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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Abílio Magro
O Meu 25 de Abril


No dia 25 de Abril de 1974, logo pela manhã, com uma molhada de documentos debaixo do braço, dirigi-me como de costume, à repartição que possuía o selo branco do CTIG (1ª, 2ª ???) a fim de o apor, nas assinaturas do Brig. Alberto da Silva Banazol, Comandante do CTIG.
Esta repartição era chefiada por um Major do SGE, já de meia idade e de quem já não me recordo o nome.
Eram talvez 9h30 da manhã, estava eu muito entretido a "trincar" o Banazol com o selo branco e entra o Capitão Cirne (julgo que Miliciano) e, virando-se para o Major, de braços abertos e punhos cerrados "grita", mais ou menos em surdina: - "vive la revolution, vive la revolution!" e continua: "o Marcelo refugiou-se no Quartel da GNR, no Carmo e está cercado pela tropa!".
Claro que orientei logo as "antenas" para o Capitão Cirne e aguardei o desenvolvimento da conversa, mas este deitou-me um olhar que transparecia alguma felicidade, mas algum receio também, e diz: -"Furriel ...!" como quem diz: "Tem lá calma pá e vê lá o que vais para aí espalhar!".
A conversa pareceu-me ter alguma consistência e como, umas semanas antes, tinha havido aquele episódio da coluna das Caldas da Rainha que avançara sobre Lisboa, fiquei intrigado e, na CSJD tratei de contar aos meus camaradas o que tinha ouvido e aguardar algum "feed back".
Nessa altura já o tal 1º Sargento, a quem o Major Lobão chamava de "gebo", tinha terminado a comissão e tinha sido substituído por um 1º Sargento que usava sempre chapéu de pala. Em 18 meses de Guiné, julgo nunca ter visto nenhum militar do Exército usar chapéu de pala.
O homem tinha mesmo queda para polícia e, tendo ouvido o meu relato, tratou logo de dizer: - "Tenha cuidado com o que anda para aí a dizer, que ainda pode ter chatices...". Claro que eu traduzi para: "Põe-te a pau que eu conheço uns gajos na Pide e não tarda nada vais até Guiledje tomar conta daquilo sozinho!" Enfiei a viola no saco.
Entretanto o «PIFAS» (Programa de Informação das Forças Armadas - julgo que era assim) dedicava-se à música sinfónica, o que fazia pensar que efectivamente havia qualquer coisa no ar, embora ainda se tivesse ouvido, nesse dia, um discurso qualquer do Ministro dos Negócios Estrageiros - Dr. Rui Patrício. Mas, pasmem-se, também se ouviu, aqui e ali, alguma música do Zeca Afonso! Das mais suavezinhas, é certo, mas - alto lá, que aqui há coisa!
Aguardava-mos com alguma ansiedade pela hora do almoço, altura em que o «PIFAS» transmitia um serviço noticioso mais elaborado.
Na messe de Sargentos havia uma aparelhagem de som com várias colunas espalhadas pelo recinto - Bar, Esplanada e Sala de Jantar.
Na sala de jantar as mesas eram para 4 pessoas e, embora não houvesse lugares marcados, os "habitués da casa" sentavam-se sempre nos mesmos lugares.
Numa mesa à minha direita, com outra de permeio, sentavam-se quatro camaradas sui generis, já que dois deles eram completamente fanáticos pelos seus clubes (um do Belenenses e outro do Sporting) discutindo constante e acaloradamente sobre futebol e, os outros dois, aguentavam impávidos e serenos.
O fanatismo era de tal ordem que, tanto um como outro, chegavam ao ponto de relatar com algum pormenor a vida dos futebolistas do seus clubes (onde e quando nasceram, onde moravam, que clubes representaram e em que ano, etc., etc.) numa demonstração de grande cultura futebolística.
Pois naquele dia 25 de Abril de 1974, à hora do almoço, quando toda a gente, em silêncio, aguardava com alguma ansiedade novas de Lisboa sobre o que por lá estaria a passar-se na realidade, estavam aqueles dois "fabianos" em acesa discusão acerca, provavelmente, da cor das cuecas que determinado jogador usou no jogo tal, marimbando-se completamente para o que se estava a passar na Capital do Império!
Nesse dia foram-se adensando as suspeitas de que algo de importante se estaria a passar em Lisboa. Aos poucos as notícias foram chegando, mas nada de oficial. Eram transmitidas de boca em boca e, nessa situação, não havia que fiar e continuava-se a combater no mato.
O Brigadeiro Alberto da Silva Banazol, estaria a banhos na Ilha de Bubaque, mas tardava em aparecer.
O General Bettencourt Rodrigues nada dizia.
Começa a "boatice". Que houve um golpe de Estado liderado pelo Gen. Spínola..., que o Gen. Bettencourt estava contra..., que íamos ficar sem reabastecimentos de Lisboa..., etc., etc..
Baixou a qualidade da alimentação... Faz-se um levantamento de rancho... Fazem-se reuniões por tudo e por nada... A confusão é mais que muita...
O Brig. Banazol desaparece... O QG/CCFAG - Amura é cercado e o Gen. Bttencourt preso.
Em Bissau os estabelecimentos são pilhados... É reforçado o pratulhamento nas ruas... A sede da Pide em Bissau corre perigo ...
Sou escalado para Sargento de piquete e, à noite, põem-me uma HK-21 nas mãos e o respectivo pente de balas... Não sei o que hei-de fazer com aquilo... Mandam-me com mais 6 homens fazer segurança à Pide/DGS... Eu sou Amanuense, mas ninguém quer saber... Eu também já não quero saber... Só quero que ninguém me chateie...
E lá vou eu!
Coloco a fita de balas ao pescoço e cruzo-o no peito, qual Pancho Villa liofilizado (podem verificar as semelhanças na foto ao lado, colocando o ponteiro do rato em cima da imagem).
Seguimos de Unimog em direcção ao objectivo - Sede da PIDE/DGS, em Bissau.
Lá chegados, havia que montar o dispositivo de segurança... Começam os problemas... Nas Caldas da Rainha tinha tido uma formação em HK-21 de cerca de ... 10 minutos e recordava-me bem de como colocar a arma com o tripé no chão, mas como se metia o pente, aí é que já era pior..., tinha-se-me varrido completamente.
Um homem nunca se atrapalha:
- "Há aqui algum atirador?"
- "Eu sou!", responde alguém.
- "Então monta lá isso e anda para aqui!"
O equipamento estava montado no meio da ruela que passava por detrás da DGS. Havia agora que colocar estratégicamente o pessoal, e assim fiz:
- "Sentem-se aí nesse canto e façam pouco barulho" (estratégia para não espantar a caça).
Entretanto, como já me estava a dar o sono por ouvir ressonar, levantei-me e fui andar um pouco para perto da HK, não fosse alguém a "gamar", e vi uma caixa de papelão que me deu uma ideia genial!
A HK ali sozinha, montada no chão, não fazia muito sentido. Era conveniente pôr lá um homem a apontar para qualquer lado (o factor psicológico é muito importante nestas ocasiões). Como a arma me tinha sido entregue a mim, parecia-me óbvio que o homem seria eu. Mas eu sou pacifista e, além disso, tinha de me deitar no chão e ia sujar-me todo naquela terra barrenta.
Desfiz a caixa de papelão e fiz uma espécie de tapete que coloquei atrás da HK.
Chamei o atirador e disse-lhe para se deitar que a cama já estava feita.
E ali estava, em todo o seu esplendor, uma segurança com preocupações estéticas, de higiene e de conforto.
E foi neste quadro burlesco que a força que nos veio render nos encontrou, às 4 horas da madrugada, não se tendo registado qualquer incidente.






domingo, 10 de fevereiro de 2013

Álvaro Magro
Perdido no Mato



Em Fevereiro de 1972, quando se encontrava ao serviço da CART 3493 em Mansambo, participou numa operação militar que durou um dia e duas noites e onde, a dada altura, no meio do mato, o Alferes Comandante do deu pelotão, deu ordem para que o poessoal descansasse um pouco.
Cansado e não tendo dormido na noite anterior, acabou por adormecer protegido pela vegetação.
Quardo acordou, viu-se completamente só, no meio do mato, numa região que sabia ser frequentada por "terroristas".
Num "bate estradas" (aerograma) que enviou para o irmão Fernando em Bissau, relatou assim a "odisseia":

"Não imaginas o meu estado de espírito ao ver-me só e perdido dentro daquela mata densa. Andei cerca de uma hora perdido, cheio de medo. Cheguei a pensar que seria apanhado pelos terroristas e que nunca mais voltaria a ver a família.
Procurei encobrir-me com a vegetação, mas se porventura tinha de atravessar uma clareira, fazia-o rastejando.
Por fim encontrei um trilho por onde segui algum tempo, encharcado em suor.
Finalmente vi, ao longe, um pequeno grupo de militares.
Aproximei-me deles correndo o mais que pude e quando me pareceu que a minha voz poderia por eles ser ouvida, gritei com quanta força tinha.
Era tropa da minha Companhia, embora não fosse do meu pelotão.
Contei o que havia acontecido, quase sem poder falar, por estar muito cansado.
Não tive nenhuma culpa do sucedido."


Vista aérea do Quartel de Mamsanbo - 1970







Fernando Magro
Tenente Januário

Relato do ataque à capital da República da Guiné
feito pelo Tenente Januário na Rádio Conacry


