quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Fernando Magro
Fim da Comissão - O Regresso


A nossa vida continuou sem grandes percalços naquelas paragens africanas.
A Lena era professora na Escola Preparatória, dava explicações em casa e convivia muito com as esposas dos militares que estavam em Bissau, particularmente com a esposa do meu Comandante Tenente-Coronel Lopes da Conceição, com a Maria da Graça Areosa, mulher do major Leal de Almeida, dos Comandos Africanos e com a Etelvina Moritz, esposa do Engenheiro Lourenço Pinto.
Eu também tinha os meus dias muito ocupados.
A minha actividade não estava, no entanto, somente circunscrita à cidade de Bissau.
Tinha, por vezes, de me deslocar ao interior do território para resolver localmente problemas que surgiam durante as obras dos reordenamentos populacionais.
Dessas deslocações ao interior, a de que me recordo como a mais desconfortável, foi quando uma vez desci de um helicóptero, sozinho, em pleno mato. Era aguardado por milícias guineenses (não havia tropa portuguesa na região).
Parte dos elementos da milícia ficou de guarda ao helicóptero e a outra parte em fila indiana (bicha de pirilau, como se dizia entre os militares) encaminhou-me, mato dentro, para o sítio dos trabalhos do reordenamento local.
Para minha defesa pessoal estava armado com uma pistola Parabelum. Também me estava distribuída uma metralhadora FBP.
No início, nas minhas primeiras saídas para o mato, levava comigo a metralhadora mas, mais tarde, mais confiante, passei somente a colocar à cintura a pistola Parabelum.
Aos domingos, na época seca, dava com a família um pequeno passeio de carro até ao Cumeré, Nhacra ou João Landim.
Mas a maioria das vezes dirigíamo-nos ao quartel da Companhia de Caçadores 2572, em Nhacra, que era comandado por um amigo meu e que distava menos de vinte quilómetros de Bissau. Nesta companhia havia vários pequenos macacos com que brincávamos. Durante a viagem passávamos por enormes montículos com mais de metro e meio de altura feitos por formigas (baga-baga).
Na época das chuvas, os passeios eram menos frequentes uma vez que o tempo não permitia grandes viagens fora da cidade.
Era mesmo arriscado, em certas alturas, circular na estrada pois por vezes o vento soprava com uma força incrível dando origem a autênticos tornados.
Esses tornados surgiam inesperadamente, sem que os europeus os adivinhassem, o que não acontecia com os guinéus. Muitas vezes parecendo estar calma a atmosfera surpreendia-me a ver correr os naturais da Guiné para as suas palhotas, procurando abrigo. Passados poucos minutos desabava uma chuvada acompanhada de grande ventania. Pelo bulir das folhas das árvores ou por outros sinais a população indígena conseguia prever o temporal que se avizinhava, o que não acontecia com a população branca.
Esses tornados eram perigosos, principalmente para as pequenas aeronaves. Durante a minha estadia na Guiné deu-se um grande incidente que vitimou quatro deputados portugueses, de visita ao território, quando o helicóptero em que viajavam se despenhou no Rio Mansoa.
Quando terminava a época das chuvas, pelo mês de Maio, apareciam as pragas.
Lembro-me de uma dessas pragas, a dos grilos. Bissau foi literalmente inundada de grilos.
Os automóveis a circular nas ruas faziam um som característico quando os seus pneus passavam por cima deles.
. Os varredores camarários juntavam os cadáveres dos grilos em montes na margem das ruas para depois serem transportados para os aterros.
Em Abril de 1972 a minha comissão militar estava no fim.
Devido ao meu filho ser estudante do 1º ano do Ciclo Preparatório e eu e a Lena sermos professores, pedi que o fim da minha comissão coincidisse com o final do ano escolar.
Em Maio começamos a preparar-nos para regressar a casa.
Despedi-me da Tecnil e, tendo em vista a compensação de possíveis falhas na minha assiduidade, não aceitei o recebimento do último mês de trabalho.
Despedi-me do Moba - o meu impedido - a quem ofereci alguma roupa e utensílios de casa que desistimos de trazer.
Vendi o carro.
E em princípios de Junho começámos a preparar os caixotes de madeira onde haviam de ser transportados por barco os objectos que adquirimos na Guiné e que decidimos trazer connosco.
Desses objectos fazia parte uma bicicleta inglesa, que oferecemos ao nosso filho Fernando Manuel aquando da sua aprovação nos exames da 4ª classe e de admissão ao Liceu.
Foi desmantelada e metida num caixote que, depois, se extraviou.
Já no Continente tive de me deslocar duas vezes ao RALIS, em Lisboa, onde eram depositadas as bagagens dos militares regressados à Metrópole, sem que o referido caixote aparecesse.
Até que, por sugestão de um sargento, passámos em revista a arrecadação onde se encontravam os haveres dos militares que haviam falecido na Guiné e, para meu espanto, vim a encontrar lá o caixote que andava desaparecido.
Em meados de Junho despedi-me do Director e dos Professores da Escola Industrial e Comercial de Bissau e tive, no Batalhão de Engenharia, a minha festa de despedida.
Visitamos as pessoas das nossas relações e preparámo-nos para regressar a casa.
Em trinta de Junho de 1972 subimos para o avião militar e iniciamos a viagem de regresso com escala na Ilha do Sal, Cabo Verde.
Quando chegámos ao Aeroporto de Figo Maduro e o avião aterrou, o nosso filho Fernando Manuel deu um grande suspiro de alívio.
A aventura da Guiné tinha acabado.
Estavamos todos juntos e de boa saúde.
Nas nossas vidas a passagem pela Guiné era um episódio encerrado.
Para trás tinham ficado dois anos de algum sofrimento e angústia que nos era ocasionada pela ausência da família e dos amigos, pela insegurança em que vivíamos o dia a dia, devido à guerra, e pelo clima que era desgastante para os europeus.
Mas, mal chegamos a Viseu, também não deixamos de recordar com saudade as amizades novas que fizemos na Guiné, os jantares festivos no Batalhão de Engenharia, as festas no clube de oficiais, os golfinhos que saltavam nas águas límpidas do arquipélago de Bijagós, as belíssimas acácias rubras que floriam em Bissau, as ostras e camarões da Guiné, o Scotch Wisky com água Perrier e pedacinhos de gelo que por lá consumíamos.
E sentia-me recompensado quando pensava que os dois anos que passei na Guiné não foram em vão, uma vez que pude colaborar como engenheiro técnico em algumas obras públicas e de construção civil em Bissau, além dos reordenamentos populacionais no interior do território.
Como professores, também a Lena e eu procuramos transmitir os nossos conhecimentos aos jovens daquelas paragens.
E a certeza de que essa actividade específica não tinha sido em vão, foi-me demonstrada, passados alguns anos, por um jovem guinéu numa feira de motonáutica e de equipamentos de campismo no pavilhão Rosa Mota (antigo Palácio de Cristal), no Porto, quando me surpreendeu de longe:
- Professor, Senhor Professor!
- É comigo? Está a chamar por mim?
- O Senhor foi meu professor em Bissau. Como estou contente por voltar a vê-lo! Nós em Bissau gostavamos muito do Professor e da sua família. Professor, deixe-me abraçá-lo.

Era o encontro com as memórias da Guiné que selei com um forte abraço ao jovem negro, meu ex-aluno em Bissau.


Fernando de Pinho Valente
LOUVOR
Transcrição do louvor publicado em Ordem de Serviço do QG/CTIG


Louvado pelo Exmº Comandante do Batalhão de Engenharia 447, porque durante o período de quase dois anos em que prestou serviço no Batalhão de Engenharia da Guiné, como Chefe da Secção de Ordenamento, revelou qualidades de sensatez na análise dos problemas e de exemplar organizador, contribuindo notóriamente para a eficiência que caracterizou o conjunto de actividades a seu cargo. Oficial meticuloso e sensato, soube sempre manter um contacto perfeito com os diferentes órgãos do Comando-Chefe, responsáveis pelo planeamento dos reordenamentos das populações, conseguindo manter informados todos os órgãos do Batalhão de Engenharia das necessidades em materiais e assistência técnica indispensáveis à resolução com oportunidade daquele magno problema. Encarregado ainda dos estágios para Oficiais e demais graduados destinados a dirigir reordenamentos, conseguiu o melhor rendimento didáctico nestas atribuições através de métodos de trabalho de uma acção de presença disciplinada e disciplinadora no cumprimento dos seus horários e programas de ensino. O entusiasmo e generosidade postos ao serviço pelo Capitão Valente simultâneamente como Chefe e colaborador junto do pessoal da Secção que chefiou, muito contribuíram para a homogeneidade e espírito de corpo que sempre caracterizou a Secção de Reordenamentos do Batalhão de Engenharia. O Comando justificadamente torna público o apreço que lhe mereceram as actividades deste distinto Oficial que ao deixar a Unidade cria uma vaga no serviço difícil de preencher.







