sábado, 9 de março de 2013

Abílio Magro
Rancho Melhorado


Tal como nas outras Unidades militares, segundo creio, também no QG/CTIG as refeições para o Oficial de Dia, Oficial de Prevenção e Sargento da Guarda, provinham das respectivas Messes e eram levadas por um ordenança até aos militares em serviço naquelas tarefas.
Durante mais um serviço de Sargento da Guarda que fiz ao QG/CTIG, fui inesperadamente contemplado com um rancho melhorado como nunca mais fui até ao fim da comissão.
Não era o dia da Unidade, nem o dia do meu aniversário!
Seria uma gentileza do Brig. Banazol pelo meu aprumo e competência no comando da Guarda de Honra?! Quem sabe!
"Isso agora não interessa para nada e vamos é 'enfardar' isto e o que fôr, soará!"Pensei eu com os meus botões.
"Abarbatei-me" ao apetitoso conteúdo do prato e, à medida que "metia p'ra blusa", mais aumentava a empatia entre mim e o serviço de Sargento da Guarda.
Efectivamente sentia que, finalmente, alguém dava valor ao esforço e empenho que eu colocava na execução de uma Guarda de Honra a um Comandante estrelado. No resto ..., nem por isso, mas agora também não interessa nada.
Terminado o faustoso repasto, abeira-se de mim o Capitão - Oficial de dia - que simpaticamente me pergunta:
- "Já almoçou?! Então, e o almoço estava bom?"
- "Sim, obrigado, por acaso hoje até que nem estava nada mau."
E a simpatia continuava, levando-me a pensar que estaríamos com toda a certeza no dia do "Sargento da Guarda". E porque não, ele há dias para tudo?!
Pergunta-me então: - "E um cafézinho, não ia agora?"
Nessa altura até já me apetecia dar-lhe um beijo na boca, tanta era a simpatia com que me tratava!
- "Ah sim, obrigado, por acaso agora até caía bem um cafézinho.
Ao contrário do que sucedia com muitos oficiais, a este Capitão os galões não o impediam de ter um gesto de cortesia para com um seu subordinado. E se ia pedir ao ordenança para lhe trazer dois cafés (para ele e para o Oficial de Prevenção) que lhe custava pedir que trouxesse mais um para o desgraçado do Sargento da Guarda?!
O café não fazia parte do "Menu do dia" e teria de ser pago. Achei que não seria correcto da minha parte entregar-lhe, logo ali, o dinheiro correspondente ao meu "cimbalino" (1 escudo, salvo erro) e não o fiz, até porque seria pouco provável que o Capitão o aceitasse (julgo eu).
Sentia-me que nem um Abade e, sentado à mesa, de papo cheio, debaixo da ventoínha da Casa da Guarda, aguardava o cafézinho, imaginando até o Capitão a providenciar para que o "cimbalino" fosse devidamente acompanhado com um bagacito pr'ajudar à digestão.
Os minutos foram passando e o café não aparecia. Comecei a pensar que talvez o Capitão tivesse ficado chateado por eu não lhe ter pago o café antecipadamente, mas isso parecia-me pouco plausível.
Também não me parecia normal que o café já tivesse chegado e que fosse o Capitão a trazer-mo à Casa da Guarda. Assim, fui passando várias vezes pela porta do Oficial de Dia (mesmo em frente à do Sargento da Guarda) para ver se o café já tinha chegado. Também pensei que, quando chegasse, o Capitão me chamaria com toda a certeza.
O tempo continuou a passar e, de café, nem cheiro!
Era também estranho que, não havendo café p'ra ninguém, não tivessem a gentileza de me informar.
Rebobinei a cassete toda e comecei a rever o filme. Juntei algumas peças do puzzle e, de repente, fez-se luz no meu espírito!
Um almocinho "à maneira" - o Capitão a perguntar: "E um cafézinho, não vai agora?! ... "Querem ver que o ordenança trocou as "marmitas" e eu "mamei" o almoço do Capitão e esta conversa do cafézinho é só tanga?!
Pois, aquele "E um cafézinho, não vai agora?!", não se tratava de qualquer cortesia do Capitão, mas sim de alguma ironia de quem se via na contingência de almoçar "que nem um Sargento".
Resumindo:
Entregaram-me o almoço, estava bem servido e eu estava com fome - atirei-me a ele! E..., digo-o com toda a sinceridade, nunca supus que tivesse havido troca, tanto mais que do outro lado eram dois almoços e, a haver troca, a mesma seria imediatamente detectada. Provavelmente o Alferes também se aviou primeiro, não sei. Apenas sei que almocei melhor do que era costume. O cafézinho é que, pelos vistos, tinha ficado na Alfândega!

Durante a minha vida militar no TO da Guiné, vários pequenos episódios sem grande importância foram acontecendo e a sua grande maioria estava já no arquivo morto e só agora, depois que me tornei escriba desta grande Tabanca, é que alguns me têm vindo à memória. Parecendo-me, no entanto, que o pessoal das "bolanhas" demonstra algum interesse em conhecer este tipo de episódios vividos pelo pessoal do "ar condicionado" e ainda que sejam, realmente, episódios insignificantes do meu dia-a-dia no QG/CTIG, continuarei a relatá-los até que alguém me mande calar, tenha eu "pachorra" e tempo para o efeito.

Convencido que estou de que isto não sairá daqui por me encontrar entre ex-camaradas da Guiné, vou, aqui e agora, fazer uma confissão que nunca fiz publicamente, para que se perceba minimamente o contexto em que alguns episódios se deram e tendo em conta que estavamos num Quartel General em pleno Teatro de Operações da ex-Província Ultramarina da Guiné (considerada, na altura, zona 100% operacional).

Como já deveriam ter percebido, este vosso ex-camarada, cujas acções militares na Guiné roçaram, ainda que ao de leve, as façanhas do famoso Rambo, fez vários serviços de Sargento da Guarda ao QG/CTIG.
Durante esses serviços nunca visitou nenhuma guarita, nem nunca quis saber, sequer, onde se situavam as mesmas.
Acredite quem quiser, mas é realmente verdade e passo a justificar:
Como sabem, havia sempre uma senha e uma contra-senha para efeitos de ronda. A senha era-me transmitida pelo Oficial de Dia através de uma carteira de fósforos, ou outro artefacto do género e era usual (para mim acho que foi sempre) utilizarem nomes de frutos (banana/pera - uva/maçã - cereja/morango, etc.). Pelo mesmo método eu transmitia as senhas ao Cabo da Guarda.
O pessoal era sempre guineense com excepção do Cabo da Guarda que, uma ou outra vez, era europeu. Imaginem a confusão que se poderia fazer com uma salada de fruta de senhas e contra-senhas!
Nunca efectuei qualquer ronda, nem sabia onde ficavam as guaritas (eu era Amanuense, porra!). Estão a imaginar-me na escuridão da noite a aproximar-me de uma sentinela e não me lembrar de qual era a fruta da época e o "bacano" já ter entornado alguma "água de Lisboa"?! "Bai lá bai, até o Barack Obama!"

Recordo-me de uma certa noite, já com os portões fechados, me aparecer do lado de fora e agarrado às grades do portão, um soldado negro a quem só se via o "teclado" de tanto se rir e apenas dizia: "esfuriel...esfuriel...esfuriel".
Estava com uma "tosga do carago", pois tinha abandonado a guarita para ir até à messe, onde trabalhava, beber uns copos.
Aquela triste figura só me dava vontade de rir, mas, por outro lado, tinha receio que o Oficial de Dia se apercebesse (nessa dia era um Capitão do QP) e lá estaria eu metido em sarilhos e aquele desgraçado com a vida estragada, pois a tropa era o seu ganha-pão (ou arroz). Abrir-lhe o portão para ele entrar, podia alertar o Capitão.
Disse ao Cabo da Guarda, também negro, que colocasse um substituto no posto e que fosse dar a volta ao Quartel, saindo pela CCS, e o trouxesse caladinho e o enfiasse na cama. Assim fez e tudo correu sem problemas.

Uma outra vez, sendo o Oficial de Dia novamente um Capitão do QP, aparece-me um 1º Sargento, daqueles que gostam de mostrar serviço, com uma G3 na mão dizendo que tinha encontrado uma sentinela a dormir e que lhe tinha sacado a arma. Sugeria que eu fosse lá à guarita ver o homem e fazia-o em voz alta para o Capitão ouvir e me tramar a vida a mim e ao soldado. Já algo furioso com ele, lá consegui que baixasse o tom de voz e me entregasse a G3.

Resumindo: O pessoal, que era quase sempre o mesmo, já devia conhecer o meu modo de actuar e, quando eu estava de Sargento da Guarda, era uma "rabaldaria do caraças"! Eu só queria que não dessem muito nas vistas. Quanto ao resto, cada um que se desenrascasse que eu tentava fazer o mesmo, papando os almoços aos Oficiais de Dia.

Ainda uma outra vez em que me encontrava de Sargento da Guarda, logo pela manhã aparece-me esbaforido o Cabo da Guarda informando-me de qualquer coisa que se estaria a passar na casa de banho. Para lá me dirigi de imediato e encontrei no chão, acometido de um ataque epiléptico, um nosso camarada que estava de Sargento de Dia. Lá providenciei para que o levassem de Jeep ao HMBIS.
Era um camarada ainda mais franzino do que eu e deixei de o ver durante uns tempos. Teria sido evacuado para a Metrópole?!
Não! Num outro dia em que voltei a fazer serviço de Sargento da Guarda, lá estava ele novamente de Sargento de Dia.



