quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Rogério Magro
A Operação Mais Delicada


Por alturas do mês de Maio de 1969, faltando cerca de 3 meses para acabar a comissão, encontravamo-nos no Dundo, Capital da célebre Diamang, Companhia de Diamantes, mas de vez em quando lembravam-se de nós e lá fomos parar ao Dala, local complicado pois estava na célebre Rota Agostinho Neto e lá ficamos durante um mês.

O local era lindíssimo, junto ao rio Dala com as célebres quedas de água.

O problema é que nessa zona os tipos do MPLA eram peritos em minas. E, para quem estava a 3 meses do fim do "curso", era um problema do "caraças"!

Bom, vamos à operação delicada:

Eu, como na tropa fazia de tudo um pouco, o capitão lembrou-se de me chamar e dar-me ordens para que, durante aquele mês que íamos estar no Dala, tomasse conta da gestão do rancho de toda a tropa. Uma espécie de vaguemestre sazonal mas, ao mesmo tempo, alinhava nas operações que nem um "sargento".

Naquele dia não havia rancho, só rações de combate!

Não muito longe dali havia duas missões católicas, uma feminina e outra masculina, às quais nada faltava. A tropa, todas as noites, ia para as missões fazer-lhes a segurança.

O capitão chama-me e diz-me:

- "Olhe, veja lá se arranja uns franguitos para dar uma arrozada ao pessoal que bem precisa porque é quase sempre atum com ciclistas (feijão frade), massa com chouriço e arroz com salsichas (era o que havia!). Vá lá acima à missão, ao irmão António e veja se ele lhe vende uns frangos, mas atenção ao preço!" (eu só podia gastar 22$50/dia/cabeça - vinte e dois escudos e 50 centavos)

Informei-me junto do civil que lá havia mas que não tinha frangos em quantidade sufiente para nos fornecer e ele disse-me que o kg andava à volta dos 20$00, frangos já prontos a cozinhar.

Desloco-me de jeep à missão (ficava aí a uns 6 kms do local onde estávamos) e vou ao encontro do irmão António que parecia que estava à minha espera, vestido com aquela opa toda branca que os padres usavam. Disse-lhe, então, que o capitão me tinha dado instruções para lhe comprar uns frangos para o rancho da tropa.

"Óptimo!", diz o irmão António.

Pergunto-lhe o preço por kg e ele diz-me que são 21$50!

Pergunto eu: - "Já depenados ou com penas?"

Responde ele: - "Não, bem pesadinhos, mas com penas!"

Disse-lhe: - "Ok, vou falar com o nosso capitão e depois venho cá dizer qual a quantidade necessária".

Claro que desci a encosta e sempre a chamar nomes ao "sacana" do irmão que queria vender os frangos mais caros à tropa do que o civil vendia!

Cheguei junto do capitão e contei-lhe o que se tinha passado. De imediato o capitão levantou-se da cadeira de impulso e ordenou-me:

- "Vá já lá acima à missão e diga ao irmão António que eu lhe disse para ele meter os frangos pelo olho do cú acima, e que quando precisar de escolta para os levar ao Luso (cidade que ficava a cento e tal km) vão sozinhos que não há escolta da tropa!

Virou-se para o cabo condutor e disse-lhe: - "Vê lá se o nosso furriel relata tudo direitinho!"

Que puta de missão a minha! O condutor só se ria, e eu só pensava em como é que ia transmitir ao irmão António aquela ordem de chofre. Mas a sorte protege os audazes (como reza o lema dos comandos) e mal cheguei à entrada da missão, lá estava o irmão António à minha espera. E mal saí do jeep, perguntou-me:

- "Então sr. Furriel quantos kgs de frango são?"

- "Olhe, irmão António, o nosso capitão mandou-me transmitir-lhe que metesse os frangos pelo olho do cú acima e que quando precisar de escolta para ir ao Luso vá sozinho que a tropa não mais lhe faz escolta."

Missão cumprida! O irmão António ficou sem fala e se falou já nem o ouvi! Entrei para o jeep e foi rir até chegar ao capitão e dizer-lhe:

- "Meu capitão, missão cumprida!"

Até regressarmos à base a "padralhada" nunca mais foi ao Luso com escolta!







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