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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Rogério Magro
A Emboscada


Ao fim da tarde do dia anterior à partida para mais uma operação, fui chamado ao gabinete do Capitão que me ordenou que providenciasse a requisição de rações de combate para dois dias e para 70 homens e para ter em conta que levaria 12 militares negros dos "flechas" e que se tratava de efectuar uma escolta e segurança a uma coluna de reabastecimento.

Quartel de Gago Coutinho - 1968

A partida seria pelas 7 horas da manhã.
Tratei do que tinha a tratar e ao outro dia pelas 6 horas já estava pronto e no local da partida - parada do quartel em Gago Coutinho.
Foi-me dada a informação final que o destino da coluna seria o Ninda, onde estava instalada a Comp.Caç.1720, comandada pelo Capitão Pimenta.
Ninda situava-se a uns 90 kms a sul de Gago Coutinho.

Picada de Gago Coutinho para o Ninda

Às sete em ponto partimos em direcção a Ninda.
Distribui os carros da forma seguinte:

- À frente da coluna ia o Unimog com a metralhadora MG montada em tripé e com os laterais blindados;

- No 2º Unimog ia eu com a minha secção de combate;
- Atrás de mim ia o Unimog com os "flechas";
- Logo a seguir o Unimog com o Furriel Sousa e seu pessoal;
- No meio da coluna seguiam os três camiões civis carregados de géneros alimentícios;
- A fechar a coluna seguiam mais três Unimogs onde ia o Furriel Godinho.

Os primeiros 20, 30 kms eram de estrada em terra dura e vermelha e os restantes em picada arenosa em que se circulava pelos trilhos existentes.
Como os primeiros 30 kms eram de estrada razoável as viaturas rolavam a boa velocidade e com algum espaço entre elas por causa do pó vermelho levantado pelas viaturas da frente.
Percorridos aí uns vinte e tal kms e logo a seguir a uma pequena curva, eram 7,30 horas, ouviu-se um tiro de pistola (ordem para dar início à emboscada) e, de imediato, começa o tiroteio.
Tendo a emboscada sido efectuada do lado esquerdo em relação ao sentido da marcha e indo eu sentado ao lado do condutor, saltei da viatura para o lado contrário à emboscada.
A resposta das NT foi imediata.
O tiroteio foi intenso e a determinada altura fartei-me de gritar para pararem com o fogo, mas não consegui fazer-me ouvir.
Acabei por verificar, mais tarde, que até se chegou a fazer fogo para o lado contrário ao local da emboscada! Enfim..., coisas que acontecem na guerra!
Por fim lá consegui que os tiros parassem e, de imediato, perguntei se havia feridos. Informaram-me que sim e chamei o radiotelegrafista e dei-lhe instruções para que entrasse em contacto com a base para pedir um "héli" para evacuação de feridos.
Lembro-me de, logo a seguir, se ter abeirado de mim o chefe dos "flechas" e me ter dito:
- "Mê Furriel, mê pessoal não ter munição, descarregou o carregador da G3 todo”.
Eu respondi-lhe:
- "Olha, agora manda-os apanhar pedras e se houver mais algum ataque, vocês respondem à pedrada, Ok?!”

Entretanto começo a ouvir vozes na mata o que me deixou perplexo e, como as vozes continuassem, mandei chamar o homem do morteiro 61 e ordenei-lhe que efectuasse 3 morteiradas - uma para cada lado e outra para o meio do local onde foi efectuada a emboscada.
Não obtivemos resposta do IN.
Comecei a pensar que talvez os tipos estivessem em dificuldades e decidi avançar com a tropa em linha e começar a bater a mata a fogo.
Antes de iniciar essa operação, dei instruções ao Godinho para organizar a segurança aos camiões e às viaturas.
Bater a mata a fogo e em linha e a ouvir vozes, foi complicado! Dei ordens que só se faria fogo á minha voz de “fogo”.
Muito "berrei"! Até rouco fiquei de tanto "berrar"!
A progressão em linha requer muitos cuidados, um dos quais é elementar; os militares devem afastar-se uns dos outros e não se juntarem (como acontece, quase sempre nestes casos, devido à tensão que se apodera de nós).
Fomos progredindo e deixamos de ouvir vozes, mas a dada altura começamos a ver rastos de sangue no chão e à medida que íamos avançando o sangue era mais abundante.
Entretanto, começamos a ser sobrevoados por dois T6 que tinham levantado voo de Gago Coutinho.
Esse apoio foi bem-vindo, pois deu-nos outra moral e lá de cima era mais fácil dar-nos a indicação da localização do IN.
Os rastos de sangue eram cada vez maiores e levaram-nos ao encontro de um militar do MPLA que não estava fardado e que se encontrava bastante ferido.
Tinham-no arrastado pelo chão, mas como se aperceberam que estavam a ser perseguidos, abandonaram-no.
Eu fui a segunda pessoa a chegar junto dele, a primeira foi um soldado que logo lhe aplicou uma valente coronhada que lhe abriu a cabeça.
Impus-me e não deixei que o agredissem mais. Fizeram pressão para o matar, eu não consenti.
Dado que ele não se conseguia levantar, baixei-me e perguntei-lhe onde estava a arma, já que quando o encontramos estava desarmado.
Respondeu-me em português que não sabia falar português e isso irritou-me!.


Dei instruções para que o transportassem para a picada para junto das viaturas e mandei bater o local a pente fino. De imediato apareceram as cartucheiras que estavam escondidas na mata e passado mais algum tempo lá apareceu a arma semi-automática Simonov que estava igualmente escondida nuns arbustos.
Entretanto, chegou o "héli" que aterrou num descampado, na mata, para evacuar os feridos. Corri para junto do mesmo e só aí verifiquei que os feridos eram somente dois, o Furriel Sousa que partiu um pé ao saltar da viatura e um soldado "flecha" que apanhou um tiro num braço.
Falei com o tenente piloto do "héli" e, informando-o que tinha um prisioneiro bastante ferido, perguntei-lhe se tinha lugar para ele, ao que me respondeu afirmativamente.
Dei instruções para irem buscar o prisioneiro que já se encontrava junto à picada, a fim de ser evacuado.
Fui, de imediato, pressionado para não o fazer porque, provavelmente, já o teriam morto. Eu próprio fui até junto do prisioneiro e acompanhei-o no transporte até junto do "héli". Pareceu-me que teria sido, entretanto, alvo de mais algumas agressões.

Efectuada a evacuação dos feridos e do prisioneiro, era necessário pôr a coluna em marcha para chegarmos ao destino.
Dei instruções para se abrirem os cunhetes de munições que sempre levavamos de reserva, chamei o chefe dos “flechas” e perguntei-lhe pelas pedras. Ele sorriu e eu perguntei-lhe quantos carregadores tinham ficado vazios.
"- Todos mê furriel"!
Dei instruções para entregar 20 munições a cada “flecha” a fim de carregarem as G3 e disse-lhe que se aquela situação se voltasse a repetir - "Não havia mais munições para ninguém, entendido?!"
Ora, o que aconteceu, foi que todos os soldados "flechas" que iam do lado oposto à emboscada fizeram um tiroteio danado para o lado que estavam virados, um autêntico fogo de artificio sem qualquer sentido.
Antes de dar início à marcha, fui analisar o local onde estiveram emboscados os membros do IN. Estiveram emboscados a cerca de 3 metros da picada, separados entre si por 4 a 5 metros, o que possibilitou apanhar, na zona de morte, as 4 viaturas.
Seriam 6 os elementos e, pelas marcas observadas no terreno, deviam estar ali naquele sítio hà 3 ou 4 dias. Realço aqui um pormenor importante; o condutor do carro da metralhadora, ao saltar, deve ter guinado para a esquerda e o Unimog parou mesmo em frente ao local da emboscada e o homem da metralhadora varreu bem o sítio e para além do prisioneiro foram, segundo este, mais dois elementos feridos. Portanto, dos seis, três levaram para contar, mas o outros três teriam conseguido fugir ilesos.
Reiniciamos a marcha e chegamos ao destino cerca das 17 horas. Tivemos uma recepção calorosa e lá tivemos que contar o episódio por diversas vezes.
Mandei distribuir as rações de combate e logo de seguida chamaram por mim com grande alarido:
- "Meu Furriel, olhe para isto!"
Constatei, então, que as caixas das rações de combate que iam por debaixo dos bancos do Unimog onde eu ia, estavam cravejadas de balas, latas de chouriço e atum furadas, etc.etc. Os tiros do IN foram certeiros e só a rapidez com que saltamos das viaturas nos salvou a vida. O tempo que decorreu entre o sinal do tiro de pistola e o início da emboscada, foi o tempo que as NT levaram a saltar das viaturas.
Nessa altura tínhamos já mais de um ano de operações no "papo" e estávamos com uma grande capacidade militar.
Regressamos ao outro dia com enormes cautelas, não fossemos ter alguma surpresa desagradável, batemos kms de mata a pé, a fim de evitarmos alguma eventual “revanche” do IN. Passamos pelo local da emboscada a bater mata a pé com mil cuidados, mas felizmente nada aconteceu.
Chegamos a Gago Coutinho pelas 16 horas, tomei banho, bebi uma Cuca, fardei-me e fui descansar. Passados uns minutos chamaram-me para ir ao capitão. Mal entrei, diz-me o Capitão:
- "Ó Magro, conte-me lá essa, os tipos da força aérea só me dizem que nunca tinham visto a tropa a perseguir o IN após a emboscada tão longe da picada, estavam admirados!"
Lá tive que lhe relatar em pormenor todos os acontecimentos.