"Que Deus me perdoe, mas eu adoro isto aqui" (Frase do General George Patton proferida no decorrer de uma batalha).
"Que Deus me perdoe, mas eu piro-me já d'aqui" (Frase do Furriel Abílio Magro proferida no decorrer de um serviço de Sargento da Guarda).






quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Abílio Magro
Patrulhamentos no Cupilom (Pilão)


Durante os cerca de 30 meses em que permaneci nas fileiras do Exército, em cumprimento do Serviço Militar obrigatório, muito enriqueci o meu vocabulário à custa da chamada "linguagem de caserna", particularmente na Guiné.
E se em relação aos vocábulos "ordinários", pouco tinha a aprender, confesso, já no que se refere a expressões mais "pacíficas", o ganho foi substancial.
Efectivamente aprendi e usei expressões (e ainda uso algumas) que, embora sendo consideradas calão, não são pejorativas e fazem, também elas, parte integrante da história de uma época e de um contexto onde todos nós, ex-combatentes, vivemos durante algum tempo da nossa juventude.
Com o fim da guerra colonial, muitas daquelas expressões caíram em desuso e, para que se preserve este valioso património, tentarei usar e abusar, nesta "Tabanca", de expressões usadas entre os militares em serviço na Guiné e que me ficaram na memória.
Dito isto, vamos aos "famosos" patrulhamentos no Pilão.

O Pilão (assim se designava habitualmente o Cupilom) era o maior bairro negro de Bissau e situava-se perto das instalações Militares de Santa Luzia, onde estava instalado o QG/CTIG. Era composto por numerosas tabancas, sem energia eléctrica, sem água canalizada e sem rede de esgotos. Era ali que vivia a maior parte da população pobre de Bissau. Era também ali que havia "manga de fudi-fudi"(1) onde muitos militares iam "desenferrujar o prego". À noite era perigoso andar por ali sozinho.
Recordo-me de, ainda na Metrópole e terminadas a férias que antecediam o embarque, ter-me deslocado a uma barbearia para um corte de cabelo curto, e o barbeiro que me atendeu ter-me perguntado se ia para a tropa. Tendo-lhe respondido que não, que já lá andava há quási um ano, mas que ia para a Guiné, ele logo me avisou: "Cuidado com o Pilão, um 'gajo' entra lá e sai com a cabeça debaixo do braço!". Fiquei esclarecido.
Efectivamente, vim a constatar depois que, à noite no Pilão, havia constantes conflitos por variadíssimas razões, entre as quais o "fudi-fudi". Era também habitual o rebentamento de granadas naquela bairro e constava até, que por lá havia muita gente simpatizante do PAIGC e que alguns guerrilheiros ali vinham passar os fins de semana, recolhendo informações.
Os patrulhamentos estavam a cargo do pessoal da CCS do QG/CTIG e eram efectuados em três turnos; 20h-24h, 24h-04h, 04h08h e eram controlados por um Capitão do COMBIS (Comando de Defesa de Bissau).
E é neste contexto que este vosso camarada "operacional do ar condicionado", apenas com alguns dias de Guiné, é chamado a efectuar o seu primeiro patrulhamento nocturno ao Pilão.
"Piriquito"(2) como era, estava decidido a seguir à risca todas as instruções que me fossem transmitidas para o efeito.
Munido de G3, telemóvel matulão (já não sei como se chamava aquilo) e um croquis mal-ajambrado, com notas escritas à máquina e envolto num plástico transparente, lá vou eu comandar uma patrulha de seis homens, transformados em guarda-nocturnos.
Vamos de Unimog e largam-nos no local indicado no croquis. Este, tinha aspecto de já ter cumprido dezassete comissões e apresentava-se com a farda toda esfarrapada. Isto é: o plástico estava a desfazer-se e o papel mal se conseguia ler. Então de noite, sem luz, era giro!
Mas eu estava determinado a fazer tudo certinho direitinho (era mesmo muito "pira"!(2)) e esforço-me por estudar o croquis, quando um elemento da patrulha me diz que o "télélé" tinha lanterna o que me levou a concluir que, afinal, a tropa portuguesa estava bem equipada. Às apalpadelas tentei acertar com o botão respectivo, mas acabou por ser o tal elemento da patrulha a dar à luz. Logo pensei: "este deve ser Engenheiro".
Os caracteres esbatidos daquele croquis já se me apresentavam mais legíveis e tratei de perceber qual o trajecto que teria de seguir para cumprir cabalmente a misão que me havia sido confiada, quando dou com o seguinte fragmento de texto: "(...) junto a um mangueiro com uma faixa branca (...).
"Porra! Esta merda está toda rota, a luz é fraca comó caraças, um gajo num bê a ponta dum chabelho e, ainda por cima, estes gajos num sabem escreber, ou estom a gozar comigo?! Como é que bou encontrar uma mangueira com uma risca branca, no meio desta escuridom?! Tá tudo doido!" (Em 1973, com 4 ou 5 dias de Guiné, sabia lá eu que existiam mangueiros!)
Fartei-me de olhar para o chão à cata da tal mangueira!
Resumindo: perdi-me completamente e, a páginas tantas:
"- kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto. - kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto.".
O "télélé" tinha acordado - era o Capitão do COMBIS!
Respondo: "- celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto - celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto (duas vezes - tinham-me dito que era assim).
Do outro lado respondem:
"kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto - kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto".
E eu novamente: "- celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto - celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto
Aquilo até estava a ser giro, mas o tal "engenheiro" diz-me: "- Meu Furriel, tem de carregar num botão aí ao lado! (o tipo sabia mesmo daquilo!).
Carreguei no botão, mas a conversa continuava monótona como tinha começado: "kalar, kalar para cá - celta, celta para lá" e já começava a chatear!
Então o "engenheiro" diz: "Meu furriel, tem um botão de cada lado, tem de carregar nos dois ao mesmo tempo! Aí convenci-me mesmo que o "bacano" era Engenheiro, e dos bons! Talvez electrotécnico.
Bom, lá consegui chegar à fala com o Capitão que me perguntou onde é que eu estava, e eu lá tive de lhe dizer que me tinha enganado no autocarro, que era a 1ª vez, etc. e tal e ele lá me disse que estava junto à igreja, o que me deixou mais sossegado pois, provavelmente, estaria em meditação e dava-me algum tempo para lá chegar.
Como não fazia a mínima ideia onde ficava a igreja, perguntei ao pessoal e um dos negros que compunham a patrulha lá nos encaminhou até lá.
Chegados lá, nem Capitão, nem Padre, nem Sacristão, nem o raio que os parta!
Recomeça a cantoria:
"- kalar, kalar..."
A sério que me apeteceu mesmo mandá-lo calar, mas lá carreguei nos dois botões (a gente está sempre a aprender) e o Capitão pergunta-me:
"- Então, onde é que você anda?!
O tom de voz dele já não me estava a agradar.
Respondi-lhe com alguma sobranceria:
"Estou junto à Igreja!"
E ele: - "Junto à Igreja estou eu e não vejo aqui ninguém!"
$#"&%/$"$#!!! - Eu, afinal, estava junto a uma mesquita!!
"Ai meu Deus que desta é que eu vou parar a São Crincalho! Já me estava a imaginar no centro de Madina de Boé a fazer patrulhamentos com uma moca de Rio Maior na mão e uma fisga no bolso!"
Lá me explicou mais ou menos onde ficava a Igreja e, como o pessoal mostrou conhecer o caminho, para lá avançamos a todo o vapor!
Lá chegados, continuei com as minhas desculpas e não notei nele grande ressentimento. Julgo que era Capitão Milº. Assinei o mapa de controlo e lá me embrenhei novamente na "densa mata", até ser rendido.
Eu era de rendição individual, estava há três ou quatro dias na Guiné e ainda não tinha tido tempo para conhecer todos os "cantos à casa".
Vim mais tarde a saber como a "coisa" funcionava e, até ao fim da comissão, agi de acordo com as regras vigentes e..., "tá na mala!"(3)
Então era assim:
O Capitão do COMBIS ligava para o Oficial de Prevenção - Alf. Milº - informando-o da hora e local onde seria efectuado o controlo. O Oficial de Prev. avisava o Sargento de Ronda. Este seguia directamente com a patrulha para perto do local de controlo e, minutos antes da hora marcada, avançava destemido para o "objectivo". Nunca falhava!
Eu nunca dormia (forte sentido de responsabilidade), mas algum pessoal era "tiro e queda!".
Uma das vezes dei comigo a guardar seis "bacanos" a ressonar!
"Oh c'um carago, mas que é isto?! Tudo a "ferrar o galho" e eu aqui feito camelo, de sentinela a velar por eles?!"
"- Toca a acordar pessoal, vamos dar uma volta que estou a ficar com frio!" Acordaram e lá foram, meio a resmungar.
Em Setembro de 1973, vim de férias à Metrópole e, regressado a Bissau, "tungas, bora lá alinhar" numa rondazinha ao Pilão.
Era o turno das 20h às 24h, o pior em termos de conflitos. Eu tinha regressado no dia anterior e estava atarefado a tentar descansar da azáfama das férias. Sossegadinhos no canto de uma tabanca (do lado de fora, claro), fomos sobressaltados com o rebentamento de uma granada. Ouvi, registei e esperei. Logo de seguida, rebenta outra, depois outra... Mau, vim ontem de férias e ainda me sinto em convalescença, sem vontade para entrar em "festas"!.
Continuam a rebentar, tenho de ir, pois vai aparecer o COMBIS de certeza.
Inicio, então, a deslocação das tropas exactamente em sentido contrário ao do som dos rebentamentos (cautelas e caldos de galinha...).
O pessoal alerta-me, mas eu não ouço. É para este lado e "mai nada!" Rebenta mais outra e aqueles "camelos" insistem: "- Meu Furriel é para ali!" (militares impreparados!).
Lá tive de inverter o sentido da marcha. Aqueles "gajos" não estavam a facilitar nada.
"Calma, nada de pressas", ordenei eu!
Entretanto rebenta uma granada incendiária que provocou um grande clarão e pude ver que já lá se encontrava alguma tropa e aí sim, acelerei a marcha. Não façam já juízos precipitados! Acelerei a marcha, não porque me sentisse mais seguro, mas porque estavam lá camaradas meus que podiam necessitar da minha ajuda (a isto chama-se altruísmo!).
O Capitão da COMBIS manda-me fazer um cordão de segurança ao local (eu mais 6 homens, quando muito uma cordinha!), pois estava uma granada descavilhada junto à porta de entrada da casa de um 1º Sargento e era preciso fazer segurança aos homens que iriam tentar resolver o assunto.
Aquela granada podia rebentar por simpatia a qualquer momento. Colocaram sacos de areia junto à entrada da casa.
Pensou-se em dar um tiro de longe à granada, mas não seria fácil acertar-lhe e, além disso, parece que havia uma determinação qualquer que não permitia tiros em Bissau.
Se algum tabanqueiro tiver informações àcerca do assunto, seria interessante divulgá-las aqui na Tabanca, pois sempre me pareceu absurda a ideia, tanto mais que era frequente o rebentamento de granadas, mas, realmente e apesar da quantidade de armas que por ali circulavam, nunca tive conhecimento de cenas de tiroteio em Bissau. Talvez eu andasse distraído, não sei.
Aquilo demorou uma eternidade. Toda a gente dava palpites e eu, experimentado como era no assunto, também dou o meu.
"E se se abrissem algumas munições e se fizesse no chão um carreiro de pólvora até à granada e se espalhasse em cima desta alguma pólvora. Depois, era só chegar fogo à outra extremidado do carreiro e proteger-mo-nos."
A sugestão foi bem recebida, mas o pior veio a seguir. Era preciso um voluntário...
"Querem ver que estes gajos estão a pensar na minha pessoa para pôr em prática o meu plano?! Estão doidos!"
Realmente, isto de fazer planos para os outros executarem é muito lindo. Não deixavam de ter razão, mas eu tinha regressado de férias no dia anterior, carago! Era só por isso, mais nada.
E não é que um "bacano" do meu "grupo de combate" se oferece como voluntário?!
Este gajo é maluco! Esta merda ainda rebenta, o "gajo" vai pelos ares, e eu fico com um "molho de bróculos" nas mãos do carago!
O "bacano" lá começa a fazer o carreiro de pólvora até à granada e eu sempre a "rezar" para que ela se aguentasse muda e queda e a pedir que o "bacano" se despachasse.
Quando chega à granada e começa a despejar pólvora em cima dela, eu já tremia todo só de imaginar a "gaja" a explodir, o "bacano" a ficar feito em fricassé e eu a "sentar o cu no mocho".
Lá terminou sem problemas aquela tarefa e, então, chegou fogo à pólvora no início do carreiro que tinha feito. Todos nos abrigamos a aguardar os acontecimentos. A pólvora lá foi ardendo pelo e carreiro e, quando chegou à granada, dá-se um clarão e... "um autêntico flato em pantufas!". A "gaja" não rebentou, chegou o pelotão para me render, eu regressei a quarteis e no dia seguinte soube que lá tinha ido o pessoal das minas e armadilhas que tratou do assunto.

