quarta-feira, 20 de março de 2013

Dálio Magro
A Primeira Coluna – (Marrupa – Candulo – Chiulézi )


Em finais de Abril de 1970, sob o meu comando, saiu a primeira Coluna da Companhia de Engenharia 2686 com destino ao Chiulézi para alargamento e arranjo de uma pequena pista em saibro já existente e a construção de uma nova picada.
O trajecto seria efectuado em 2 etapas (a 1ª entre Marrupa e Candulo e a 2ª entre Candulo e Chiulézi). Considerando que, uns dias antes, o aquartelamento do Candulo tinha sido alvo de um ataque com morteiros, o nosso "cagaço" era enorme.
Antes da partida fui informado que a meio caminho entre Marrupa e Candulo (cerca de 80/90 Kms) havia um pontão em madeira sobre o Rio (? Maúa ?) e que era aconselhável passar ao lado (onde houvesse menos água) com os veículos pesados e não sobre o dito pontão.
Ao chegar ao local, já com algum atraso, comecei a raciocinar:
- se passo com os veículos pela água, alguns vão atascar e vou ter de pernoitar na picada e não no aquartelamento do Candulo, como estava programado;
- considerei a informação superior que me havia sido transmitida como um conselho ou previsão e como, apesar de naquela época não existir Gaspar, as previsões poderiam estar erradas.
Decidi, perante estes factos , efectuar um teste à resistência da construção sem a intervenção do L.N.E.C.. Assim, qual Edgar Cardoso lá do sítio, fui até ao meio da ponte e dei 3 ou 4 pulos para verificar a reacção dos materiais e concluí que a solidez da ponte merecia a minha confiança.
Dirigi-me para o meio da ponte e feito de "arrumador" comecei a sinalizar e orientar a passagem dos vários veículos; "venha… venha… venha… sempre a direito… venha". Estava tudo a correr às mil maravilhas e ainda não tinha recebido qualquer gorjeta, quando para surpresa minha o atrelado que transportava um D7 (escavadora Caterpillar) que se encontrava quase 75% na outra margem fez ruir a ponte e ficou meio dependurado com a máquina em cima. Por tal motivo foi necessário recorrer a uma outra máquina e a um guincho para se conseguir rebocar o atrelado.
O problema com a ponte foi rapidamente resolvido, uma vez que não estávamos na "Gasparlândia" e por tal motivo não foi necessário recorrer ao O.E. nem à intervenção de qualquer P.P.P. A coluna prosseguiu o seu trajecto e quando estávamos a cerca de 10/12 Kms do Candulo, fomos surpreendidos por uma rajada o que nos levou a reagir prontamente saltando das viaturas para a picada e ripostando "tra… tra… tra… tra…". Ao meu lado ,atrás de uma árvore, estava o Furriel Tavares (já falecido) que deixou ficar a G3 na viatura. A dada altura o Tavares chamou-me a atenção dizendo que estava a ouvir vozes e eu respondi-lhe de imediato: "fo….. você em vez de trazer a G3 trouxe o transístor!" Mas, de imediato lembrei-me que tinha sido informado que um grupo da Cª.de Caçadores do Candulo viria ao nosso encontro e então dei ordens para pararem com o fogo.
Foi então que comecei a ouvir: "Oh 'checas'(1) do ca…, vocês não percebem nada disto, pois nem conseguem distinguir o som do tiro da G3!" e passados alguns minutos apareceu um grupo de soldados e um alferes com quem tive um "bate papo" bastante azedo sobre a "emboscada" que poderia ter causado problemas sérios para não falar na quantidade de munições que ali foram desperdiçadas.
O alferes, cujo nome não me recordo, explicou-me que era habitual fazerem estas recepções aos "checas" e depois de me pedir desculpa, informou-me que tinha dado instruções para prepararem umas "bazucas"(2) fresquinhas para o pessoal confraternizar no quartel.
No dia seguinte demos início à 2ª. etapa do percurso (Candulo – Chiulézi) com cerca de 60 Kms, mas bastante problemático devido às minas serem "mato"(3).
A meio da viagem fizemos uma pequena paragem para almoçarmos a ração de combate que tinha sido distribuída a cada um dos "turistas".
Ao lado da picada havia várias árvores caídas que aproveitamos para lá nos sentarmos e saborear o lauto "almoço".
Terminado o "repasto" e quando nos preparávamos para continuar a viagem turística, um soldado ao passar sobre uma das árvores, aonde estivemos sentados, calcou uma mina antipessoal tendo ficado com uma perna desfeita.
O pessoal levantou-se todo de imediato e num pequeno intervalo de tempo foram deflagradas mais 3 minas antipessoais que provocaram ferimentos muito graves em 2 outros soldados e num negro que era contratado pela tropa por ser um dos melhores "guias e pisteiro".
De imediato foram dadas instruções ao radio telegrafista para solicitar as evacuações dos feridos, enquanto o enfermeiro procedia aos 1ºs. socorros.
Após este acontecimento o ânimo das tropas ficou bastante afectado, tendo sido abordado por alguns soldados que me pediam para regressarmos ao Candulo.
Tentei afincadamente esclarecer que não podia fazer isso e que tinha sido incumbido de uma missão que teria forçosamente de levar até ao fim.
Constatei que, de um modo geral, a minha argumentação não satisfez e ouvi algumas "bocas" de que era tudo "papaias"(4) e que eu não tinha amor à vida.
Finalmente ao anoitecer lá chegamos ao Chiulézi e prometi a mim mesmo não voltar a fazer estas "viagens turísticas".

Notas:
(1) - "checas" – maçaricos, periquitos, novatos;
(2) - "Bazuca" – garrafa de cerveja de 1 L da 2 M ou Laurentina;
(3) - "mato" – muito, grande quantidade;
(4) - "papaias" – letra , garganta

(Fotos retiradas da internet)









1 comentário:

  1. Essa técnica de cálculo da resistência de materiais (3 vpulos em cima da ponte)...mas se foi aprendida com o Engº Edgar Cardoso, tudo bem.
    Excerto de um post publicado em: http://serramecula.blogspot.pt/2009/12/o-natal-no-mato-1970.html
    "Depois de umas valentes centenas de quilómetros calcorreados pelo mato fora, uns mortos e alguns feridos à nossa volta, umas colunas de e para Marrupa e a malvada protecção à Companhia de Engenharia n.º 2686 sempre perigosa, já que, devido ao barulho desenvolvido pelos motores das viaturas de escape livre e das niveladoras, retroescavadoras e outras máquinas, nós estávamos sempre detectados pelo inimigo, lá chegou o tempo do Natal."

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