Nota: Tenho comigo a foto do membro do MPLA capturado. Não a publico tendo em conta o respeito pelos direitos humanos.





quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Abílio Magro
"Férias" em Cacine (continuação)


Decorria o mês de Junho/Julho de 1973. Eu ainda era muito "pira", não tinha completado ainda 3 meses de Guiné. Vinha do "ar condicionado" e encontrava-me em Cacine, no meio de grande confusão, tropas para-quedistas, fuzileiros, Marcelino da Mata, etc.
Felizmente em Cacine não faltava nada. Nao faltava cerveja morna, não faltava uma pedra de gelo, por cabeça, às refeições, não faltava o arroz de "rolhas" (arroz com muito colorau e meia dúzia de rodelas de salsicha), etc., etc..
A CCAÇ 3520 era um Companhia farta. Farta de ali estar, farta de comer arroz de "rolhas", farta de esperar pela rendição.
Julgo que não cheguei a completar 4 semanas de "férias" naquela "estância balnear", mas foi o suficiente para imaginar uma estadia de 23 meses!
Tenho ideia de só ter comido arroz de "rolhas" durante aquele período. Posso estar enganado.
Comecei a dar mais valor ao "pessoal do mato".
Antes 527 serviços de Sargento da Guarda!

O Major Leal de Almeida lá continuava a fazer incursões por Gadamael e levava habitualmente consigo o outro Furriel.
O Major, além de me ter pedido, no início, para lhe dar um jeito no "estaminé", pouco mais me pediu para fazer. Apenas um ou outro "mail" para Bissau.
E eu..., andava por ali a ver as "bajudas"...!
Certo dia, ao fim da tarde, regressados os dois (o Major e o outro Furriel), via fluvial, a Cacine, o outro Furriel, visivelmente exausto, sujo e suado, vem ao meu encontro e, completamente alterado, atira-me:
- Porra, anda aqui um "gajo" a esfarrapar-se todo e a arriscar o "coiro" e tu aqui a "coçá-los"!
Eu, que nunca gostei que me falassem "de cima da burra" nem com aqueles modos e que, nestas situações, tinha o hábito de responder com alguma agressividade verbal, contive-me (acreditem que a cerveja morna faz um efeito "bestial") e, calma e sarcásticamente, retorqui-lhe:
- Djubi, eu sou Amanuense e não tenho lá muita queda para herói! Já viste bem este "cabedal"?! Além disso o Major nunca me "convidou para a festa"!
Deu meia volta a resmungar e não me recordo de ter tido mais qualquer conversa com ele.

Entretanto, eu ia jogando a "lerpa", bebendo umas "bejecas" mornas e convivendo com os Sargentos para-quedistas (ah gente do "catano"!).
Recordo-me bem de um convívio nocturno na "messe" de Sargentos. Houve de tudo! Aguardente, fados, poesia, etc., tudo a roçar o "hard-core", claro! Gente espectacular, camaradagem excelente e com uma disciplina extraordinária, nomeadamente com o armamento.
Guardei na memória alguns versos de um fado cantado pelos "páras" com música do hino académico - "Amores de Estudante" e que, salvo erro, rezavam assim:

Quero, quero ir para Lisboa
Ai, ai, eu quero
Nem que seja de canoa
Eu quero ir
P'ra terra santa querida
Dizer adeus a esta merda
P'ro resto da minha vida

Para-quedistas, homens nobres
Tanto ricos como pobres
Avançando pela mata
...
(e de mais não me recordo)

Ficou-me também na retina a imagem do 1º Sargento para-quedista Vicente, evacuado para Cacine vindo de Gadamael, com um tiro numa perna, a aguardar evacuação para Bissau e com quem tinha convivido alegremente naquela noite.

A minha "guerra" lá foi continuando com a "lerpa", "as bejecas" mornas, o convívio com os "páras" e a excelente qualidade das instalações, nomeadamente o "balneário" de arrojado design e equipamento de conceituadas marcas.
O chuveiro apresentava uma característica completamente inovadora - era semi-automático, comandado por voz! Isto é: Em cima havia um bidão de lata que continha água e um furo na base inferior tapado com uma rolha acoplada à ponta de um pau. O "fabiano" que queria tomar banho tinha de "aparelhar" com outro que tivesse a mesma intenção. O primeiro colocava-se debaixo do bidão e o outro encarrapitava-se de modo a chegar ao pau. Quando o de baixo queria água, dizia: - "abre!" e a água caía. Se queria parar, dizia: - "pára", e a água parava! (sistema altamente sofisticado para a época). Findo o duche, era só trocar de posições e a coisa funcionava bem.

Entretanto, chega finalmente a Companhia que vinha substituir a CAÇ 3520. Esta entra em euforia e empenha-se rapidamente nas actividades para recepção dos novos "piras".
Não possuindo máquina fotográfica, vi-me impedido de registar aqueles actos solenes hilariantes.
Os "piras" não acharam muita piada à recepção. Pudera, entraram no avião em Figo Maduro com destino a S. Tomé e, quando aterraram, estavam na Guiné!
Pois é verdade, iam para S. Tomé e, a meio da viagem, o Comandante do avião terá recebido ordens para rumar a Bissalanca.
Pertencia a esta companhia o soldado Lemos, ex-futebolista do Boavista e, depois do F.C.Porto onde ficou célebre por ter marcado 4 golos ao Benfica no Estádio das Antas em jogo a contar para o Camperonato Nacional de Futebol, jogo que, por acaso, assisti ao vivo.

Em Cacine, esta Companhia tratou logo de abrir valas por todo lado, pois tendo Guileje sido abandonada e estando Gadamael a ferro e fogo, Cacine seria, muito provavelmente, o "freguês que se seguia".

Entretando, saído não sei de onde, aparece-me um camarada e pergunta-me:
- Tu é que és o Magro?
Respondi que sim e ele:
- Deves ter uma cunha do "caraças"!
- Então porquê?
- Venho-te substituir. Estava sossegadinho em Bolama e mandaram-me para aqui para te substituir.

Nunca tive conhecimento de cunha alguma e atribuo o facto a pressões que o Dr. Dias terá feito junto do Chefe - Major Mário Lobão, por se encontrar, provavelmente, atafulhado em papelada. Nunca o soube.
Aproveitei boleia na LDM que transportou a CCAÇ 3520 para Bissau.
Saímos de Cacine ao fim da tarde e chegamos a Bissau na manhã do dia seguinte,

A partir dessa data eu seria, talvez, o Furriel/Sargento que melhor fazia a Guarda de Honra ao Brigadeiro Alberto da Silva Banazol!
Recordo-me de, logo após o meu regresso de Cacine e estando de Sargento da Guarda, ter dado ordem de: "Apresentar armas!" quando ele se colocou em sentido frente à Guarda, e o ter feito com tal vigor que o homem, depois de bater a pala e desandar, ao passar perto de mim, disse: - "Isso, assim com garra!".

Estavam feitas as pazes!





quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Rogério Magro
Fome A Quanto Obrigas!