A esta distância (40 anos) estes episódios são relatados com esta ligeireza da "calma, descontração e estupidez natural", mas não deixei de apanhar alguns "cagaços" e temos de levar em conta que o meu nome completo inclui os apelidos Valente e Magro e que, o último me assentava na perfeição, à época.


(1) - "manga de fudi-fudi" - muito sexo
(2 - "piriquito" ou "pira" (abrev.) - expressões que designavam um militar recém chegado à Guiné e cujo camuflado, com pouco uso, nos levava a assemelhá-lo ao periquito verde da Guiné (papagaio do Senegal).
(3) - "tá na mala!" - Está feito, siga!







sábado, 23 de fevereiro de 2013

Acácio Magro
A Diáspora dos Magros

Acácio Alberto Lamares Magro
ex-Comandante da Companhia "Os Magros do capim"


(Tentei apropriar-me do espírito jocoso tão caracterítico de El Comandante, fazendo estas aldrabadas rimas imaginando-o hoje, entre nós, a escrever sobre a diáspora dos Magros do capim.
Se consegui retratar minimamente a sua subtil jocosidade, não sei. Fica a intenção em sua memória. AM)




Tantos anos a procriar
Seis mancebos vi crescer
A tropa os veio buscar
Como era de prever

Foram todos p'ro Quartel
Aprenderam a marchar
Apanharam um batel
Rumaram ao Ultramar

Na a vida sempre a sorrir
Muitas vezes quis chorar
Vendo seis filhos partir
Para terras de além-mar

Uns após outros partiram
Pra guerra, com valentia
Foram seis, todos saíram
Ficou a casa vazia


Rogério
1967/1969

Foi pra guerra o Rogério
Para Angola, pr'o Lumbala
Zona de mato a sério
Vai pedrada se não há bala

No "meco" a roupa lavava
No Zambeze tomava banho
E na Diamang fumava
No seu cachimbo castanho

Uma linda escola ergueu
Um rádio velho consertou
Um bom cabrito recebeu
Muita picada no cú levou

Operações, rancho e escola
Renderam-lhe alguma estima
Os frangos viraram-lhe a "tola"
"Meta-os pelo cú acima!"

Fernando
1970/1972

Pra Guiné segue o Fernando
Que na tropa já tinha andado
Dão-lhe galões pro comando
De pessoal todo artilhado

Pelo Kako é recebido
Expõe-lhe seus argumentos
O General é convencido
Fica nos Reordenamentos

Foi professor em Bissau
E a Tecnil apoiou
Encheu bolsos com "cacau"
Enquanto a tropa durou

Sempre bem acompanhado
Com mulher, filho e "canito"
Nunca se sentiu atacado
E não deu qualquer "tirito"

Dálio
1970/1972

E o Dálio marcha também
Para as minas e armadilhas
Com os "turras" não se dá bem
Vai p'ra bola com sapatilhas

Em Moçambique - Marrupa
Organiza alguns joguitos
Esquece os filhos da tupa
E vai marcando uns golitos

Cria os super-Marrupões
Joga ao centro e pelas alas
Vai à final, são campeões
Festa rija pros "magalas"

Tem problemas num dente
Vai à "cata" dum dentista
É tratado como um Valente
Sem anestesia, por um "artista"


Carlos
1970/1972

Em Angola na aviação
No Luso e Henrique Carvalho
O Carlos com o heli-canhão
Manda tudo p'ra São Crincalho!

Integrou os Saltimbancos
Na Siroco também entrou
Evacuou pretos e brancos
Com o heli-canhão lidou

Nos Alouettes, os noviços
Pouco sabiam da matéria
Pra ele, pelos bons serviços
Seis anos de Força Aérea!

A mulher foi lá pró ver
Foi amor e uma cabana
Viu-se a barriga a crescer
Oh Marta, és Angolana!

Álvaro
1971/1973

Para a Guiné marcha também
Pelo mano é hospedado
Umas férias sabem-lhe bem
Passa uns dias descansado

Em Mansambo tem estadia
“Boa comida e rico vinho”
Sai p'ro mato co'a Companhia
Adormece..., fica sozinho!

Queixa-se ao mano capitão
Da vida dura, do mato mau
Este pensa numa solução
Pro trazer para Bissau

O "mais velho" não descansa
De o ajudar, tem vontade
Quem porfia, sempre alcança
Traz o Álvaro pra cidade!

Abílio
1972/1974

Se já foram cinco pra guerra
Porquê mais um, acto tão vil?
Ó generais da nossa terra
Ouçam bem o Augusto Gil:

Que quem é atirador
Vá pro mato, tudo bem!
Mas o "finguelas" Senhor,
Porque lhe dais tanta dor?
Porque o quereis lá também?


General Spínola, meu General!
O que vai este fazer p'ra Guiné?!
O rapaz é enfezado, come mal
Tem varizes, não s'aguenta em pé!