Fernando Magro
O Meu Irmão Álvaro


O esforço humano (e material) dos portugueses para responder às guerras de África, nas três frentes (Angola, Guiné e Moçambique) era enorme no final da década de sessenta e nos primeiros anos da década de setenta.

No caso da minha família nós éramos (e somos) oito irmãos, seis dos quais homens.

Todos os seis foram chamados a prestar serviço militar obrigatório e todos foram mobilizados: um para Moçambique, como alferes miliciano, dois para Angola sendo um deles no posto de furriel e o outro como cabo especialista da Força Aérea e três para a Guiné, sendo eu o mais velho, como capitão, o mais novo como furriel e o imediatamente a seguir ao mais novo como primeiro-cabo auxiliar de enfermeiro.

A vida militar deste último cruzou-se mesmo com a minha, pois fazendo parte da Companhia de Artilharia 3493, foi mobilizado para a Guiné e colocado em Mansambo, na região de Bafatá, quando eu me encontrava ao serviço do Batalhão de Engenharia 447.

Fui esperá-lo, subindo ao barco que o trouxe e fundeou ao largo de Bissau, nos primeiros dias de Dezembro de 1971.

Pedi ao seu Comandante que, logo que possível, o deixasse passar comigo alguns dias em Bissau, o que aconteceu em princípios de Janeiro de 1972.

Ele, nessa altura, queixou-se muito da vida difícil e perigosa que levava no mato e eu, depois de ele regressar à sua Companhia, comecei a congeminar um processo de o trazer para o Hospital Militar de Bissau.

O que determinou a minha diligência nesse sentido foram as notícias que dele recebi em Fevereiro de 1972. Nelas me dizia que tinha entrado numa operação militar de um dia e duas noites e que, a certa altura, no meio do mato, foi dada ordem pelo Alferes, Comandante do seu pelotão, para que o pessoal descansasse por algum tempo.

Como havia perdido a noite anterior, acabou por adormecer, protegido pela vegetação.

Quando acordou foi grande o seu espanto ao se encontrar completamente só no meio do mato, numa região que sabia ser frequentada por “terroristas”.

No aerograma que me enviou relatava, desta maneira, o sucedido:

"Não imaginas o meu estado de espírito ao ver-me só e perdido dentro daquela mata densa. Andei cerca de uma hora perdido, cheio de medo. Cheguei a pensar que seria apanhado pelos terroristas e que nunca mais voltaria a ver a família.

Procurei encobrir-me com a vegetação, mas se porventura tinha de atravessar uma clareira, fazia-o rastejando.

Por fim encontrei um trilho por onde segui algum tempo, encharcado em suor.

Finalmente vi, ao longe, um pequeno grupo de militares.

Aproximei-me deles correndo o mais que pude e quando me pareceu que a minha voz poderia por eles ser ouvida, gritei com quanta força tinha.

Era tropa da minha Companhia, embora não fosse do meu pelotão.

Contei o que havia acontecido, quase sem poder falar, por estar muito cansado.

Não tive nenhuma culpa do sucedido."


Eu conhecia o Director do Hospital, embora não tivesse com ele grandes relações.

Conhecia-o dum jantar festivo a que ele compareceu, como convidado, no Batalhão de Engenharia.

Lembrei-me de o procurar.

Relatei-lhe que tinha um irmão como cabo enfermeiro no mato, irmão que tinha tido, quando adolescente, problemas de saúde e mesmo uma paralisia facial.

Contei-lhe o que havia sucedido por dele se terem esquecido, quando adormeceu de cansaço no meio da vegetação.

Perguntei-lhe, depois, quantos cabos enfermeiros faziam serviço no seu Hospital e se todos mereciam estar lá colocados.

Referiu-me que tinha algumas dezenas de cabos enfermeiros e que, pelo menos um deles, teria de o castigar severamente e de o mandar para o mato porque tinha roubado alguns militares feridos ou doentes.

Estes militares, como de resto acontecia com todos, quando chegaram ao Hospital Militar receberam um pijama próprio e as suas fardas e haveres foram guardados em armários metálicos individuais.

Esse cabo enfermeiro conseguiu ter acesso a alguns desses armários e havia roubado dinheiro e outros pertences dos doentes.

"- E, ainda por cima, ontem embriagou-se e fez por aí uma série de disparates.
Vai com certeza apanhar alguns dias de prisão e, por via disso, terá de ser colocado numa companhia destacada no mato"
, referiu o meu interlocutor.

Perante este relato do Director do hospital perguntei-lhe se não seria possível que o cabo enfermeiro, cujo comportamento merecia uma punição exemplar, fosse colocado por troca na companhia do meu irmão. Evitar-se-ia, continuei eu, que na caderneta militar do rapaz fosse averbado um castigo que, naturalmente, lhe poderia trazer prejuízo na sua vida futura. Com a sua ida para uma unidade de combate, sofreria de qualquer forma uma pesada punição e essa situação talvez o obrigasse a reflectir no sentido de melhorar o seu comportamento.

Assegurei ao Director, por outro lado, que a conduta do meu irmão Álvaro seria irrepreensível no caso de vir a ser colocado naquele Hospital Militar. Por isso responsabilizar-me-ia eu próprio. O Coronel-médico reflectiu e depois ditou-me os termos de uma declaração, em que o meu irmão teria de assinar em como concordava ser transferido para o Hospital Militar de Bissau em troca com o tal 1º cabo auxiliar de enfermagem mal comportado.

Disse-me o Director que iria chamar o rapaz à sua presença e que o aconselharia a requerer a sua transferência para a companhia de artilharia 3493 de Mansambo por troca com o meu irmão Álvaro.

No caso de ele concordar, a minha pretensão seria bem sucedida e eu estava convicto que ele iria dar o seu acordo porque não poderia continuar mais tempo ali, tendo inevitavelmente de ser castigado e enviado para o mato.

Despedi-me do Coronel-médico com a continência regulamentar e aguardei os acontecimentos. A 20 de Fevereiro de 1972 foi publicada uma nota da 1ª repartição do Quartel-general do Comando Territorial Independente da Guiné que continha a oficialização da referida transferência.

Dois dias depois, quando entrei em casa vindo do quartel, tinha à minha espera o meu irmão Álvaro.






Fernando Magro
A Minha Casa em Bissau


Em 24 de Junho de 1970 a Lena e o meu filho Fernando Manuel chegaram a Bissau, depois de cumprido o ano escolar de 1969-1970.
Foram viver para uma pequena moradia situada na Avenida Arnaldo Schultz, que eu tinha conseguido alugar.

(o meu carro junto à minha casa em Bissau)

A nossa casa localizava-se muito próximo do Quartel da Polícia. Era uma pequena vivenda, com uma sala de estar, outra de jantar, dois quartos, cozinha e casa de banho. Mas tinha à sua volta um pequeno jardim no qual havia duas bananeiras e uma linda acácia rubra.
Dada a minha posição na hierarquia militar tive direito a um impedido. Foi-me atribuído para exercer essas funções um soldado negro, que anteriormente havia sido "terrorista", de nome Moba, de religião muçulmana.
Tinha já três mulheres quando entrou ao meu serviço e vários filhos.
Andava sempre com dificuldades financeiras. Muitos dias antes do pagamento do pré1 pedia-me adiantamentos e isto quase todos os meses.
Dizia-me que não tinha dinheiro para comprar a "vianda" para os meninos. E eu adiantava-lhe o pré.
A sua religião proibia-o de beber vinho. Mas para ele vinho somente era o tinto. Desta forma iludia as suas próprias convicções religiosas, pois dizia-me que o vinho branco era água de Lisboa e como tal não lhe estava proibido bebê-lo.
Quando a sede lhe apertava pedia-me:
- Capitão, dá-me um copo de água de Lisboa.
E eu, em regra, satisfazia-lhe o pedido.
Um dia pediu-me férias.
- Férias nesta altura, Moba?
Sim, Capitão. Preciso de alguns dias de férias para casar.
- Outra vez?! - admirei-me eu. Já tens três mulheres e não sei quantos filhos e queres casar outra vez? O dinheiro não te chega a nada, estás sempre a pedir-me adiantamentos e ainda queres outra mulher?
Preciso, Capitão. Vou casar com uma "bajuda". Quando eu e as minhas outras mulheres envelhecermos ela tratará de nós.
Perante esta explicação não pude deixar de dar férias ao meu impedido Moba.
E a explicação que me deu levou-me a considerar que a organização social dos muçulmanos protege a velhice dos seguidores dessa religião.
Também entre as várias mulheres de um só homem não se verifica a existência do ciúme. Era usual pentearem-se umas às outras em frente das palhotas, convivendo amigavelmente.
Tivemos também uma lavadeira negra de nome Inácia. Durante o tempo que esteve ao nosso serviço o marido adoeceu gravemente e acabou por morrer.