"A viagem do Xime (porto próximo do Quatel dos Comandos Africanos de Madina Mandinga) até à ilha de Soga (no arquipélago de Bijagós) durou seis a 7 horas.
Chegamos de madrugada a Soga. Não desembarcamos. O pessoal das lanchas não podia ir a terra nem o pessoal de terra podia ir a bordo. Gerou-se a confusão entre nós.
Todos perguntávamos: para onde iremos? Ninguém sabia, nem os pilotos das embarcações. O Comandante da minha lancha também não sabia.
A moral baixou.
Falava-se que iríamos para a ilha de Como, Cabo Verde ou Teixeira Pinto.
No dia anterior à partida foi-nos dada ordem para ir a terra trocar de fardamento e armamento.
Em terra encontrei gente estrangeira que não conhecia. De onde vieram? Ninguém sabia.
Um rapaz de Conacry disse-me que íamos à terra dele.
Aquele pessoal era da República da Guiné e ia ser levado até à sua terra.
Regressei a bordo e contei o que ouvi.
- Vamos para Conacry. Vocês estão de acordo?
Ninguém estava de acordo. Ninguém estava de acordo, nem os soldados, nem os sargentos, nem os oficiais, nem o Major.
O Comasndante Calvão prendeu o Major (Leal de Almeida) que se insubordinou e mandou-o para Bissau.
O nosso Major (Leal de Almeida) foi para Bissau num dia e no outro voltou com o nosso General e o Comandante Calvão.
Foi reunida a Companhia (Comandos Africanos) e o nosso General disse que iríamos a Conacry somente levar os homens que estavam na ilha e mais nada.
Deixaríamos os homens no porto e regressaríamos. Mais nada.
Começamos a pensar na família. Se por acaso tivessemos qualquer contacto com tropas da República da Guiné? Se eles viessem à nossa terra e atacassem a nossa família, gostaríamos disso?
Tenho na Guiné Portuguesa o meu pai já velho, o meu filho, os meus amigos, a família toda.
Não estava de acordo em ir. A maioria dos oficiais, sargentos e soldados também não estavam de acordo.
Mas o General (António Sebastião de Spínola) convenceu a "malta". Disse-nos que era a única maneira de acabar com a guerra. Que estava tudo arranjado e que não haveria problemas. Disse-nos que as nossas famílias não seriam esquecidas se algum mal nos acontecesse.
O General disse que não haveria problemas e que a operação seria cancelada se houvesse qualquer alteração e se se verificasse, em qualquer altura, que não seria bem sucedida.
Que havia 95% de probalidades de êxito.
Já não pudemos invocar mais nada.
Tivemos que vir.
As forças com quem viemos e que se chamavam a elas mesmas Forças da República da Guiné eram cerca de 150 homens.
A minha Companhia (Comandos Africanos) tinha, também, 150 homens.
Havia também 80 fuzileiros.
Estas forças todas foram subdivididas em pequenos grupos. Cada grupo era destacado para um barco. Ao todo eram seis barcos, que partiram a horas diferentes.
Saímos às 8 horas da noite da ilha de Soga e chegamos aqui às 10 horas da manhã (*) do outro dia. Quando à noite se começou a ver uma luz vermelha, que é a indicação de terra, foram-nos chamar.
O Capitão Bacar (negro) chamou-me e foi então que me apareceu o Capitão Morais (branco) todo pintado de preto que eu nem o conhecia.
Ele disse-me:
- Januário, vamos saltar aqui.
- O quê? Então disseram-nos que vinhamos só trazer o pessoal e eles é que desembarcariam e agora nós também vamos a terra?
- O General mandou e temos de ir lá.
Mandou seguir seis botes cheios de gente para terra.
Eu ia no bote imediatamente atrás do Capitão Morais.
Rumamos à costa. Junto a terra encontramos duas canoas, suponho de indivíduos que andavam a pescar.
Pensei alto: eles vão ser avisados e isto vai ser uma chatice.
- Oh, não. São pescadores. Parece que estás com medo...
- Não, não estou com medo. Se você vai eu também vou.
Chegamos a terra e desembarcamos.
O Capitão Morais disse-nos:
A nossa missão é atacar o Aeroporto e destruir os MIG's. Outros grupos atacarão o PAIGC, a estação dos correios e a emissora.
Em terra fomos progredindo sem custo.
Subimos um muro e começámos a ver o Aeroporto. Depois parámos,
O Capitão continuou.
Eu parei. Fiz sinal aos homens que me acompanhavam para pararem também.
Perdemos a ligação com o Capitão Morais.
Disse aos soldados:
- Vamos atacar esta gente? Gostaríamos que nos fizessem o mesmo? Eu não atacarei ninguém. Quem quiser ficar comigo que venha para aqui. Os outros que corram para a frente.
Vinte homens que estavam comigo decidiram logo não atacar.
Regressamos todos ao ponto onde desembarcámos.
Eu bem sabia que quando chegasse a Bissau teria alguns anos de cadeia.
Quando chegámos à costa já não apanhámos os barcos.
Resolvemos esconder-nos e esperar pela manhã.
Resolvi apresentar-me às autoridades logo que amanhecesse.
Encontrei um rapaz daqui que me levou à Polícia Popular.
Aí disse o que tinha acontecido e fiz a entrega das armas.
Os soldados que estavam comigo acompanharam-me e fizeram o mesmo.
Verificou-se logo que as armas não haviam feito fogo.
Estas informações foram ditas por mim, Tenente Januário, e se não digo mais é porque mais não sei."

O Tenente Januário foi, passado algum tempo, julgado e condenado à morte, tendo, posteriormente, sido fuzilado.


Ahmed Sékou Touré
(Faranah, 9 de janeiro de 1922 — Cleveland, Ohio, 26 de março de 1984).
Presidente da República da Guiné (Conacri), entre 1958 e 1984.


João Januário Lopes
Foto de quando era aluno do Curso de Electricidade da Escola Industrial e Comercial de Bissau.
Pertenceu ao Batalhão de Comandos Africanos da Guiné e, com a patente de Tenente Gradº participou na Op. Mar Verde de onde, segundo uns, desertou e segundo outros, ter-se-á perdido e quando tentou voltar aos barcos para regressar a Bissau, já estes navegavam ao largo.
(notas de Abílio Magro)



(*) - Deveria querer referir-se às 22h00 já que o desembarque se deu por volta da 01h00 do dia seguinte.






quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Fernando Magro
Os Reordenamentos Populacionais


Fui colocado nos Serviços de Reordenamentos Populacionais.
Icialmente, e durante cerca de dois meses, trabalhei no Planeamento, no Comando-chefe, na Amura. E depois chefiei os Serviços no Batalhão de Engenharia 447, em Brá.

1 - General Spínola | 2 - Comandante do BENG 447 |-3 - Major Almeida Bruno | 4 - Cap. Milº Fernando Magro

Tratava-se de um serviço dirigido por militares destinado essencialmente às populações civis. Tinha em vista proceder ao agrupamento de diversas pequenas "tabancas" com o fim de constituir médios aldeamentos onde fosse rentável dotá-los com algumas infra-estruturas, tais como: escolas, postos sanitários, fontanários, tanques de lavar, cercados para gado, mesquitas ou capelas.
Além disso tinha-se também em vista, com a execução do Reordenamento, a defesa e controlo da população.
Na Amura estava à frente dos Serviços o Major Matos Guerra, indivíduo muito instável e nervoso. Foi substituído, passados alguns meses, pelo Major Carlos Azeredo que mais tarde foi chefe da Casa Militar do Presidente Mário Soares, comandante da Região Militar Norte, Governador da Madeira... No Comando-chefe eram decididos os trabalhos a realizar e de lá chegavam ao Batalhão de Engenharia ordens da natureza desta que a seuir transcrevo:

"From: Comchefe POP

To: Batengenharia

Mande comprar materiais para construir um Pool de: 1.550 casas zn; 50 T2; 40 escolas; 10.000 m de arame farpado. Deve indicar urgentemente a este necessidade aquisição ferramentas."


No Batalhão de Engenharia 447 foi organizado um mapa de medições para os vários tipos de construção e de acordo com essas medições assim eram quantificados os volumes de materiais a adquirir bem como colecções de ferramentas necessárias para a execução dos trabalhos.
Para, por exemplo, 60 casas T2, havia necessidade de adquirir:

- 11.700 ripas; 780 kg de pregos nº 15; 600 kg de pregos nº 7; 480 kg de pregos zincados; 420 anilhas de chumbo 6/8" e 8.520 chapas de zinco.
As paredes das construções eram em adobe, que os beneficiários eram incumbidos de executar, o que faziam bem, amassando terra argilosa com palha e secando os adobes ao sol.
A armação das coberturas das construções era em rachas de cibe (árvore da família das palmeiras). Um tronco dessa árvore aberto em duas partes e cada uma dessas metades aberta de novo ao meio dava origem a quatro rachas de cibe.
Os cibes eram adquiridos pelo Batalhão de Engenharia. Tinham de respeitar normas específicas: terem determinados metros de comprimento, serem secos, possuirem uma certa secção e não fazerem qualquer curvatura, de modo que, quando aplicados, não apresentassem flecha.
As unidades militares em cuja área se executavam reordenamentos tinham interesse em adjudicar o fornecimento das rachas de cibe aos indígenas da região. Dessa maneira, estando ocupados, deixavam de fazer a guerrilha, além de materialmente poderem beneficiar de modo a satisfazerem algumas das suas aspirações.
As obras eram geridas e supervisionadas pelo pessoal da Unidade Militar da área.
Geralmente era nomeado um alferes, um furriel e dois cabos(um carpiteiro e o outro pedreiro nas suas vidas civis) para fazerem um estágio de alguns dias no Batalhão de Engenharia da Guiné onde praticavam na construção de algumas casas.
Havia pelo menos uma casa no início de construção, na fase das fundações; outra com as paredes exteriores em execução; outra ainda com as paredes interiores e a armação do telhado a serem realizadas e finalmente uma outra em fase de acabamento. Essa equipa, depois de ficar devidamente elucidada sobre o modo de construção das casas, regressava às suas unidades e ficava responsável pela execução dos trabalhos na sua área.
Como já referi, os materiais eram fornecidos pelo Batalhão de Engenharia à exepção dos adobes que eram executados pelos nativos. Quanto às rachas de cibe, ou eram obtidas na própria área das construções ou fornecidas pelo Batalhão de Engenharia.
No Comando-chefe era elaborado um plano de urbanização (se assim se podia chamar) com a planta dos arruamentos e a disposição das casas e a localização das várias infra-estruturas.
O local dos reordenamentos também era escolhido pelo pessoal do Comando-chefe e naturalmente tinha em linha de conta a possibilidade de as terras próximas serem agricultáveis e a defesa das populações poder ser viabilizada.
No decurso das obras sempre que havia qualquer problema de ordem técnica o Batalhão de Engenharia dava o respectivo apoio.
Fiz, por isso, algumas viagens para o interior da Guiné em helicóptero ou de avião (Dornier) a que chamávamos DO's.
Fiquei, então, com uma visão geral da Guiné.
Desloquei-me para o sul. Estive em Cufar, Catió e Cacine. No norte estive em Binta e Farim. Para leste fui a Bafatá, Bambadinca, Nhabijões, Nova Lamego e Buruntuma.
Nas férias da Páscoa de 1971 passei alguns dias na Ilha de Bubaque, no Arquipélago de Bijagós.
Mais perto de Bissau desloquei-me de automóvel diversas vezes a Nhacra, Safim, João Landim e ao Cumeré.
Na minha actividade, integrado no Batalhão de Engenharia, estive sempre atento para que nunca faltasse material nem ferramentas nos locais dos reordenamentos, pois o General Spínola fazia muitas viagens para o interior de helicóptero e sempre que via do ar um reordenamento em execução ordenava que o piloto aterrasse para poder visitar as obras.
O meu receio era que alguém, alguma vez, se queixasse da demora do envio de materiais por parte do Batalhão de Engenharia para justificar um possível atraso na execução dos trabalhos. Isso, porém, que eu saiba, nunca aconteceu.
Por outro lado era absolutamente necessário que na proximidade da época das chuvas as casas estivessem com a cobertura executada, cobertura essa que se prolongava para além das paredes exteriores mais de um metro, formando um terraço coberto à volta das casas, pois se assim não fosse as paredes de abobe, sem qualquer protecção, eram destruídas pelas chuvas.
Desta minha actividade houve um facto que me poderia ter trazido graves consequências se não tivesse procedido com firmeza imediatamente após ter dele conhecimento.
Um coronel foi um dia oferecer-se ao meu Comandante (Tenente Coronel Lopes da Conceição, já falecido com o posto de General) para promover o corte de rachas de cibe na área do seu Batalhão e posterior fornecimento à Engenharia das mesmas.
O meu Comandante chamou-me ao seu gabinete. Apresentou-me o Coronel e disse-me o que ele pretendia.
A ideia do Coronel era pôr os nativos da região da sua Unidade militar a trabalhar na floresta, dando-lhes oportunidade de auferirem algum rendimento.
Uma vez que se tratava de um material imprescindível para as obras que tinha em curso, e embora na área do Batalhão que o Coronel Comandava não houvesse qualquer reordenamento, aceitei imediatamente a proposta e indiquei as condições em que se teria de fazer o fornecimento: o custo e as normas específicas que as rachas de cibe tinham de respeitar.
Dei-lhe mesmo um pequeno caderno de encargos-tipo que teria de ser seguido.
Passados uns tempos o Primeiro-sargento que comigo colaborava apresentou-se no meu gabinete e, depois da continência militar, bradou:
- O meu Capitão já viu os cibes que estão a ser depositados à volta do campo de futebol?
- Não.
- Se o meu Capitão tivesse alguns minutos disponíveis propunha-lhe que os visse.
Levantei-me e fui com o Primeiro-sargento até ao local onde estavam depositados os cibes. Tinham vindo da área do Batalhão do tal Coronel.
As rachas de cibe eram verdes, arqueadas e com secção inferior à das normas.
Fiquei furioso.
Encaminhei-me imediatamente para a Central Rádio e lá redigi uma mensagem que mandei emitir, que dizia mais ou menos isto:

