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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Rogério Magro
Muito Perto da Morte


Acabados de chegar à Vila de Gago Coutinho, hoje Lumbala N’Guimbo, uma das primeiras operações do pelotão a que eu pertencia, foi a de ir efectuar protecção à JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola) cuja equipa era chefiada, naquela zona, pelo célebre “Samuapa” encarregado de equipa da JAEA, pessoa altamente disciplinadora e muito temida por quem com ele trabalhava.
A equipa do “Samuapa” estava a reparar uma ponte de madeira que tinha sido parcialmente queimada pelo inimigo (MPLA).

Para os militares, o serviço de protecção aos trabalhos da JAEA era considerado como “um certo repouso”, pois limitava-se a que, durante as horas de trabalho, estivessem nas orlas da mata a fazer a respectiva segurança.

O problema principal era o do alojamento que, na maioria das vezes, era bastante precário, pois, ou era em casas abandonadas e em ruínas, ou em tendas, como foi neste caso.

Juntamente com o pelotão estava, como reforço, um grupo de uma dúzia de “Flechas” (como era designada a tropa africana recuperada ao IN) que se encontrava igualmente sediada em Gago Coutinho e cuja actividade era coordenada pela Pide.

As obras de restauração da ponte decorriam com alguma normalidade.

Os estragos eram razoáveis e quando queimaram a ponte, os “tipos” deixaram lá uma mensagem escrita em papel, a qual dizia mais ou menos isto: “estas pontes de madeira já não se usam, substituam-na por uma de betão” (além de “chatos” os “tipos” eram exigentes!).

Estava tudo a andar nos conformes até que num belo dia, ao anoitecer e quando o pessoal já se estava a preparar para a segurança dessa noite com o gerador da JAEA ligado para iluminar o acampamento, começamos a ouvir um barulho de um helicóptero no ar.

Desligou-se o gerador, ficou tudo às escuras e o héli começou a andar ali às voltas no ar com todo o pessoal de G3 apontada ao héli, até que se ligou novamente o gerador e o alferes ordenou aos condutores para ligarem os faróis dos Unimog’s e apontarem as luzes para a picada, onde o héli acabou por aterrar.

Nós sabíamos que os helicópteros estavam proibidos de levantarem voo a partir das cinco horas da tarde, já que não possuíam instrumentos de navegação nocturna, nem as pistas existentes no mato tinham iluminação.

Aconteceu que o alferes-piloto levantou voo, para proceder à evacuação de dois soldados dos comandos, já depois da hora permitida.

Anoiteceu, perdeu-se, já estava quase sem combustível e foi um milagre ter encontrado ali o nosso acampamento, pois, caso contrário, teria que aterrar no mato e lá passar a noite.
Esta situação causou-nos alguma perplexidade, à mistura com um grande susto, já que era completamente inesperado ver um “bicho” daqueles voar à noite e, por momentos, chegamos a pensar que íamos ser atacados pelo helicóptero.

Para o piloto, cabo especialista e para os dois feridos que, por sinal, até nem tinham nada de grave, foi uma sorte dos diabos, pois a rota para Gago Coutinho nada tinha a ver com o local onde nos encontraram.

O enfermeiro lá deu uma ajuda aos feridos e o alferes-piloto mais o cabo especialista apanharam uma grande “moca” pois, segundo eles, não se podiam ir deitar sem comemorarem a nossa inesperada recepção.

O radiotelegrafista mandou uma mensagem informando que o héli estava estacionado no nosso acampamento, o qual ficava a cerca de 70 km de Gago Coutinho, local onde se encontrava a base aérea e o comando militar, tendo igualmente solicitado o envio urgente de gasolina para o helicóptero.

No dia seguinte, após ter chegado a coluna com o combustível, o héli lá regressou a Gago Coutinho, sem que antes o piloto se viesse despedir muito efusivamente de todos nós.