Após o regresso de mais uma operação de quatro dias, regressamos ao quartel de Lumbala-Nova e, após termos ido ao Zambeze tomar banho e á zona da "lavandaria", visitamos os nossos amigos marinheiros da lancha de desembarque e aproveitamos para beber umas “Cucas” bem fresquiunhas. Como se aproximava a hora da janta, começamos a rebuscar as malditas latas de conservas da ração de combate e, então, eu sugeri aos meus camaradas Furriéis e ao Sarg.Pombal, o seguinte :
- E se fôssemos até á messe de sargentos aqui da Companhia e ficássemos a aguardar pelo fim do seu jantar? Acho que sempre deve sobrar alguma coisa e nós, às sobras, juntamos umas conservas e fazemos o nosso jantar.
- Boa ideia Magro, deve sempre sobrar algo, retorquiu o pessoal!
Como já sabíamos da hora habitual do jantar, lá fomos todos para a messe. Dissemos ao que íamos e o pessoal da casa não se manifestou em contrário. Recordo que o menu do dia era um arroz tipo argamassa acompanhado de umas rodelas de paio, mas para nós, que a fome era mais que muita, era um autêntico manjar dos deuses. Nós, os visitantes, aguardávamos todos de pé atrás da mesa redonda onde os Sargentos da companhia se “banqueteavam”. A páginas tantas, um Sargento levanta-se da mesa, e o Barros que estava mais próximo do local, abancou-se de imediato no lugar do Sargento e agarrou-se ao prato de arroz que nem um desalmado.
Estava o Barros a enfiar mais uma garfada, quando o Sargento regressa à mesa e, com grande espanto, vê o seu lugar ocupado e o seu prato de comida a ser devorado pelo Barros e exclamou:
- "Fosga-se" que isto está de tal maneira que um tipo já nem à casa de banho pode ir que “lerpa” logo o jantar!
Foi uma risada geral e o Barros muito acabrunhado só balbuciou:
- Ó meu Sargento eu pensei que já tinha acabado de jantar e antes que fosse tarde abanquei que estava cá com uma “galga”, peço-lhe imensa desculpa!
O Sargento compreendeu, pois sabia da nossa situação e lá acabou de comer o que o Barros ainda não tinha comido.

Esta situação já foi recordada por diversas vezes, aquando das nossos encontros nos almoços anuais.
No fim do repasto dos Sargentos da casa, lá rapamos o que sobrou, juntamos-lhe umas latas de atum e chouriço e lá conseguimos jantar os restos que sobraram que, diga-se de passagem, nos souberam tão bem que, aliado ao episódio do Barros, ficou gravado para memória futura.
Quando a fome aperta até os restos de comida dos outros dão num excelente manjar! È verdade que rapamos os pratos dos outros camaradas para matar a fome, foi assim no Lumbala junto ao rio Zambeze nos inícios de 1968.





Rogério Magro
A Operação Mais Delicada


Por alturas do mês de Maio de 1969, faltando cerca de 3 meses para acabar a comissão, encontravamo-nos no Dundo, Capital da célebre Diamang, Companhia de Diamantes, mas de vez em quando lembravam-se de nós e lá fomos parar ao Dala, local complicado pois estava na célebre Rota Agostinho Neto e lá ficamos durante um mês.



Quedas de água do rio Dala

O local era lindíssimo, junto ao rio Dala com as célebres quedas de água.

O problema é que nessa zona os tipos do MPLA eram peritos em minas. E, para quem estava a 3 meses do fim do "curso", era um problema do "caraças"!



Dundo – marco da fronteira com o ex-Congo Belga

Bom, vamos à operação delicada:

Eu, como na tropa fazia de tudo um pouco, o capitão lembrou-se de me chamar e dar-me ordens para que, durante aquele mês que íamos estar no Dala, tomasse conta da gestão do rancho de toda a tropa. Uma espécie de vaguemestre sazonal mas, ao mesmo tempo, alinhava nas operações que nem um "sargento".

Naquele dia não havia rancho, só rações de combate!

Não muito longe dali havia duas missões católicas, uma feminina e outra masculina, às quais nada faltava. A tropa, todas as noites, ia para as missões fazer-lhes a segurança.

O capitão chama-me e diz-me:

- "Olhe, veja lá se arranja uns franguitos para dar uma arrozada ao pessoal que bem precisa porque é quase sempre atum com ciclistas (feijão frade), massa com chouriço e arroz com salsichas (era o que havia!). Vá lá acima à missão, ao irmão António e veja se ele lhe vende uns frangos, mas atenção ao preço!" (eu só podia gastar 22$50/dia/cabeça - vinte e dois escudos e 50 centavos)

Informei-me junto do civil que lá havia mas que não tinha frangos em quantidade sufiente para nos fornecer e ele disse-me que o kg andava à volta dos 20$00, frangos já prontos a cozinhar.

Desloco-me de jeep à missão (ficava aí a uns 6 kms do local onde estávamos) e vou ao encontro do irmão António que parecia que estava à minha espera, vestido com aquela opa toda branca que os padres usavam. Disse-lhe, então, que o capitão me tinha dado instruções para lhe comprar uns frangos para o rancho da tropa.

"Óptimo!", diz o irmão António.

Pergunto-lhe o preço por kg e ele diz-me que são 21$50!

Pergunto eu: - "Já depenados ou com penas?"

Responde ele: - "Não, bem pesadinhos, mas com penas!"

Disse-lhe: - "Ok, vou falar com o nosso capitão e depois venho cá dizer qual a quantidade necessária".

Claro que desci a encosta e sempre a chamar nomes ao "sacana" do irmão que queria vender os frangos mais caros à tropa do que o civil vendia!

Cheguei junto do capitão e contei-lhe o que se tinha passado. De imediato o capitão levantou-se da cadeira de impulso e ordenou-me:

- "Vá já lá acima à missão e diga ao irmão António que eu lhe disse para ele meter os frangos pelo olho do cú acima, e que quando precisar de escolta para os levar ao Luso (cidade que ficava a cento e tal km) vão sozinhos que não há escolta da tropa!

Virou-se para o cabo condutor e disse-lhe: - "Vê lá se o nosso furriel relata tudo direitinho!"

Que puta de missão a minha! O condutor só se ria, e eu só pensava em como é que ia transmitir ao irmão António aquela ordem de chofre. Mas a sorte protege os audazes (como reza o lema dos comandos) e mal cheguei à entrada da missão, lá estava o irmão António à minha espera. E mal saí do jeep, perguntou-me:

- "Então sr. Furriel quantos kgs de frango são?"

- "Olhe, irmão António, o nosso capitão mandou-me transmitir-lhe que metesse os frangos pelo olho do cú acima e que quando precisar de escolta para ir ao Luso vá sozinho que a tropa não mais lhe faz escolta."

Missão cumprida! O irmão António ficou sem fala e se falou já nem o ouvi! Entrei para o jeep e foi rir até chegar ao capitão e dizer-lhe:

- "Meu capitão, missão cumprida!"

Até regressarmos à base a "padralhada" nunca mais foi ao Luso com escolta!









terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Adelina Valente
Apresentação

Adelina de Pinho Valente
2ª Comandante
1911-1971
Cozinheira, Lavadeira, Engomadeira, Enfermeira, Faxineira, etc. - MÃE.




Natural do Burgo - Arouca, foi, já com uma filha de uma relação anterior, que aí conheceu "El Comandante" e com ele iniciou a fundação da Companhia "Os Magros do Capim" cuja guarnição se veio, anos mais tarde, a dispersar pelo vasto "Império" português.

Esta Unidade multifacetada foi, desde a sua formação, forçada a operar em várias latitudes, originando constantes deslocalizações, como agora se diz.

Os Comandantes foram aumentando a guarnição em cada localidade em que a Companhia ficava sediada, ainda que por pouco tempo (Arouca - Torre D. Chama - Sabugal - Valença e Fronteira).

Foram 11, ao todo, os elementos pré-recenseados, no entanto, vericando-se que 3 eram do sexo feminino e que 2 rapazes tinham morrido em criança, apenas 6 mancebos foram pré-incorporados e aos quais a 2ª Comandante Adelina dedicou a vida inteira, preparando-os para a defesa da Pátria, se assim esta o exigisse.

Os tempos eram difíceis, as bocas eram muitas, os mancebos eram "levados da breca", mas a 2ª Comandante nunca fraquejava e demonstrava possuir a força mental que um verdadeiro militar deve possuir em situações adversas e era um exemlo vivo para os mancebos em fim de formação.

Já com a guarnição quase toda formada, começou a fraquejar ao vê-los partir e, cedeu!

Adoeceu e, cada vez mais doente, continuou a vê-los partir.

Um, felizmente, já tinha regressado são e salvo.

Entretanto partira mais um e ainda lá estavam 3!

Era o quinto a partir!


Já não viu partir o 6º.

Descansa em paz, mãe. Regressamos todos sãos e salvos.





Acácio Magro
Apresentação

El Comandante
Comandante bem disposto, brincalhão, companheiro, camarada, folgazão, porreiro pá!.


Os Magros do capim



A formação desta Companhia iniciou-se no ano de 1936 em Arouca por iniciativa dos saudosos Comandantes Acácio Magro e Adelina Valente, que nesse ano viram nascer o seu primeiro mancebo que logo ingressou naquela Unidade Multi Task onde aprendeu a dar os primeiros passos que, mais tarde, lhe haveriam de ser úteis na marcha aprumada com que veio a distinguir-se.
E tanto marchou com aprumo e galhardia que acabou por marchar para tropa em 1958 e marchou para a tropa em 1969 e marchou para a Guiné em 1970. E mais não marchou porque, entretanto, a guerra acabou.