"As rachas de cibe recebidas no Batalhão de Engenharia não respeitam as normas específicas de que lhe foi dado conhecimento. Não serão aceites nem pagas por este Batalhão pelo que deverá mandar retirá-las do local onde foram depositadas."

Esta guerra das rachas de cibe para mim tinha acabado, julgava eu.
Mas não.
Volvidos alguns dias sobre este acontecimento o meu Comandante mandou-me chamar ao seu gabinete. Muito sisudo disse-me que o Coronel (não pretendo mencionar o seu nome) se tinha queixado de mim ao General Spínola por causa de uma mensagem rádio que eu lhe tinha enviado.
Contei-lhe a história e convidei o Comandante a deslocar-se ao campo de futebol onde ainda estavam depositadas as rachas de cibe. Pegou no pinguelim, pôs a sua boina e para lá nos dirigimos.
Depois de ter constatado no local em que condições foram fornecidas as rachas de cibe, disse-me:
- Tem toda a razão. Não se preocupe mais com isso. Eu tratarei do assunto com o nosso General.
Na mensagem que enviou poderia ter sido menos duro, mas não tenho dúvidas que fez o que devia.
Soube mais tarde que o General Spínola apreciou a minha atitude e, evidentemente, não concordou com a maneira de agir do Coronel nessa sua iniciativa.

Em Julho de 1971 deslocou-se à Guiné uma delegação da ONU.
Como dessa visita constava a sua passagem pelo Batalhão de Engenharia 447, os Serviços de Reordenamentos Populacionais tiveram de redigir um pequeno memorando, a fim de elucidar os elementos dessa delegação sobre as suas actividades, memorando que transcrevo adiante:

Serviço de Reordenamentos Populacionais

Actividades


Apoio técnico e de materiais às obras de reordenamentos.

Cada reordenamento é constituído por um número determinado de casas de adobe destinadas à população; uma ou duas casas de adobe também, mas com melhor acabamento destinadas aos chefes; uma ou duas escolas em blocos de cimento; um posto sanitário em blocos de cimento; um ou dois cercados para gado; fontanários; bebedouros e lavadouros.
Prevê-se futuramente uma construção destinada ao culto religioso.
O Serviço de Reordenamentos do Batalhão de Engenharia elaborou as Instruções de Reordenamentos, onde constam normas e pormenores das construções, desenhos, sequência de trabalhos, medições, orçamento e quadro resumo dos materiais necessários.
Tem o Serviço de Reordenamentos do Batalhão de Engenharia habilitado inúmeros oficiais, sargentos e cabos com o estágio de reordenamentos. Esses elementos, formando equipas constituídas por um oficial (alferes), um encarregado de obras (furriel) um pedreiro (cabo) e um carpinteiro (cabo) executaram no interior da província com a colaboração das populações, cerca de 8.000 casas cobertas a colmo e 3.880 cobertas a zinco nos últimos anos.
O Serviço de Reordenamentos do Batalhão de Engenharia 447 tem apoiado essas construções com material e, quando solicitado, tem prestado assistência técnica localmente.
A esse volume de trabalho correspondem as seguintes quantidades de materiais:

Rachas de cibe - 542.000
Chapas de zinco - 550.960
Ripas - 756.600 metros
Pregos - 120.280 kg
Anilhas de chumbo - 27.160 kg
Cimento - 19.400 sacos

A minha mulher Maria Helena junto a um reordenamento
Guiné – 1971








segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Abílio Magro
Bombas em Bissau


Bomba no Café Ronda

O Café Ronda situava-se na Av. da República, um pouco mais abaixo do cinema UDIB e do lado contrário ao deste.
Segundo me recordo, possuía uma espécie de esplanada coberta e ali se juntavam muitos militares (uns fardados, outros trajando à civil) que lá bebiam o seu cafézinho ou "bejeca", entre outras coisas. Tinha também um pequeno balcão que dava para uma rua transversal e onde também se podia beber o "cimbalino" ou a "bejeca" de pé e do lado de fora, com um atendimento muito mais célere.
Numa determinada noite do ano de 1973, eu e mais dois ou três camaradas meus, tomamos o nosso cafézinho no balcão referido e seguimos de imediato para o cinema UDIB para assistir à exibição de um qualquer filme que por lá andava.
Poucos minutos depois do início da exibição do filme, dá-se um tremendo rebentamento lá fora e, quase de seguida se ouvem diversas viaturas com buzinadelas e sirenes, indiciando haver constante transporte de feridos.
É interrompida a exibição do filme e surge uma voz aos altifalantes do cinema, solicitando a todos os médicos que eventualmente por ali se encontrassem, o favor de se dirigirem de imediato ao Hospital Militar.
Estão mesmo a ver onde este vosso camarada se dirigiu para ver o resto do filme, né? Pois, acertaram! Direitinho às Instalações Militares de Santa Luzia, onde se encontrava implantado o seu maravilhoso "T2"!
Tinham colocado uma bomba no Café Ronda, que explodiu quando este se encontrava repleto de clientes, tendo causado alguns mortos e muitos feridos.
Nesse atentado ficou gravemento ferido um "piriquito" com 2 ou 3 dias de Guiné e que eu tinha conhecido no dia anterior, pois tratava-se do "pira" que ia substituir na CSJD o meu camarada Fur. Milº Costa que terminara a sua comissão e tinha já viajado para a Metrópole.
Aquele "piriquito" acabou por ser evacuado para Lisboa e soubemos mais tarde que fora dado como incapaz. Recordo-me do nome - Romão.
Como é sabido, tratando-se de pessoal de 'rendição individual', tinha de haver um período mínimo de 10 dias de trabalho em conjunto, em que o substituído transmitia ao "pira" todas as informações relacionadas com as tarefas que este iria passar a executar e só depois isso, era autorizado o regresso a casa do "velhote".
Mas o camarada Costa, de Estarreja, era de "olho vivo e pé ligeiro" e teve artes de obter a lista oficial do pessoal que vinha no avião que estaria para chegar e onde constava o nome do seu substituto (Fur. Milº Romão) e, junto do Ten. Cor. (nessa altura o Major já tinha sido substituído), teve artes ainda maiores de o convencer que a substituição estava assegurada e que a transmissão de serviço se faria sem problemas de maior, com a colaboração dos Advogados a quem tinha solicitado previamente essa ajuda, obtendo, assim, o tão almejado papel.
E lá conseguiu embarcar e viajar para a Metrópole no mesmo avião em que o seu "pira" tinha viajado para Bssau.
Entretanto, deram-se os acontecimentos do Café Ronda, acima relatados, e a substuição não se deu, sobrecarregando durante algum tempo os Advogados (Alferes Milºs).

Bomba no QG/CTIG

Num certo dia de JAN/FEV de 1974, encontrando-me eu a convalescer de uma operação às varizes a que tinha sido submetido no HMBIS e bebendo uma "cervejola" sentado na esplanada da Messe de Sargentos de Santa Luzia, num final de tarde, dá-se semelhante rebentamento por ali perto que julgo me fez levitar por breves segundos. Segue-se de imediato o buzinar contínuo e enervante da sirene de alarme do QG e a debandada geral, desordenada e atarantada do pessoal que por ali estava.
Verificam-se então cenas dignas de um qualquer filme de Charlie Chaplin.
Com efeito, face ao crescente temor de que um dia a "coisa" ia chegar a Bissau, o pessoal andava algo receoso e muito nervoso. Quais baratas tontas, cada um reagiu da forma que julgou mais conveniente, vericando-se que alguns procuraram locais que se assemelhassem a valas, tipo condutas de águas pluviais, e aí se deitaram.
Eu, com a valentia que me é reconhecida e como é meu apanágio nestas situações, dirigi-me de imediato para o objectivo, isto é: direitinho ao quarto!
Nessa altura já não convivia com as baratas do "Biafra" e já habitava num "T2" (4 + 2 Furrieis) que, por sinal, ficava na direcção do QG e bem mais perto deste.
Quem me viu avançar decidido em direcção ao QG (leia-se quarto) terá pensado: "se este vai, vou também!".
O grupo foi engrossando e, quando passei à porta do meu "T2", não tive "lata" para entrar e lá segui com a "malta" até ao portão do QG. Aí, quem estava completamente atarantado era o meu camarada madeirense Fernandes que estava de Sargento da Guarda e não sabia para que lado se havia de virar.
Logo pensei: - "Olha se era comigo, ia ser bonito ia! Desta vez mandavam-me para o Burkina Faso!
Resumindo: Tinham colocado no QG uma bomba de alguma potência que mandou o telhado pelo ar e deitou paredes abaixo. Vi então sair em direcão ao Hospital o mercedes do Comando com o, já Brigadeiro, Galvão de Figueiredo que apresentava um ferimento no pescoço que, soube-se depois, era de pouca gravidade.
Se o rebentamento se tivesse dado mais cedo, as consequências teriam sido bem mais graves como constatei mais tarde quando regressei ao serviço, pós-convalescença.

