individual', tinha de haver um período mínimo de 10 dias de trabalho em conjunto, em que o substituído transmitia ao "pira" todas as informações relacionadas com as tarefas que este iria passar a executar e só depois isso, era autorizado o regresso a casa do "velhote". Mas o camarada Costa, de Estarreja, era de "olho vivo e pé ligeiro" e teve artes de obter a lista oficial do pessoal que vinha no avião que estaria para chegar e onde constava o nome do seu substituto (Fur. Milº Romão) e, junto do Ten. Cor. (nessa altura o Major já tinha sido substituído), teve artes ainda maiores de o convencer que a substituição estava assegurada e que a transmissão de serviço se faria sem problemas de maior, com a colaboração dos Advogados a quem tinha solicitado previamente essa ajuda, obtendo, assim, o tão almejado papel. E lá conseguiu embarcar e viajar para a Metrópole no mesmo avião em que o seu "pira" tinha viajado para Bssau. Entretanto, deram-se os acontecimentos do Café Ronda, acima relatados, e a substuição não se deu, sobrecarregando durante algum tempo os Advogados (Alferes Milºs). Bomba no QG/CTIG Num certo dia de JAN/FEV de 1974, encontrando-me eu a convalescer de uma operação às varizes a que tinha sido submetido no HMBIS e bebendo uma "cervejola" sentado na esplanada da Messe de Sargentos de Santa Luzia, num final de tarde, dá-se semelhante rebentamento por ali perto que julgo me fez levitar por breves segundos. Segue-se de imediato o buzinar contínuo e enervante da sirene de alarme do QG e a debandada geral, desordenada e atarantada do pessoal que por ali estava. Verificam-se então cenas dignas de um qualquer filme de Charlie Chaplin. Com efeito, face ao crescente temor de que um dia a "coisa" ia chegar a Bissau, o pessoal andava algo receoso e muito nervoso. Quais baratas tontas, cada um reagiu da forma que julgou mais conveniente, vericando-se que alguns procuraram locais que se assemelhassem a valas, tipo condutas de águas pluviais, e aí se deitaram. Eu, com a valentia que me é reconhecida e como é meu apanágio nestas situações, dirigi-me de imediato para o objectivo, isto é: direitinho ao quarto! Nessa altura já não convivia com as baratas do "Biafra" e já habitava num "T2" (4 + 2 Furrieis) que, por sinal, ficava na direcção do QG e bem mais perto deste. Quem me viu avançar decidido em direcção ao QG (leia-se quarto) terá pensado: "se este vai, vou também!". O grupo foi engrossando e, quando passei à porta do meu "T2", não tive "lata" para entrar e lá segui com a "malta" até ao portão do QG. Aí, quem estava completamente atarantado era o meu camarada madeirense Fernandes que estava de Sargento da Guarda e não sabia para que lado se havia de virar. Logo pensei: - "Olha se era comigo, ia ser bonito ia! Desta vez mandavam-me para o Burkina Faso! Resumindo: Tinham colocado no QG uma bomba de alguma potência que mandou o telhado pelo ar e deitou paredes abaixo. Vi então sair em direcão ao Hospital o mercedes do Comando com o, já Brigadeiro, Galvão de Figueiredo que apresentava um ferimento no pescoço que, soube-se depois, era de pouca gravidade. Se o rebentamento se tivesse dado mais cedo, as consequências teriam sido bem mais graves como constatei mais tarde quando regressei ao serviço, pós-convalescença. Bomba no autocarro da Base Aérea Não presenciei este acontecimento, do qual apenas me chegou alguma informação difusa de que teria sido colocada uma bomba no autocarro da Base Aérea, sem grandes consequências pelo facto de aquele se encontrar completamente vazio. "Bomba" no Clube de Oficiais do CTIG Nas Instalações Militares de Santa Luzia existia um Clube de Oficiais, composto de