Portugal, este pequeno País à beira mar plantado, possuía, à época, um imenso império que se estendia do Minho a Timor, nas palavras do "Régulo" cá do sítio.

O Comandante Acácio, visionário como era, logo percebeu que seria muito difícil manter tanto império com tão pouca gente. E vai daí, empenha-se na produção contínua de mancebos que engrossassem as fileiras da sua garbosa Companhia e, com tanto empenho o fez que, apesar das constantes transferências geográficas de posto de trabalho que a JAE - Junta Autónoma de Estradas lhe impunha, não deixou de providenciar no sentido da sua Companhia apresentar um número de efectivos suficiente para atender a todas as frentes, se fosse caso disso.

E foi assim que, nas décadas de 60 e 70 do século passado, viu partir para terras de além mar todos os seus seis mancebos.
Comandante sempre bem humorado, viu-os partir com um misto de orgulho e coração partido e, felizmente, também os viu regressar sãos e salvos.

A mesma felicidade não teve a 2ª Comandante que acabaria por falecer pouco depois da partida do seu 5º filho para a Guiné e que ainda só tinha visto regressar um.

Enfim, malhas que o império tece!..(tecia!)





segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Abílio Magro
O Regresso a Bissau


O sol começava a nascer e ao longe, tenuemente, já se vislumbrava a costa da Guiné e, muito lentamente, o cais do Pidjiquiti tornava-se-me mais nítido e desejado.
Tinha a sensação de estar a regressar finalmente de uma longa ausência em terras inóspitas.
Cacine tinha ficado para trás. Foram poucos dias, eu sei (pareceram-me uma eternidade!), mas deu para "cheirar" ao de leve a guerra e sentir a vida dura do mato.
Senti-me regressar a "casa".
Em terra, aproveitei a boleia de uma das Mercedes que transportavam o pessoal da CCAÇ 3520 e que me deixou perto do QG/CTIG que não ficava longe do "Apart-hotel" onde estava alojado - O "Biafra". Este, era um alojamento provisório para quem chegava à Guiné pela 1ª vez, ou que estava em trânsito. Eu já contava com 3 meses de Guiné e ainda ali continuava. Talvez as baratas tenham feito alguma pressão nesse sentido.
Embora necessitado de um valente banho, as saudades de uma "bejeca" geladinha falaram mais alto e, deixada a "bagagem" e a G3 na "suite", logo me dirigi ao Bar da Messe de Sargentos que se encontrava ainda fechado, mas que o "barman", vendo o estado lastimoso em que me encontrava e sensível ao meu convincente "choradinho", logo se disponibilizou para procurar a "bejeca" mais gelada que se encontrasse nas redondezas.
Até tinha gelo lá dentro! "Ganda barman!"
Bebi-a de um trago, o que fez com que não pudesse ter "cantado o fado" durante uns dias, mas que me soube bem "comó caraças"!
Havia agora que me apresentar ao serviço e recomeçar a minha outra "guerra", a que muitos chamavam "do ar condicionado" (aproveito para informar que o ar condicionado estava reservado para os gabinetes dos Oficiais pois abaixo disso, aguentávamos com aquelas ventoinhas "gigantolas" penduradas no tecto e que, quando avariavam ou faltava a electricidade, nos obrigava a parar de trabalhar e vir para a rua, o que nos era permitido).
Lavadinho, barbinha feita, calças verdes de terylene, camisinha de manga curta e aberta no pescoço, lá vou eu todo vaidoso apresentar-me ao Chefe do Serviço de Justiça e Disciplina - Major do SGE, Mário Lobão (julgo que, naquela época, os Oficiais do SGE eram oriundos da classe de Sargentos e que, após frequência de um Curso na Escola de Sargentos de Águeda, acediam ao oficialato e podiam progredir na carreira até ao posto de Ten. Coronel).
Para ir do meu gabinete ao do Major, tinha de passar pelo gabinete dos Advogados - Alferes Milicianos.
E, ao passar por estes, dizem-me: - "Não se vá apresentar assim, tem de levar gravata!"
Eram uns brincalhões e eu era ainda muito 'pira'..., estão a ver?!
Gravata numa camisa daquelas e naquele clima?! "Gandas tangas estes tipos!"
Continuei a marcha em direcção ao gabinete do Major, entro, "bato-lhe a devida pala" e, quando me apronto para lhe contar as minhas desventuras, o homem levanta-se e vocifera:
- "Isso não é assim, vá-se ataviar convenientemente e venha-se apresentar depois!"
Se fosse hoje, corria para o computador, entrava no site da CP e comprava bilhete para o primeiro comboio que rumasse a Cacine, ainda que não tivesse ficado com muitas saudades daquilo.
Voltei para trás e ao passar novamente pelo gabinete dos Advogados, ouvi:
- "Está a ver, nós avisamos!"
Lá me informaram de como me deveria apresentar ao homem e concluí que tinha mesmo de pôr gravata.
- "Oh c'um carago, uma gravata nesta camisa é completamente ridículo! Isto anda tudo 'cacimbado' ou foi a cerveja gelada que me baralhou os neurónios?!
Bom, lá fui ao "Biafra", procurei a farda que tinha trazido da Metrópole, vesti a camisa de manga comprida arregaçando-lhe as mangas e coloquei a gravata.
Aquela gravata no meu pescoço fazia tanto sentido como um terço nas mãos do Luis Filipe Vieira!
Resta-me a consolação de ter obrigado o homem a levantar-se para me receber (o respeitinho é muito lindo!).
Quem por lá andou sabe que havia algumas personalidades estrambólicas, mas pelo que pude constatar nos cerca de 18 meses de Guiné, muito poucos Oficiais do SGE tinham semelhantes comportamentos.

E a minha "guerra" lá foi continuando sem grandes sobressaltos e aproveito para aqui fazer um pequeno parêntesis para vos dar uma ideia geral de como era a vida do pessoal do "ar condicionado".
Na pequena sala onde prestava serviço, com uma ventoinha "matulona" no tecto, estavam também 4 Escriturários, dos quais dois eram africanos (1 civil, ex-guerrilheiro recuperado, e outro do recrutamento local), virados para mim e o espaço que existia entre as secretárias deles e a minha, não permitia que circulassem duas pessoas a par. A seu lado, estava ainda um 1º Sargento de quem já não me recordo o nome e a quem o Major parecia ter um ódio de estimação chamando-o de "gebo" e encarregando-o das tarefas mais achincalhantes.
Dava pena vê-lo abeirar-se de mim, cheio de medo e, em surdina, pedir-me qualquer tipo de ajuda sem que o Major "topasse". Felizmente para ele faltava pouco tempo para o fim da sua comissão.
A vida dos Escriturários não era "pêra doce"!. Entravam às 8 ou 9h00 (já não me recordo), destapavam as máquinas de escrever e era um matraquear contínuo até ao fecho do serviço, apenas com intervalo para almoço. Imaginem aquelas almas dias e dias seguidos (meses, toda a comissão!), sempre a bater à máquina com um calor insuportável e sem grandes hipóteses de "baldas"! E eu a levar com aquele constante matraqueado em cima!
Mas aquela "guerra" lá se foi travando até que surgem indícios de que a "coisa" estava a ficar mesmo feia e que parecia vir a alastrar-se a Bissau, com início de alguma guerrilha urbana, com bombas a rebentar no café Ronda, no QG/CTIG, num autocarro da Base Aérea e uma pseudo-bomba na Piscina do Clube dos Oficiais.
Tendo vivido de perto estes acontecimentos, com excepção daquele que se terá passado com o autocarro da Base, proponho-me relatar no capítulo a seguir o que presenciei e de como reagi nesses momentos, não assegurando ser correcta a cronologia ali apresentada.





Abílio Magro
A Chegada à Guiné


Após uma viagem atribulada de 10 horas a bordo de um cargueiro DC 6 da FAP - ferrugento, rangendo por todos os lados e largando abundante quantidade de óleo por um dos motores, que nos obrigou a uma escala na ilha do Sal para "afinações" - eis que dou comigo a desfrutar alegremente do agradável clima daquela que era, na altura, a Província Ultramarina da Guiné Portuguesa.

Corria o dia 28 de Março de 1973 e, para me receber, encontrava-se no requintado Aeroporto de Bissalanca o meu irmão Álvaro que por aquelas bandas já se encontrava desde finais de 1971 e que eu, ao vê-lo fardado de calções, sapatos e meias até ao joelho, logo fiquei com a impressão de ter acabado de chegar a um qualquer Clube de Golf onde iria passar uns agradáveis momentos, apesar de já me começar a irritar a presença de tanto insecto voador de bico afiado.