Bomba no autocarro da Base Aérea

Não presenciei este acontecimento, do qual apenas me chegou alguma informação difusa de que teria sido colocada uma bomba no autocarro da Base Aérea, sem grandes consequências pelo facto de aquele se encontrar completamente vazio.

"Bomba" no Clube de Oficiais do CTIG

Nas Instalações Militares de Santa Luzia existia um Clube de Oficiais, composto de acomodações, messe, piscina, bar e cinema ao ar livre (podia-se fumar enquanto se via uma "sessão" - "porreiro pá!").
A classe de Sargentos tinha acesso a esse Clube para assistir à exibição de filmes e, uma vez por semana (5ªs-Feiras julgo eu) tinha também acesso à piscina.
O local era circundado por um muro formado com aqueles tijolos geométricos que permitem ver de um lado para o outro.
O cinema era montado no recinto da piscina e a tela era composta de um grande pano branco suportado por 2 altas estacas. As cadeiras eram metálicas, daquelas de fechar, usadas normalmente nos parques de campismo e nas nossas praias.
Nestas circunstâncias, as sessões de cinema eram efectuadas à noite como é óbvio e, como do outro lado do muro existiam tabancas, os respectivos habitantes viam o filme do outro lado da tela com as legendas do avesso, o que nunca impedia uma razoável assistência nativa.
Quando no filme se desenrolava uma qualquer cena de pancadaria entre um branco e um negro (Siney Poitier, por ex.) e o negro dava um murro no branco, invariavelmente se ouvia uma grande salva de palmas vinda do outro lado do muro. Compreensível, diga-se de passagem.
Alguns soldados sentavam-se nos muros e também assistiam ao espectáculo.
Naquela altura pairavam no ar receios fundados de provável início de guerrilha urbana em Bissau. Ali, no cinema ao ar livre e com as luzes apagadas por via da exibição cinematográfica, e com as tabancas do outro lado do muro..., uma bombita era "canja!"
O pessoal andava nervoso.
Naquela noite o cinema estava cheio como de costume. Eu também lá estava a ver uma "sessãozita".
De repente ouve-se o ruído de um rastilho seguido de um clarão e a debandada foi geral! Com a confusão, algumas cadeiras "ensarilharam-se" provocando tropeções e quedas e, os que caiam ao chão eram espezinhados pelos outros, como aconteveu comigo.
No chão, a ser espezinhado e com as cadeiras a atrapalhar, não conseguia fugir e entrei em pânico...! Ouvia o som das "Kalashnikov's"...! Ia ser apanhado à mão...! Despedi-me da família...!
Passadas longos minutos, lá me consegui erguer e, já pronto para saltar o muro, ouço risadas!
O pessoal da primeira fila tinha-se safado bem das cadeiras e, junto à tela, deliciava-se com o espectáculo. Extremamente nervoso e com o coração a bater a 200 r.p.m., mandei umas "bocas foleiras" aos de "tacha arreganhada" e dirigi-me ao chuveiro da piscina para lavar os arranhões (face, braços e pernas) e tive a companhia do Brig. Galvão de Figueiredo que lá foi fazer o mesmo às mãos e que vociferou: - "cambada de cretinos!"
Entretanto:

- "de quem são estas chaves?!"
- "ó Magro, olha aqui o teu cartão!"

Os meus "bens pessoais" lá foram aparecendo aos poucos.

Resumindo:
- a bomba tinha sido uma caixa de fósforos que se incendiara a um soldado enquanto acendia um cigarro em cima do muro e que se terá desiquilibrado. Na queda, terá arrastado consigo mais dois ou três camaradas;
- os longos minutos no chão a ser espezinhado, ter-se-ão resumido a meia dúzia de segundos;
- o tiros de Klashnikov seriam, afinal, as cadeiras metálicas a bater umas nas outras.

Mais um filme ficou a meio e eu, novamente, fui direitinho ao quarto!
Foi o maior susto que apanhei em 18 meses de Guiné.
Acreditem que, em pânico, a ser pisado e sem me poder levantar nem ver o que se passava ao redor, nem um feijão fradinho que fosse, me entraria no "uropígio"!
No dia seguinte, quando entro na CSJD vejo o cabo condutor-motorista do Ten. Cor. com a mão esquerda ligada.
- "Então que foi isso?"
- "Queimei-me ontem à noite no cinema."

Ali estava o autor do "crime"!






Fernando Magro
O Valor Estratégico da Guiné e Cabo Verde


Na década de 60 e nos primeiros anos de 70 o Governo Português, de acordo com uma lei vigente, considerava o Ultramar como parte integrante da Nação.
Este conceito imposto pelo poder central era mal compreendido pelos diversos países ocidentais nos quais se incluíam alguns com quem tínhamos tratados de amizade e de cooperação.
Nesses países, onde se praticava a democracia, só se entenderia que o Continente e o Ultramar fossem uma Nação una e indivisível se os seus habitantes, sentindo-se portugueses, o quisessem.
Por outro lado o nosso Governo considerava que Portugal era um país pluricontinental e pluricultural e que era da essência da Nação Portuguesa a missão de civilizar.
Relativamente a estes últimos conceitos o General Spínola, no seu livro "Portugal e o Futuro", esclarece a profunda contradição que encerravam, pois que "civilizar impõe a aceitação do primado de uma cultura o que colide ccom o conceito de pluriculturalidade."
Defendiam muitos que a defesa do território que os nossos pais nos haviam legado era indiscutível e que a nossa atitude só poderia ser uma: a de o transmitirmos aos nossos filhos na totalidade da sua dimensão.
"A Pátria não se discute, defende-se".
Este imobilismo ideológico-político com que o Governo Português procurava alicerçar os fundamentos da sua acção em África era cada vez menos aceite pelos países ocidentais e Portugal encontrava-se em 1970 muito isolado internacionalmente.
Perante a incompreensão das nossas posições pelos nossos parceiros da NATO, empenhava-se o nosso Governo em demonstrar quanto eram importantes as situações estratégicas dos nossos territórios africanos no contexto Atlântico, face à tentativa da URSS em dominar o mundo.
O Governo Português sublinhava, por isso, a possibilidade de os territórios africanos sob nossa administração poderem vir a ser considerados como baluartes de protecção de rotas marítimas fundamentais e bases estratégicas de defesa do Continente Africano, quadro no qual a Guiné Portuguesa necessariamente teria uma função importante.
Nesse aspecto, e na hipótese de ser um dia eventualmente fechado o Canal do Suez, a nossa linha de comunicação constituiria a única possibilidade de apoiar com eficácia a navegação para o Índico e para o Extremo Oriente, ao longo da rota pelo Cabo da Boa Esperança.
Segundo o General Câmara Pina, "as bases portuguesas de África permitiriam estabelecer, conjugadas com as bases do Brasil, uma cobertura eficaz do Atlântico Sul. As bases portuguesas ofereciam grandes facilidades para o cumprimento de missões de vigilância no Atlântico Sul e de protecção à navegação Europa-África que, em grande parte, passa entre a Guiné e Cabo Verde.
Mas a contribuição portuguesa poderia ser vista, ainda segundo o General Câmara Pina, a outra luz: negar ao adversário (URSS e seus satélites) posições eminentemente favoráveis para o lançamento de acções ofensivas.
E lembrava no seu artigo intitulado "Ideia Geral do Valor Estratégico do Conjunto Guiné-Cabo Verde e da Ilha de S. Tomé", que a instalação pelo inimigo de plataformas de mísseis e de aviões de grande raio de acção em alguns dos territórios administrados por Portugal constituiria, sem dúvida, grande perigo para os membros mais poderosos da aliança. "Conjugados estes meios com outros implantados em bases estrangeiras, adequadamente situados, passaria o inimigo (URSS) a dispôr de um sistema ofensivo avançado flexível, apto para intervir contra as linhas de comunicação".

No quadro de uma guerra Leste-Oeste era valorizado pelos nossos Chefes Militares o valor estratégico do conjunto de territórios administrados por Portugal podendo:
- o Continente funcionar, conjuntamente com a Espanha, como elo de ligação dos Aliados da América com os Aliados da Europa, além de colaborarem na vigilância das saídas do Mediterrâneo.
- os Açores e a Madeira constituir sentinelas avançadas;
- e os nossos territórios africanos (em que se incluía, evidentemente, a Guiné) formar baluartes de protecção de rotas marítimas fundamentais e bases estratégicas de defesa do Continente Africano.






sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Fernando Magro
Guiné-Bissau


A palavra Guiné possivelmente estará na origem do nome de um aglomerado situado junto às margens do Alto Niger.
Como era um centro muito frequentado pelas caravanas de mercadores sudaneses e outros, a sua fama chegou até aos países da orla mediterrânica. Aparecia designado por nomes diversos como Ginea, Djenné, e acabou por entre nós cristalizar sob a forma de Guiné.
Embora se começasse por chamar Guiné indistintamente a todo o litoral africano a sul do Bojador, o seu início acaba por ser definido na foz do Senegal e até ao Gàmbia. Mais tarde, prolongou-se até ao actual Golfo da Guiné.
A ex-Guiné Portuguesa fica situada na Costa ocidental africana entre o Cabo Roxo e o Rio Cagete e ocupa uma área de 31.800 Km2, dos quais só 28.000 Km2 estão permanentemente emersos.
Defronte da costa estende-se um cordão litoral e em pleno oceano há um grande número de ilhas e ilhotas - o arquipélago de Bijagós.

