quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Rogério Magro
Muito Perto da Morte


Acabados de chegar à Vila de Gago Coutinho, hoje Lumbala N’Guimbo, uma das primeiras operações do pelotão a que eu pertencia, foi a de ir efectuar protecção à JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola) cuja equipa era chefiada, naquela zona, pelo célebre “Samuapa” encarregado de equipa da JAEA, pessoa altamente disciplinadora e muito temida por quem com ele trabalhava.
A equipa do “Samuapa” estava a reparar uma ponte de madeira que tinha sido parcialmente queimada pelo inimigo (MPLA).

Para os militares, o serviço de protecção aos trabalhos da JAEA era considerado como “um certo repouso”, pois limitava-se a que, durante as horas de trabalho, estivessem nas orlas da mata a fazer a respectiva segurança.

O problema principal era o do alojamento que, na maioria das vezes, era bastante precário, pois, ou era em casas abandonadas e em ruínas, ou em tendas, como foi neste caso.

Juntamente com o pelotão estava, como reforço, um grupo de uma dúzia de “Flechas” (como era designada a tropa africana recuperada ao IN) que se encontrava igualmente sediada em Gago Coutinho e cuja actividade era coordenada pela Pide.

As obras de restauração da ponte decorriam com alguma normalidade.

Os estragos eram razoáveis e quando queimaram a ponte, os “tipos” deixaram lá uma mensagem escrita em papel, a qual dizia mais ou menos isto: “estas pontes de madeira já não se usam, substituam-na por uma de betão” (além de “chatos” os “tipos” eram exigentes!).

Estava tudo a andar nos conformes até que num belo dia, ao anoitecer e quando o pessoal já se estava a preparar para a segurança dessa noite com o gerador da JAEA ligado para iluminar o acampamento, começamos a ouvir um barulho de um helicóptero no ar.

Desligou-se o gerador, ficou tudo às escuras e o héli começou a andar ali às voltas no ar com todo o pessoal de G3 apontada ao héli, até que se ligou novamente o gerador e o alferes ordenou aos condutores para ligarem os faróis dos Unimog’s e apontarem as luzes para a picada, onde o héli acabou por aterrar.

Nós sabíamos que os helicópteros estavam proibidos de levantarem voo a partir das cinco horas da tarde, já que não possuíam instrumentos de navegação nocturna, nem as pistas existentes no mato tinham iluminação.

Aconteceu que o alferes-piloto levantou voo, para proceder à evacuação de dois soldados dos comandos, já depois da hora permitida.

Anoiteceu, perdeu-se, já estava quase sem combustível e foi um milagre ter encontrado ali o nosso acampamento, pois, caso contrário, teria que aterrar no mato e lá passar a noite.
Esta situação causou-nos alguma perplexidade, à mistura com um grande susto, já que era completamente inesperado ver um “bicho” daqueles voar à noite e, por momentos, chegamos a pensar que íamos ser atacados pelo helicóptero.

Para o piloto, cabo especialista e para os dois feridos que, por sinal, até nem tinham nada de grave, foi uma sorte dos diabos, pois a rota para Gago Coutinho nada tinha a ver com o local onde nos encontraram.

O enfermeiro lá deu uma ajuda aos feridos e o alferes-piloto mais o cabo especialista apanharam uma grande “moca” pois, segundo eles, não se podiam ir deitar sem comemorarem a nossa inesperada recepção.

O radiotelegrafista mandou uma mensagem informando que o héli estava estacionado no nosso acampamento, o qual ficava a cerca de 70 km de Gago Coutinho, local onde se encontrava a base aérea e o comando militar, tendo igualmente solicitado o envio urgente de gasolina para o helicóptero.

No dia seguinte, após ter chegado a coluna com o combustível, o héli lá regressou a Gago Coutinho, sem que antes o piloto se viesse despedir muito efusivamente de todos nós.

As obras de recuperação da ponte continuavam em bom ritmo, até que a chuva apareceu, os trabalhos foram interrompidos e parte do pessoal recolheu às tendas.
Eu também fui para a minha tenda e deitei-me para ler uma revista das selecções Reader’s Digest bastante antiga que alguém me tinha feito chegar às mãos.
Estava eu deitado com as cartucheiras a fazerem de almofada e, só por um mero acaso, não estava com a cabeça encostada ao pano da tenda porque este estava molhado, quando, volvidos alguns minutos, ouço um tiro, mas não liguei grande importância já que era muito frequente haver um ou outro disparo de arma, por descuido de algum militar. No entanto, começo a ouvir vozes que dizem haver um ferido e, logo de seguida, aparece-me o Furriel Frota à entrada da minha tenda e pergunta:
- “Ó Magro, estás vivo?!”
Eu, que entretanto já me tinha sentado, pergunto sobressaltado:
- “Ó pá, o que foi?! O que é que se passa?!”
Responde-me o Frota:
- “Olha para trás, para o pano da tenda!”

Olhei e vi que a tenda estava furada pelo projéctil do tiro que se tinha ouvido no acampamento, havia alguns segundos atrás.

Continuou o Frota:
- “Um ‘Flecha’, na tenda ao lado da nossa, estava sentado com a FBP(1) em cima dos joelhos e, talvez por descuido, a arma disparou e a bala atravessou a nossa tenda e foi atingir um outro tipo dos ‘Flechas’ que se encontrava na tenda a seguir e que dormia ao contrário, isto é: com a cabeça para o lado dos pés. Por isso também teve sorte, levou um tiro num pé.”

Eu voltei-me novamente para trás a observar o furo na tenda provocado pelo projéctil, o qual estava a centímetros das cartucheiras que me serviram de almofada e onde eu tinha a cabeça.
Fiquei ali uns minutos a reflectir e a falar com os meus botões:
- “Ias ‘lerpando’ (2) deitado, com um tiro na ‘moleirinha’ e a ler umas selecções muito antigas do Reader’s Digest!”

Entretanto, lá chegou o helicóptero que evacuou o ‘Flecha’ ferido com o tiro no pé.

A ponte, passados mais uns dias, ficou reparada, mas creio que mais tarde voltou a ser queimada, mas já não me calhou a mim ter de ir para lá novamente.

A cada passo, nos encontros de almoços anuais da tropa, lá me vêm alguns soldados recordar, uns da emboscada, outro do susto do helicóptero e outros a lembrarem-se e a dizer-me:
- “Eh pá, e quando você ia ‘lerpando’(2) deitado a ler?!”

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(1) – A Pistola-metralhadora FBP foi projectada no final da década de 1940 por Gonçalves Cardoso, Major de Artilharia do Exército Português e foi produzida pela Fábrica de Braço de Prata (FBP) em Lisboa, com cuja sigla foi baptizada. Foi muito utilizada em África, no início das guerras coloniais, mas, por ser uma arma pouco confiável (em caso de queda, podia dar-se um disparo), deixou de ser usada em termos operacionais. (2) - “Lerpar”, termo usado no jogo da Lerpa, muito praticado pelos militares, jogo a dinheiro, muito simples no qual era tirada uma carta que era o trunfo, cada jogador tinha três cartas e quem fosse a jogo e não fizesse nenhuma vaza, “lerpava” e colocava na mesa o valor correspondente ao dinheiro em jogo que se encontrava na mesa.


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