Logo nos disponibilizaram transfer gratuito – o meu irmão mal teve tempo de me transmitir todos os conselhos, avisos e informações que pretendia transmitir – que nos levou até ao aldeamento turístico que nos estava destinado e que era conhecido localmente pelo nome de DAG.

Durante esta curta viagem pude constatar que, naquele “paraíso terrestre”, o top-less era livre e abundantemente praticado, levando-me a concluir que: - “a coisa estava a compor-se!” e que o tal DAG seria, talvez, um Departamento de Actividades Giras.
Não, não era! Era o Depósito de Adidos da Guiné.
Aí nos depositaram e foi também aí que comecei a ficar adido, para não dizer outra coisa!

E mais adido fiquei quando, uns dias depois, fui mudado para as instalações militares de Santa Luzia onde me aconselharam, amavelmente, um alojamento ao qual a tropa dava o sugestivo nome de Biafra e onde pernoitavam cerca de 20 “piriquitos” por caserna e onde as baratas, imensas e de avantajado porte, tinham ali o seu habitat natural.

Cada vez mais adido, mal dormi nessa noite com tanta “bazucada”!

Tinha começado a minha guerra!

As “bazucadas” eram constantes e provinham da Messe de Sargentos, ali próxima, e traduziam-se no arremesso de garrafas de cerveja vazias para cima dos telhados de zinco das camaratas em condomínio fechado.





Abílio Magro
O Sargento da Guarda


Como é sabido, um militar quando se apresenta numa nova Unidade é de imediato integrado na escala de serviço da mesma pois, embora colocado na CSJD, pertencia à CCS/QG/CTIG e fazia diversos serviços dependentes desta, tais como: Sargento da Guarda, de Piquete, rondas nocturnas ao Cupilom (vulgo pilão), segurança nocturna à PIDE/DGS, etc., etc., tudo serviços adequados a um bravo e experimentado Amanuense.
Assim, sou escalado para Sargento da Guarda ao QG do CTIG logo no segundo dia após a minha “hospedagem no Biafra” e logo após uma noite mal dormida à custa das ”bazucadas”.

No QG da RML já tinha feito alguns “Sargentos de dia”, mas Sargento da Guarda ao QG nunca, de maneira que, atempadamente, verifiquei o estado do camuflado, botas, etc. e deixei tudo prontinho, com o camuflado pendurado aos pés da cama para que na manhã seguinte pudesse partir para a “guerra” sem grandes sobressaltos e fazer uma Guarda de Honra condigna ao homem (Brig. Alberto da Silva Banazol). Na manhã do dia seguinte levantei-me a tempo de tratar da minha higiene pessoal, barbinha feita, uma última olhadela às “botifarras” e, toca a ataviar como deve ser que o acto é solene!
Vesti as calças e nada de anormal, calço as botas e idem aspas mas, quando visto o blusão, começa a sair deste um batalhão de baratas que lá tinha pernoitado, batendo em retirada em todas as direcções! Tiro o blusão rápidadamente, atiro-o para o chão enojado e…, que faço agora?! Outro banho, não dá tempo, o outro camuflado deve estar na “Lavandaria"..., bom ..., pego no blusão, sacudo-o violentamente várias vezes e lá vou eu receber o homem.
E se me sai uma baratona daquelas pela braguilha quando o homem se perfilar em frente à guarda?! Vai ser giro vai!

Lá se efectuou o render da Guarda com a pompa e circunstância que é costume e sem nenhum percalço a salientar e, quando entro na casa da Guarda, tenho lá uma nota do 2º Comandante – Cor. Tir. Galvão de Figueiredo - a informar que, nas férias do Comandante ele, 2º Comandante, dispensava os “salamaleques”.
O homem está de férias! Desta já me safei!
A segunda vez que estive de Sargento da Guarda, o homem ainda estava de férias e a “coisa” também correu de feição.
À terceira (que é de vez), o homem já regressara e então a “coisa” correu mesmo à moda de “um desgraçado de um Amanuense 'piriquito', magricelas e que nunca na vida tinha feito os "salamaleques" a que, um oficial-general, tem direito quando chega à sua "tabanca”.

Resumindo: após o render da Guarda e hastear da bandeira, fiquei ali pelo portão aguardando que o homem chegasse para que nada corresse mal.
Passaram as 9h00, as 9h30, as 10h00!
Eu de camuflado, botifarras, 40º à sombra, humidade à volta dos 90% (um homem não é de ferro, carago!), decido entrar na casa da guarda e colocar-me debaixo da ventoinha.
Mas os pés também estavam a cozer!
Desaperto os atacadores e alguns botões do blusão, sento-me na cama e deixo-me cair para trás. Já estão a ver o filme, né?
Foi tiro e queda!

Estava eu muito entretidinho a sonhar com... (Já não me recordo, esqueçam), quando sou abruptamente acordado por uns abanões e uma voz aflita que bradava:
“- esfuriel, esfuriel, comandanti!”
Saio disparado sem sequer me lembrar dos atacadores nem dos botões do camuflado.
O PM (Polícia Militar) que estava ao portão avisa-me que o Mercedes do homem estava parado lá ao fundo, à sombra de um mangueiro, havia já algum tempo.

Ao lado do portão de entrada ficava a guarita da sentinela. Em frente à guarita havia um pequeno jardim em forma de semi-círculo.
Eu e o Cabo da Guarda (também europeu) atravessamos apressadamente o pequeno jardim e fomos formar à esquerda da sentinela e, aí chegados, vejo o resto do pessoal (todos africanos), em fila indiana e em passo de corrida cadenciado, contornar o jardim.
Meio aparvalhado, pergunto-me:
“- Onde é que estes gajos vão, carago!”.
Terminado o circuito, os “contornadores” formam à nossa esquerda.
Pensei:
“- Bom..., já fiz merda!”

Lá se fizeram os “salamaleques” da ordem e, terminada a “sessão solene” lá regressamos a quartéis onde o Oficial de dia – um Cap. Milº - me pergunta:
- "Então Furriel, o que aconteceu?"
- "Adormeci e dei barraca".
E ele:
- "Também eu "passei pelas brasas" e o homem deitou-me a mão ao bolso da camisa que estava desabotoado e perguntou: - O que é isto?!"
E continuou:
- "Olhe, ele disse para você lá ir ao gabinete".

Nessa altura, juro que me apetecia responder: - “Que venha ele cá abaixo porque eu estou de Sargento da Guarda e não posso abandonar o posto!”
Claro que não o fiz porque iria criar mau ambiente na Unidade já que, muito provavelmente o homem iria responder: - “Não, que venha cá ele que ainda agora acabei de subir e ele tem estado todo o dia ali alapado!”.
E o empurra para cá, empurra para lá, iria durar uma eternidade e, como não gosto de entrar nessas birras, acabei por ir. Contrariado, mas fui.

- "Há quanto tempo está na CCS?"
- "Há cerca de dois meses meu Com...(fui logo interrompido!)"
- "Pois, vocês chegam aqui, pensam que isto é a bandalheira do mato, não perguntam nada, se perguntassem sabiam que eu às 5ªs feiras tenho reunião e que chego sempre mais tarde, rebéu béu, pardais ao ninho, etc. e tal,…blá blá blá blá !
Eu só abanava a cabeça em sinal de concordância tipo: “ya meu, ya meu, ya meu”.
- "Vá-se lá embora. Depois digam que os Comandantes são maus!"


Passados uns dias, quando volto a entrar de Sargento da Guarda, ao fim da tarde vem o Oficial de dia ter comigo e diz-me:

- "Querem a sua presença no gabinete do 2º Comandante".

- “Porra, que foi que eu fiz agora?!” 'Berrei' eu com os meus botões e confesso que, nessa altura, pensei seriamente em pedir a demissão.

Quando entrei, estavam lá o Cor. Galvão de Figueiredo, o Major Leal de Almeida(*) (ex-Coordenador do Batalhão de Comandos Africanos e que, inicialmente, se tinha recusado a participar na operação Mar Verde, acabando por ir a Conakry), um Alf. Milº de Op. Esp. em fim de comissão e que aguardava transporte para regressar à Metrópole, um outro Fur. Milº de Transportes e um Cabo Escriturário.

Após uma pequena prelecção, o Cor. Galvão de Figueiredo informa-nos que na manhã seguinte teríamos de embarcar para o Sul. O Major e o Alf. Milº iriam de helicóptero e os outros embarcariam num pequeno cargueiro (vulgo barco turra).