Deixem-no comigo, por favor
Encarregar-me-ei de o encorpar
Torná-lo-ei num bravo atirador
Mais dez anitos pro preparar!




quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Dálio Magro
Cancioneiro do Niassa

As canções do cancioneiro do Niassa não eram mais do que canções populares (do Fernando Farinha, do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira e de outros) com letras adaptadas. As letras eram mais ou menos como transcrevo a seguir:

1 – O Turra das Minas

O turra das minas
Pequeno e traquinas
Lá vai na picada
E a malta escondida
Na mata batida
Monta a emboscada

O turra passou
A malta esperou
Já toda estafada
E a Berliet
Sempre foi estoirada

Há mortes e feridos
E os mais aguerridos
Somos sempre nós
Vamos pelos ares
Gritando por todos
Até pelos avós

Oh Turras bairristas
Mas pouco fadistas
Já é tradição
Ser para-quedista
Sem tirar o curso
Ai isso é que não

Oh turra das minas
A tua vida agora
É por as marmitas
Pela picada fora

Oh turra das minas
A tua arma soa
Por léguas e léguas
Aqui no Niassa
Onde a guerra entoa
---X---
(letra para a música do Fado ‘Ó Júlia Florista’)
2 – Merda … Merda

Há erva lá na picada
Pisam-na os guerrilheiros
O coração do soldado
Pisam-na os coronéis
E ajudam os machambeiros

Que culpa tem o soldado
de ter raiva à sua sorte
Se vem um filho da puta
que o mete numa farda
e o manda para a morte

E o sr. Brigadeiro
vive muito descansado
Até comprou um balança
Para pesar o dinheiro
Que rouba ao pobre soldado

Quando será Deus do Céu
Que um dia haverá verba
Quando será Deus do Céu
Que um dia haverá verba
Para a malta comer pão
e os xicos merda.. merda
merda …merda
--- X ---
Canção feita em Nampula em 1970.
Inspira-se numa conhecida canção da guerra civil espanhola:
"La hierba de los caminos
la pisan los caminantes
y la mujer de lo obrero
la pisan quatro tonantes
de essos que tienen dinero" (...)
(João Maria Pinto -1999)
http://blogueforanada.blogspot.pt/2004_05_09_blogueforanada_archive.html
3 – Estou Farto Deles

Todos os cabecinhas
Têm as suas caminhas
Com lençol e almofadas

Mas a malta cá no Norte
Já está com muita sorte
Se não dormir na picada

Eles comem em sua mesa
E com decoro e subtileza
demonstram a sua arte

Mas a malta variando
cá continua lerpando
é a ração de combate

Estou farto deles
que da guerra não sabem nada
só chateiam a rapaziada
para fazer um figurão

É descansando
que o tempo vai passando (Ai)
Só estamos esperando
acabar a comissão

Andei cá pelo Norte
Lado a lado com a morte
Lutando sempre na frente

Mas eles sem fazerem nada
Vão vestindo a sua farda
Como se não tivessem medo

Vão mandando suas bocas
Mostrando suas ideias loucas
para estes e para aqueles

Por isso digo a quem passa
Em Mueda ou no Niassa
Estou mesmo farto deles

Que da guerra não sabem nada
só chateiam a rapaziada
para fazerem um figurão

È descansando
que o tempo vai passando (Ai)
Só estamos esperando
acabar a comissão
--- X ---
(Letra adaptada para o Fado do Cacilheiro de José Viana)
4- Estranha forma de vida

Estranha forma de vida
Estranha comparação
Vive-se em Lourenço Marques
Vive-se em Lourenço Marques
Cá estoura-se o coirão

Vida boa vida airada
Boites é só festança
Lá não se fala em matança
Lá não se fala em matança
Nem em turras à sá morgado

Niassa por onde dança
Guerra como essa ignorada
Conversa que é evitada
Conversa que é evitada
Pelos que vivem na abastança

Falar da nossa desdita
Fica ao lado e aborrece
E como lembrar evita
E como lembrar evita
Toda a gente se entristece

Ao passar pela cidade
Com tanta tranquilidade
Deu-me para comparar

Ao passar pela cidade
com tanta tranquilidade
deu-me para comparar

Meninas de mini-saia
Mandai-as para as nossas praias
Para a manobra de atracar

Meninas de mini-saia
Mandai-as para as nossas praias
Para a manobra de atracar

Pipis com carros “Gts”
Mandai-os para as Berliets
Tirai-lhes as modas finas

Pipis com carros “GTS ”
Mandai-os para as Berliets
Tirai-lhes as modas finas

Menús afeminados
eram bem utilizados
para fazer rebentar minas

Menús afeminados
eram bem utilizados
fazer rebentar minas

Bem como essas tais meninas
Que apesar de enfiesadinhas
Mas com ar da sua graça

Bem como essas tais meninas
Que apesar de enfiezadinhas
Mas com ar da sua graça

Serviam muito a jeito
para salvar a dor de peito
Cá da malta do Niassa

Serviam muito a jeito
Para salvar a dor de peito
Cá da malta do Niassa

Mas se não for só por pirraça
Hão-de lá continuar
E nós temos de lerpar

Mas se não for só por pirraça
Hão-de lá continuar
E nós temos de lerpar

Invertam-se as posições
Troquem-se as situações
Continuamos a aguentar

Invertam-se as posições
Troquem-se as situações
Continuamos a aguentar

Eles os daqui naturais
Gastando dinheiro aos pais
Vão para o Matola Rios

Os daqui naturais
Gastando dinheiro aos pais
Vão para o Matola Rios

Acabe-se com a tradição
Entre-se na mobilização
Utilize-se a manada

Acabe-se com a tradição
Entre-se na mobilização
utilize-se a manada

Dentro de poucas semanas
Como quem come bananas
Estará a guerra acabada

Dentro de poucas semanas
Como quem come bananas
Estará a guerra acabada






quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Dálio Magro
Cantigas do Capim

O Primeiro-Sargento da Companhia era muito miltarista e implicava com os cabelos compridos dos condutores quando estes iam a Marrupa para reabastecimento de material. Então, eu escrevia na tampa de uma ração de combate (não havia papel no meio do mato) uma declaração em que autorizava o condutor a usar os cabelos compridos durante o período que levaria a fazer o trajecto entre o mato e o Quartel e respectivo regresso.
A primeira coluna para o mato (Chiulezi) foi chefiada por mim, mas, para meu espanto, com a segunda coluna não seguiu qualquer oficial.
Os condutores queixavam-se que o Primeiro-Sargento tinha construído um jardim à entrada do aquartelamento que dificultava a manobra dos camiões.
Pelos motivos acima apontados o "vidrinhos" fez algumas quadras que o pessoal passava a vida a cantarolar.


O Primeiro-Sargento Bruno

Há injustiças que tanto puno
Já estamos fartos do Sargento Bruno
do Sargento Bruno

Que mal tão grande e derradeiro
Artilharia mandou um primeiro
mandou um primeiro

Já cheira mal, a merda é tanta
Sempre nos lixam, mas a malta canta
mas a malta canta

O artilheiro fez um jardim
Mas cá o Magro não o quis assim
não o quis assim

Oh artilheiro a ideia é sua
E o capitão pô-lo na rua
pô-lo na rua

Com o capitão ninguém se mete
E arrasou tudo com o D7
tudo com o D7

Eles bem se escondem lá no buraco
Mas o Jesuino já cá veio ao mato
Já cá veio ao mato

Dizem que o Bruno é muito vera
Mandem para o mato essa grande fera
essa grande fera

Se ele aqui vem, ai que grande carola
Pois os mauzões cá baixam a bola
Cá baixam a bola

O Laranjinha que grande rato
Foi para o conjunto para se safar do mato
para se safar do mato

Já me esquecia cá do xarola
Que no morteiro é um pintarola
É um pintarola

Versos feitos na picada entre o Candulo e o Xiulezi

Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda
Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda

Chegamos ao Xiulezi não trouxemos oficiais
Ficaram em Marrupa para mandarem vir mais
Chegamos ao Xiulezi não trouxemos oficiais
ficaram em Marrupa para mandarem vir mais

Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda
Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda

Vamos arranjar a pista para virem de avião
eles mandam muitas papaias mas não gostam da confusão
Vamos arranjar a pista para virem de avião
eles mandam muitas papaias mas não gostam da confusão

Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda
Mandem os xicos para o mato
já estou farto esta merda

O medo era mato do Candulo para cá
mas houve um dos valentes que preferiu ficar lá
O medo era mato do Candulo para cá
mas ouve um dos valentes que preferiu ficar lá

Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda
mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda

Dos sorjas nem se fala
eles só estão preocupados com o braçal de sargento de dia
Dos sorjas nem se fala
eles só estão preocupados com o braçal de sargento de dia

Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda
mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda

Para a guerra não querem ir
recusam-se a todo o momento
Assim também eu queria
ser segundo sargento

Para a guerra não querem ir
recusam-se a todo o momento
assim também eu queria ser segundo-sargento

Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda
Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda

Se um dia a sorte mudar
e a gente puder mandar vir
serão sempre eles a alinhar
e há-de ser até partir

Se um dia a sorte mudar
e a gente puder mandar vir
serão sempre eles a alinhar
e há–de ser até partir

Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda
mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda

Estou farto deles
Estou farto deles da xicalhada
Só mandam vir e não fazem nada
E não fazem nada
E não Fazem nada

Vai para o mato xico lateiro
Por esse andar chegas a 1º
Chegas a primeiro
Chegas a primeiro

Estou farto deles da xicalhada
Eles no quartel e nós na picada
E nós na picada
E nós na picada

