sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Rogério Magro
O Capitão Azuil de Carvalho

In memoriam


O então capitão de Infantaria Azuil Dias de Carvalho apresentou-se em Abrantes para comandar a Companhia de caçadores 1719, poucos dias antes de embarcarmos a 8 de Julho de 1967 para Angola.
Recordo de termos estado com ele três ou quatro dias acampados não muito longe do quartel de Abrantes, então Regimento de Infantaria 2, a fazermos alguns exercícios, tipo assaltos e emboscadas e, passados alguns dias, termos ido a Santa Margarida fazer fogo real (não muito, porque era necessário poupar nas munições).

Foi nosso Comandante de Companhia durante os cerca de 26 meses que estivemos em Angola, nomeadamente nos primeiros oito meses em que estivemos aquartelados no Lucusse, Leste de Angola, como companhia de intervenção.

Percorremos quase todo o Leste de Angola em operações militares; estivemos no Cazombo, no Lumbala, etc., efectuando operações com os fuzileiros, para-quedistas e comandos.

O Capitão Azuil, militar de carreira, rigoroso e exigente no cumprimento das regras militares, exuberante e até algumas vezes excessivo no modo como chamava a atenção dos seus graduados foi, no entanto, sempre um acérrimo defensor dos homens que comandava, lutando para que tivessem sempre as melhores condições possíveis.
Recordo aqui o esforço que fez na tentativa de evitar a nossa transferência para Gago Coutinho, onde estava sediado o Comando do Batalhão, cujo comandante ele detestava.

Numa coluna militar, criada para o efeito e à pressa, deslocou-se ao Luso, onde estava o comando da ZIL (Zona de Intervenção Leste). Aí manifestou o seu total desacordo com aquela transferência. Temia ele, segundo terá confidenciado a alguém, que, ou conseguia alterar a transferência para Gago Coutinho, ou iria apanhar uma “porrada” (termo usado pelos militares para referir um castigo). Não teve êxito, mas também não apanhou “porrada” nenhuma e acabamos por ir parar a Gago Coutinho, e ao quartel onde estava o Comando e a C.C.S (Companhia do Comando e Serviços).

O Capitão Azuil detestava que uma companhia operacional estivesse aquartelada juntamente com uma C.C.S. que se limitava aos serviços do dia a dia (entravam ao serviço às 9 horas e saiam ás 17) e nós, os operacionais, sempre que não estávamos em operações ou na segurança às colunas de reabastecimento, apanhávamos com o serviço de piquete que durava 24 horas. Quando o meu pelotão se encontrava deslocado no Sessa, o Capitão Azuil foi ferido em combate durante uma operação. Recebemos a notícia através de uma coluna de reabastecimento que chegou ao Sessa e que nos informou que um Capitão teria sido ferido em combate, mas não nos passou pela cabeça que fosse o nosso Comandante de Companhia. De tal só tivemos conhecimento quando, via rádio, o Alferes Castro foi chamado para ir para Gago Coutinho comandar a Companhia pelo facto do Capitão Azuil ter sido ferido e evacuado para o hospital do Luso.

Vem-me à memória que alguém me terá transmitido que terá ouvido dizer que o Capitão Azuil, no heli que o transportou para o Luso terá proferido as seguintes palavras ao Comandante do batalhão que o foi ver, e cito; “meu Comandante espero que os meus homens não sejam prejudicados na transferência que se vai efectuar pelo motivo de me encontrar ferido e ausente”. A sua preocupação com os seus homens demonstrava o quanto ele zelava pelo seu bem-estar. E, de facto. passado pouco tempo deixamos, ao fim de 18 meses, a zona de guerra e fomos para o Dundo, na Lunda-Norte, então capital administrativa da Diamang.

O Capitão Azuil, passados cerca de dois meses de internamento no hospital militar do Luso, apareceu no Dundo completamente recuperado. Restabelecido e enérgico como era, passado pouco tempo reuniu com os graduados e comunicou-nos que tinha cortado as relações institucionais com a direcção da Diamang e, como tal, não nos podia proibir as relações pessoais e de amizade com as pessoas, mas a nível institucional nada, mas mesmo nada, entre a tropa e a Diamang.
Tive conhecimento mais tarde que o presidente da Diamang tudo fez para que o Capitão Azuil fosse transferido e deixasse de comandar a nossa Companhia, mas não o conseguiu e, segundo constou, aquele presidente teria mesmo acabado por ser preso.