No Sul havia “festa da brava” em Gadamael e eu dei comigo a magicar no que um desgraçado de um Amanuense ainda “pira” iria fazer para a “festa” na companhia de um Major Comando, um Alferes OE e um Cabo escriturário?!

Associei a “gentileza” à minha prestação na primeira Guarda de Honra que fiz ao homem.



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(*) – Quando regressei a Bissau, finda a minha “odisseia” em Cacine, e informei o meu irmão Álvaro [colocado no Hospital Militar de Bissau] que tinha lá estado com o Major Leal de Almeida, ele logo me disse:

“- Eh pá o Major Leal de Almeida é um grande amigo do nosso irmão Fernando e a sua mulher, Maria da Graça, foi colega da Lena [mulher daquele nosso irmão] no colégio de Moncorvo. O Major Leal de Almeida até costumava dizer que o nosso irmão tinha sido o pai dele na Guiné porque lhe deu muito apoio quando cá chegou, arranjando-lhe habitação e conseguindo também colocar a sua mulher [dele, Leal de Almeida] numa escola primária de Bissau como professora, bem como a ele, Leal de Almeida, como professor de educação física na Escola Industrial e Comercial de Bissau.”

Não creio que o conhecimento destes factos antes da minha ida para Cacine me tenha feito muita falta, já que O Major Leal de Almeida não me “chateou” muito, ou antes; não me “chateou” absolutamente nada!

Poucos dias antes de regressar a Bissau fiquei “tesinho que nem um carapau” à conta da “lerpa” jogada em Cacine. Nessa altura sim, o Major poderia ter-me dado algum apoio monetário…, digo eu que sou crente…!

Recentemente o meu irmão Fernando enviou-me uma carta onde fala do Major Leal de Almeida (já falecido) e da amizade que existiu entre ambos e respectivas esposas.

Em nome dessa amizade e por que convivi na Guiné, embora por pouco tempo, com este Major de quem guardo a imagem de um homem bom, resolvi, em sua memória, dedicar o capítulo seguinte ao Major Francisco Leal de Almeida.





Abílio Magro
"Férias" em Cacine


Na sequência dos acontecimentos relatados no post anterior, teríamos então de, na manhã seguinte, nos apresentar no Cais do Pidjiquiti a fim de embarcar num pequeno barco de carga, vulgarmente chamado de “barco turra”, que nos levaria para o Sul (???)

Entretanto tivemos de nos aviar em terra. Distribuíram-nos as G3, cartucheiras atestadas e várias embalagens de munições para G3(???).

Sul, G3, munições à “fartazana”! Iríamos para Gadamael?! A “coisa” já não me estava a cheirar nada bem. Comecei a pensar se não teria sido melhor eu ter ido para Padre!

Eu sou Amanuense, porra!

De seguida, foi-nos fornecido equipamento que me deixou completamente no nível mais elevado da estupefacção!
Foram-nos entregues 2 Máquinas de escrever Messa, devidamente embaladas e acondicionadas, rigorosamente a estrear!
É certo que, naquela Terra, raramente bebia água, mas juro que, naquele dia, o único álcool que tinha ingerido tinha sido o do copo que me serviram à hora do almoço e uma cerveja a meio da tarde, até porque estava em serviço de Sargento da Guarda!

Ó saudoso Raúl Solnado, tu que és entendido neste tipo de guerras, diz-me, por favor: - “O que vai um grupo composto por, 1 Major comando, 1 Alf. Milº OE, 1 Fur. Milº de Transportes, 1 Fur. Milº Amanuense e 1 Cabo Escriturário, armados e acompanhados de 2 máquinas de escrever, fazer para uma zona onde há “festa da brava”?!

Bom, no dia seguinte, lá pelas 7 horas da manhã, apresentámo-nos no Pidjiquiti de armas e bagagens e embarcamos no tal “iate”. Este teria talvez uns 8 x 4m e era composto por um porão coberto a madeira e uma “cabine” (4 estacas e uma cobertura). A tripulação era composta pelo comandante (um negro de meia-idade, com o seu cachimbo artesanal sempre na boca) e outros 2 negros, mais jovens.

Quando o sol começava a “apertar”, a única sombra possível era no porão que se encontrava cheio de rações de combate e alguns bidões de combustível e onde se podia cozer pão com algum grau de certeza de êxito.

Um bom marinheiro avia-se em terra e nós, tinha-mos trazido para a viagem uma grade de cerveja cujas garrafas, presas a pequenas cordas, penduramos na borda do “iate” e deixámo-las “refrescar” um pouco nas águas do Atlântico.
Claro que as ditas, mesmo pouco frescas, desapareceram num ápice tal era a sede naquela ocasião.
Emborcadas as “bejecas” mornas, deitamo-nos em tronco nu sobre a cobertura do porão.
Está-se mesmo a ver o filme! Uma valente soneca ao sol escaldante daquelas paragens!
Conhecem com certeza o que acontece à pele da sardinha quando a metemos no forno completamente coberta com sal? Sai direitinha como se de uma camisa se tratasse!
Pois foi exactamente o que aconteceu com a minha pele do tronco, rosto e pés (tinha descalçado as botas e meias).

Depois, veio a ressaca acompanhada daquela secura de boca tão característica do “pós-moca”.
E água, cá dela?!
Havia a bordo, junto à “cabine” do piloto, um bidão ferrugento onde a tripulação enfiava uma velha mangueira de plástico e, através da outra extremidade, sugava o precioso líquido (da bolanha?), matando a sua sede.

Com o sol cada vez mais a pino e a língua cada vez mais seca, olho e volto a olhar para o vaivém da tripulação em direcção à “fonte”.
Hesito várias vezes, mas vêm-me à memória relatos de alguns dos nossos militares que, no mato, para matarem a sede tinham de afastar os insectos da água da bolanha.
O que tinha ali à minha frente era um luxo comparado com o que se passava no mato!
E, vai daí, qual bravo guerreiro enfrentando o inimigo de peito aberto às balas, e “tungas”, atiro-me à mangueira, limpo disfarçadamente com o lenço a ponta e enfio-a pelas goelas, sugando avidamente aquela “pomada” refrescante!
Que alívio e, passados 40 anos, ainda não morri!

Surgida a noite, aquela “casca de noz” teve de enfrentar um mar de tal maneira revolto que eu, agarrado a uma das estacas da “cabine”, senti que, por vezes, ficava com as costas a centímetros da linha de água. Isto é: a embarcação quando navegava paralelamente às ondas, inclinava-se de tal modo para bombordo que a onda seguinte parecia ir desabar na minha cabeça.
Foi assustador para um marinheiro de água doce como eu, que nunca tinha andado no mar alto!
Felizmente veio a bonança, mas aqueles momentos pareceram-me intermináveis.

Na minha mente, sempre o mesmo: “Eu sou Amanuense, porra!”

Entretanto, vindas não sei de onde, juntaram-se a nós outras embarcações do género, formando um pequeno comboio ao qual se juntaram também, à entrada do rio Cacine, duas LDP’s (Lanchas de Desembarque Pequenas) que nos iriam escoltar. Uma à frente e outra à rectaguarda do comboio.

Iniciada a subida do rio, os “canhangulos” que equipavam as LDP’s e que se encontravam na vertical e cobertos com um oleado ou outra coisa do género, foram destapados e colocados na horizontal com os “artilheiros” em posição de combate e apontando para cada uma das margens do rio.

Novamente, na minha mente: “Eu sou Amanuense, porra!”

Navegando lentamente e em zig-zag (por causa dos bancos de areia, julgo eu) lá fomos avançando, sempre de “bico calado” e não me cabendo um “Phaseolus vulgaris no orifício rectal”, até que chegamos ao nosso destino ao fim da tarde do dia seguinte ao do embarque, tendo atracado pelo “caminho” em vários locais, as restantes embarcações que compunham o comboio.

Tinha-mos atracado ao cais de Cacine!

No cais amontoavam-se munições de armas pesadas que a minha condição de “guerreiro do ar condicionado” não conseguia identificar, mas que, pelo tamanho, seriam com certeza de obus.

A recepção foi óptima com um vai-vem de helicópteros (contei 7 evacuações) que vinham buscar feridos para os levar para Bissau.
Os feridos eram provenientes de Gadamael, a cerca de 10 km de distância, mas vinham por via fluvial, em sintexes e zebros, talvez por haver grande congestionamento de tráfego nas estradas da zona (leia-se "porrada".
Em Cacine encontrava-se albergada uma razoável quantidade de elementos da guarnição açoriana de Gadamael que para ali se tinham deslocado incomodados com o barulho que se fazia sentir no seu aglomerado habitacional (bombardeamentos).
Usavam apenas uns calções camuflados, habilmente confeccionados por um velho alfaiate negro a partir de restos de fardas velhas. Nos pés usavam daqueles “chanatos” de plástico tão do agrado do pessoal indígena.
Tinham saído de noite à pressa e sem tempo de fazer as malas, tendo ali chegado com apenas a roupa que traziam no corpo (cuecas).

