sábado, 23 de fevereiro de 2013

Acácio Magro
A Diáspora dos Magros

Acácio Alberto Lamares Magro
ex-Comandante da Companhia "Os Magros do capim"


(Tentei apropriar-me do espírito jocoso tão caracterítico de El Comandante, fazendo estas aldrabadas rimas imaginando-o hoje, entre nós, a escrever sobre a diáspora dos Magros do capim.
Se consegui retratar minimamente a sua subtil jocosidade, não sei. Fica a intenção em sua memória. AM)




Tantos anos a procriar
Seis mancebos vi crescer
A tropa os veio buscar
Como era de prever

Foram todos p'ro Quartel
Aprenderam a marchar
Apanharam um batel
Rumaram ao Ultramar

Na a vida sempre a sorrir
Muitas vezes quis chorar
Vendo seis filhos partir
Para terras de além-mar

Uns após outros partiram
Pra guerra, com valentia
Foram seis, todos saíram
Ficou a casa vazia


Rogério
1967/1969

Foi pra guerra o Rogério
Para Angola, pr'o Lumbala
Zona de mato a sério
Vai pedrada se não há bala

No "meco" a roupa lavava
No Zambeze tomava banho
E na Diamang fumava
No seu cachimbo castanho

Uma linda escola ergueu
Um rádio velho consertou
Um bom cabrito recebeu
Muita picada no cú levou

Operações, rancho e escola
Renderam-lhe alguma estima
Os frangos viraram-lhe a "tola"
"Meta-os pelo cú acima!"

Fernando
1970/1972

Pra Guiné segue o Fernando
Que na tropa já tinha andado
Dão-lhe galões pro comando
De pessoal todo artilhado

Pelo Kako é recebido
Expõe-lhe seus argumentos
O General é convencido
Fica nos Reordenamentos

Foi professor em Bissau
E a Tecnil apoiou
Encheu bolsos com "cacau"
Enquanto a tropa durou

Sempre bem acompanhado
Com mulher, filho e "canito"
Nunca se sentiu atacado
E não deu qualquer "tirito"

Dálio
1970/1972

E o Dálio marcha também
Para as minas e armadilhas
Com os "turras" não se dá bem
Vai p'ra bola com sapatilhas

Em Moçambique - Marrupa
Organiza alguns joguitos
Esquece os filhos da tupa
E vai marcando uns golitos

Cria os super-Marrupões
Joga ao centro e pelas alas
Vai à final, são campeões
Festa rija pros "magalas"

Tem problemas num dente
Vai à "cata" dum dentista
É tratado como um Valente
Sem anestesia, por um "artista"


Carlos
1970/1972

Em Angola na aviação
No Luso e Henrique Carvalho
O Carlos com o heli-canhão
Manda tudo p'ra São Crincalho!

Integrou os Saltimbancos
Na Siroco também entrou
Evacuou pretos e brancos
Com o heli-canhão lidou

Nos Alouettes, os noviços
Pouco sabiam da matéria
Pra ele, pelos bons serviços
Seis anos de Força Aérea!

A mulher foi lá pró ver
Foi amor e uma cabana
Viu-se a barriga a crescer
Oh Marta, és Angolana!

Álvaro
1971/1973

Para a Guiné marcha também
Pelo mano é hospedado
Umas férias sabem-lhe bem
Passa uns dias descansado

Em Mansambo tem estadia
“Boa comida e rico vinho”
Sai p'ro mato co'a Companhia
Adormece..., fica sozinho!

Queixa-se ao mano capitão
Da vida dura, do mato mau
Este pensa numa solução
Pro trazer para Bissau

O "mais velho" não descansa
De o ajudar, tem vontade
Quem porfia, sempre alcança
Traz o Álvaro pra cidade!

Abílio
1972/1974

Se já foram cinco pra guerra
Porquê mais um, acto tão vil?
Ó generais da nossa terra
Ouçam bem o Augusto Gil:

Que quem é atirador
Vá pro mato, tudo bem!
Mas o "finguelas" Senhor,
Porque lhe dais tanta dor?
Porque o quereis lá também?


General Spínola, meu General!
O que vai este fazer p'ra Guiné?!
O rapaz é enfezado, come mal
Tem varizes, não s'aguenta em pé!

Deixem-no comigo, por favor
Encarregar-me-ei de o encorpar
Torná-lo-ei num bravo atirador
Mais dez anitos pro preparar!




3 comentários:

  1. Me encantou aquele recado do Rogério na Missão do Sono...

    - Sr. padre, é esse o preço dos frangos?!!!...
    - É.
    - Então meta-os pelo cú acima!

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  2. A esse grande comandante Sr.Acácio,presto daqui as minhas homenagens póstumas, conheci-o muito de perto mas ignorava a sua veia poética,assim como o seu bom humor,graças ao Abilio para me dar a conhecer alguns promenores acerca dele "Sr. teu pai".Tenho-o como um excelente senhor de uma iducação extrema,muito bom pai e marido,via-o todos os dias a ir para sua labuta e quando regreçava a casa, com cara de cançado, mas sempre sorridente e demonstrando sempre boa simpatia para com todo o mundo. Ás vezes punha-me a observá-lo melhor e via nele uma pessoa muito boa e com bom coração,pois nutria nele já grande simpatia só porque se acemelhava um pouco ao perfil e a maneira de ser do meu já falecido pai.Um bém haja para o grande comandante de tabamca,esteja ele onde estiver.A ti Abilio,aquele abração de amizade,com muita saude.do amigo ao dispor:A.L.

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  3. Andava eu a pesquisar sobre sobre a Guerra eis quando encontro um Blogue com o nome; Os Magros do Capim, qualquer coisa me disse que estava ali algo conhecido. Em boa hora o abri e rápidamente o "devorei" e então o que ficou? Ficou o conhecimento de uma pequena parte, mas talvez a mais importante da história de vida de um VALENTE-CASAL-VALENTE, que teve 6 (seis) Filhos na Guerra. Que eu tenha conhecimento foi uma situação ímpar neste País. Tanto sofrimento junto para eles meu Deus. Em frente: pois é, um desses Filhos, eu tive o prazer e enorme honra de o ter como meu chefe, de seu nome Dálio Valente Magro (Alferes Magro) Camarada/Companheiro/Amigo, como seu subordinado acho que o Alferes Magro só podia ter pertencido aquela incomparável e especial Companhia 2686 (digo eu). As fotos, as estórias e histórias a poesia etc, que aqui partilham "mexem" com o Pessoal, dai que a alegria que senti ao visualizar este "material" fez-se acompanhar de alguns arrepios com a num vaivem acelerado e porque não dizer com alguma água a mais, nos olhos. Um Abração para o meu Amigo Dálio Valente Magro (Alferes MAGRO) do antónio cristóvão marques (1º Cabo PIRES)
    PS. não esquecer que o golo com que vencemos os civis foi apontado por este «messi».
    Antes que alguem que não esteve láááááá,que desconhece o que foi a guerra, ao visualizar estes conteudos pense que afinal as coisas se resumiram (num intervalo) a dois ou três joguitos de bola quero dizer-lhe para que fique claro, que HOUVE MUITO MAIS "VIDA" PARA ALÉM DESTES APARTES, «ó se houve»!!! Tchau

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