(A Lena e a lavadeira Inácia)

Ficamos muito tristes com o infausto acontecimento uma vez que tínhamos muita estima pela Inácia, que era muito boa mulher.
Sempre que me irritava com alguma traquinice do meu filho e lhe ralhava ela punha-se imediatamente à frente e rogava-me:
- Capitão, não batas ao menino. Capitão, por favor.
Por isso quisemos saber da futura situação da Inácia e do seu pequeno filho.
Ela informou-nos que tudo estava assegurado. Passaria a pertencer a um cunhado e o "tiozinho" passaria a ter a responsabilidade de tratar e criar o miúdo.
Era uma criatura paciente, humilde e meiga. Gostava muito do meu filho. Dizia a respeito dele, muitas vezes:
- Menino, tem esperto na cabeça.
Tivemos também uma "bajuda" para a limpeza. Era uma rapariga muito nova que, findo o trabalho, se despia completamente nas traseiras da nossa casa e se lavava com a mangueira do jardim.
Encontrei o meu filho, algumas vezes, por detrás da persiana, gozando o espectáculo que a "bajuda" oferecia sem o mínimo pudor.

(O meu filho Fernando Manuel com duas bajuditas)

A nossa alimentação vinha da Messe de Oficiais do Batalhão de Engenharia pelo que não cozinhavamos.
Também tivemos um pequeno cão, o Perna Longa, e um periquito.
Uns tempos antes de regressarmos a Portugal demos o cão. O Moba tratou de o levar para o novo dono que habitava longe de nós.
O animal procurou e conseguiu voltar a nossa casa, orientando-se não sei como por entre aquele emaranhado de bairros de palhotas que circundavam a cidade. Só depois de ser preso pelo novo dono é que deixou de nos aparecer.
Quanto ao periquito ofereci-o ao Major (é hoje General) Carlos Azeredo. Ele tinha um periquito que morreu. O major falara-me do seu passamento com alguma tristeza.
Perto de regressarmos , para aliviar a tristeza do major, ofereci-lhe o periquito.
Nutria por este major uma certa simpatia, enquanto permaneci na Guiné. Mais tarde vim a saber que entre a minha família e a dele havia fortes relações, dada a proximidade das "casas" a que ambos pertencemos. Ele é oriundo da Casa do Cabo de Marco de Canavezes e eu da Casa da Seara de Magrelos.
Enquanto durou a minha comissão na Guiné a Lena trabalhou como professora na Escola Preparatória de Bissau e o nosso filho Fernando Manuel fez lá a 4ª classe, a admissão ao Liceu e o 1º ano do Ciclo Preparatório.



Fernando Magro
Os Movimentos Subversivos


De acordo com algumas fontes, Kwame Nkrumah (Presidente do Gana) e Sekou Touré (Presidente da República da Guiné), pouco tempo depois da independência da Guiné Conacry (Novembro de 1958), teriam tido a ideia de criar uma Federação de Estados Unidos da África Ocidental que englobaria a Libéria, a Serra Leoa, a Gâmbia, a Costa do Marfim, o Gana, a Nigéria e a República da Guiné, alargando-se, se possível, à Guiné-Bissau.
Existia, por isso, anteriormente a 1960, interesse dos chefes políticos dos países vizinhos da Guiné Portuguesa que este território se tornasse independente de Portugal. Em Conacry as emissões de rádio incentivavam, já em 1959, a população da Guiné-Bissau a sublevar-se e a não aceitar mais o domínio dos portugueses. Possivelmente em resultado dessa campanha, deu-se em 3 de Agosto de 1959, o primeiro incidente grave no território com uma greve no Porto de Pijiguiti (Bissau) de que resultaram alguns mortos e feridos.
Depois deste acontecimento e a partir de Março de 1960 as notícias sobre a Guiné Portuguesa proliferaram, revelando existir por detrás dos acontecimentos uma organização subversiva com alguma amplitude.
Em Londres, um indivíduo que mais tarde foi identificado como sendo o engenheiro agrónomo Amílcar Cabral, natural da Guiné mas filho de pai cabo-verdiano, distribuiu à imprensa um comunicado da "Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colónias Portuguesas" que teve alguma divulgação.
O referido Amílcar Cabral aparecia como representante de um agrupamento político que tinha em vista a independência da Guiné e Cabo Verde e que se intitulava "Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde" (PAIGC).
Os dirigentes do PAIGC estavam radicados em Conacry, onde beneficiavam de um bom acolhimento do Governo da República da Guiné e da concessão de todas as facilidades necessárias para a sua actividade subversiva.
Outros movimentos surgiram, de menor dimensão, visando também a independência do território sob administração portuguesa, como foi o caso do Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde (M.L.G.C.) e a União Popular para Libertação da Guiné (U.P.L.G.), ambos com sede em Dakar (Senegal).
O Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde acabou mais tarde por ser dissolvido e deu origem à União das Populações da Guiné (U.P.G.). A certa altura ganhou alguma notoriedade o movimento "União dos Naturais da Guiné Portuguesa", com sede também em Dakar, cujo chefe, Benjamim Pinto Bull, era professor de português no Liceu da capital Senegalesa.
Este movimento era reformista mas partidário do diálogo.
Mas o principal movimento subversivo foi, sem dúvida, o PAIGC, que em 1962 apresentou por intermédio de Amílcar Cabral, na Comissão de Curadorias da ONU, uma petição onde, além de pedir a independência da Guiné, declarou que os militantes do PAIGC deveriam ser considerados soldados da ONU pois desempemhavam funções semelhantes às dos "capacetes azuis" que nessa altura se encontravam no Congo.
A partir de 1963 os ataques às forças armadas portuguesas e aos chefes tradicionais que maior dedicação demonstravam a Portugal tornam-se cada vez mais frequentes.
No sul da província, segundo afirmou o Ministro da Defesa Nacional na altura, "grupos numerosos e bem armados, possuidores de certa preparação de guerra subversiva, feita no Norte de África e em países comunistas, penetravam no território nacional numa zona correspondente a 15 por cento da superfície da província".
Segundo o mesmo ministro português, numa entrevista a um jornal de Lisboa, "os grupos provinham e tinham base na República da Guiné". Tendo por apoio um estudo de João Baptista Pereira Neto, no mesmo se refere que "de acordo com numerosos artigos que apareceram na imprensa estrangeira e em especial por algumas entrevistas com Amílcar Cabral, ficou a saber-se que o PAIGC fora fundado em 1956 pelo próprio entrevistado e por Rafael Barbosa, que a paralisação de trabalho verificada em 3 de Agosto de 1959 no Porto de Bissau havia sido decretada por aquele partido e que a passagem da luta política para a acção directa tinha sido decidida durante uma reunião clandestina do partido, realizada em Bissau em 19 de Setembro de 1959".
Na fase inicial o PAIGC seria constituído, de acordo com as palavras de Amílcar Cabral, por pequenos burgueses radicais e membros de organizações operárias e profissionais. Depois de ter mudado radicalmente, a massa de guerrilheiros passou a ser recrutada entre operários e camponeses, na sua maior parte balantas, que eram os que emigravam mais para a República da Guiné e que, devido à sua educação, se tornavam ladrões exímios e que apenas encaram o roubo como desonroso quando o autor é apanhado. Eles conheciam perfeitamente os terrenos pantanosos e rodeados de canais, onde tinham as suas plantações de arroz.
A enquadrar essa massa operária e camponesa estavam principalmente indivíduos jovens que abandonaram a Guiné durante ou após a frequência dos Cursos Liceal ou Técnico, e que depois de prestarem provas durante alguns meses em escolas de guerrilha, eram mandados para os países situados para além da cortina de ferro para aproveitarem das bolsas de estudo postas à disposição do PAIGC para frequência de cursos médios.
Deste modo o PAIGC conseguiu quadros jovens altamente qualificados à escala africana.
Parece que, enquanto a massa era principalmente guineense, os quadros eram essencialmente compostos por jovens cabo-verdianos.
O seu chefe incontestado, Amílcar Cabral, embora nascido em Bafatá era também, como já referi, filho de cabo-verdiano.
Era Engenheiro agrónomo, formado em Lisboa e casado com uma senhora natural da Metrópole, de raça europeia.
De acordo com as pessoas que com ele privavam, tratava-se de um indivíduo de fino trato, vestindo com sobriedade e que falava várias línguas tais como o português, o francês e o inglês.
Estas suas qualidades eram-lhe muito vantajosas nas demoradas viagens que, frequentemente, fazia às capitais de diversos países africanos comunistas e ocidentais.
E devido à sua actividade política e perspicácia, o PAIGC foi ganhando o reconhecimento de muitos países e recebendo auxílio de alguns deles e da O.U.A. (Organização de Unidade Africana).
Segundo Pereira Neto, o PAIGC parece ter sido um movimento firmemente suportado pelos países de leste, em especial pela Rússia e pelos países africanos com especial relevo para a República da Guiné, a Argélia, o Gana, Marrocos e, evidentemente, a O.U.A..
Amílcar Cabral numa viagem ao Norte de África e à Europa Ocidental, em 1965, viagem que teve uma primeira etapa em Argel, afirmou numa conferência de imprensa nesta cidade que: "as forças revolucionárias tinham cerca de 10.000 homens, treinados em Conacry, que recebiam auxílio militar directamente de Sekou Touré, que já dispunham de armas pesadas e que dominavam quase metade (40%) do território da Guiné-Bissau".
Em Abril de 1965, em Londres, pediu à Inglaterra não armas, para que aquele país se não comprometesse, mas abastecimentos, remédios, material escolar e artigos afins e afirmou que poderiam abrir oitenta a cem escolas com três mil alunos.
Não foi todavia em Inglaterra que foi impresso o Novo Livro - 1ª classe, editado pelo Comissão Social e Cultural do PAIGC, mas em Uppsala na Suécia.
Possuo um exemplar desse livro que me foi oferecido por um pára-quedista que, numa das operações militares de que fez parte, ocupou uma escola do PAIGC tendo recolhido diversos documentos dessa escola, incluindo livros.
O livro que possuo era pertença da menina Teixeira e é elaborado totalmente em língua portuguesa.
Transcrevo a seguir a página 24, onde consta o texto intitulado "O Combate".