O Major Leal de Almeida e o Alf. Milº já lá estavam a “banhos”.
Ali por perto estava instalado um destacamento de Fuzileiros Especiais.
Estavam também por lá acampadas as três Companhias de Para-quedistas – 120, 121 e 122 (BCP 12).
O grupo do Marcelino também apareceu.
Em resumo: Estava tudo preparado para a “festa” e, “pelos vistos”, só aguardavam a minha chegada.

Porra, eu sou Amanuense, carago!

O pessoal de Cacine - C.CAÇ. 3520, já com alguns meses de permanência naquela praia fluvial, aguardava ansioso pela rendição que tardava e, sabedores que foram da chegada de um Fur. Milº da CSJD, logo trataram de saber ao que íamos.
Não lhes soube responder, ou por outra, respondi-lhes que também não sabia, no que não acreditaram e esse facto maior desconfiança lhes causou.
Imagine-se o que terá perpassado pelas cabeças daquelas almas quando nos viram armados com 2 máquinas de escrever! Se a isso lhe juntarmos a minha pretensa “recusa” em lhes revelar o “segredo” da nossa missão, quantas congeminações por ali não andariam?!
O que é verdade é que não sabia mesmo e à sua constante insistência a resposta era sempre igual, o que lhes adensava mais a curiosidade, tendo em conta que eu provinha da Chefia de Serviço de Justiça e Disciplina e que, provavelmente, estaria ali para “lhes fazer a folha”..

Lá nos disponibilizaram uma habitação onde iria ser o QG do Major Leal de Almeida e onde, para essa noite, colocaram um beliche duplo com apenas um colchão, ao qual o meu camarada dos transportes logo se “abarbatou”.
Tive que a andar na “pedinchice” pois, além de ter saído “todo rotinho do último cruzeiro”, não me agradava nada a ideia de dormir em cima de uma rede de chapas entrelaçadas típica das camas da tropa.

Alguém me encontrou um colchão ensanguentado onde, tinha morrido ou esteve gravemente ferido um militar de Gadamael e cujo sangue não me pareceu totalmente seco. Recusei!

Valeram-me, então, os Pára-quedistas que, solícitos e bem apetrechados como sempre, lá me cederam um velho colchão insuflável, mas que parecia ter sido atacado pelas traças.
Amanuense como era, ataquei-o logo com fita-cola e ele lá encheu e, num ápice, adormeci.

Na manhã seguinte acordei com o colchão completamente vazio e com o corpo tão dorido que parecia ter dormido dentro duma britadeira em movimento.

Porra, eu sou Amanuense!

Havia agora que retirar o beliche e preparar o gabinete de operações do Major Leal de Almeida, mas com que equipamento?

Lá desencantei uma mesa carunchosa e um banco corrido daqueles usados nas tabernas e estava criado o gabinete.

O Major não fez qualquer comentário ao mobiliário “new style”, mas pediu-me que completasse o “ramalhete” com alguns acessórios indispensáveis para um bom andamento dos trabalhos, tais como: suporte para esferográficas e arquivo de dossiês.
Perante a minha hesitação, tipo: “Eu sei lá onde fica a Staples cá do sítio!”, sugeriu-me que fosse junto ao paiol e procurasse por embalagens vazias de granadas, para as esferográficas e caixotes de madeira, para os arquivos, e assim fiz.

Colocado o porta-esferográficas em cima da mesa e pregados os caixotes à parede, o gabinete estava pronto para dali saírem as mais elaboradas directivas que iriam, de certeza, acabar com a “festa” na aldeia vizinha.

Foi então que, enquanto arquivava a papelada, dei com um documento que continha o carimbo de “SECRETO” e que tinha como título “Operação Trovão” e onde eram descritas as acções a levar a efeito. Li-o apressadamente com receio da entrada abrupta do Major e o que dali retirei foi, resumidamente e se não me falha a memória, o seguinte:

O pessoal “refugiado” em Cacine teria de ser “recambiado” para Gadamael;
O pessoal de Gadamael teria de aguentar nas valas a rações de combate e até ao último homem;
As forças especiais estacionadas em Cacine (eu incluído?!!!!! Eu sou Amanuense!!!) iriam tentar desbaratar o IN que se encontrava algures a bombardear incessantemente o Quartel de Gadamael.

Entretanto o Kako Baldé, talvez sabedor da minha presença naquelas paragens, resolve fazer-nos uma visita.

Lá aparece de camuflado vestido, com o habitual caco no olho, o indispensável pingalim e o seu séquito de ombros reluzentes e com o héli-canhão lá em cima sempre às voltas.

Exige a presença do Major Leal de Almeida e ali, no meio da “parada”, dá-lhe um valente “bate-barbas” e retira-se sem sequer me cumprimentar (enfim…!).
O Major entra no gabinete e desabafa: - “Esta “rabecada” ainda se vai transformar num louvor”.

Não fazia a mínima ideia do que se tinha passado, mas suponho que teria a ver com as prolongadas presenças do Major em Cacine (agradava-lhe, talvez, a minha companhia) quando seria suposto, julgo eu, passar mais tempo na “festa”, tanto que, a partir daí, várias vezes o vi com a sua Kalashnikov rumar, via fluvial, a Gadamael e lá permanecer alguns dias.

--- xxx ---

Durante a nossa viagem, em “barco turra”, de Bissau para Cacine, não me recordo se no primeiro ou se no segundo dia de viagem, nem se era de manhã ou de tarde e apenas me recordo que estava um dia de sol escaldante, presenciamos um incidente com dois helicópteros que podia ter causado graves consequências.

Os helicópteros seguiam quase a par e ao passarem sobre nós bateram com as respectivas pás umas nas outras. Abanaram um pouco e logo se dirigiram para as areias de uma ilha qualquer que se via do nosso barco e onde pousaram e desligaram os motores. Vimos sair dois ou três militares que se puseram a puxar as pás para baixo, provavelmente testando-as.

Os militares voltaram a entrar, puseram os motores a trabalhar, levantaram voo e seguiram viagem.

Quando chegamos a Cacine, contamos o episódio ao Major Leal de Almeida e ao Alferes Miliciano e ficamos a saber que eles seguiam num desses hélis e apanharam um valente susto.

Resumindo: eu, que a princípio tinha ficado algo desconsolado por não me terem proporcionado a minha primeira viagem de helicóptero, dei graças a Deus por não me terem metido em semelhante “alhada”.





Abílio Magro
A Partida


Julgo não estar muito longe da verdade se disser que meus pais foram, talvez, dos que mais contribuíram com “carne para canhão” para a guerra colonial. Efectivamente, tendo a minha mãe dado à luz 11 criaturas (8 rapazes, dos quais 2 morreram em criança e 3 raparigas) , os 6 mancebos sobrevivos vieram a cumprir serviço militar nos três TO’s (Angola, Guiné e Moçambique).

Em 1971 a situação da Companhia Magro era a seguinte:

Fernando de Pinho Valente (Magro), nascido a 10/05/1936 - Em serviço na Guiné como Cap. Milº de Artilharia, tendo cumprido já, entre 1958 e 1960, o serviço militar obrigatório como oficial miliciano;

Rogério Alberto Valente Magro, nascido a 09/03/1944 - Na disponibilidade após ter cumprido serviço em Angola como Fur Milº Atirador de Infantaria, entre 1967 e 1969;

Dálio Valente Magro, nascido a 10/12/46 - Em serviço em Moçambique, como Alf. Milº de Engenharia – C.Engª 2686;

Carlos Alberto Valente Lamares Magro, nascido a 17/07/48 - Em serviço em Angola, como Cabo Especialista da FAP;

Álvaro Valente Lamares Magro, nascido a 17/05/50 - em serviço no HMR nº1 – Porto, como 1º Cabo Enfermeiro e já com guia de marcha para a Guiné, para onde “marchou” em Dezembro desse ano;
Abílio Valente Lamares Magro, nascido a 06/11/51 - a apresentar-se a Inspecção Militar.

Eu, o único que fazia jus ao apelido que ostentava, pois media 1,73m e tinha 53 kg de peso e, consciente dos contributos que os meus irmãos deram, estavam a dar e mais um já se perfilava para dar ao esforço de guerra, apresentei-me à Junta Militar de Inspecção com a confiança de quem podia afirmar: - “Para esse peditório os meus irmãos já deram!”