Só há trabalho e maus tratos
e na picada a fome é mato
A fome é mato
A fome é mato

O vagomestre que grande pinta
Está a cortar-se com a ração trinta
Com a ração trinta
Com a ração trinta

Ai que cheirinho a verde pinho
Só não cheiramos o nosso vinho
O nosso vinho
O nosso vinho

Não é só o vinho a nossa luta
Mas o lerpanço é também na fruta
É também na fruta
è também na fruta

Tanta miséria que devaneio
Ainda por cima não temos correio
Não temos correio
não temos correio

De tanta merda já não estranho
há quinze dias que não tomo banho
que não tomo banho
que não tomo banho

Tudo a ralhar com razão
Ainda por cima também não há pão
Também não há pão
Também não há pão

Não há pão come borracha
Pois nem sequer trouxeram bolacha
Trouxeram bolacha
Trouxeram bolacha

Que vida esta tão desgraçada
Se um homem fala leva uma porrada
Leva uma porrada
Leva uma porrada

De tanta dor ninguém contesta
Se vem os turras é o fim da esta
è o fim da festa
é o fim da festa







Dálio Magro
O Futebol e os Super-Marrupões



A Companhia de Engenharia 2686 foi formada sem comandante, uma vez que o Capitão que tinha sido nomeado fez uma exposição alegando que existia um capitão a mais na Região Militar de Moçambique. Assim, o comando da Companhia foi entregue ao Alferes mais antigo (Alferes Ferreira já falecido em virtude de ter sido atingido com um estilhaço de uma granada que se alojou no cérebro e que o deixou em coma durante bastante tempo).
Embarcamos no paquete Vera Cruz, tendo a viagem terminado em Nacala após 22 dias com paragem em S.Vicente (Cabo Verde) para carregar algum material que o “Niassa” teria deixado em virtude de ter ocorrido um pequeno incêndio a bordo, e com paragem também em Luanda.
A Companhia era constituída por quatro Alferes , doze Furriéis e quatro Segundo-Sargentos. Já em Moçambique apresentou-se um Primeiro Sargento, oriundo da arma de artilharia, bem como o Capitão de Engenharia Rosas Leitão que passou a ser o Comandante da Companhia até ao termo da sua comissão (cerca de 7 meses) sendo, então, substituído pelo Capitão Jorge Maçarico que era Engenheiro na Câmara Municipal de Aveiro e que já faleceu.
O Capitão Maçarico foi em rendição individual e parece que estava previsto ficar numa cidade (até tinha levado o seu automóvel Peugeot 404, que depois fomos buscar à cidade da Beira), mas como era miliciano foi empurrado para o mato.
Ao fim de um ano foi deslocado para Tete e para o substituir foi nomeado o Capitão Deus Alves, oriundo da arma de Engenharia e que chegou a brigadeiro.
Normalmente havia sempre um Alferes em Marrupa para dar apoio logístico aos trabalhos que se iam realizando no mato (abertura de picadas, arranjo e alargamento de pistas, etc.).
De um modo geral as diversas companhias que nos davam protecção aos trabalhos, eram atacadas devido ao barulho das niveladoras e rectroescavadoras que denunciavam ao inimigo a nossa localização.
Em face das missões que teríamos de realizar, a permanência no aquartelamento era apenas durante a época das chuvas que normalmente ocorriam entre Novembro e Abril e mais cerca de um mês por ano, relativo ao roulement que era efetuado entre os Alferes.
Durante a permanência no aquartelamento organizei vários torneios de futebol, de cinco e de onze, como se pode verificar nas fotos que anexo.
Fiquei bastante surpreendido com a força das claques, pois com pouco mais de 15 dias de permanência em Moçambique já havia grafitis no campo de futebol a saudar o Alferes Magro (fotos abaixo).




Antes de iniciarmos os preparativos da deslocação para o mato apareceu um dentista em Marrupa para efectuar uma vistoria à dentição do contingente militar e no que à minha pessoa dizia respeito, detectou que existia um dente que tinha um buraquito. Andou a escarafunchar e aplicou uma massa que, passados alguns dias, acabou por sair e apareceu-me um enorme abcesso no céu da boca junto à garganta. Ora como tinha muita dificuldade em respirar, fui a Nova Freixo ao consultório de um dentista que ficou alarmado com a situação e que disse:
- "Vou ter de lhe lancetar isso mas não tenho qualquer anestesia e como é 'Valente' vai ter de aguentar." Quando o vi com um objecto em brasa que parecia quase um ferro de soldar e a introduzi-lo na minha boquinha comecei a transpirar e o sistema nervoso a trabalhar em rotações aceleradas.
Terminado este serviço o doutor perguntou-me se era alérgico à penicilina e se já tinha levado alguma injecção. Respondi-lhe que tinha sido a primeira vez que tinha ido ao médico e que, portanto, desconhecia se era ou não alérgico à penicilina.
"Oh pá não há alternativa, tens mesmo que levar uma injecção!", retorquiu o médico.
Depois de me levantar da cadeira e ter percorrido 2 ou 3 metros caí redondo no chão e quando acordei estava a receber respiração boca a boca.
À despedida o médico estava tão assustado que me pediu encarecidamente para não voltar lá mais.







terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Adelina Valente
Batatas a Pataco

Adelina de Pinho Valente
ex-2ª Comandante da Companhia "Os Magros do capim"



Teria eu os meus 12, 13, 14 anos (não sei bem) mas estaríamos, seguramente, no início ou meados da década de 60.
El Comandante ter-se-ia encontrado na rua com um antigo cantoneiro de Valença que já não via há alguns anos (julgo que se chamava Seixas, nome muito comum naquela região).
Chega ao Quartel muito entusiasmado com a notícia de que tinha encontrado o Seixas e que este lhe teria proposto a venda de batatas a um preço que já não me recordo, mas que pela expressão da 2ª Comandante (Adelina P. Valente), seria ao preço da "uva diurética".
El Comandante, com ar triunfal, declara então ter encomendado dois sacos de batatas e que até já os tinha pago (talvez com receio da subida de preços) e que no dia seguinte as entregariam lá no Quartel.
De imediato, a 2ª Comandante, eu, Carlos e julgo que o Álvaro também, olhamos uns para os outros e ficamos logo ali com a nítida sensação de que: "já foste comido de cebolada!".
A 2ª Comandante, com um sorriso matreiro nos lábios proferiu em surdina uma frase que, traduzida para linguagem actual, seria do tipo: "É que é já a seguir, bem podes esperar sentado!".
Claro que, a partir desse dia, fartamo-nos de "matraquear" a cabeça de El Comandante com a ideia de que tinha sido levado no "conto do vigáro", ao que ele retorquia de imediato com:
- "Oh, oh, o Seixas ia lá fazer uma coisa dessas!"
A partir daí, todos os dias e sempre que chegava ao Quartel para almoçar ou no fim das operações militares do dia, vinha com a pergunta sacramental:
- "Então, as batatas já vieram?".
E dia após dia lá vinha a pergunta e nós sempre a "dar música". Julgo que a cena se repetiu durante, pelo menos, 2 semanas.
Até que, já fartos daquilo e constatando que El Comandante ainda não se convencera de que tinha sido "comido de cebolada", resolvemos, com o conluio da 2ª Comandante, encher um saco de serapilheira com jornais amarrotados e, por cima, todas as batatas que lá havia em casa e que não eram muitas, nem grandes.
Colocamos o saco (só um) ao cimo das escadas de acesso ao Quartel de modo a que ele, ao chegar, desse logo com elas de frente e, à hora prevista da sua chegada, combinamos lugares estratégicos (2ª Comandante incluída) para assistir à reacção de El Comandante.
Eis, então, que se ouvem passos nas escadas!
Cada qual ocupa a posição previamente combinada!
A 2ª Comandante, que se encontrava no Departamento de Alimentação, é avisada!
Os passos são cada vez mais audíveis!
O momento aproxima-se!
Nas "guaritas" o silêncio é total!
Ainda El Comandante não tinha transposto os últimos degraus e, vislumbrando já a parte superior do saco, exclama: - "Ah, vieram, ou não vieram?!" E subindo mais um degrau: - "Só um saco?! O outro também há-de vir!"
Claro que os "observadores", nos seus postos de vigília, começavam a ter dificuldade em conter o riso e a "explosão" deu-se quando, finalmente transpostos todos os degraus, El Comandante se abeira do saco, vê e apalpa as batatas, e afirma com algum desalento: - "Afinal são pequenitas".
A risada é geral, os "observadores" saem das "guaritas", a 2ª Comandante retira-se para o seu Departamento com um sorrisinho cúmplice no rosto, como quem diz:
- "toma e embrulha!"
El Comandante verificando mais abaixo que apenas havia papel, riu-se da "tramóia" e nunca mais perguntou pelas batatas.

Moral da história: El Comandante estava sempre pronto a brincar com tudo e com todos, mas também aceitava com grande "fair play" e com um sorriso nos lábios qualquer partida de que fosse alvo, ainda que daí resultassem prejuízos para a sua pobre carteira.

Abílio Magro






sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Rogério Magro
Gratidão


No início de 1969, instalados no Dundo, capital da Diamang, mais concretamente no quartel do Camaquenzo, por sinal muito bem instalados comparados com os 18 meses de intensa actividade operacional, a Companhia de Caçadores 1719 encontrava-se a descomprimir e a repousar, exceptuando as duas vezes que tivemos que aguentar na zona do Dala, um mês de cada vez, ainda em actividade operacional.

