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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Abílio Magro
Guerra "Copofónica"


Pelas tarefas que desempenhava na CSJD/QG/CTIG (Serviço de Justiça), fui-me apercebendo que muitas doenças, ferimentos e até mortes eram resultantes do abuso da ingestão de bebidas alcoólicas, mas quem, durante a sua comissão, não apanhou a sua "tosgazita"?
Porém, quando estamos num TO e somos possuidores de uma arma de guerra, uns copitos com os camaradas e algum descontrolo podem resultar em tragédia.

Este pequeno episódio que se passou comigo é bem elucidativo disso mesmo, e se o multiplicarmos por dezenas, ou até centenas (durante toda a guerra colonial, talvez milhares) e o transpusermos para uma qualquer companhia no mato, não será difícil adivinhar a quantidade de incidentes com finais trágicos que ocorreram durante aquela guerra.

Numa das minhas várias seguranças nocturnas que fiz às instalações da PIDE/DGS em Bissau, junto ao bairro do "Pilão", comandando um pequeno grupo de seis ou sete homens, deu-se um episódio que me deixou bastante incomodado e "acagaçado".

O pessoal que integrava estes pelotões pertencia à CCS/QG e apresentava-se à noite, para efectuar o "serviço", já bastante cansado das muitas “picadas” percorridas durante o dia entre gabinetes e, alguns com muitas paragens para reabastecimento no Bar.

Por norma, estacionávamos numa pequena ruela, nas traseiras da DGS, que dava acesso ao Bairro do Cupilom e ali, junto a uma tabanca, o pessoal "ferrava o galho" com uma "pinta do caraças"!

Eu nunca dormia e não era por medo ..., não senhor! Era pelo meu elevado sentido de responsabilidade e pela obrigação moral de zelar pelo merecido descanso daqueles bravos militares.

Nessa noite, íamos talvez fazer o turno das 00h00 às 04h00 e tínhamos acabado de chegar ao "objectivo" quando entra na ruela um táxi conduzido por um negro e com um "pendura" negro também.
De repente, um "fabiano" do pelotão manda parar o táxi, puxa a culatra a trás, e apontando a arma ao "pendura", indaga: - "Quem és tu, para onde vais!?"

Oh valha-me Deus, “carago”, que é isto!? Pergunto-me a mim próprio, completamente apalermado.

Passados uns segundos logo me apercebi que o "fabiano" estava com uma valente "tosga", daquelas chamadas de "caixão à cova". Ai meu Deus se o “gajo” dispara aquela merda!

Com “pinças” e tentando manter a calma do "fabiano" (eu tremia todo e devia estar azul - ai s'aquilo dispara!), a muito custo, mas muito de levezinho, lá consegui retirar-lhe a arma e desarmá-la, apetecendo-me logo de seguida dar-lhe uma valente coronhada na "tola", mas lembrando-me de algumas "tosgas" próprias, lá pedi desculpas ao taxista e Cª e mandei-os seguir viagem.

Pelo "telemóvel" contactei o Af.Milº de prevenção (um amigo dos tempos do QG de Lisboa) e, com receio de possíveis escutas, disse-lhe apenas que precisava da presença dele pois havia um pequeno problema.

Apareceu passado pouco tempo de Unimog e com mais um pelotão, meio confuso por não perceber nada do que se estava a passar.

Chamei-o à parte e lá lhe contei o que acontecera. Substituiu-se o "fabiano" que seguiu de Unimog para o Quartel e tudo o resto decorreu normalmente.

Acordamos depois que não faríamos qualquer participação e o "fabiano" livrou-se duma valente "porrada".

Eu ..., apanhei mais um valente "cagaço".






Dálio Magro
Uma Grande Bebedeira do Maçarico



IN MEMORIAM



Ex-Cap. Milº Engª Jorge Maçarico


O Capitão Maçarico (Jorge Maçarico) , engenheiro civil na Câmara de Aveiro, depois de ser chamado para o curso de capitães milicianos, foi mobilizado em rendição individual para Moçambique.

Como ia em rendição individual ficou com a ideia que iria para uma cidade e até levou o seu automóvel «Peugeot 304» . Contudo, o Maçarico deve ter sido tramado por aqlguém e foi parar a Marrupa para substituir o capitão Rosas Leitão que terminava a sua comissão de serviço.

Portanto, a partir de Julho/Agosto de 1970, o Maçarico passou a ser o comandante da Companhia de Engenharia nº.2686.

Como já relatei anteriormente, durante a época das chuvas a Companhia de Engenharia permanecia todo o tempo no seu aquartelamento em Marrupa.


Festa de aniversário de um dos furriéis


Em Marrupa o pessoal passava o tempo a jogar futebol, a jogar a lerpa, na caça e a emborcar cerveja e whisky que eram as únicas bebidas que existiam para além da «fanta» e da coca-cola.

Na maioria das vezes jogávamos as cartas e emborcávamos na nossa messe, onde havia electricidade toda a noite ao contrário do aquartelamento ao lado (C.C.S.) onde a electricidade era desligada às 21h30 /22h00.

De vez em quando o pessoal também ia até à vila, onde existia um bar, cujo nome suponho que era o “ás de paus”.

Um certo dia o Maçarico veio ter comigo , dando-me a seguinte ordem:

- Ó Magro anda comigo até à vila que hoje quero apanhar uma grande bebedeira!

De seguida passa-me a sua carteira para mãos, dizendo-me:


Dálio Magro, "fardado" a rigor, dando de beber à dor no bar do aquartelamento de Marrupa


- Pega lá para pagares todas as despesas.

Chamou o condutor de serviço para nos levar até à vila e pediu-lhe para nos ir buscar por volta da 01h30.

Depois de termos conversado longamente sobre diversos assuntos e emborcado algumas cervejas, o Maçarico “virou-se” para o whisky e só parou quando já não se aguentava em pé.

Finalmente lá chegou o condutor que nos levou para o nosso aquartelamento e aí começou o trabalho de tentar deitar o Maçarico , cuja tarefa se mostrava quase impossível.

Comecei a tirar-lhe os sapatos, mas de imediato o Maçarico reage e com uma voz rouca informa-me que: “primeiro são as calças e só depois é que são os sapatos!”

A muito custo lá consegui levar a cabo esta ingrata tarefa e quando terminei a mesma já o Maçarico dormia como um passarinho.

No dia seguinte, para espanto meu, a primeira coisa que o Maçarico me disse foi:

-Ó Magro tenho que ir à vila procurar a minha carteira!

-Ó Maçarico a tua carteira está comigo, não te lembras que ma entregaste?

-Não me lembro.

Achei muito estranho, uma vez que quando me entregou a carteira estava perfeitamente sóbrio.

Então perguntei-lhe:

- não te lembras de que me disseste que querias apanhar uma grande bebedeira?

-Sim é verdade. E achas que apanhei mesmo?

- Claro e das grandes!

-Era o que eu queria e ainda bem.

Com o relato deste episódio fica aqui a minha sincera homenagem ao saudoso amigo Maçarico e quando nos tivermos de encontrar seja lá onde for, terás de me esclarecer o motivo pelo qual desejaste apanhar aquela grande bebedeira.