O combate

Fogo! Fogo!
O inimigo foge
Que combate fácil
Em fila, os combatentes voltam à base
Todos os camaradas estão contentes

Vamos copiar: Todos os camaradas estão contentes

Do livro se depreende que Amílcar Cabral e o PAIGC prezavam a língua portuguesa e sabiam que ela seria um óptimo instrumento aglutinador do povo da Guiné e um excelente veículo cultural.
Também no seu apelo aos Portugueses Cabral afirma:
"Os nossos Povos fazem a distinção entre Governo Colonial fascista e o Povo de Portugal. Não lutamos contra o povo português.
Repetimos o que muitas vezes temos afirmado: nós queremos libertar a nossa terra para criar uma vida nova de trabalho, justiça, paz e progresso, em colaboração com todos os povos do Mundo e muito particularmente com o povo português."
Em Março de 1972 elaborou um documento secreto que distribuiu aos quadros do PAIGC, no qual, segundo o seu pensamento, sintetiza o plano português para destruir o seu partido e vencer a luta armada na Guiné. Nele faz referência à invasão da Guiné-Conacry em 22 de Novembro de 1970, de que darei notícias no próximo capítulo.
No mesmo documento parece prever também a proximidade do seu fim.
Transcrevo na íntegra, seguidamente, o referido documento:

As três fases do plano Português

"O objectivo principal do inimigo é a destruição do nosso Partido, porque em África e no Mundo inteiro o seu prestígio e o prestígio dos seus principais dirigentes estão no seu apogeu.
Ele está convencido de que a prisão ou a morte do principal dirigente significaria o fim do Partido e da nossa luta.
Por isso mesmo, o objectivo real dos portugueses na sua tentativa de invasão da República da Guiné (Conacry), em 22 de Novembro de 1970, era o assassinato do Secretário Geral do Partido e a destruição da base na rectaguarda da revolução constituída pelo regime de Sekou Touré.
Numa palavra, destruir o Partido agindo no seu interior.
O plano inimigo far-se-à em três fases:

Primeira fase

Actualmente, muitos compatriotas abandonaram Bissau e outros centros urbanos para se juntarem às nossas fileiras. Nesta ocasião, o General Spínola espera poder introduzir agentes (antigos ou novos membros do Partido) nas nossas fileiras.
A sua tarefa: estudar as fraquezas do nosso Partido e tentar provocações apoiando-se no racismo, no tribalismo, opondo muçulmanos aos não muçulmanos, etc.

Segunda fase

1. Criar uma redce clandestina (penetrando, por exemplo, no Partido e nas Forças Armadas).
2. Criar uma direcção paralela, se possível com um ou dois agentes e alguns dirigentes actuais do Partido (de entre os descontentes).
3. Desacreditar o Secretário Geral, para preparar a sua eliminação no quadro do Partido ou, se a necessidade se impuser, pela sua liquidação física.
4. Preparar a nova direcção clandestina para fazer dela o verdadeiro organismo dirigente do PAIGC.
5. Paralelamente, lançar uma grande ofensiva para aterrorizar as populações dos territórios libertados.

Terceira fase

a) No caso de falhar a segunda fase, tentar um golpe contra a direcção do Partido, fazendo assassinar o seu Secretário Geral.
b) Formar uma nova direcção baseada no racismo e opondo guineenses e cabo-verdianos, utilizando o tribalismo e a religião (muçulmanos contra não muçulmanos).
c) Impedir a luta no interior do País, liquidar os que permanecem fieis à linha do Partido.
d) Entrar em contacto com o Governo Português. Falsa negociação, autonomia interna, criação de um governo fantoche na Guiné-Bissau que seria designado por "Estado da Guiné" e faria parte da Comunidade Portuguesa.
e) Postos importantes estão prometidos pelo General Spínola a todos os que executarem o plano.

Conclusão

O inimigo tentou corromper os nossos homens, mas a esmagadora maioria dos responsáveis contactados não aceitou vender-se, comportando-se como dignos militantes do nosso Partido e contribuiram mesmo para castigar severamente os portugueses que tentaram comprá-los, como foi o caso dos quatro oficiais, próximos colaboradores de Spínola, liquidados no norte do País."


Nota: A foto acima tem vindo a ser divulgada como sendo dos quatro oficiais assassinados pelo PAIGC no Pelundo, Teixeira Pinto, Guiné-Bissau em 20 de Abril de 1970, contudo o Alferes que aparece na foto junto dos majores, não se trata de Joaquim João Palmeiro Mosca, mas sim do ex-Alferes Milº Fernando Giesteira Gonçalves, hoje médico. A foto do Alf. Milº Mosca encontra-se sobreposta no canto inferior direito da foto acima. (clique na foto para a aumentar)
Certo dia, reparando o Dr. Fernando Giesteira Gonçalves numa foto que vinha publicada num destacável do Correio da Manhã que sai todas as quartas-feiras, terá afirmado surpreso: “- Olha... eu estou aqui com os majores. Logo um coro se fez ouvir ..Oh Dr. tem a certeza? olhe que esse é o Alferes Mosca que foi morto juntamente com os majores. Ele não desarma e reafirma: desculpem, este sou eu, tenho a certeza. O Mosca foi-me substituir uns meses mais tarde à data desta foto ter sido tirada; o Mosca nem na Guiné estava nesta altura. Era eu que fazia parte do CAOP e ele foi-me substituir por ter chegado ao fim a minha comissão.”
AM

Fonte: Tabanca de Matosinhos & Camaradas da Guiné




Fernando Magro
A Incorporação na Vida Militar


Em Agosto de 1968, uns dias antes de partirmos de férias para o Sul de Espanha, a Lena1 apareceu com os olhos amarelados.
Como se não encontrasse bem de saúde chamei o médico.
Na opinião deste tratava-se de icterícia, o que obrigava a repouso, a uma dieta e à administração de medicamentos que prescreveu.
Sobre as nossas férias, foi de opinião que devíamos desistir da viagem para a Costa do Sol e em seu lugar procurar umas termas onde pudéssemos usufruir de uma estadia calma e fazer uma cura de águas.
Recomendou-nos as Termas de Monte Real.
Resolvemos seguir os conselhos do médico pelo que nos primeiros dias de Setembro dirigimo-nos para a referida estância termal, acompanhados do nosso filho Fernando Manuel, de 7 anos de idade.
Aí, pela manhã de um determinado dia, encontrei no "buvete" um antigo companheiro meu do Curso de Oficiais Milicianos de Artilharia que teve lugar em 1958 na Escola Prática de Vendas Novas. Fiquei admirado por o ver ali, tanto mais que esse meu antigo companheiro, além de saudável, era muito bem constituído fisicamente.
- Tu por aqui, a águas?! - perguntei-lhe admirado.
Explicou-me ele, então, que estava mobilizado para Angola e que resolveu fazer, antes de partir, um tratamento nas Termas, até porque havia realizado, em Lamego, exercícios militares em que a sua alimentação havia sido à base de rações de combate o que lhe tinha provocado uma indisposição gástrica e intestinal.
- Mas o quê, tu ficaste na tropa?, perguntei.
Que não, que não, respondeu-me o meu amigo. Que era economista, mas que havia sido incorporado obrigatoriamente na vida militar com o posto de tenente e havia sido compelido a frequentar um Curso de Capitães na Escola Prática de Infantaria em Mafra.
Que com o posto de capitão iria dentro de alguns dias fazer a guerra em Angola, comandando uma Companhia de Caçadores com cerca de 150 homens. Que eu também devia ser chamado muito em breve, pois dos duzentos e quarenta cadetes do Curso de Oficiais Milicianos de Artilharia de 1958, estava o Exército incorporando grupos de sessenta de cada vez, para a frequência obrigatória do Curso de Capitães.
Eu não queria acreditar...
A minha mulher, que tinha mantido uma conversação ocasional com a esposa deste meu companheiro das lides militares, apercebeu-se das suas últimas palavras e ficou estupefacta.
Não podia ser. Isso não era verdade.
Eu tinha cumprido a minha obrigação militar como Cadete em Vendas Novas e como Aspirante a Oficial Miliciano no Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 3, em Paramos, Espinho, tendo regressado à vida civil em Fevereiro de 1960 como Alferes Miliciano. Na disponibilidade, fui promovido a Tenente Miliciano.

Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas
Foto: Carlos Vinhal
(com a devida vénia)
Depois disso casei-me e coloquei-me como técnico de engenharia na extinta Junta Autónoma de Estradas, em Viseu.
Em Maio de 1961 nasceu o meu filho Fernando Manuel.
Nesse ano de 1961 deu-se a invasão e anexação pelas tropas da União Indiana das nossas possessões de Goa, Damão e Diu, na Índia, e teve início a guerra colonial em Angola.
Na altura ainda receei vir a ser mobilizado. Mas passados sete anos já estava completamente fora da minha expectativa tal acontecimento.
Nessa mesma tarde (do dia em que tive conhecimento da possibilidade de vir a ser incorporado no Exército), depois do almoço, segui com a família para Lisboa no meu próprio automóvel.
Procurei saber na Secção de Oficiais do Ministério do Exército o que me estava reservado. E aí foi-me dito que, efectivamente, fazia parte de um próximo Curso de Capitães, em Mafra.
E que, depois de promovido, teria de, obrigatoriamente, servir como militar em África. Que não tinha outra saída a não ser que me oferecesse como civil para uma comissão de serviço em Angola, Guiné ou Moçambique e, dado que era diplomado em engenharia, talvez viesse a ser atendido.
Ficamos, eu e a Lena, desolados, regressando às Termas de Monte Real num estado de espírito deplorável.
E foi ainda nesse estado de espírito que voltamos para Viseu poucos dias depois, terminado o tratamento nas Termas.

Antes de 1961, ano em que, como referi, se iniciaram as guerras em África, a Academia Militar tinha boa frequência.
Terminado o curso complementar dos Liceus candidatavam-se inúmeros jovens ao ingresso na referida Academia, os quais eram submetidos a um rigoroso processo de selecção.
Isto acontecia porque o oficial do exército tinha um estatuto muito especial. Disfrutava de uma posição social estimulante. O seu emprego era automático e vitalício. Geralmente usufruia de almoço gratuíto nos Quartéis e tinha assistência de graça na doença para si e para a sua família.
A vida, desde que não houvesse guerra, desenrolava-se tranquilamente. E havia também, principalmente para os jovens, o incentivo das fardas.
Depois que as guerras de África começaram, as candidaturas de acesso à Academia Militar baixaram drasticamente.
E baixaram porque a situação se alterou. Os oficiais do quadro permanente eram constantemente mobilizados. Deixavam o aconchego da família, permanentemente. Em África faziam a guerra e como tal eram colocados em lugares inóspitos. A sua alimentação era assegurada com dificuldade. Muitas vezes tinham de consumir alimentos enlatados, tipo rações de combate. Corriam riscos. Adoeciam. Eram feridos e alguns até mortos.
Por isso muito poucos jovens em 1968 tinham interesse na carreira de Oficial do Exército.
Segundo me informaram, na altura, as candidaturas reduziram-se drasticamente e aqueles que tentavam a admissão à Academia geralmente não escolhiam as armas: cavalaria, infantaria e artilharia. Quase todos pretendiam os serviços.
O enquadramento dos nossos soldados por oficiais a nível de Capitão começou a ser um problema pelo que o Governo teve de recorrer aos milicianos que, como eu, estavam na disponibilidade com o posto de Tenente.

Escola Prática de Infantaria de Mafra
Foto: Página do Exército
(com a devida vénia)

No dia seguinte ao terramoto que todo o Portugal sentiu (28 de Fevereiro de 1969) chegou o aviso de que tinha de me apresentar na Escola Prática de Infantaria em Mafra para frequentar o Curso de Promoção a Capitão.
Embora fosse um acontecimento esperado por mim, o que é certo é que a notícia me trouxe alguma intranquilidade e tive de começar a resolver rapidamente uma série de assuntos ligados à minha actividade pública e privada.
Também tive de me deslocar aos Armazéns Militares do Porto a fim de adquirir o meu próprio fardamento.
Em Mafra, onde permaneci entre Março e Julho de 1969, encontrei diversos companheiros meus do tempo de Vendas Novas.
Procurei, com paciência, executar os exercícios físicos que me eram impostos, alguns dos quais me foram particularmente penosos como correr com um saco de areia às costas e rastejar alguns metros por baixo de arame farpado.
Nessa altura já contava 33 anos de idade e fisicamente tinha limitações até porque tinha engordado alguns quilos.
Em Mafra foram-me ministrados ensinamentos sobre a guerra de guerrilhas, uma guerra desleal e traiçoeira feita de emboscadas e golpes de mão.
Este curso terminou com 4 dias na Serra de Montejunto, onde dormi ao relento, no chão, debaixo de pinheiros e me alimentei a rações de combate.
Um dos exercícios foi o assalto a uma aldeia completamente abandonada no cimo da serra. Esta aldeia foi tomada por soldados que comandávamos. Nela estavam abrigados outros soldados da Escola Prática de Infantaria, fazendo de inimigos, que nos receberam com grandes rebentamentos a que nós, naturalmente, respondemos.
Ainda viemos a Lamego, onde estava instalada uma Companhia de Comandos, para assistirmos a diversos "briefings" sobre a guerra que decorria nas três frentes: na Guiné, em Angola e em Moçambique.
Esses "briefings" foram-nos ministrados por oficiais experientes que já haviam cumprido Comissões nesses teatros de guerra.
Em Agosto estava pronto, no entendimento dos meus instrutores, para comandar uma companhia operacional com cerca de 150 homens e fazer frente à guerrilha que era movida em África. Entrei de licença e fiquei à espera da mobilização.
Mas, possivelmente devido aos exercícios físicos a que já há muito não estava habituado, tive uma enorme cólica renal e urinei sangue. Fiz análises e o tratamento recomendado pelo meu médico particular, mas fiquei a ter queixas de cansaço e mal estar na região lombar sempre que me mantinha por algum tempo na posição de pé.
Esse mal estar já eu o havia sentido antes, mas depois da crise porque passei, muitíssimo dolorosa, acentuou-se. Incomodidade essa que, naturalmente, atribuí ao mau funcionamento dos rins.
Tratei-me, repousei e esperei pela mobilização.


1 Diminutivo de Maria Helena, esposa do autor.
2 O nome do autor destas Memórias é Fernando de Pinho Valente. Pertence, no entanto, pelo lado paterno, à família dos Magros, uma família portuguesa muito antiga, pelo que decidiu adoptar o nome de Fernando Magro.



Fernando Magro
O Império Colonial Português


É historicamente reconhecido que navegadores de diversos países, anteriormente ao Século XV, se fizeram ao mar e “acharam” novas terras.
Mas é facto assente que o surto dos descobrimentos se verificou a partir do referido Século XV e entre os vários povos que para ele contribuíram, os Portugueses figuram em primeiro lugar, cronologicamente, e a sua acção descobridora exerceu-se, a partir do segundo quartel de 1400, durante séculos, incidindo em todos os Oceanos e em todos os Continentes.

No oceano setentrional descobriram as ilhas dos Açores entre 1427 e 1452.

A costa Atlântica de África, do Cabo Bojador à Serra Leoa, foi descoberta pelos portugueses entre 1434 e 1460 e as ilhas orientais do arquipélago de Cabo Verde entre 1456 e 1460.

A Costa Africana, da Serra Leoa ao Cabo Catarina e às ilhas do Golfo da Guiné, foi pela primeira vez visitada pelos nossos navegadores entre 1466 e 1475; a Costa de África, do Cabo Catarina à Serra Parda, entre 1482 e 1486, e da Serra Parda ao Cabo da Boa Esperança entre 1487 e 1488.

No Atlântico Equatorial e Austral foram descobertos pelos portugueses o Brasil (1500), as ilhas Ascensão (1502) e de Santa Helena (1503).