A zona continental e uma região baixa, invadida pela água do mar, que astravés de largos estuários penetra profundamente para o interior. O interior e constituído por uma série de planaltos e colinas cuja altitude ronda respectivamente os 40 metros e os 100-200 metros, que somente no Boé chega à cota de 300 metros".
Com uma temperatura monótona ao longo do ano (em Bissau a média das temperaturas máximas é de 36,6º e a média das temperaturas mínimas é de 21,7º) as estações são definidas pela diferença de pluviosidade: estação seca de Novembro a Maio e estação das chuvas de Junho a Outubro.
O professor Orlando Ribeiro classificou a Guiné como "uma encruzilhada de civilizações". Em 1960 na pequena área de 28.000 Km2 viviam 519.000 habitantes, repartidos por uma quinzena de povos, dos quais cada uma falava a sua língua, construía e agrupava as casas e organizava o espaço à sua volta de maneira diferente.
No interior habitavam Fulas e Mandingas, ambos islamizados.
No litoral distinguiam-se os Balantas que eram principalmente cultivadores de arroz. Além de cultivarem o arroz também se dedicavam à criação de gado.
Os Manjacos contavam-se também entre as populações mais activas e avançadas do litoral da Guiné. Eram excelentes navegadores, percorrendo nas suas pirogas o litoral, pescando ou comercializando.
Mas havia ainda outras raças como os Felupes, os Bijagós, os Papeis, Biafadas, Baiotes, Brames, Cassangas, Bagos, Nalus, Saracolés, Sossos.
A cidade de Bissau é a capital da Guiné, e o seu principal centro urbano. Situa-se entre os estuários dos rios Geba e Mansoa.
A cidade cujo plano de urbanização foi aprovado pelo Diploma legislativo 1416 de 15 de Junho de 1948, apresenta um traçado geométrico, encontrando-se em 1970 dividida por uma ampla avenida central - Avenida da República - e duas laterais: Carvalho Viegas e Cinco de Junho. À entrada da primeira ergue-se o monumento a Nuno Tristão, descobridor da Guiné, encontrando-se no seu percurso alguns modernos edifícios, como repartiçõs públicas e a Sé Catedral.
No seu topo ficava (e fica) uma vasta praça, então designada por Praça do Império, dominada pelo monumento Ao Esforço da Raça, tendo no fundo o imponente Edifício do Palácio do Governo.
A parte histórica da cidade é rodeada de um forte muro de pedra e cal com quatro metros de altura - a Amura.
Dispunha (e dispõe) de um porto navegável para navios de longo curso, no canal do Geba, ao fundo de uma enseada que se abre entre a ponte de Bandim e o extremo oriental da Ilha de Bissau. A entrada do Porto faz-se entre o Ilhéu dos Pássaros, onde está instalado um farol, e o Ilhéu do Rei.

Algumas notas sobre Nuno Tristão, descobridor da Guiné

Nuno Tristão foi cavaleiro da casa do Infante D. Henrique.
Em 1441, o Infante confiou-lhe o comando de uma caravela ordenando-lhe que explorasse a costa africana para o sul da Pedra da Galé, limite dos anteriores descobrimentos, encargo de que ele se desobrigou descobrindo o Cabo Branco.
Em nova viagem, em 1443, descobriu uma das ilhas de Arguim e a das Graças.
No ano seguinte realizou terceira viagem de descobrimento, atingindo a região senegalense.
E em 1446 velejou para a costa africana pela última vez vindo a ser morto, com outros companheiros, na Guiné.
Gomes Eanes de Azurara relata-nos na sua «Crónica da Guiné» o desenlace da seguinte maneira:
"(...) que sendo este (Nuno Tristão) nobre cavaleiro em perfeito conhecimento do grande desejo e vontade do nosso virtuoso príncipe (D. Henrique), ...de mandar seus navios à terra dos negros (Guiné) e ainda mais avante (...) fez logo uma caravela, a qual armada, começou a sua viagem, não fazendo alguma detença em alguma parte, senão seguir contra (para) a terra dos Negros.
E passando per o Cabo Verde, foi mais LX léguas, onde achou um rio, em que lhe pareceu que deveria haver algumas povoações, pelo que mandou lançar fora dous pequenos bateis que levava, nos quaes entravam XXII homens, scilicet
(a saber) em um dez e no outro doze. E começando assim de seguir pelo rio avante, a maré crecia, com a qual foram assim entrando, seguindo contra umas casas que viram à mão direita. E acercou-se que antes que saissem em terra sairam da outra parte XII barcos, nos quais seriam até LXX ou LXXX Guinéus, todos negros e com arcos nas mãos.
E porque a água crecia, passou-se além um barco de Guinéus e pôs os que levava em terra, donde começaram de os assetar, aos quais iam nos bateis. E os outros que iam nos barcos trigaram-se
(apressaram-se) quanto podiam para chegar aos nossos, e tanto que se viam acerca, despendiam aquele malaventurado almazem (munições de setas) todo cheio de peçonha, sobre os corpos dos nossos naturaes.
E assim foram seguindo, até chegarem à caravela, que estava fora do rio, no mar largo; porém todos assetados daquela peçonha, de guisa que antes que entrassem, ficaram quatro mortos nos bateis. E assim feridos como iam, ataram seus pequenos bateis ao bordo do seu navio, começando de o aparelhar para fazerem viagem, vendo o perigoso caso em que estavam; mas não puderam levantar as âncoras, pela multidão de setas de que eram combatidos, pelo que lhes foi forçado de cortarem as amarras, que não lhes ficou alguma.
E assim começaram a fazer vela, deixando porém os bateis porque não os puderam guindar
(subir). E assim dos XXII que sairam fora, não escaparam mais que dous, scilicet (a saber): um André Dias e outro Álvaro Costa, ambos escudeiros do Infante (D. Henrique) e naturais de Elvas; e os dezanove morreram, porque aquela peçonha (veneno) era assim artificiosamente composta, que com pequena ferida, somente que aventasse sangue, trazia ao seu derradeiro fim.
Ali foi morto também aquele nobre cavaleiro Nuno Tristão(1) mui desejoso desta vida (...)."


Estátua do navegador Nuno Tristão, perto do cais de Pidjiquit
Atrás dela a famosa Casa Gouveia, empresa do grupo CUF
(1969 Bissau - Guiné port.)
http://historiaguine.com.sapo.pt/GuineDescoberta.html


(1) - Ao sul da Guiné-Bissau há um rio chamado Nuno, aquele em que a tradição diz ter morrido Nuno Tristão.






quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Abílio Magro
"Férias" em Cacine (continuação)


Decorria o mês de Junho/Julho de 1973. Eu ainda era muito "pira", não tinha completado ainda 3 meses de Guiné. Vinha do "ar condicionado" e encontrava-me em Cacine, no meio de grande confusão, tropas para-quedistas, fuzileiros, Marcelino da Mata, etc.
Felizmente em Cacine não faltava nada. Nao faltava cerveja morna, não faltava uma pedra de gelo, por cabeça, às refeições, não faltava o arroz de "rolhas" (arroz com muito colorau e meia dúzia de rodelas de salsicha), etc., etc..
A CCAÇ 3520 era um Companhia farta. Farta de ali estar, farta de comer arroz de "rolhas", farta de esperar pela rendição.
Julgo que não cheguei a completar 4 semanas de "férias" naquela "estância balnear", mas foi o suficiente para imaginar uma estadia de 23 meses!
Tenho ideia de só ter comido arroz de "rolhas" durante aquele período. Posso estar enganado.
Comecei a dar mais valor ao "pessoal do mato".
Antes 527 serviços de Sargento da Guarda!

O Major Leal de Almeida lá continuava a fazer incursões por Gadamael e levava habitualmente consigo o outro Furriel.
O Major, além de me ter pedido, no início, para lhe dar um jeito no "estaminé", pouco mais me pediu para fazer. Apenas um ou outro "mail" para Bissau.
E eu..., andava por ali a ver as "bajudas"...!
Certo dia, ao fim da tarde, regressados os dois (o Major e o outro Furriel), via fluvial, a Cacine, o outro Furriel, visivelmente exausto, sujo e suado, vem ao meu encontro e, completamente alterado, atira-me:
- Porra, anda aqui um "gajo" a esfarrapar-se todo e a arriscar o "coiro" e tu aqui a "coçá-los"!
Eu, que nunca gostei que me falassem "de cima da burra" nem com aqueles modos e que, nestas situações, tinha o hábito de responder com alguma agressividade verbal, contive-me (acreditem que a cerveja morna faz um efeito "bestial") e, calma e sarcásticamente, retorqui-lhe:
- Djubi, eu sou Amanuense e não tenho lá muita queda para herói! Já viste bem este "cabedal"?! Além disso o Major nunca me "convidou para a festa"!
Deu meia volta a resmungar e não me recordo de ter tido mais qualquer conversa com ele.

Entretanto, eu ia jogando a "lerpa", bebendo umas "bejecas" mornas e convivendo com os Sargentos para-quedistas (ah gente do "catano"!).
Recordo-me bem de um convívio nocturno na "messe" de Sargentos. Houve de tudo! Aguardente, fados, poesia, etc., tudo a roçar o "hard-core", claro! Gente espectacular, camaradagem excelente e com uma disciplina extraordinária, nomeadamente com o armamento.
Guardei na memória alguns versos de um fado cantado pelos "páras" com música do hino académico - "Amores de Estudante" e que, salvo erro, rezavam assim:

Quero, quero ir para Lisboa
Ai, ai, eu quero
Nem que seja de canoa
Eu quero ir
P'ra terra santa querida
Dizer adeus a esta merda
P'ro resto da minha vida

Para-quedistas, homens nobres
Tanto ricos como pobres
Avançando pela mata
...
(e de mais não me recordo)

Ficou-me também na retina a imagem do 1º Sargento para-quedista Vicente, evacuado para Cacine vindo de Gadamael, com um tiro numa perna, a aguardar evacuação para Bissau e com quem tinha convivido alegremente naquela noite.

A minha "guerra" lá foi continuando com a "lerpa", "as bejecas" mornas, o convívio com os "páras" e a excelente qualidade das instalações, nomeadamente o "balneário" de arrojado design e equipamento de conceituadas marcas.
O chuveiro apresentava uma característica completamente inovadora - era semi-automático, comandado por voz! Isto é: Em cima havia um bidão de lata que continha água e um furo na base inferior tapado com uma rolha acoplada à ponta de um pau. O "fabiano" que queria tomar banho tinha de "aparelhar" com outro que tivesse a mesma intenção. O primeiro colocava-se debaixo do bidão e o outro encarrapitava-se de modo a chegar ao pau. Quando o de baixo queria água, dizia: - "abre!" e a água caía. Se queria parar, dizia: - "pára", e a água parava! (sistema altamente sofisticado para a época). Findo o duche, era só trocar de posições e a coisa funcionava bem.

Entretanto, chega finalmente a Companhia que vinha substituir a CAÇ 3520. Esta entra em euforia e empenha-se rapidamente nas actividades para recepção dos novos "piras".
Não possuindo máquina fotográfica, vi-me impedido de registar aqueles actos solenes hilariantes.
Os "piras" não acharam muita piada à recepção. Pudera, entraram no avião em Figo Maduro com destino a S. Tomé e, quando aterraram, estavam na Guiné!
Pois é verdade, iam para S. Tomé e, a meio da viagem, o Comandante do avião terá recebido ordens para rumar a Bissalanca.
Pertencia a esta companhia o soldado Lemos, ex-futebolista do Boavista e, depois do F.C.Porto onde ficou célebre por ter marcado 4 golos ao Benfica no Estádio das Antas em jogo a contar para o Camperonato Nacional de Futebol, jogo que, por acaso, assisti ao vivo.

Em Cacine, esta Companhia tratou logo de abrir valas por todo lado, pois tendo Guileje sido abandonada e estando Gadamael a ferro e fogo, Cacine seria, muito provavelmente, o "freguês que se seguia".