Quando, com algum estrondo, me plantaram na papelada o carimbo que rezava: “Apurado para todo o serviço”, confesso que me perpassaram pela mente alguns impropérios que me dispenso de aqui relatar, limitando-me aos mais suaves e cujos destinatários eram os meus outros cinco irmãos, como por ex.: “aqueles 'gandas' camelos andam lá no meio do mato armados em heróis do capim e estes 'bacanos' julgam que é tudo da mesma cepa e 'tungas, bora' lá fazer companhia aos maninhos!”.

Muitas vezes ouvira falar em “carne para canhão”, mas em “ossos para canhão” é que nunca tal houvera visto!”

Enfim, lá me apresentei em Abril de 1972 no RI 5 – Caldas da Rainha para frequentar o 1º ciclo do CSM, tendo depois frequentado o 2º ciclo no RAL 4 – Leiria, seguindo depois, já como 1º Cabo Milº para o QG/RML onde, passados 4 meses lá me passaram o “voucher” para viajar até à Guiné.





Rogério Magro
Os 48 Dias de Lumbala


Lumbala Novo e Lumbala Velho ficavam nas margens do rio Zambeze, onde muitos soldados aprenderam a nadar e alguns correram o risco de lá ficar.
No Lumbala Velho estavam os fuzileiros que nos transportavam de uma margem para a outra.

Havia também uma jangada que levava as viaturas militares e uma lancha de desembarque ancorada no meio do rio.
Sempre que não andávamos em operações albergávamo-nos numa Companhia de Infantaria que estava aquartelada no Lumbala Novo e que tinha grandes dificuldades de abastecimento.
Foram 48 dias a comer rações de combate!
O pessoal da "estalagem" nem uma cebola nos cedia (não tinham!) para comermos com o atum da ração.
Dada a quantidade de dias a comer rações de combate, quando chegava a hora de ”arrear a bosta” era um problema!
Aquilo não era bosta, era cimento armado e o pessoal via-se aflito!
O médico detectou que um militar estava com hepatite, solicitou a sua evacuação e mandou proibir o consumo de qualquer bebida alcoólica.
Como, além de passarmos fome, ainda nos tiravam as "cervejolas", resolvemos ir ao meio do rio Zambeze ter com dois marinheiros que estavam na lancha de desembarque e que tinham cerveja a bordo.
Como eram de outra guerra, não chegou lá a proibição e como, para além disso, eram só dois e estavam de relações cortadas, os nossos pedidos de asilo para as "cervejolas" eram sempre bem-recebidos.

Como havia gente que sabia que estávamos ali em situação difícil, alguém foi à caça e trouxeram-nos duas cabras do mato que, após termos conseguido "desencantar" uns quilos de batatas, alguém fez uma espécie de caldeirada.

Durante a noite foi uma correria desalmada, pois toda a gente passava a correr com as calças na mão.
Eu acordei com o alvoroço e estava admirado de não me suceder nada até que, já com o dia a nascer, lá vou eu a correr e a desapertar as calças e lá consegui chegar junto a um embondeiro para "arrear a giga".
O pior é que o dia já estava a começar a nascer e os mosquitos já tinham acordado e saí de lá com a "bunda" toda picada, minha nossa!

Resumindo: As cabras do mato, depois de mortas, devem ter andado muito tempo pelo mato até chegarem ao destino (gandas cabras!) e, então, causaram uma diarreia geral na companhia que ficou com saudades das rações de combate!

As operações foram várias. Já não me recordo dos nomes dos locais por onde andamos, mas recordo-me que fomos a um aquartelamento, junto à fronteira com a Zâmbia, que só era abastecido por héli e que para andarmos 53 kms com as viaturas, demoramos dois dias para lá e outros dois para cá, dada a quantidade enorme de pontes e pontões que se encontravam destruídos.

Havia alturas em que a farda parecia de plástico e eu afirmava que era à prova de bala e vi pela 1ª.vez, ao vivo e a cores, as meias ficarem de pé sozinhas, sem qualquer suporte.

No Zambeze, todos nus, lavávamos as fardas no rio, fazia lembrar a praia do Meco.







domingo, 20 de janeiro de 2013

Dálio Magro
Apresentação


Dálio Valente Magro, foi incorporado no serviço militar obrigatório em 8 de Janeiro de 1969, com apenas 22 anos de idade, tendo passado à disponibilidade cinco anos depois (8 de Janeiro de 1974).

Na data da incorporação apresentou-se na EPI (Escola Prática de Infantaria) - Mafra, onde, com o posto de Soldado Cadete, frequentou o 1º ciclo do COM (Curso de Oficiais Milicianos), cuja duração foi de cerca de 3 meses e onde foi exímio na aprendizagem das tarefas de:
- Esquerda … direita, marchar … um … dois … um … dois…, apresentar arma….etc, etc., bem como no manuseamento das armas "mauser" e "G3".

Contudo, a sua preferência era a ordem de “destroçar!”.

E esta simpática ordem de “destroçar” era a mais bem acatada no fim de cada dia de instrução e, às sextas-feiras, soava a “bolero de Ravel” aos seus ouvidos.

Jovens na flor da idade, fechados num quartel a executar duros exercícios físicos a que não estavam habituados, o que mais desejavam era que a sexta-feira chegasse bem depressa para poderem ir passar o fim-de-semana a casa.

Para esse efeito, o comboio era um dos transportes mais utilizados, até por que, aos militares, era concedida a benesse de 50% de desconto no preço do respectivo bilhete.

Para se ter uma ideia do custo de vida naquela época, o preço da viagem de comboio (meio bilhete) entre Campanhã e Mafra, custava 59$00 (aproximadamente trinta cêntimos actuais) o que, parecendo um preço bastante baixo, era, ainda assim, para muitos militares um custo elevado, já que durante a instrução recebiam um “ordenado” risível.

Convém lembrar que, nessa altura, um prego em prato (que incluía bife, ovo e batatas fritas), mais uma caneca de cerveja, andava pelos 17$50 (dezassete escudos e cinquenta centavos - menos de dez cêntimos actuais). Ou seja: para se poder ir passar o fim-de-semana a casa (ida e volta=118$00), ficava-se privado de deglutir quase sete preguitos em prato e quase sete canequitas de cerveja (inadmissível!).

Terminado o 1º ciclo do COM, foi colocado na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, a fim de receber formação da respectiva especialidade e que teve, também, a duração aproximada de 3 meses.

Após a conclusão da especialidade, foi colocado no Regimento de Engenharia 1, na Pontinha - Lisboa, com o posto de Aspirante a Oficial Miliciano. Esta Unidade, naquela época, possuia uma secção no Campo Grande - Lisboa, onde se encontrava o Comandante.

De acordo com as normas legais, o novo Aspirante a Oficial teve que se apresentar ao Comandante da Unidade que, durante a apresentação, lhe perguntou:

- "O Sr. Aspirante é familiar do José Magro?"

Tendo-lhe respondido que era natural que fosse, a sua reacção foi enérgica:

- "O Sr. sabe o que está a dizer?! O José Magro é um reputado comunista que se encontra preso e por conseguinte não quero cá pessoas com esse carácter!"

Logo pensou com os seus botões:
- “Parece que estou com sorte. Este quer que eu engorde, não gosta dos magros!”

Era normal os Serviços Administrativos aproveitarem a apresentação de um novo Oficial para o colocar, de imediato, na escala de serviço de Oficial de dia, principalmente ao fim de semana.

Assim, foi nomeado para Oficial de dia no Sábado imediato e, para surpresa sua, o tal Comandante apareceu-lhe no aquartelamento.

Depois de lhe ter efectuado algumas perguntas, quis saber quantos presos se encontravam na cadeia. Tendo demonstrado desconhecer a existência de uma pequena prisão (cela) naquela Unidade, foi de imediato ameaçado com um castigo e até uma possível prisão, uma vez que o Oficial de dia era o único responsável pelo aquartelamento e teria de se inteirar de toda a situação material e humana existente no mesmo. De seguida acompanhou-o à prisão onde por acaso se encontrava um preso, o que o levou a perguntar:

- E se o homem tivesse fugido?!

Apeteceu-lhe responder:
- “A cela ficava vazia!”

Mas não, preferiu “chutar pra canto”.

Em Setembro de 1969 voltou à EPE, em Tancos, com a finalidade de tirar o curso de minas e armadilhas, uma vez que tinha sido mobilizado para Moçambique.

"Este curso foi imensamente benéfico em virtude de me ter dado as bases fundamentais para me iniciar na concepção de pequenas bombas domésticas que, apesar de serem inofensivas, causavam algum incómodo devido a, de vez em quando, serem mal cheirosas."

Em Novembro foi deslocado para Santa Margarida (B. Engª.3?) com a finalidade de formar a Companhia de Engenharia que iria para Moçambique.

A bordo do Vera Cruz, rumo a Moçambique