Nos Oceanos Índico e Pacífico, na rota marítima para a Índia, foi descoberta a Costa Africana Oriental, desde o Rio do Infante a Mogadoxo (1497), Madagáscar e a costa de Mogadoxo a Berbem (1500), a Costa Meridional da Arábia, Ilhas Curia-Muria (1503), ilhas Canacani (1504), a Costa Ocidental do Industão (1500-1503), Ceilão (1507), Mar Vermelho (1513), Golfo de Bengala (1516), Maldivas (1511), Seychelles ou Ilhas do Almirante (1513), Malaca (1508), Molucas (1512), Timor (1512), Austrália (1525), parte das Ilhas Carolinas (1537), China (1514) e Japão (1541).

“Os descobrimentos portugueses constituíram o primeiro passo na europeização do Mundo, deslocaram do Mediterrâneo para o Atlântico o intercâmbio comercial da Europa; deram a Lisboa características de primordial cidade europeia, estabelecendo-se nelas agências ou sucursais das mais categorizadas casas comerciais da Europa.” (3)

Portugal atingiu também, nos séculos XV e XVI, a tecnologia mais avançada do Mundo na arte de marear.

O Infante D. Henrique teve ao seu serviço alguns dos mais categorizados cartógrafos e cosmógrafos.

A prolongada e intensa actividade marítima de Portugal, de que resultou o descobrimento de inúmeras terras em todas as latitudes, como ficou atrás referido, veio juntar-se posteriormente a exploração dos continentes em que se inseriam.

Dessa gesta resultou que Portugal se tornou um dos maiores países do Mundo e dos mais ricos também.

De tal maneira rico que, quando do casamento da Infanta D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, em Junho de 1661, fizeram parte do dote da nossa princesa duas cidades; Tânger, no norte de África (que possuíamos por conquista, com outras que hoje fazem parte do Reino de Marrocos) e Bombaím (na Índia), que passaram a pertencer desde essa data à Coroa Inglesa.

Mapa anacrónico do Império Português (1415-1999).
Vermelho - possessões efectivas | Verde Oliva - explorações | Laranja - áreas de influência e comércio | Rosa - reivindicações de soberania | Verde claro - postos comerciais | Azul - principais explorações marinhas, rotas e áreas de influência.

O Império Colonial Português foi o primeiro império global da história, sendo considerado o mais antigo dos impérios coloniais europeus modernos, abrangendo quase seis séculos de existência, a partir da Conquista de Ceuta, em 1415, até a devolução da soberania sobre Macau à China em 20 de Dezembro de 1999.
Fonte: Wikipédia


Esse imenso Império, onde o sol nunca se punha, foi-se reduzindo, ao longo dos séculos, por variadíssimas circunstâncias; quer por guerras que nos moveram franceses e holandeses, quer porque algumas das nossas colónias não voltaram mais à posse de Portugal na restauração de 1640, quer, como aconteceu com o Brasil em 1822, por este grande país da América do Sul se ter tornado independente.

De qualquer forma, ainda em 1960, o Império Colonial Português abrangia uma superfície total de 2.031.935 Km2, correspondendo às superfícies dos seguintes países europeus: Portugal continental, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suíça, Inglaterra e Alemanha.

Em área, Portugal ocupava em 1960 o quarto lugar do Mundo entre os Impérios coloniais dessa altura.

Os territórios que estavam sob o domínio de Portugal eram, além do rectângulo europeu e das ilhas adjacentes, constituídas pelos arquipélagos da Madeira e dos Açores, o arquipélago de Cabo Verde, a Guiné, S. Tomé e Príncipe, S. João Baptista de Ajudá, Angola, Moçambique, Estado da Índia (composto por Goa, Damão e Diu), Macau (na China) e Timor (na Indonésia).

Mas a partir de 1960 este ainda vasto Império começa a desmoronar-se, devido a movimentos de emancipação dos seus povos.

A primeira perda foi a de S. João Baptista de Ajudá, uma presença portuguesa simbólica na costa do Daomé, uma vez que era constituída praticamente por uma fortaleza e um pequeno território – o Sarame – a envolvê-la.

A dezassete de Dezembro de 1961 a União Indiana ocupa militarmente o Estado Português da Índia e anexa Goa, Damão e Diu ao seu território.

Nesse mesmo ano de 1961, em Angola, é iniciada uma guerra de guerrilha contra a nossa permanência naquela área de África, guerra que se estende rapidamente à Guiné e a Moçambique.

Essa guerra, em três frentes, tornar-se-á longa, obrigando a um grande esforço material e humano, com sacrifício de várias gerações de jovens soldados, enquadrados por sargentos e oficiais do quadro permanente e do quadro de complemento (milicianos).

(3) – Damião Peres – Enciclopédia Luso-Brasileira



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Abílio Magro
Guerra "Copofónica"


Pelas tarefas que desempenhava na CSJD/QG/CTIG (Serviço de Justiça), fui-me apercebendo que muitas doenças, ferimentos e até mortes eram resultantes do abuso da ingestão de bebidas alcoólicas, mas quem, durante a sua comissão, não apanhou a sua "tosgazita"?
Porém, quando estamos num TO e somos possuidores de uma arma de guerra, uns copitos com os camaradas e algum descontrolo podem resultar em tragédia.

Este pequeno episódio que se passou comigo é bem elucidativo disso mesmo, e se o multiplicarmos por dezenas, ou até centenas (durante toda a guerra colonial, talvez milhares) e o transpusermos para uma qualquer companhia no mato, não será difícil adivinhar a quantidade de incidentes com finais trágicos que ocorreram durante aquela guerra.

Numa das minhas várias seguranças nocturnas que fiz às instalações da PIDE/DGS em Bissau, junto ao bairro do "Pilão", comandando um pequeno grupo de seis ou sete homens, deu-se um episódio que me deixou bastante incomodado e "acagaçado".

O pessoal que integrava estes pelotões pertencia à CCS/QG e apresentava-se à noite, para efectuar o "serviço", já bastante cansado das muitas “picadas” percorridas durante o dia entre gabinetes e, alguns com muitas paragens para reabastecimento no Bar.

Por norma, estacionávamos numa pequena ruela, nas traseiras da DGS, que dava acesso ao Bairro do Cupilom e ali, junto a uma tabanca, o pessoal "ferrava o galho" com uma "pinta do caraças"!

Eu nunca dormia e não era por medo ..., não senhor! Era pelo meu elevado sentido de responsabilidade e pela obrigação moral de zelar pelo merecido descanso daqueles bravos militares.

Nessa noite, íamos talvez fazer o turno das 00h00 às 04h00 e tínhamos acabado de chegar ao "objectivo" quando entra na ruela um táxi conduzido por um negro e com um "pendura" negro também.
De repente, um "fabiano" do pelotão manda parar o táxi, puxa a culatra a trás, e apontando a arma ao "pendura", indaga: - "Quem és tu, para onde vais!?"

Oh valha-me Deus, “carago”, que é isto!? Pergunto-me a mim próprio, completamente apalermado.

Passados uns segundos logo me apercebi que o "fabiano" estava com uma valente "tosga", daquelas chamadas de "caixão à cova". Ai meu Deus se o “gajo” dispara aquela merda!

Com “pinças” e tentando manter a calma do "fabiano" (eu tremia todo e devia estar azul - ai s'aquilo dispara!), a muito custo, mas muito de levezinho, lá consegui retirar-lhe a arma e desarmá-la, apetecendo-me logo de seguida dar-lhe uma valente coronhada na "tola", mas lembrando-me de algumas "tosgas" próprias, lá pedi desculpas ao taxista e Cª e mandei-os seguir viagem.

Pelo "telemóvel" contactei o Af.Milº de prevenção (um amigo dos tempos do QG de Lisboa) e, com receio de possíveis escutas, disse-lhe apenas que precisava da presença dele pois havia um pequeno problema.

Apareceu passado pouco tempo de Unimog e com mais um pelotão, meio confuso por não perceber nada do que se estava a passar.

Chamei-o à parte e lá lhe contei o que acontecera. Substituiu-se o "fabiano" que seguiu de Unimog para o Quartel e tudo o resto decorreu normalmente.

Acordamos depois que não faríamos qualquer participação e o "fabiano" livrou-se duma valente "porrada".

Eu ..., apanhei mais um valente "cagaço".






Dálio Magro
Uma Grande Bebedeira do Maçarico



IN MEMORIAM



Ex-Cap. Milº Engª Jorge Maçarico


O Capitão Maçarico (Jorge Maçarico) , engenheiro civil na Câmara de Aveiro, depois de ser chamado para o curso de capitães milicianos, foi mobilizado em rendição individual para Moçambique.