Um magnata no Quartel - Dundo - capital da Diamang - 1969

No Dundo não faltava nada, era uma pequena cidade onde habitavam os funcionários da Diamang que na altura tinha o monopólio da exploração de diamantes em Angola e como tal havia de tudo.
Todos os espectáculos de teatro e/ou variedades que passavam por Luanda, vinham igualmente actuar no Dundo, que tinha uma sala de espectáculos formidável.
Feito este pequeno preâmbulo, vamos directos à história.
O Capitão manda-me chamar, entrega-me uma planta com o desenho de uma escola e ordena-me que recrute dois ou três pedreiros e um carpinteiro no pessoal da Companhia e que, junto dos serviços da Diamang, proceda ao levantamento de todos os materiais para a construção da escola que se iria erigir no aldeamento do Fucaúma, o qual se situava a cerca de 20 Kms do quartel do Camaquenzo.

Nunca me tinha passado pela cabeça vir a ser mestre de obras, mas foi aí que eu dei os primeiros passos na ligação à construção civil. Também nunca percebi porque quando era preciso fazer algo de novo o Capitão se lembrava sempre de mim, muito embora houvesse 3 alferes, 7 furrieis e dois sargentos, mas enfim, lá fui eu com dois pedreiros e um carpinteiro tratar de construir a escola no Fucaúma que, segundo afirmavam, seria o único aldeamento naquela zona que ainda não possuía escola.
Lá fui com uma GMC requisitar o cimento e os tijolos ao armazém da Diamang e lá me dirigi para o Fucaúma. Fui ter com o soba, um velhote estimável que não falava português, mas através de um sipaio que fez de tradutor do dialecto quioco para o português, lá fizemos as apresentações. Ele já estava informado ao que íamos e prontificou-se a arranjar alguns homens para nos ajudarem na construção da escola, nomeadamente irem buscar água ao rio para encher os bidões de 200 litros que levamos.
Diariamente saíamos de jeep do quartel pelas 8 horas. Ao meio dia o jeep ia-nos buscar para o almoço e depois do almoço lá voltávamos para a obra e às cinco horas o jeep tornava a ir buscar-nos.
A escola tinha o formato rectangular e, se bem me lembro, teria aí uns 20 metros de comprimento por 12 de largura, duas janelas de cada lado e uma porta larga na entrada.
Tudo correu sempre sem problemas, à excepção de um dia em que o pessoal não apareceu para encher os bidões de água e tive que chamar o soba para lhe pedir que arranjasse pessoal para ir ao rio buscar água para a obra não parar. Lá conseguiu arranjar alguns homens, trazidos pelo sipaio, mas foram mais as mulheres que ajudaram a ir buscar água ao rio.
A obra lá se foi erguendo, ainda que por dois meses (um de cada vez intercalados) estivesse parada, dado termos ido para o Dala em operações militares. Durante o tempo que permanecemos no dia a dia na aldeia, fomos sempre bem tratados e era usual transportarmos de boleia as pessoas que se apresentavam pelas cinco horas, aquando do nosso regresso ao quartel e, nomeadamente quando traziamos a GMC (camião), havia alturas em que este ficava superlotado.
Tenho vários episódios que, durante o tempo que demorou a construção da escola, me ficaram na memória, mas este que vou passar a referir foi, de todos, para mim, o mais marcante.
Estava eu sentado à sombra de um embondeiro, numa cadeira de ripas verdes que o soba todos os dias lá colocava, quando se dirigiu a mim com um rádio na mão, um homem muito alto e já com alguma idade. Como não falava português, não o entendi e, após ter chamado alguém que traduzisse o dialecto da etnia quioco, fiquei a saber que ele me pedia para consertar o rádio, dado que o mesmo tinha deixado de funcionar.
Tratava-se de um rádio a pilhas, grande e com uma pega na parte superior. Eu não percebia nada de rádios, mas como estava a dirigir a obra que, tijolo a tijolo, ia avançando, disse-lhe que deixasse o rádio que eu ia ver se o conseguia compor.
Com um canivete, que sempre me acompanhou e que ainda hoje tenho guardado, pus-me a desapertar os parafusos e lá consegui abrir o rádio. Verifiquei que havia um fio que se tinha dessoldado, encostei-o no sitio devido, liguei o rádio e este começou a tocar. Fechei novamente o rádio e mandei chamar o sipaio para transmitir ao homem alto e velho que ia levar o rádio para o quartel e que no dia seguinte o traria a funcionar.
No quartel pedi na oficina auto que me soldassem o fio que estava solto.
No dia seguinte, quando chegamos ao aldeamento, lá estava o homem alto e velho à espera junto á palhota do soba.
Eu, maldosamente, tinha escondido o rádio debaixo do banco da frente do jeep e, quando saí sem o rádio, observei que o homem estava com uma cara de grande decepção.
Dei a volta ao jeep, tirei o rádio debaixo do assento e, junto dele, liguei-o e de imediato começou a tocar.
Vi logo no rosto do homem uma grande satisfação. Entreguei-lhe o rádio e ele, sempre muito sorridente e agradecido, puxou do bolso uma nota toda embrulhada de cem escudos de Angola e estendeu a mão para ma dar.
Ralhei-lhe e mandei transmitir-lhe pelo sipaio que a reparação não custara nada e que ele guardasse o dinheiro, o que fez com alguma relutância. Voltou a agradecer-me, bateu palmas e lá desapareceu com o rádio a tocar.
Durante bastante tempo deixei de ver o homem alto e velho até que um dia, ao chegar à sanzala pelas nove horas, vi que junto ao embondeiro estava no chão um cabrito com as quatro patas amarradas, mas não dei grande atenção à situação.
Passados alguns minutos aparece-me o homem alto e velho e, no seu dialecto e com alguns gestos, deu-me a entender que o cabrito era para me oferecer. Mandei chamar o sipaio para ele melhor traduzir o que eu adivinhava entender e este confirmou que ele fazia muito gosto em me oferecer o cabrito.
Eu não estava lá muito pelos ajustes e perguntei ao sipaio se ele tinha cabritos e este respondeu-me que não, que o homem alto e velho era muito pobre.
Então pedi-lhe para ele perguntar ao velho aonde ele tinha arranjado o cabrito.
Após o sipaio lhe ter efectuado a pergunta, este respondeu-me que ele tinha ido comprar o cabrito a uma sanzala que se situava a mais de 100 Kms do local em que estávamos.
Fiquei ainda mais perplexo e respondi que lamentava muito mas não podia aceitar o cabrito.
Após diálogo entre o sipaio e o homem velho, o sipaio transmitiu-me que a ser assim, ele, homem velho, ficaria muito triste.
Então eu respondi-lhe que até ao meio dia, quando nos viessem buscar de jeep, eu tomava uma decisão final.
O jeep chegou perto do meio dia e o homem alto e velho esteve durante toda a manhã a aguardar pela sua vinda junto ao cabrito. Eu solicitei então a um soldado que colocasse o cabrito no jeep e dirigi-me ao homem alto e velho e disse-lhe, obrigado.
O homem alto e velho de imediato começou a bater palmas de contentamento e mal o jeep arrancou, percorreu alguns metros atrás do mesmo a bater palmas e com um sorriso de contentamento que ainda hoje guardo na memória e que eu gravei como o maior acto de gratidão que registei em toda a minha vida.

Nota : O cabrito foi bem recebido no quartel e deu lugar a uma caldeirada que acabou muito bem regada.

"A gratidão é o único tesouro dos humildes." (William Shakespeare)






quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Acácio Magro
Discuro de El-Comandante

Acácio Alberto Lamares Magro
ex-Comandante da Companhia "Os Magros do capim"

Discurso proferido por "El Comandante" no início das obras do Quartel de Aníbal Cunha


Decorria o ano de 1971 (mais coisa, menos coisa). Talvez início do ano de 72.
O Quartel de Aníbal Cunha estava reduzido a 2 elementos - O Comandante (Acácio Magro) e um raquítico mancebo de 53 Kg de peso a quem chegaram a dar, por analogia, o cognome de isca de fígado.
A restante prole, que desde a década de 30 do século passado tinha vindo a ser produzida quase de modo contínuo, foi sendo chamada a cumprir o mais alto dever pátrio, que era o de defender o Portugal multi-racial de aquém e além-mar.
Nessa altura, encontravam-se a cumprir serviço militar nas antigas Províncias Ultramarinas os seguintes elementos:
Guiné - Fernando (parte II) e Álvaro;
Moçambique - Dálio;
Angola - Carlos
Entretanto, o Rogério tinha terminado a sua comissão em Angola, mas não regressou àquele Quartel.
As manas Olga e Etelvina tinham abandonado o Quartel ainda antes da guerra se ter iniciado.
A mana Valdívia, embora tendo visitado o Quartel algumas vezes, julgo nunca lá ter pernoitado o que, em boa verdade, terá sido uma opção inteligente atendendo à superlotação da "caserna".
O "isca de fígado" estava na calha e pretendia fazer algum exercício físico no intuito de adquirir a robustez suficiente que lhe permitisse aguentar umas botas com cerca de meio quilo cada.
Foi então que El Comandante teve a ideia de efectuar alguns trabalhos de "embelezamento" do Quartel, talvez na secreta esperança de um dia ali receber Sua Excelência o Sr. Presidente do Concelho - Prof. Marcello Caetano, portador que fosse de uma qualquer medalha por tão valoroso contributo para o esforço de guerra.
El Comandante entendia que, com a sua superior orientação, alicerçada nos vastos ensinamentos obtidos na Escola Politécnica do Porto (Construção Civil e Química) e na Escola do Magistério Primário, poderia levar de vencida aquela batalha à frente de uma companhia composta de, apenas, um elemento.
Parecendo-me pouco provável que tal intento seria coroado de êxito, propuz que se recorresse à assessoria de um oficial superior perito no manejo de equipamento.