acomodações, messe, piscina, bar e cinema ao ar livre (podia-se fumar enquanto se via uma "sessão" - "porreiro pá!"). A classe de Sargentos tinha acesso a esse Clube para assistir à exibição de filmes e, uma vez por semana (5ªs-Feiras julgo eu) tinha também acesso à piscina. O local era circundado por um muro formado com aqueles tijolos geométricos que permitem ver de um lado para o outro. O cinema era montado no recinto da piscina e a tela era composta de um grande pano branco suportado por 2 altas estacas. As cadeiras eram metálicas, daquelas de fechar, usadas normalmente nos parques de campismo e nas nossas praias. Nestas circunstâncias, as sessões de cinema eram efectuadas à noite como é óbvio e, como do outro lado do muro existiam tabancas, os respectivos habitantes viam o filme do outro lado da tela com as legendas do avesso, o que nunca impedia uma razoável assistência nativa. Quando no filme se desenrolava uma qualquer cena de pancadaria entre um branco e um negro (Siney Poitier, por ex.) e o negro dava um murro no branco, invariavelmente se ouvia uma grande salva de palmas vinda do outro lado do muro. Compreensível, diga-se de passagem. Alguns soldados sentavam-se nos muros e também assistiam ao espectáculo. Naquela altura pairavam no ar receios fundados de provável início de guerrilha urbana em Bissau. Ali, no cinema ao ar livre e com as luzes apagadas por via da exibição cinematográfica, e com as tabancas do outro lado do muro..., uma bombita era "canja!" O pessoal andava nervoso. Naquela noite o cinema estava cheio como de costume. Eu também lá estava a ver uma "sessãozita". De repente ouve-se o ruído de um rastilho seguido de um clarão e a debandada foi geral! Com a confusão, algumas cadeiras "ensarilharam-se" provocando tropeções e quedas e, os que caiam ao chão eram espezinhados pelos outros, como aconteveu comigo. No chão, a ser espezinhado e com as cadeiras a atrapalhar, não conseguia fugir e entrei em pânico...! Ouvia o som das "Kalashnikov's"...! Ia ser apanhado à mão...! Despedi-me da família...! Passadas longos minutos, lá me consegui erguer e, já pronto para saltar o muro, ouço risadas! O pessoal da primeira fila tinha-se safado bem das cadeiras e, junto à tela, deliciava-se com o espectáculo. Extremamente nervoso e com o coração a bater a 200 r.p.m., mandei umas "bocas foleiras" aos de "tacha arreganhada" e dirigi-me ao chuveiro da piscina para lavar os arranhões (face, braços e pernas) e tive a companhia do Brig. Galvão de Figueiredo que lá foi fazer o mesmo às mãos e que vociferou: - "cambada de cretinos!" Entretanto: - "de quem são estas chaves?!" - "ó Magro, olha aqui o teu cartão!" Os meus "bens pessoais" lá foram aparecendo aos poucos. Resumindo: - a bomba tinha sido uma caixa de fósforos que se incendiara a um soldado enquanto acendia um cigarro em cima do muro e que se terá desiquilibrado. Na queda, terá arrastado consigo mais dois ou três camaradas; - os longos minutos no chão a ser espezinhado, ter-se-ão resumido a meia dúzia de segundos; - o tiros de Klashnikov seriam, afinal, as cadeiras metálicas a bater umas nas outras. Mais um filme ficou a meio e eu, novamente, fui direitinho ao quarto! Foi o maior susto que apanhei em 18 meses de Guiné. Acreditem que, em pânico, a ser pisado e sem me poder levantar nem ver o que se passava ao redor, nem um feijão fradinho que fosse, me entraria no "uropígio"! No dia seguinte, quando entro na CSJD vejo o cabo condutor-motorista do Ten. Cor. com a mão esquerda ligada. - "Então que foi isso?" - "Queimei-me ontem à noite no cinema." Ali estava o autor do "crime"! |
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