sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Rogério Magro
Gratidão


No início de 1969, instalados no Dundo, capital da Diamang, mais concretamente no quartel do Camaquenzo, por sinal muito bem instalados comparados com os 18 meses de intensa actividade operacional, a Companhia de Caçadores 1719 encontrava-se a descomprimir e a repousar, exceptuando as duas vezes que tivemos que aguentar na zona do Dala, um mês de cada vez, ainda em actividade operacional.
No Dundo não faltava nada, era uma pequena cidade onde habitavam os funcionários da Diamang que na altura tinha o monopólio da exploração de diamantes em Angola e como tal havia de tudo.
Todos os espectáculos de teatro e/ou variedades que passavam por Luanda, vinham igualmente actuar no Dundo, que tinha uma sala de espectáculos formidável.
Feito este pequeno preâmbulo, vamos directos à história.
O Capitão manda-me chamar, entrega-me uma planta com o desenho de uma escola e ordena-me que recrute dois ou três pedreiros e um carpinteiro no pessoal da Companhia e que, junto dos serviços da Diamang, proceda ao levantamento de todos os materiais para a construção da escola que se iria erigir no aldeamento do Fucaúma, o qual se situava a cerca de 20 Kms do quartel do Camaquenzo.
Nunca me tinha passado pela cabeça vir a ser mestre de obras, mas foi aí que eu dei os primeiros passos na ligação à construção civil. Também nunca percebi porque quando era preciso fazer algo de novo o Capitão se lembrava sempre de mim, muito embora houvesse 3 alferes, 7 furrieis e dois sargentos, mas enfim, lá fui eu com dois pedreiros e um carpinteiro tratar de construir a escola no Fucaúma que, segundo afirmavam, seria o único aldeamento naquela zona que ainda não possuía escola.
Lá fui com uma GMC requisitar o cimento e os tijolos ao armazém da Diamang e lá me dirigi para o Fucaúma. Fui ter com o soba, um velhote estimável que não falava português, mas através de um sipaio que fez de tradutor do dialecto quioco para o português, lá fizemos as apresentações. Ele já estava informado ao que íamos e prontificou-se a arranjar alguns homens para nos ajudarem na construção da escola, nomeadamente irem buscar água ao rio para encher os bidões de 200 litros que levamos.
Diariamente saíamos de jeep do quartel pelas 8 horas. Ao meio dia o jeep ia-nos buscar para o almoço e depois do almoço lá voltávamos para a obra e às cinco horas o jeep tornava a ir buscar-nos.
A escola tinha o formato rectangular e, se bem me lembro, teria aí uns 20 metros de comprimento por 12 de largura, duas janelas de cada lado e uma porta larga na entrada.
Tudo correu sempre sem problemas, à excepção de um dia em que o pessoal não apareceu para encher os bidões de água e tive que chamar o soba para lhe pedir que arranjasse pessoal para ir ao rio buscar água para a obra não parar. Lá conseguiu arranjar alguns homens, trazidos pelo sipaio, mas foram mais as mulheres que ajudaram a ir buscar água ao rio.
A obra lá se foi erguendo, ainda que por dois meses (um de cada vez intercalados) estivesse parada, dado termos ido para o Dala em operações militares. Durante o tempo que permanecemos no dia a dia na aldeia, fomos sempre bem tratados e era usual transportarmos de boleia as pessoas que se apresentavam pelas cinco horas, aquando do nosso regresso ao quartel e, nomeadamente quando traziamos a GMC (camião), havia alturas em que este ficava superlotado.
Tenho vários episódios que, durante o tempo que demorou a construção da escola, me ficaram na memória, mas este que vou passar a referir foi, de todos, para mim, o mais marcante.
Estava eu sentado à sombra de um embondeiro, numa cadeira de ripas verdes que o soba todos os dias lá colocava, quando se dirigiu a mim com um rádio na mão, um homem muito alto e já com alguma idade. Como não falava português, não o entendi e, após ter chamado alguém que traduzisse o dialecto da etnia quioco, fiquei a saber que ele me pedia para consertar o rádio, dado que o mesmo tinha deixado de funcionar.
Tratava-se de um rádio a pilhas, grande e com uma pega na parte superior. Eu não percebia nada de rádios, mas como estava a dirigir a obra que, tijolo a tijolo, ia avançando, disse-lhe que deixasse o rádio que eu ia ver se o conseguia compor.