Concordou e, assim, recorremos ao Albino Seixas Ferreira (vulgo, "bigodes" - foto ao lado), trolha e meu amigo de infância que morava ali na Trav. da Carvalhosa.
Uma bela noite, quando nos preparava-mos para dar início aos trabalhos, surge-nos El Comandante, em pijama, com os óculos na ponta do nariz, com um papel na mão e, posicionando-se atrás de uma tábua de passar a ferro que ali se encontrava aberta a servir de apoio aos técnicos, começou a proferir, de improviso e em tom de orador político da época, um discurso de início dos trabalhos.
Atendendo à distância temporal que nos separa dos factos, é-me impossível reproduzir fielmente a totalidade daquele discurso, pelo que me limitarei a algumas frases que retive, mas que são demonstrativas do elevado sentido de humor do nosso saudoso Comandante.





Discurso de "El Comandante "

"É com imenso orgulho e com a voz embargada pela emoção que vejo, finalmente, dar-se início às tão adiadas obras de remodelação, pintura e, quiçá, de embelezamento do 3º andar do número 21 da Rua Aníbal Cunha, local de grandes tradições monárquicas!

(Nesta altura, o "bigodes" em cima da escada e de trincha na mão, ria já que nem um perdido o que fazia com que a escada abanasse e via-se em dificuldades para segurar a lata de tinta)
O discurso foi continuando no mesmo tom e, sempre com pinceladas humorísticas, lá foi debitando algumas frases alusivas às obras que se iriam iniciar, até que, apercebendo-se da iminência da queda da lata de tinta e já não conseguindo conter o riso, resolveu terminar o discurso da seguinte forma:

"Dou, assim, por iniciados os trabalhos.
Rapazes, agarrem-se ao pincel!"


Claro que, nesta altura, o "bigodes", desfeito em risos, se desiliquibrou completamente e eu, tentanto ajudá-lo e salvar a lata de tinta, levei uma valente pincelada na "tromba" e El Comandante, rindo até às lágrimas, bateu em retirada, abandonando as suas tropas.

(Abílio Magro)






segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Abílio Magro
O Meu 25 de Abril


No dia 25 de Abril de 1974, logo pela manhã, com uma molhada de documentos debaixo do braço, dirigi-me como de costume, à repartição que possuía o selo branco do CTIG (1ª, 2ª ???) a fim de o apor, nas assinaturas do Brig. Alberto da Silva Banazol, Comandante do CTIG.
Esta repartição era chefiada por um Major do SGE, já de meia idade e de quem já não me recordo o nome.
Eram talvez 9h30 da manhã, estava eu muito entretido a "trincar" o Banazol com o selo branco e entra o Capitão Cirne (julgo que Miliciano) e, virando-se para o Major, de braços abertos e punhos cerrados "grita", mais ou menos em surdina: - "vive la revolution, vive la revolution!" e continua: "o Marcelo refugiou-se no Quartel da GNR, no Carmo e está cercado pela tropa!".
Claro que orientei logo as "antenas" para o Capitão Cirne e aguardei o desenvolvimento da conversa, mas este deitou-me um olhar que transparecia alguma felicidade, mas algum receio também, e diz: -"Furriel ...!" como quem diz: "Tem lá calma pá e vê lá o que vais para aí espalhar!".
A conversa pareceu-me ter alguma consistência e como, umas semanas antes, tinha havido aquele episódio da coluna das Caldas da Rainha que avançara sobre Lisboa, fiquei intrigado e, na CSJD tratei de contar aos meus camaradas o que tinha ouvido e aguardar algum "feed back".
Nessa altura já o tal 1º Sargento, a quem o Major Lobão chamava de "gebo", tinha terminado a comissão e tinha sido substituído por um 1º Sargento que usava sempre chapéu de pala. Em 18 meses de Guiné, julgo nunca ter visto nenhum militar do Exército usar chapéu de pala.
O homem tinha mesmo queda para polícia e, tendo ouvido o meu relato, tratou logo de dizer: - "Tenha cuidado com o que anda para aí a dizer, que ainda pode ter chatices...". Claro que eu traduzi para: "Põe-te a pau que eu conheço uns gajos na Pide e não tarda nada vais até Guiledje tomar conta daquilo sozinho!" Enfiei a viola no saco.
Entretanto o «PIFAS» (Programa de Informação das Forças Armadas - julgo que era assim) dedicava-se à música sinfónica, o que fazia pensar que efectivamente havia qualquer coisa no ar, embora ainda se tivesse ouvido, nesse dia, um discurso qualquer do Ministro dos Negócios Estrageiros - Dr. Rui Patrício. Mas, pasmem-se, também se ouviu, aqui e ali, alguma música do Zeca Afonso! Das mais suavezinhas, é certo, mas - alto lá, que aqui há coisa!
Aguardava-mos com alguma ansiedade pela hora do almoço, altura em que o «PIFAS» transmitia um serviço noticioso mais elaborado.
Na messe de Sargentos havia uma aparelhagem de som com várias colunas espalhadas pelo recinto - Bar, Esplanada e Sala de Jantar.
Na sala de jantar as mesas eram para 4 pessoas e, embora não houvesse lugares marcados, os "habitués da casa" sentavam-se sempre nos mesmos lugares.
Numa mesa à minha direita, com outra de permeio, sentavam-se quatro camaradas sui generis, já que dois deles eram completamente fanáticos pelos seus clubes (um do Belenenses e outro do Sporting) discutindo constante e acaloradamente sobre futebol e, os outros dois, aguentavam impávidos e serenos.
O fanatismo era de tal ordem que, tanto um como outro, chegavam ao ponto de relatar com algum pormenor a vida dos futebolistas do seus clubes (onde e quando nasceram, onde moravam, que clubes representaram e em que ano, etc., etc.) numa demonstração de grande cultura futebolística.
Pois naquele dia 25 de Abril de 1974, à hora do almoço, quando toda a gente, em silêncio, aguardava com alguma ansiedade novas de Lisboa sobre o que por lá estaria a passar-se na realidade, estavam aqueles dois "fabianos" em acesa discusão acerca, provavelmente, da cor das cuecas que determinado jogador usou no jogo tal, marimbando-se completamente para o que se estava a passar na Capital do Império!
Nesse dia foram-se adensando as suspeitas de que algo de importante se estaria a passar em Lisboa. Aos poucos as notícias foram chegando, mas nada de oficial. Eram transmitidas de boca em boca e, nessa situação, não havia que fiar e continuava-se a combater no mato.
O Brigadeiro Alberto da Silva Banazol, estaria a banhos na Ilha de Bubaque, mas tardava em aparecer.
O General Bettencourt Rodrigues nada dizia.
Começa a "boatice". Que houve um golpe de Estado liderado pelo Gen. Spínola..., que o Gen. Bettencourt estava contra..., que íamos ficar sem reabastecimentos de Lisboa..., etc., etc..
Baixou a qualidade da alimentação... Faz-se um levantamento de rancho... Fazem-se reuniões por tudo e por nada... A confusão é mais que muita...
O Brig. Banazol desaparece... O QG/CCFAG - Amura é cercado e o Gen. Bttencourt preso.
Em Bissau os estabelecimentos são pilhados... É reforçado o pratulhamento nas ruas... A sede da Pide em Bissau corre perigo ...
Sou escalado para Sargento de piquete e, à noite, põem-me uma HK-21 nas mãos e o respectivo pente de balas... Não sei o que hei-de fazer com aquilo... Mandam-me com mais 6 homens fazer segurança à Pide/DGS... Eu sou Amanuense, mas ninguém quer saber... Eu também já não quero saber... Só quero que ninguém me chateie...
E lá vou eu!
Coloco a fita de balas ao pescoço e cruzo-o no peito, qual Pancho Villa liofilizado (podem verificar as semelhanças na foto ao lado, colocando o ponteiro do rato em cima da imagem).
Seguimos de Unimog em direcção ao objectivo - Sede da PIDE/DGS, em Bissau.
Lá chegados, havia que montar o dispositivo de segurança... Começam os problemas... Nas Caldas da Rainha tinha tido uma formação em HK-21 de cerca de ... 10 minutos e recordava-me bem de como colocar a arma com o tripé no chão, mas como se metia o pente, aí é que já era pior..., tinha-se-me varrido completamente.
Um homem nunca se atrapalha:
- "Há aqui algum atirador?"
- "Eu sou!", responde alguém.
- "Então monta lá isso e anda para aqui!"
O equipamento estava montado no meio da ruela que passava por detrás da DGS. Havia agora que colocar estratégicamente o pessoal, e assim fiz:
- "Sentem-se aí nesse canto e façam pouco barulho" (estratégia para não espantar a caça).
Entretanto, como já me estava a dar o sono por ouvir ressonar, levantei-me e fui andar um pouco para perto da HK, não fosse alguém a "gamar", e vi uma caixa de papelão que me deu uma ideia genial!
A HK ali sozinha, montada no chão, não fazia muito sentido. Era conveniente pôr lá um homem a apontar para qualquer lado (o factor psicológico é muito importante nestas ocasiões). Como a arma me tinha sido entregue a mim, parecia-me óbvio que o homem seria eu. Mas eu sou pacifista e, além disso, tinha de me deitar no chão e ia sujar-me todo naquela terra barrenta.
Desfiz a caixa de papelão e fiz uma espécie de tapete que coloquei atrás da HK.
Chamei o atirador e disse-lhe para se deitar que a cama já estava feita.
E ali estava, em todo o seu esplendor, uma segurança com preocupações estéticas, de higiene e de conforto.
E foi neste quadro burlesco que a força que nos veio render nos encontrou, às 4 horas da madrugada, não se tendo registado qualquer incidente.