Entretando, saído não sei de onde, aparece-me um camarada e pergunta-me:
- Tu é que és o Magro?
Respondi que sim e ele:
- Deves ter uma cunha do "caraças"!
- Então porquê?
- Venho-te substituir. Estava sossegadinho em Bolama e mandaram-me para aqui para te substituir.

Nunca tive conhecimento de cunha alguma e atribuo o facto a pressões que o Dr. Dias terá feito junto do Chefe - Major Mário Lobão, por se encontrar, provavelmente, atafulhado em papelada. Nunca o soube.
Aproveitei boleia na LDM que transportou a CCAÇ 3520 para Bissau.
Saímos de Cacine ao fim da tarde e chegamos a Bissau na manhã do dia seguinte,

A partir dessa data eu seria, talvez, o Furriel/Sargento que melhor fazia a Guarda de Honra ao Brigadeiro Alberto da Silva Banazol!
Recordo-me de, logo após o meu regresso de Cacine e estando de Sargento da Guarda, ter dado ordem de: "Apresentar armas!" quando ele se colocou em sentido frente à Guarda, e o ter feito com tal vigor que o homem, depois de bater a pala e desandar, ao passar perto de mim, disse: - "Isso, assim com garra!".

Estavam feitas as pazes!





segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Abílio Magro
O Regresso a Bissau


O sol começava a nascer e ao longe, tenuemente, já se vislumbrava a costa da Guiné e, muito lentamente, o cais do Pidjiquiti tornava-se-me mais nítido e desejado.
Tinha a sensação de estar a regressar finalmente de uma longa ausência em terras inóspitas.
Cacine tinha ficado para trás. Foram poucos dias, eu sei (pareceram-me uma eternidade!), mas deu para "cheirar" ao de leve a guerra e sentir a vida dura do mato.
Senti-me regressar a "casa".
Em terra, aproveitei a boleia de uma das Mercedes que transportavam o pessoal da CCAÇ 3520 e que me deixou perto do QG/CTIG que não ficava longe do "Apart-hotel" onde estava alojado - O "Biafra". Este, era um alojamento provisório para quem chegava à Guiné pela 1ª vez, ou que estava em trânsito. Eu já contava com 3 meses de Guiné e ainda ali continuava. Talvez as baratas tenham feito alguma pressão nesse sentido.
Embora necessitado de um valente banho, as saudades de uma "bejeca" geladinha falaram mais alto e, deixada a "bagagem" e a G3 na "suite", logo me dirigi ao Bar da Messe de Sargentos que se encontrava ainda fechado, mas que o "barman", vendo o estado lastimoso em que me encontrava e sensível ao meu convincente "choradinho", logo se disponibilizou para procurar a "bejeca" mais gelada que se encontrasse nas redondezas.
Até tinha gelo lá dentro! "Ganda barman!"
Bebi-a de um trago, o que fez com que não pudesse ter "cantado o fado" durante uns dias, mas que me soube bem "comó caraças"!
Havia agora que me apresentar ao serviço e recomeçar a minha outra "guerra", a que muitos chamavam "do ar condicionado" (aproveito para informar que o ar condicionado estava reservado para os gabinetes dos Oficiais pois abaixo disso, aguentávamos com aquelas ventoinhas "gigantolas" penduradas no tecto e que, quando avariavam ou faltava a electricidade, nos obrigava a parar de trabalhar e vir para a rua, o que nos era permitido).
Lavadinho, barbinha feita, calças verdes de terylene, camisinha de manga curta e aberta no pescoço, lá vou eu todo vaidoso apresentar-me ao Chefe do Serviço de Justiça e Disciplina - Major do SGE, Mário Lobão (julgo que, naquela época, os Oficiais do SGE eram oriundos da classe de Sargentos e que, após frequência de um Curso na Escola de Sargentos de Águeda, acediam ao oficialato e podiam progredir na carreira até ao posto de Ten. Coronel).
Para ir do meu gabinete ao do Major, tinha de passar pelo gabinete dos Advogados - Alferes Milicianos.
E, ao passar por estes, dizem-me: - "Não se vá apresentar assim, tem de levar gravata!"
Eram uns brincalhões e eu era ainda muito 'pira'..., estão a ver?!
Gravata numa camisa daquelas e naquele clima?! "Gandas tangas estes tipos!"
Continuei a marcha em direcção ao gabinete do Major, entro, "bato-lhe a devida pala" e, quando me apronto para lhe contar as minhas desventuras, o homem levanta-se e vocifera:
- "Isso não é assim, vá-se ataviar convenientemente e venha-se apresentar depois!"
Se fosse hoje, corria para o computador, entrava no site da CP e comprava bilhete para o primeiro comboio que rumasse a Cacine, ainda que não tivesse ficado com muitas saudades daquilo.
Voltei para trás e ao passar novamente pelo gabinete dos Advogados, ouvi:
- "Está a ver, nós avisamos!"
Lá me informaram de como me deveria apresentar ao homem e concluí que tinha mesmo de pôr gravata.
- "Oh c'um carago, uma gravata nesta camisa é completamente ridículo! Isto anda tudo 'cacimbado' ou foi a cerveja gelada que me baralhou os neurónios?!
Bom, lá fui ao "Biafra", procurei a farda que tinha trazido da Metrópole, vesti a camisa de manga comprida arregaçando-lhe as mangas e coloquei a gravata.
Aquela gravata no meu pescoço fazia tanto sentido como um terço nas mãos do Luis Filipe Vieira!
Resta-me a consolação de ter obrigado o homem a levantar-se para me receber (o respeitinho é muito lindo!).
Quem por lá andou sabe que havia algumas personalidades estrambólicas, mas pelo que pude constatar nos cerca de 18 meses de Guiné, muito poucos Oficiais do SGE tinham semelhantes comportamentos.

E a minha "guerra" lá foi continuando sem grandes sobressaltos e aproveito para aqui fazer um pequeno parêntesis para vos dar uma ideia geral de como era a vida do pessoal do "ar condicionado".
Na pequena sala onde prestava serviço, com uma ventoinha "matulona" no tecto, estavam também 4 Escriturários, dos quais dois eram africanos (1 civil, ex-guerrilheiro recuperado, e outro do recrutamento local), virados para mim e o espaço que existia entre as secretárias deles e a minha, não permitia que circulassem duas pessoas a par. A seu lado, estava ainda um 1º Sargento de quem já não me recordo o nome e a quem o Major parecia ter um ódio de estimação chamando-o de "gebo" e encarregando-o das tarefas mais achincalhantes.
Dava pena vê-lo abeirar-se de mim, cheio de medo e, em surdina, pedir-me qualquer tipo de ajuda sem que o Major "topasse". Felizmente para ele faltava pouco tempo para o fim da sua comissão.
A vida dos Escriturários não era "pêra doce"!. Entravam às 8 ou 9h00 (já não me recordo), destapavam as máquinas de escrever e era um matraquear contínuo até ao fecho do serviço, apenas com intervalo para almoço. Imaginem aquelas almas dias e dias seguidos (meses, toda a comissão!), sempre a bater à máquina com um calor insuportável e sem grandes hipóteses de "baldas"! E eu a levar com aquele constante matraqueado em cima!
Mas aquela "guerra" lá se foi travando até que surgem indícios de que a "coisa" estava a ficar mesmo feia e que parecia vir a alastrar-se a Bissau, com início de alguma guerrilha urbana, com bombas a rebentar no café Ronda, no QG/CTIG, num autocarro da Base Aérea e uma pseudo-bomba na Piscina do Clube dos Oficiais.
Tendo vivido de perto estes acontecimentos, com excepção daquele que se terá passado com o autocarro da Base, proponho-me relatar no capítulo a seguir o que presenciei e de como reagi nesses momentos, não assegurando ser correcta a cronologia ali apresentada.





Abílio Magro
A Chegada à Guiné


Após uma viagem atribulada de 10 horas a bordo de um cargueiro DC 6 da FAP - ferrugento, rangendo por todos os lados e largando abundante quantidade de óleo por um dos motores, que nos obrigou a uma escala na ilha do Sal para "afinações" - eis que dou comigo a desfrutar alegremente do agradável clima daquela que era, na altura, a Província Ultramarina da Guiné Portuguesa.

Corria o dia 28 de Março de 1973 e, para me receber, encontrava-se no requintado Aeroporto de Bissalanca o meu irmão Álvaro que por aquelas bandas já se encontrava desde finais de 1971 e que eu, ao vê-lo fardado de calções, sapatos e meias até ao joelho, logo fiquei com a impressão de ter acabado de chegar a um qualquer Clube de Golf onde iria passar uns agradáveis momentos, apesar de já me começar a irritar a presença de tanto insecto voador de bico afiado.

Logo nos disponibilizaram transfer gratuito – o meu irmão mal teve tempo de me transmitir todos os conselhos, avisos e informações que pretendia transmitir – que nos levou até ao aldeamento turístico que nos estava destinado e que era conhecido localmente pelo nome de DAG.

Durante esta curta viagem pude constatar que, naquele “paraíso terrestre”, o top-less era livre e abundantemente praticado, levando-me a concluir que: - “a coisa estava a compor-se!” e que o tal DAG seria, talvez, um Departamento de Actividades Giras.
Não, não era! Era o Depósito de Adidos da Guiné.
Aí nos depositaram e foi também aí que comecei a ficar adido, para não dizer outra coisa!

E mais adido fiquei quando, uns dias depois, fui mudado para as instalações militares de Santa Luzia onde me aconselharam, amavelmente, um alojamento ao qual a tropa dava o sugestivo nome de Biafra e onde pernoitavam cerca de 20 “piriquitos” por caserna e onde as baratas, imensas e de avantajado porte, tinham ali o seu habitat natural.

Cada vez mais adido, mal dormi nessa noite com tanta “bazucada”!

Tinha começado a minha guerra!

As “bazucadas” eram constantes e provinham da Messe de Sargentos, ali próxima, e traduziam-se no arremesso de garrafas de cerveja vazias para cima dos telhados de zinco das camaratas em condomínio fechado.





Abílio Magro
O Sargento da Guarda


Como é sabido, um militar quando se apresenta numa nova Unidade é de imediato integrado na escala de serviço da mesma pois, embora colocado na CSJD, pertencia à CCS/QG/CTIG e fazia diversos serviços dependentes desta, tais como: Sargento da Guarda, de Piquete, rondas nocturnas ao Cupilom (vulgo pilão), segurança nocturna à PIDE/DGS, etc., etc., tudo serviços adequados a um bravo e experimentado Amanuense.
Assim, sou escalado para Sargento da Guarda ao QG do CTIG logo no segundo dia após a minha “hospedagem no Biafra” e logo após uma noite mal dormida à custa das ”bazucadas”.