Como ia em rendição individual ficou com a ideia que iria para uma cidade e até levou o seu automóvel «Peugeot 304» . Contudo, o Maçarico deve ter sido tramado por aqlguém e foi parar a Marrupa para substituir o capitão Rosas Leitão que terminava a sua comissão de serviço.

Portanto, a partir de Julho/Agosto de 1970, o Maçarico passou a ser o comandante da Companhia de Engenharia nº.2686.

Como já relatei anteriormente, durante a época das chuvas a Companhia de Engenharia permanecia todo o tempo no seu aquartelamento em Marrupa.


Festa de aniversário de um dos furriéis


Em Marrupa o pessoal passava o tempo a jogar futebol, a jogar a lerpa, na caça e a emborcar cerveja e whisky que eram as únicas bebidas que existiam para além da «fanta» e da coca-cola.

Na maioria das vezes jogávamos as cartas e emborcávamos na nossa messe, onde havia electricidade toda a noite ao contrário do aquartelamento ao lado (C.C.S.) onde a electricidade era desligada às 21h30 /22h00.

De vez em quando o pessoal também ia até à vila, onde existia um bar, cujo nome suponho que era o “ás de paus”.

Um certo dia o Maçarico veio ter comigo , dando-me a seguinte ordem:

- Ó Magro anda comigo até à vila que hoje quero apanhar uma grande bebedeira!

De seguida passa-me a sua carteira para mãos, dizendo-me:


Dálio Magro, "fardado" a rigor, dando de beber à dor no bar do aquartelamento de Marrupa


- Pega lá para pagares todas as despesas.

Chamou o condutor de serviço para nos levar até à vila e pediu-lhe para nos ir buscar por volta da 01h30.

Depois de termos conversado longamente sobre diversos assuntos e emborcado algumas cervejas, o Maçarico “virou-se” para o whisky e só parou quando já não se aguentava em pé.

Finalmente lá chegou o condutor que nos levou para o nosso aquartelamento e aí começou o trabalho de tentar deitar o Maçarico , cuja tarefa se mostrava quase impossível.

Comecei a tirar-lhe os sapatos, mas de imediato o Maçarico reage e com uma voz rouca informa-me que: “primeiro são as calças e só depois é que são os sapatos!”

A muito custo lá consegui levar a cabo esta ingrata tarefa e quando terminei a mesma já o Maçarico dormia como um passarinho.

No dia seguinte, para espanto meu, a primeira coisa que o Maçarico me disse foi:

-Ó Magro tenho que ir à vila procurar a minha carteira!

-Ó Maçarico a tua carteira está comigo, não te lembras que ma entregaste?

-Não me lembro.

Achei muito estranho, uma vez que quando me entregou a carteira estava perfeitamente sóbrio.

Então perguntei-lhe:

- não te lembras de que me disseste que querias apanhar uma grande bebedeira?

-Sim é verdade. E achas que apanhei mesmo?

- Claro e das grandes!

-Era o que eu queria e ainda bem.

Com o relato deste episódio fica aqui a minha sincera homenagem ao saudoso amigo Maçarico e quando nos tivermos de encontrar seja lá onde for, terás de me esclarecer o motivo pelo qual desejaste apanhar aquela grande bebedeira.






Dálio Magro
Um ataque de Abelhas


A Companhia de Engenharia nº. 2686 tinha uma frente de trabalhos localizada no Chiulézi , os quais eu estava a dirigir e que constavam da construção de uma picada localizada próximo da zona que indico no mapa à esquerda.

Para a realização da referida picada era necessário derrubar várias árvores, algumas das quais de grande porte.

Para verificar/analisar o terreno era costume ir uns metros à frente, de modo a procurar as melhores soluções para se evitar grandes trabalhos de movimentação de terras e, quando possível, evitar que a picada tivesse curvas que eram sempre propícias a emboscadas.

Após este trabalho de «reconhecimento do terreno», dirigi-me para junto do operador do «caterpillar» (máquina de lagartas) dando-lhe indicações sobre a direcção que deveria seguir e quais as árvores que teriam de ser abatidas.

Decorridos alguns minutos e após o derrube de uma grande árvore fui atacado por um enorme enxame de abelhas que começaram a pousar nas minhas faces, orelhas, testa e a entrar pela gola da camisa. No primeiro instante fiquei estático com a arma entre os braços mas, decorrido alguns minutos, atirei-me para o chão e com os dois braços tapei a gola da camisa de modo a que não entrassem mais abelhas para as minhas costas e peito.

Quando o sistema nervoso atingiu os limites, comecei a vociferar:

- Fo*** , não há nenhum c*** que pegue num bocado de capim e faça um archote para afugentar as abelhas?!

O meu pedido de socorro foi bem sucedido pois que, passado pouco tempo, houve um corajoso que se abeirou de mim e, agarrando-me pelas pernas, me levou de rastos até a um riacho que existia mais abaixo.

De seguida fui transportado numa viatura para o acampamento do Chiulézi, onde me foram prestados os primeiros socorros pelo 1º. Cabo enfermeiro «Tiano».

Atendendo a que após alguns minutos comecei a ter vómitos, o capitão Rosas Leitão (comandante da companhia naquela altura) decidiu pedir a minha evacuação para o hospital.

No hospital, os médicos informaram-me que tinha tido alguma sorte pois a quantidade de veneno que tinha no corpo era muito significativa e que não seria o primeiro caso em que ferradelas de abelhas tinham provocado a morte.

Como relatei atrás, quando me atirei para o chão a arma ficou debaixo do meu corpo e como fui arrastado pelas pernas, a G3 lá ficou.

Ainda no acampamento do Chiulézi informei o capitão Rosas Leitão sobre o problema da falta da arma que me poderia trazer consequências graves.

O capitão Rosas Leitão foi de imediato com um grupo de soldados ao local para bater toda a zona e tentar encontrar a G3.

Apesar de, durante três ou quatro dias, não se ter feito qualquer outra coisa que não fosse procurar a arma no local onde ocorreu o ataque das abelhas, a G3 não apareceu e já se admitia que a mesma tivesse sido surripiada, pelo que seria necessário preparar um auto para esclarecimento da situação.

Ao quinto dia, quando se reiniciavam os trabalhos, a G3 lá estava e junto à mesma foram encontrados alguns panfletos da acção “psico” (ver abaixo).

Portanto tudo leva a crer que as famigeradas abelhas se teriam arrependido e entregaram a arma.

Panfletos
(a fraca qualidade das imagens deve-se à idade dos panfletos – à volta de 45 anos)

Cique nas imagens para as ampliar


Transcrição do panfleto
GENTE FOI TRABALHAR FRELIMO
GENTE ENGANADA FRELIMO
GENTE FUGIU NO MATO MEDO FRELIMO
FRELIMO ESTÁ PERDER GUERRA
FORÇA FRELIMO ESTÁ ACABAR MESMO
FRELIMO ENGANOU TODA GENTE
- Toda gente deixar Frelimo acaba milando mesmo com Governo Português.
- Vai apresentar autoridades Governo. AUTORIDADES É ADMINISTRADOR, CHEFE POSTO, TROPA, MILÍCIA.
- Quando apresentar, Governo VAI PERDOAR, NINGUÉM CASTIGA
- Quando apresentar, acaba fome, acaba frio, acaba doença, acaba sofrer.
- QUANDO APRESENTAR, TEM MULHER, TEM FILHO, TEM AMIGO, TEM MACHAMBA, NINGUÉM CHATEIA.
- Muita gente Frelimo enganou, já deixou mato, acabou milando, vive bem, tem sorte.
- GOVERNO PORTUGUÊS TEM MUITA FORÇA PARA DEFENDER TODA GENTE.
- GENTE FUGIU MATO E GENTE FAZ SERVIÇO GUERRA FRELIMO SÓ PODE APRESENTAR QUANDO VER DIA, PARA MOSTRAR DIREITO DEIXOU MESMO FRELIMO.
- Gente deixou serviço guerra Frelimo quando tem espingarda traz espingarda nas costas levanta mão para autoridade ver bem e receber direito.
- Governo dá grande mata-bicho dinheiro quando gente entrega espingarda. Mata-bicho é mais grande quando gente entrega espingarda tirou bandido do mato
GOVERNO PORTUGÊS TEM CADA VEZ MAIS FORÇA
FRELIMO ESTÁ PRRDER GUERRA
GOVERNO DESCULPA, PERDOA, TRATA BEM
GENTE DEIXAR FRELIMO
- Mostra este papel teu amigo e fala teu amigo este papel
- Teu amigo também quer deixar Frelimo e acabar milando
VAI APRESENTAR AUTORIDADES GOVERNO PORTUGUÊS