domingo, 10 de fevereiro de 2013

Álvaro Magro
Perdido no Mato



Em Fevereiro de 1972, quando se encontrava ao serviço da CART 3493 em Mansambo, participou numa operação militar que durou um dia e duas noites e onde, a dada altura, no meio do mato, o Alferes Comandante do deu pelotão, deu ordem para que o poessoal descansasse um pouco.
Cansado e não tendo dormido na noite anterior, acabou por adormecer protegido pela vegetação.
Quardo acordou, viu-se completamente só, no meio do mato, numa região que sabia ser frequentada por "terroristas".
Num "bate estradas" (aerograma) que enviou para o irmão Fernando em Bissau, relatou assim a "odisseia":

"Não imaginas o meu estado de espírito ao ver-me só e perdido dentro daquela mata densa. Andei cerca de uma hora perdido, cheio de medo. Cheguei a pensar que seria apanhado pelos terroristas e que nunca mais voltaria a ver a família.
Procurei encobrir-me com a vegetação, mas se porventura tinha de atravessar uma clareira, fazia-o rastejando.
Por fim encontrei um trilho por onde segui algum tempo, encharcado em suor.
Finalmente vi, ao longe, um pequeno grupo de militares.
Aproximei-me deles correndo o mais que pude e quando me pareceu que a minha voz poderia por eles ser ouvida, gritei com quanta força tinha.
Era tropa da minha Companhia, embora não fosse do meu pelotão.
Contei o que havia acontecido, quase sem poder falar, por estar muito cansado.
Não tive nenhuma culpa do sucedido."


Vista aérea do Quartel de Mamsanbo - 1970







Fernando Magro
Tenente Januário

Relato do ataque à capital da República da Guiné
feito pelo Tenente Januário na Rádio Conacry


"A viagem do Xime (porto próximo do Quatel dos Comandos Africanos de Madina Mandinga) até à ilha de Soga (no arquipélago de Bijagós) durou seis a 7 horas.
Chegamos de madrugada a Soga. Não desembarcamos. O pessoal das lanchas não podia ir a terra nem o pessoal de terra podia ir a bordo. Gerou-se a confusão entre nós.
Todos perguntávamos: para onde iremos? Ninguém sabia, nem os pilotos das embarcações. O Comandante da minha lancha também não sabia.
A moral baixou.
Falava-se que iríamos para a ilha de Como, Cabo Verde ou Teixeira Pinto.
No dia anterior à partida foi-nos dada ordem para ir a terra trocar de fardamento e armamento.
Em terra encontrei gente estrangeira que não conhecia. De onde vieram? Ninguém sabia.
Um rapaz de Conacry disse-me que íamos à terra dele.
Aquele pessoal era da República da Guiné e ia ser levado até à sua terra.
Regressei a bordo e contei o que ouvi.
- Vamos para Conacry. Vocês estão de acordo?
Ninguém estava de acordo. Ninguém estava de acordo, nem os soldados, nem os sargentos, nem os oficiais, nem o Major.
O Comasndante Calvão prendeu o Major (Leal de Almeida) que se insubordinou e mandou-o para Bissau.
O nosso Major (Leal de Almeida) foi para Bissau num dia e no outro voltou com o nosso General e o Comandante Calvão.
Foi reunida a Companhia (Comandos Africanos) e o nosso General disse que iríamos a Conacry somente levar os homens que estavam na ilha e mais nada.
Deixaríamos os homens no porto e regressaríamos. Mais nada.
Começamos a pensar na família. Se por acaso tivessemos qualquer contacto com tropas da República da Guiné? Se eles viessem à nossa terra e atacassem a nossa família, gostaríamos disso?
Tenho na Guiné Portuguesa o meu pai já velho, o meu filho, os meus amigos, a família toda.
Não estava de acordo em ir. A maioria dos oficiais, sargentos e soldados também não estavam de acordo.
Mas o General (António Sebastião de Spínola) convenceu a "malta". Disse-nos que era a única maneira de acabar com a guerra. Que estava tudo arranjado e que não haveria problemas. Disse-nos que as nossas famílias não seriam esquecidas se algum mal nos acontecesse.
O General disse que não haveria problemas e que a operação seria cancelada se houvesse qualquer alteração e se se verificasse, em qualquer altura, que não seria bem sucedida.
Que havia 95% de probalidades de êxito.
Já não pudemos invocar mais nada.
Tivemos que vir.
As forças com quem viemos e que se chamavam a elas mesmas Forças da República da Guiné eram cerca de 150 homens.
A minha Companhia (Comandos Africanos) tinha, também, 150 homens.
Havia também 80 fuzileiros.
Estas forças todas foram subdivididas em pequenos grupos. Cada grupo era destacado para um barco. Ao todo eram seis barcos, que partiram a horas diferentes.
Saímos às 8 horas da noite da ilha de Soga e chegamos aqui às 10 horas da manhã (*) do outro dia. Quando à noite se começou a ver uma luz vermelha, que é a indicação de terra, foram-nos chamar.
O Capitão Bacar (negro) chamou-me e foi então que me apareceu o Capitão Morais (branco) todo pintado de preto que eu nem o conhecia.
Ele disse-me:
- Januário, vamos saltar aqui.
- O quê? Então disseram-nos que vinhamos só trazer o pessoal e eles é que desembarcariam e agora nós também vamos a terra?
- O General mandou e temos de ir lá.
Mandou seguir seis botes cheios de gente para terra.
Eu ia no bote imediatamente atrás do Capitão Morais.
Rumamos à costa. Junto a terra encontramos duas canoas, suponho de indivíduos que andavam a pescar.
Pensei alto: eles vão ser avisados e isto vai ser uma chatice.
- Oh, não. São pescadores. Parece que estás com medo...
- Não, não estou com medo. Se você vai eu também vou.
Chegamos a terra e desembarcamos.
O Capitão Morais disse-nos:
A nossa missão é atacar o Aeroporto e destruir os MIG's. Outros grupos atacarão o PAIGC, a estação dos correios e a emissora.
Em terra fomos progredindo sem custo.
Subimos um muro e começámos a ver o Aeroporto. Depois parámos,
O Capitão continuou.
Eu parei. Fiz sinal aos homens que me acompanhavam para pararem também.
Perdemos a ligação com o Capitão Morais.
Disse aos soldados:
- Vamos atacar esta gente? Gostaríamos que nos fizessem o mesmo? Eu não atacarei ninguém. Quem quiser ficar comigo que venha para aqui. Os outros que corram para a frente.
Vinte homens que estavam comigo decidiram logo não atacar.
Regressamos todos ao ponto onde desembarcámos.
Eu bem sabia que quando chegasse a Bissau teria alguns anos de cadeia.
Quando chegámos à costa já não apanhámos os barcos.
Resolvemos esconder-nos e esperar pela manhã.
Resolvi apresentar-me às autoridades logo que amanhecesse.
Encontrei um rapaz daqui que me levou à Polícia Popular.
Aí disse o que tinha acontecido e fiz a entrega das armas.
Os soldados que estavam comigo acompanharam-me e fizeram o mesmo.
Verificou-se logo que as armas não haviam feito fogo.
Estas informações foram ditas por mim, Tenente Januário, e se não digo mais é porque mais não sei."

O Tenente Januário foi, passado algum tempo, julgado e condenado à morte, tendo, posteriormente, sido fuzilado.


Ahmed Sékou Touré
(Faranah, 9 de janeiro de 1922 — Cleveland, Ohio, 26 de março de 1984).
Presidente da República da Guiné (Conacri), entre 1958 e 1984.


João Januário Lopes
Foto de quando era aluno do Curso de Electricidade da Escola Industrial e Comercial de Bissau.
Pertenceu ao Batalhão de Comandos Africanos da Guiné e, com a patente de Tenente Gradº participou na Op. Mar Verde de onde, segundo uns, desertou e segundo outros, ter-se-á perdido e quando tentou voltar aos barcos para regressar a Bissau, já estes navegavam ao largo.
(notas de Abílio Magro)



(*) - Deveria querer referir-se às 22h00 já que o desembarque se deu por volta da 01h00 do dia seguinte.