Na nossa memória ficou igualmente a imagem de uma reacção enérgica que o Capitão teve no Quartel do Camaquenzo (Dundo) para com um General que visitava o Dundo. A história conta-se assim: O Capitão Azuil entendia que o General devia ir em primeiro lugar fazer a visita ao quartel e depois seguir então para a visita à Diamang. Aconteceu, porém, que o General andou todo o dia na Diamang e então, pelas 17 horas, como era norma, o Capitão mandou tocar à ordem e deu instruções ao oficial de dia para que, a partir daquele momento, não fosse permitida a entrada de ninguém no quartel, sem a sua autorização.

Pegou no jipe e rumou à casa que lhe tinha sido cedida pela Diamang e onde habitava com a mulher e duas filhas.
Eram para aí 18 horas e picos apareceu o General e a sua comitiva. A sentinela que estava na porta de armas, meio atrapalhada, não teve outro remédio senão abrir as cancelas.
O General e respectiva comitiva entraram, deixando o oficial de dia em autêntico estado de pânico e sem saber o que fazer.

Perante a situação lá se dirigiu ao General, não sei que explicações lhe deu, mas acabou por ir falar com o Capitão, pelo telefone que existia no quartel e que ligava directamente à sua casa, contando-lhe o sucedido e ouviu das boas da sua boca (conta quem ouviu).

A expectativa do pessoal era enorme para observar o que iria acontecer quando o Capitão chegasse. Eu recordo-me de me ir colocando numa posição para melhor ver e ouvir a cena que se iria passar.
A comitiva do General aguardava no meio da parada, eram para aí umas vinte e tal pessoas todas de branco, vestidas à boa maneira colonial. Entretanto, chega o jipe conduzido pelo Capitão Azuil. Parou a viatura e de passo apressado dirigiu-se ao General, fez a continência e proferiu em voz perfeitamente audível o que reproduzo a seguir (tanto quanto me recordo, aproximadamente): "saiba o meu General, que vou apresentar queixa de V.Exª por ter entrado no quartel sob o meu comando sem o meu conhecimento e minha autorização". Grande capitão Azuil!

O pessoal, que assistiu junto às casernas, ficou encantado com este desfecho e quase nos apeteceu aplaudir. È claro que, depois, o General deve ter dado as suas explicações e passado algum tempo já se encontravam todos em amena cavaqueira.

Tenho algumas informações de soldados e de outros camaradas que o Capitão Azuil tinha por mim alguma consideração e eu hoje, fazendo uma análise detalhada a certas situações, tenho que reconhecer que ele teve por mim grande confiança e consideração e muito apreço. Ele não era pessoa de muito diálogo e aproximação connosco. Não era homem de grande convivência, mas um grande defensor do bem-estar dos seus homens.

Numa conversa que tivemos num dos encontros convívio que se realizam todos os anos, disse-me e cito: "vocês foram uns heróis, foram uns sacrificados porque foram obrigados a ir para a guerra! Eu não, eu escolhi esta profissão e ninguém me obrigou a tal!".

Aqui fica este modesto tributo de homenagem a um militar íntegro, o meu Capitão Azuil Dias de Carvalho. Para nós, militares que com ele combatemos em Angola, será sempre o nosso capitão, muito embora terminasse a sua carreira militar como Coronel e nos tivesse deixado há cerca de três anos. Um grande bem-haja Coronel Azuil Dias de Carvalho, descanse em paz.





2 comentários:

  1. Muito obrigada pelas suas palavras!
    Alexandra Dias de Carvalho

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    1. Não tem nada que agradecer eu é que estarei sempre muito grato ao Capitão Azuil de Carvalho pelo seu exemplo pela sua coragem que tiveram uma influência muito grande no homem que hoje sou. Julgo que a Alexandra é uma das suas filhas e eu lembro-me de ver as duas a brincar no quartel do Dundo. Caso queira trocar e recordar alguns episódios passados na época estarei ao seu dispor através do meu mail rmagro@sapo.pt
      Os meus sinceros cumprimentos,
      Rogério Magro

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