Com um canivete, que sempre me acompanhou e que ainda hoje tenho guardado, pus-me a desapertar os parafusos e lá consegui abrir o rádio. Verifiquei que havia um fio que se tinha dessoldado, encostei-o no sitio devido, liguei o rádio e este começou a tocar. Fechei novamente o rádio e mandei chamar o sipaio para transmitir ao homem alto e velho que ia levar o rádio para o quartel e que no dia seguinte o traria a funcionar.
No quartel pedi na oficina auto que me soldassem o fio que estava solto.
No dia seguinte, quando chegamos ao aldeamento, lá estava o homem alto e velho à espera junto á palhota do soba.
Eu, maldosamente, tinha escondido o rádio debaixo do banco da frente do jeep e, quando saí sem o rádio, observei que o homem estava com uma cara de grande decepção.
Dei a volta ao jeep, tirei o rádio debaixo do assento e, junto dele, liguei-o e de imediato começou a tocar.
Vi logo no rosto do homem uma grande satisfação. Entreguei-lhe o rádio e ele, sempre muito sorridente e agradecido, puxou do bolso uma nota toda embrulhada de cem escudos de Angola e estendeu a mão para ma dar.
Ralhei-lhe e mandei transmitir-lhe pelo sipaio que a reparação não custara nada e que ele guardasse o dinheiro, o que fez com alguma relutância. Voltou a agradecer-me, bateu palmas e lá desapareceu com o rádio a tocar.
Durante bastante tempo deixei de ver o homem alto e velho até que um dia, ao chegar à sanzala pelas nove horas, vi que junto ao embondeiro estava no chão um cabrito com as quatro patas amarradas, mas não dei grande atenção à situação.
Passados alguns minutos aparece-me o homem alto e velho e, no seu dialecto e com alguns gestos, deu-me a entender que o cabrito era para me oferecer. Mandei chamar o sipaio para ele melhor traduzir o que eu adivinhava entender e este confirmou que ele fazia muito gosto em me oferecer o cabrito.
Eu não estava lá muito pelos ajustes e perguntei ao sipaio se ele tinha cabritos e este respondeu-me que não, que o homem alto e velho era muito pobre.
Então pedi-lhe para ele perguntar ao velho aonde ele tinha arranjado o cabrito.
Após o sipaio lhe ter efectuado a pergunta, este respondeu-me que ele tinha ido comprar o cabrito a uma sanzala que se situava a mais de 100 Kms do local em que estávamos.
Fiquei ainda mais perplexo e respondi que lamentava muito mas não podia aceitar o cabrito.
Após diálogo entre o sipaio e o homem velho, o sipaio transmitiu-me que a ser assim, ele, homem velho, ficaria muito triste.
Então eu respondi-lhe que até ao meio dia, quando nos viessem buscar de jeep, eu tomava uma decisão final.
O jeep chegou perto do meio dia e o homem alto e velho esteve durante toda a manhã a aguardar pela sua vinda junto ao cabrito. Eu solicitei então a um soldado que colocasse o cabrito no jeep e dirigi-me ao homem alto e velho e disse-lhe, obrigado.
O homem alto e velho de imediato começou a bater palmas de contentamento e mal o jeep arrancou, percorreu alguns metros atrás do mesmo a bater palmas e com um sorriso de contentamento que ainda hoje guardo na memória e que eu gravei como o maior acto de gratidão que registei em toda a minha vida.

Nota : O cabrito foi bem recebido no quartel e deu lugar a uma caldeirada que acabou muito bem regada.

"A gratidão é o único tesouro dos humildes." (William Shakespeare)






4 comentários:

  1. Ora aqui está uma oportunidade de emprego em Angola para radiotécnicos portugueses!

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  2. O meu pai é o meu orgulho!!! Já sei de onde vem a minha generosidade :) é completamente genética :)
    5 estrelas
    Gosto de ler estas pérolas! Boa tio, pela oportunidade e pela ideia brilhante!

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    1. Mónica:
      A ideia pode aer brilhante, mas o problema é que alguns "guerreiros do capim botam muito pouca faladura"!
      Beijinho.

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  3. Era um hábito na Diamang. Nasci e cresci lá, e o meu pau, que era electricista, também arranjava rádios a troco de cabritos...

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