No QG da RML já tinha feito alguns “Sargentos de dia”, mas Sargento da Guarda ao QG nunca, de maneira que, atempadamente, verifiquei o estado do camuflado, botas, etc. e deixei tudo prontinho, com o camuflado pendurado aos pés da cama para que na manhã seguinte pudesse partir para a “guerra” sem grandes sobressaltos e fazer uma Guarda de Honra condigna ao homem (Brig. Alberto da Silva Banazol). Na manhã do dia seguinte levantei-me a tempo de tratar da minha higiene pessoal, barbinha feita, uma última olhadela às “botifarras” e, toca a ataviar como deve ser que o acto é solene!
Vesti as calças e nada de anormal, calço as botas e idem aspas mas, quando visto o blusão, começa a sair deste um batalhão de baratas que lá tinha pernoitado, batendo em retirada em todas as direcções! Tiro o blusão rápidadamente, atiro-o para o chão enojado e…, que faço agora?! Outro banho, não dá tempo, o outro camuflado deve estar na “Lavandaria"..., bom ..., pego no blusão, sacudo-o violentamente várias vezes e lá vou eu receber o homem.
E se me sai uma baratona daquelas pela braguilha quando o homem se perfilar em frente à guarda?! Vai ser giro vai!

Lá se efectuou o render da Guarda com a pompa e circunstância que é costume e sem nenhum percalço a salientar e, quando entro na casa da Guarda, tenho lá uma nota do 2º Comandante – Cor. Tir. Galvão de Figueiredo - a informar que, nas férias do Comandante ele, 2º Comandante, dispensava os “salamaleques”.
O homem está de férias! Desta já me safei!
A segunda vez que estive de Sargento da Guarda, o homem ainda estava de férias e a “coisa” também correu de feição.
À terceira (que é de vez), o homem já regressara e então a “coisa” correu mesmo à moda de “um desgraçado de um Amanuense 'piriquito', magricelas e que nunca na vida tinha feito os "salamaleques" a que, um oficial-general, tem direito quando chega à sua "tabanca”.

Resumindo: após o render da Guarda e hastear da bandeira, fiquei ali pelo portão aguardando que o homem chegasse para que nada corresse mal.
Passaram as 9h00, as 9h30, as 10h00!
Eu de camuflado, botifarras, 40º à sombra, humidade à volta dos 90% (um homem não é de ferro, carago!), decido entrar na casa da guarda e colocar-me debaixo da ventoinha.
Mas os pés também estavam a cozer!
Desaperto os atacadores e alguns botões do blusão, sento-me na cama e deixo-me cair para trás. Já estão a ver o filme, né?
Foi tiro e queda!

Estava eu muito entretidinho a sonhar com... (Já não me recordo, esqueçam), quando sou abruptamente acordado por uns abanões e uma voz aflita que bradava:
“- esfuriel, esfuriel, comandanti!”
Saio disparado sem sequer me lembrar dos atacadores nem dos botões do camuflado.
O PM (Polícia Militar) que estava ao portão avisa-me que o Mercedes do homem estava parado lá ao fundo, à sombra de um mangueiro, havia já algum tempo.

Ao lado do portão de entrada ficava a guarita da sentinela. Em frente à guarita havia um pequeno jardim em forma de semi-círculo.
Eu e o Cabo da Guarda (também europeu) atravessamos apressadamente o pequeno jardim e fomos formar à esquerda da sentinela e, aí chegados, vejo o resto do pessoal (todos africanos), em fila indiana e em passo de corrida cadenciado, contornar o jardim.
Meio aparvalhado, pergunto-me:
“- Onde é que estes gajos vão, carago!”.
Terminado o circuito, os “contornadores” formam à nossa esquerda.
Pensei:
“- Bom..., já fiz merda!”

Lá se fizeram os “salamaleques” da ordem e, terminada a “sessão solene” lá regressamos a quartéis onde o Oficial de dia – um Cap. Milº - me pergunta:
- "Então Furriel, o que aconteceu?"
- "Adormeci e dei barraca".
E ele:
- "Também eu "passei pelas brasas" e o homem deitou-me a mão ao bolso da camisa que estava desabotoado e perguntou: - O que é isto?!"
E continuou:
- "Olhe, ele disse para você lá ir ao gabinete".

Nessa altura, juro que me apetecia responder: - “Que venha ele cá abaixo porque eu estou de Sargento da Guarda e não posso abandonar o posto!”
Claro que não o fiz porque iria criar mau ambiente na Unidade já que, muito provavelmente o homem iria responder: - “Não, que venha cá ele que ainda agora acabei de subir e ele tem estado todo o dia ali alapado!”.
E o empurra para cá, empurra para lá, iria durar uma eternidade e, como não gosto de entrar nessas birras, acabei por ir. Contrariado, mas fui.

- "Há quanto tempo está na CCS?"
- "Há cerca de dois meses meu Com...(fui logo interrompido!)"
- "Pois, vocês chegam aqui, pensam que isto é a bandalheira do mato, não perguntam nada, se perguntassem sabiam que eu às 5ªs feiras tenho reunião e que chego sempre mais tarde, rebéu béu, pardais ao ninho, etc. e tal,…blá blá blá blá !
Eu só abanava a cabeça em sinal de concordância tipo: “ya meu, ya meu, ya meu”.
- "Vá-se lá embora. Depois digam que os Comandantes são maus!"


Passados uns dias, quando volto a entrar de Sargento da Guarda, ao fim da tarde vem o Oficial de dia ter comigo e diz-me:

- "Querem a sua presença no gabinete do 2º Comandante".

- “Porra, que foi que eu fiz agora?!” 'Berrei' eu com os meus botões e confesso que, nessa altura, pensei seriamente em pedir a demissão.

Quando entrei, estavam lá o Cor. Galvão de Figueiredo, o Major Leal de Almeida(*) (ex-Coordenador do Batalhão de Comandos Africanos e que, inicialmente, se tinha recusado a participar na operação Mar Verde, acabando por ir a Conakry), um Alf. Milº de Op. Esp. em fim de comissão e que aguardava transporte para regressar à Metrópole, um outro Fur. Milº de Transportes e um Cabo Escriturário.

Após uma pequena prelecção, o Cor. Galvão de Figueiredo informa-nos que na manhã seguinte teríamos de embarcar para o Sul. O Major e o Alf. Milº iriam de helicóptero e os outros embarcariam num pequeno cargueiro (vulgo barco turra).

No Sul havia “festa da brava” em Gadamael e eu dei comigo a magicar no que um desgraçado de um Amanuense ainda “pira” iria fazer para a “festa” na companhia de um Major Comando, um Alferes OE e um Cabo escriturário?!

Associei a “gentileza” à minha prestação na primeira Guarda de Honra que fiz ao homem.



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(*) – Quando regressei a Bissau, finda a minha “odisseia” em Cacine, e informei o meu irmão Álvaro [colocado no Hospital Militar de Bissau] que tinha lá estado com o Major Leal de Almeida, ele logo me disse:

“- Eh pá o Major Leal de Almeida é um grande amigo do nosso irmão Fernando e a sua mulher, Maria da Graça, foi colega da Lena [mulher daquele nosso irmão] no colégio de Moncorvo. O Major Leal de Almeida até costumava dizer que o nosso irmão tinha sido o pai dele na Guiné porque lhe deu muito apoio quando cá chegou, arranjando-lhe habitação e conseguindo também colocar a sua mulher [dele, Leal de Almeida] numa escola primária de Bissau como professora, bem como a ele, Leal de Almeida, como professor de educação física na Escola Industrial e Comercial de Bissau.”

Não creio que o conhecimento destes factos antes da minha ida para Cacine me tenha feito muita falta, já que O Major Leal de Almeida não me “chateou” muito, ou antes; não me “chateou” absolutamente nada!

Poucos dias antes de regressar a Bissau fiquei “tesinho que nem um carapau” à conta da “lerpa” jogada em Cacine. Nessa altura sim, o Major poderia ter-me dado algum apoio monetário…, digo eu que sou crente…!

Recentemente o meu irmão Fernando enviou-me uma carta onde fala do Major Leal de Almeida (já falecido) e da amizade que existiu entre ambos e respectivas esposas.

Em nome dessa amizade e por que convivi na Guiné, embora por pouco tempo, com este Major de quem guardo a imagem de um homem bom, resolvi, em sua memória, dedicar o capítulo seguinte ao Major Francisco Leal de Almeida.





Abílio Magro
"Férias" em Cacine


Na sequência dos acontecimentos relatados no post anterior, teríamos então de, na manhã seguinte, nos apresentar no Cais do Pidjiquiti a fim de embarcar num pequeno barco de carga, vulgarmente chamado de “barco turra”, que nos levaria para o Sul (???)

Entretanto tivemos de nos aviar em terra. Distribuíram-nos as G3, cartucheiras atestadas e várias embalagens de munições para G3(???).

Sul, G3, munições à “fartazana”! Iríamos para Gadamael?! A “coisa” já não me estava a cheirar nada bem. Comecei a pensar se não teria sido melhor eu ter ido para Padre!

Eu sou Amanuense, porra!

De seguida, foi-nos fornecido equipamento que me deixou completamente no nível mais elevado da estupefacção!
Foram-nos entregues 2 Máquinas de escrever Messa, devidamente embaladas e acondicionadas, rigorosamente a estrear!
É certo que, naquela Terra, raramente bebia água, mas juro que, naquele dia, o único álcool que tinha ingerido tinha sido o do copo que me serviram à hora do almoço e uma cerveja a meio da tarde, até porque estava em serviço de Sargento da Guarda!

Ó saudoso Raúl Solnado, tu que és entendido neste tipo de guerras, diz-me, por favor: - “O que vai um grupo composto por, 1 Major comando, 1 Alf. Milº OE, 1 Fur. Milº de Transportes, 1 Fur. Milº Amanuense e 1 Cabo Escriturário, armados e acompanhados de 2 máquinas de escrever, fazer para uma zona onde há “festa da brava”?!

Bom, no dia seguinte, lá pelas 7 horas da manhã, apresentámo-nos no Pidjiquiti de armas e bagagens e embarcamos no tal “iate”. Este teria talvez uns 8 x 4m e era composto por um porão coberto a madeira e uma “cabine” (4 estacas e uma cobertura). A tripulação era composta pelo comandante (um negro de meia-idade, com o seu cachimbo artesanal sempre na boca) e outros 2 negros, mais jovens.

Quando o sol começava a “apertar”, a única sombra possível era no porão que se encontrava cheio de rações de combate e alguns bidões de combustível e onde se podia cozer pão com algum grau de certeza de êxito.