(Transcrição do mesmo panfleto escrito em linguagem nativa)
ATHU AHORWA MTEKO WA FRELIMO
ATHU AHOTYEPIA NI FRELIMO
ATHU AHOTYANA MTAKWANI
UOVA IFRELIMO
FRELIMO ANAPERETERE IKHOTO
IKURU YA FRELIMO IRI MUOMALA
FRELIMO AHATHANKANYA ATHU OTHENE
- Athu othene ahye Frelimo imala milato ni Guverunu ya Putukezi.
- Uroeke waprezentar uzirikarini y Guverunu.
SIKIRARI PI, MUSHATORO, CHEFE POSTO, ITROPA, NIMILICIA
- Mwarezentariki, inamala ítala, inamala ipyo, inamala ikwerere, inamala uhuva.
- MWAPREZENTARIKI, MNOKALANA NTIYANA, MNOKALANA MWANA, MNOKALANA NPWANA, MNOKALANA IMATA KANNANTHIPIA NINTHU
- Athu entchi Frelimo ihatapye, ahohia itakhwa chihomala milato, anokaia rata, ahaná iparakha.
- GUVERUNU PUTUKESI IHANA IKURU TCHINTCHI TCHOWASUGELA ATHU OTHENE.
- ATHU ATYWILE NTAKWANI NATHU ANOVARA MTEKO AKHOTO YA FRELIMOANAWORYA WAPREZENTARI IYONA UTHANA, ETHONYERE RATA WIRA AHOHIYA KWELI FRELIMO.
- Athu ahile mteko wakoto ya Frelimo kama ahana kaputhi ayareke utuli ateche mono iyonie rata ni sirikari nu wakheleia sawsawa.
- Guverunu inavaha isakwato ywlupale yonsuruku nthu ahokoloshaka ikaputi inatepa unuwa nthu anhokolocha kaputi anhankumiha pantitu muini.
GUVERUNU PUTUKESI IHANA KULA MARA
KULA MARA IKURU CHOTEPA
FRELIMO ANAPARETERE IKHOTO
GUVERUNU INAULEVANI, USWAMIHINI
NI UPANKANI TCHOMBONE
ATHU MUHIYERE FRELIMO
- Mtonyereke ila iwarakha mpwanaa numhimerya awaa ila iwarakhela.
- Mwaparaa nie anathuna whiya Frelimo tchimaleke milato.
UROEKE WAPREZENTARI
SIRIKARI GUVERUNU PUTUKESI


Instrução de tiro aos condutores



Aldeamento em Marrupa – Moçambique 1971








terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Fernando Magro
A Economia da Guiné
A Feira De Amostras De 1971


Para um observador pouco informado, como eu era, sobre a economia da Guiné, não foi difícil constatar que, nos princípios dos anos setenta, o território possuía muito poucas indústrias.
Os principais estabelecimentos industriais situavam-se em Bissau e resumiam-se às actividades de descasque de arroz , extracção de óleos vegetais, fabrico de sabão, gelo, refrigerantes e construção naval.
Em Farim, principalmente, também a actividade de serração de madeira tinha algum significado.
Era a agricultura a base económica da Guiné. E a sua prática desenvolvia-se segundo dois tipos:
- Sedentária, de bolanha, no litoral, dedicada principalmente à cultura do arroz.
- A de mato, com queimadas e rotação de culturas, no interior, cultivando-se mancarra (amendoim), milho, mandioca, cana sacarina, feijão....
A Guiné, à excepção dos terrenos de Boé, dispõe, do ponto de vista agrícola, de solos ricos, que oferecem condições para a intensificação das culturas tradicionais e outras, porventura mais rentáveis como, por exemplo, a cultura intensiva de banana, de acordo com Vasco Fortuna (Estruturas económicas da Guiné).
No aspecto da exploração das florestas, trata-se de uma actividade de futuro pois existem na Guiné espécies valiosas em matas relativamente homogéneas.
A exportação de madeiras, como o bissilão, o pau-sangue, o pau-preto, o pau-ferro e outros poderá contribuir no futuro para a melhoria da balança comercial do território.
De acordo com Celes Alves, a criação de gado tinha um papel secundário, embora a criação de gado bovino fosse a de maior importância, seguindo-se-lhe o gado caprino, suíno, ovino e asinino.
No que se refere à actividade piscatória, alguns povos do litoral dedicam-se a essa actividade, como os Manjacos e os Bijagós, mas de um modo artesanal.
Os mares da Guiné encerram, no entanto, um bom potencial no capítulo da pesca.
Quanto ao subsolo, a Guiné também não é rica em minérios. Apenas as bauxites e a ilmenite são susceptíveis de exploração.
No mar alto há perspectivas da existência de petróleo.
Nos primeiros anos de setenta a agricultura era a fonte principal da riqueza da Guiné, embora muito prejudicada devido ao conflito armado existente no território.
O arroz (base da alimentação das populações guineenses) cultivava-se nos terrenos mais baixos e nas margens dos canais de fácil irrigação e a sua produção chegou a ser excedentária, antes da guerra, fazendo parte dos produtos exportados tal como a mancarra (amendoim), o coconote, couros, madeira, óleo de palma, cera e borracha.
No tempo em que vivi na Guiné, Bissau era uma cidade com uma actividade comercial significativa.
O território importava quase tudo, pois as suas indústrias eram praticamente inexistentes. A Guiné importava: tecidos, tabaco, vinhos e cerveja, gasolina, ferro e aço, óleos e combustíveis, cimentos, medicamentos, ferramentas, maquinismos e todos os bens de consumo e apetrechos que as sociedades desenvolvidas fabricam.
Este comércio era feito com o interior, principalmente através dos cursos de água como os rios Cacheu, Mansoa, Geba e Cacine e ao longo da ria de Bissau, embora também se pudesse efectuar por estradas principalmente na época seca, antes da guerra.
Também existiam algumas ligações aéreas entre a capital e o interior.
Bissau, com o exterior, tinha ligações aéreas e marítimas com Cabo Verde e Portugal continental.
No espaço de dois anos que permaneci em Bissau pudemos satisfazer todas as necessidades a que eu e a minha própria família estávamos habituados.
As casas comerciais de Bissau eram abastecidas regularmente praticamente de tudo.
Como a água de consumo público muitas vezes se não apresentava nas melhores ccondições, sendo aconselhável que, além de filtrada, fosse fervida, em nossa casa tomámos uma atitude radical: nunca a utilizámos. Saciámos a nossa sede com água do Luso, que adquiria aos garrafões sempre que um barco chegava da metrópole e água Vichy que sempre se encontrava com facilidade, possivelmente vinda do Senegal, país francófono, vizinho da Guiné.
Para juntar ao whisky, a água que usávamos era também a francesa Perrier.
O comércio, como disse, era significativo em Bissau.
Na parte baixa da cidade as casas comerciais proliferavam e algumas delas eram propriedade de libaneses, como a de Taufik Saad e a de Azis Harfouche.

Medalha comerativa da II Feira de Amostras da Guné - 1971
No mês de Maio de 1971 realizou-se a II Feira de Amostras de Bissau, com trinta stands expositores.
Além da amostragem das actividades económicas, onde era possível rapidamente conhecer os artigos comerciáveis em Bissau e os seus preços, também no decorrer da II Feira foi organizado um programa de recreio e cultura, sendo divulgados o artesanato e o folclore da Guiné.
Durante cerca de vinte dias decorreu o certame que se realizou defronte do Palácio do Governo, na Praça na altura designada por Praça do Império.
Houve uma exposição de arte, diversas sessões de folclore, variedades, conjunjos musicais, uma tarde de juventude e uma noite das Forças Armadas.
Os Serviços públicos também expuseram as suas actividades com a divulgação de:
- Realização de cursos;
- Planeamento de obras futuras;
- Dados estatísticos.

E as Entidades Administrativas tais como Administrações de Bafatá, Bijagós, Bissau, Bolama, Cacheu, Catió, Farim, Fulacunda, Gabú, Mansoa e S. Domingos apresentaram vários aspectos das suas actividades, dos seus usos e costumes e do artesanato das áreas que administravam.
Pude aperceber-me na II Feira de Amostras de Bissau, da actividade artesanal do povo daquele território.
Constatei que os Manjacos e os Balantas sobressaíam na olaria; os Brames, os Fulas, os Mandingas e os Nalus na cestaria; os Manjacos e os Papeis na tecelagem; os Fulas e os Mandingas em ourivesaria e trabalhos de pele e couro.
Os Fulas eram famosos também na feitura de chinelos, almofadas, bolsas, sacolas, baínhas de alforges e de punhais, guarnição e vasilhas, selins e outras peças de couro.
Eu próprio adquiri alguns punhais Fulas, uma espada Mandinga, cestinhos Bijagós, uma colecção de cachimbos Bijagós, pulseiras e anéis de Bafatá, uma bilha de Catequese, pinguelins, rodas de ráfia, um tambor e um corá, além de algumas peças esculturais em pau-preto.