Um bom marinheiro avia-se em terra e nós, tinha-mos trazido para a viagem uma grade de cerveja cujas garrafas, presas a pequenas cordas, penduramos na borda do “iate” e deixámo-las “refrescar” um pouco nas águas do Atlântico.
Claro que as ditas, mesmo pouco frescas, desapareceram num ápice tal era a sede naquela ocasião.
Emborcadas as “bejecas” mornas, deitamo-nos em tronco nu sobre a cobertura do porão.
Está-se mesmo a ver o filme! Uma valente soneca ao sol escaldante daquelas paragens!
Conhecem com certeza o que acontece à pele da sardinha quando a metemos no forno completamente coberta com sal? Sai direitinha como se de uma camisa se tratasse!
Pois foi exactamente o que aconteceu com a minha pele do tronco, rosto e pés (tinha descalçado as botas e meias).

Depois, veio a ressaca acompanhada daquela secura de boca tão característica do “pós-moca”.
E água, cá dela?!
Havia a bordo, junto à “cabine” do piloto, um bidão ferrugento onde a tripulação enfiava uma velha mangueira de plástico e, através da outra extremidade, sugava o precioso líquido (da bolanha?), matando a sua sede.

Com o sol cada vez mais a pino e a língua cada vez mais seca, olho e volto a olhar para o vaivém da tripulação em direcção à “fonte”.
Hesito várias vezes, mas vêm-me à memória relatos de alguns dos nossos militares que, no mato, para matarem a sede tinham de afastar os insectos da água da bolanha.
O que tinha ali à minha frente era um luxo comparado com o que se passava no mato!
E, vai daí, qual bravo guerreiro enfrentando o inimigo de peito aberto às balas, e “tungas”, atiro-me à mangueira, limpo disfarçadamente com o lenço a ponta e enfio-a pelas goelas, sugando avidamente aquela “pomada” refrescante!
Que alívio e, passados 40 anos, ainda não morri!

Surgida a noite, aquela “casca de noz” teve de enfrentar um mar de tal maneira revolto que eu, agarrado a uma das estacas da “cabine”, senti que, por vezes, ficava com as costas a centímetros da linha de água. Isto é: a embarcação quando navegava paralelamente às ondas, inclinava-se de tal modo para bombordo que a onda seguinte parecia ir desabar na minha cabeça.
Foi assustador para um marinheiro de água doce como eu, que nunca tinha andado no mar alto!
Felizmente veio a bonança, mas aqueles momentos pareceram-me intermináveis.

Na minha mente, sempre o mesmo: “Eu sou Amanuense, porra!”

Entretanto, vindas não sei de onde, juntaram-se a nós outras embarcações do género, formando um pequeno comboio ao qual se juntaram também, à entrada do rio Cacine, duas LDP’s (Lanchas de Desembarque Pequenas) que nos iriam escoltar. Uma à frente e outra à rectaguarda do comboio.

Iniciada a subida do rio, os “canhangulos” que equipavam as LDP’s e que se encontravam na vertical e cobertos com um oleado ou outra coisa do género, foram destapados e colocados na horizontal com os “artilheiros” em posição de combate e apontando para cada uma das margens do rio.

Novamente, na minha mente: “Eu sou Amanuense, porra!”

Navegando lentamente e em zig-zag (por causa dos bancos de areia, julgo eu) lá fomos avançando, sempre de “bico calado” e não me cabendo um “Phaseolus vulgaris no orifício rectal”, até que chegamos ao nosso destino ao fim da tarde do dia seguinte ao do embarque, tendo atracado pelo “caminho” em vários locais, as restantes embarcações que compunham o comboio.

Tinha-mos atracado ao cais de Cacine!

No cais amontoavam-se munições de armas pesadas que a minha condição de “guerreiro do ar condicionado” não conseguia identificar, mas que, pelo tamanho, seriam com certeza de obus.

A recepção foi óptima com um vai-vem de helicópteros (contei 7 evacuações) que vinham buscar feridos para os levar para Bissau.
Os feridos eram provenientes de Gadamael, a cerca de 10 km de distância, mas vinham por via fluvial, em sintexes e zebros, talvez por haver grande congestionamento de tráfego nas estradas da zona (leia-se "porrada".
Em Cacine encontrava-se albergada uma razoável quantidade de elementos da guarnição açoriana de Gadamael que para ali se tinham deslocado incomodados com o barulho que se fazia sentir no seu aglomerado habitacional (bombardeamentos).
Usavam apenas uns calções camuflados, habilmente confeccionados por um velho alfaiate negro a partir de restos de fardas velhas. Nos pés usavam daqueles “chanatos” de plástico tão do agrado do pessoal indígena.
Tinham saído de noite à pressa e sem tempo de fazer as malas, tendo ali chegado com apenas a roupa que traziam no corpo (cuecas).

O Major Leal de Almeida e o Alf. Milº já lá estavam a “banhos”.
Ali por perto estava instalado um destacamento de Fuzileiros Especiais.
Estavam também por lá acampadas as três Companhias de Para-quedistas – 120, 121 e 122 (BCP 12).
O grupo do Marcelino também apareceu.
Em resumo: Estava tudo preparado para a “festa” e, “pelos vistos”, só aguardavam a minha chegada.

Porra, eu sou Amanuense, carago!

O pessoal de Cacine - C.CAÇ. 3520, já com alguns meses de permanência naquela praia fluvial, aguardava ansioso pela rendição que tardava e, sabedores que foram da chegada de um Fur. Milº da CSJD, logo trataram de saber ao que íamos.
Não lhes soube responder, ou por outra, respondi-lhes que também não sabia, no que não acreditaram e esse facto maior desconfiança lhes causou.
Imagine-se o que terá perpassado pelas cabeças daquelas almas quando nos viram armados com 2 máquinas de escrever! Se a isso lhe juntarmos a minha pretensa “recusa” em lhes revelar o “segredo” da nossa missão, quantas congeminações por ali não andariam?!
O que é verdade é que não sabia mesmo e à sua constante insistência a resposta era sempre igual, o que lhes adensava mais a curiosidade, tendo em conta que eu provinha da Chefia de Serviço de Justiça e Disciplina e que, provavelmente, estaria ali para “lhes fazer a folha”..

Lá nos disponibilizaram uma habitação onde iria ser o QG do Major Leal de Almeida e onde, para essa noite, colocaram um beliche duplo com apenas um colchão, ao qual o meu camarada dos transportes logo se “abarbatou”.
Tive que a andar na “pedinchice” pois, além de ter saído “todo rotinho do último cruzeiro”, não me agradava nada a ideia de dormir em cima de uma rede de chapas entrelaçadas típica das camas da tropa.

Alguém me encontrou um colchão ensanguentado onde, tinha morrido ou esteve gravemente ferido um militar de Gadamael e cujo sangue não me pareceu totalmente seco. Recusei!

Valeram-me, então, os Pára-quedistas que, solícitos e bem apetrechados como sempre, lá me cederam um velho colchão insuflável, mas que parecia ter sido atacado pelas traças.
Amanuense como era, ataquei-o logo com fita-cola e ele lá encheu e, num ápice, adormeci.

Na manhã seguinte acordei com o colchão completamente vazio e com o corpo tão dorido que parecia ter dormido dentro duma britadeira em movimento.

Porra, eu sou Amanuense!

Havia agora que retirar o beliche e preparar o gabinete de operações do Major Leal de Almeida, mas com que equipamento?

Lá desencantei uma mesa carunchosa e um banco corrido daqueles usados nas tabernas e estava criado o gabinete.

O Major não fez qualquer comentário ao mobiliário “new style”, mas pediu-me que completasse o “ramalhete” com alguns acessórios indispensáveis para um bom andamento dos trabalhos, tais como: suporte para esferográficas e arquivo de dossiês.
Perante a minha hesitação, tipo: “Eu sei lá onde fica a Staples cá do sítio!”, sugeriu-me que fosse junto ao paiol e procurasse por embalagens vazias de granadas, para as esferográficas e caixotes de madeira, para os arquivos, e assim fiz.

Colocado o porta-esferográficas em cima da mesa e pregados os caixotes à parede, o gabinete estava pronto para dali saírem as mais elaboradas directivas que iriam, de certeza, acabar com a “festa” na aldeia vizinha.

Foi então que, enquanto arquivava a papelada, dei com um documento que continha o carimbo de “SECRETO” e que tinha como título “Operação Trovão” e onde eram descritas as acções a levar a efeito. Li-o apressadamente com receio da entrada abrupta do Major e o que dali retirei foi, resumidamente e se não me falha a memória, o seguinte:

O pessoal “refugiado” em Cacine teria de ser “recambiado” para Gadamael;
O pessoal de Gadamael teria de aguentar nas valas a rações de combate e até ao último homem;
As forças especiais estacionadas em Cacine (eu incluído?!!!!! Eu sou Amanuense!!!) iriam tentar desbaratar o IN que se encontrava algures a bombardear incessantemente o Quartel de Gadamael.

Entretanto o Kako Baldé, talvez sabedor da minha presença naquelas paragens, resolve fazer-nos uma visita.

Lá aparece de camuflado vestido, com o habitual caco no olho, o indispensável pingalim e o seu séquito de ombros reluzentes e com o héli-canhão lá em cima sempre às voltas.

Exige a presença do Major Leal de Almeida e ali, no meio da “parada”, dá-lhe um valente “bate-barbas” e retira-se sem sequer me cumprimentar (enfim…!).
O Major entra no gabinete e desabafa: - “Esta “rabecada” ainda se vai transformar num louvor”.

Não fazia a mínima ideia do que se tinha passado, mas suponho que teria a ver com as prolongadas presenças do Major em Cacine (agradava-lhe, talvez, a minha companhia) quando seria suposto, julgo eu, passar mais tempo na “festa”, tanto que, a partir daí, várias vezes o vi com a sua Kalashnikov rumar, via fluvial, a Gadamael e lá permanecer alguns dias.

--- xxx ---

Durante a nossa viagem, em “barco turra”, de Bissau para Cacine, não me recordo se no primeiro ou se no segundo dia de viagem, nem se era de manhã ou de tarde e apenas me recordo que estava um dia de sol escaldante, presenciamos um incidente com dois helicópteros que podia ter causado graves consequências.

Os helicópteros seguiam quase a par e ao passarem sobre nós bateram com as respectivas pás umas nas outras. Abanaram um pouco e logo se dirigiram para as areias de uma ilha qualquer que se via do nosso barco e onde pousaram e desligaram os motores. Vimos sair dois ou três militares que se puseram a puxar as pás para baixo, provavelmente testando-as.

Os militares voltaram a entrar, puseram os motores a trabalhar, levantaram voo e seguiram viagem.

Quando chegamos a Cacine, contamos o episódio ao Major Leal de Almeida e ao Alferes Miliciano e ficamos a saber que eles seguiam num desses hélis e apanharam um valente susto.

Resumindo: eu, que a princípio tinha ficado algo desconsolado por não me terem proporcionado a minha primeira viagem de helicóptero, dei graças a Deus por não me terem metido em semelhante “alhada”.