As obras de recuperação da ponte continuavam em bom ritmo, até que a chuva apareceu, os trabalhos foram interrompidos e parte do pessoal recolheu às tendas.
Eu também fui para a minha tenda e deitei-me para ler uma revista das selecções Reader’s Digest bastante antiga que alguém me tinha feito chegar às mãos.
Estava eu deitado com as cartucheiras a fazerem de almofada e, só por um mero acaso, não estava com a cabeça encostada ao pano da tenda porque este estava molhado, quando, volvidos alguns minutos, ouço um tiro, mas não liguei grande importância já que era muito frequente haver um ou outro disparo de arma, por descuido de algum militar. No entanto, começo a ouvir vozes que dizem haver um ferido e, logo de seguida, aparece-me o Furriel Frota à entrada da minha tenda e pergunta:
- “Ó Magro, estás vivo?!”
Eu, que entretanto já me tinha sentado, pergunto sobressaltado:
- “Ó pá, o que foi?! O que é que se passa?!”
Responde-me o Frota:
- “Olha para trás, para o pano da tenda!”

Olhei e vi que a tenda estava furada pelo projéctil do tiro que se tinha ouvido no acampamento, havia alguns segundos atrás.

Continuou o Frota:
- “Um ‘Flecha’, na tenda ao lado da nossa, estava sentado com a FBP(1) em cima dos joelhos e, talvez por descuido, a arma disparou e a bala atravessou a nossa tenda e foi atingir um outro tipo dos ‘Flechas’ que se encontrava na tenda a seguir e que dormia ao contrário, isto é: com a cabeça para o lado dos pés. Por isso também teve sorte, levou um tiro num pé.”

Eu voltei-me novamente para trás a observar o furo na tenda provocado pelo projéctil, o qual estava a centímetros das cartucheiras que me serviram de almofada e onde eu tinha a cabeça.
Fiquei ali uns minutos a reflectir e a falar com os meus botões:
- “Ias ‘lerpando’ (2) deitado, com um tiro na ‘moleirinha’ e a ler umas selecções muito antigas do Reader’s Digest!”

Entretanto, lá chegou o helicóptero que evacuou o ‘Flecha’ ferido com o tiro no pé.

A ponte, passados mais uns dias, ficou reparada, mas creio que mais tarde voltou a ser queimada, mas já não me calhou a mim ter de ir para lá novamente.

A cada passo, nos encontros de almoços anuais da tropa, lá me vêm alguns soldados recordar, uns da emboscada, outro do susto do helicóptero e outros a lembrarem-se e a dizer-me:
- “Eh pá, e quando você ia ‘lerpando’(2) deitado a ler?!”

--- xxx ---
(1) – A Pistola-metralhadora FBP foi projectada no final da década de 1940 por Gonçalves Cardoso, Major de Artilharia do Exército Português e foi produzida pela Fábrica de Braço de Prata (FBP) em Lisboa, com cuja sigla foi baptizada. Foi muito utilizada em África, no início das guerras coloniais, mas, por ser uma arma pouco confiável (em caso de queda, podia dar-se um disparo), deixou de ser usada em termos operacionais.
(2) - “Lerpar”, termo usado no jogo da Lerpa, muito praticado pelos militares, jogo a dinheiro, muito simples no qual era tirada uma carta que era o trunfo, cada jogador tinha três cartas e quem fosse a jogo e não fizesse nenhuma vaza, “lerpava” e colocava na mesa o valor correspondente ao dinheiro em jogo que se encontrava na mesa.







quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Fernando Magro
O Império Colonial Português


É historicamente reconhecido que navegadores de diversos países, anteriormente ao Século XV, se fizeram ao mar e “acharam” novas terras.
Mas é facto assente que o surto dos descobrimentos se verificou a partir do referido Século XV e entre os vários povos que para ele contribuíram, os Portugueses figuram em primeiro lugar, cronologicamente, e a sua acção descobridora exerceu-se, a partir do segundo quartel de 1400, durante séculos, incidindo em todos os Oceanos e em todos os Continentes.

No oceano setentrional descobriram as ilhas dos Açores entre 1427 e 1452.

A costa Atlântica de África, do Cabo Bojador à Serra Leoa, foi descoberta pelos portugueses entre 1434 e 1460 e as ilhas orientais do arquipélago de Cabo Verde entre 1456 e 1460.

A Costa Africana, da Serra Leoa ao Cabo Catarina e às ilhas do Golfo da Guiné, foi pela primeira vez visitada pelos nossos navegadores entre 1466 e 1475; a Costa de África, do Cabo Catarina à Serra Parda, entre 1482 e 1486, e da Serra Parda ao Cabo da Boa Esperança entre 1487 e 1488.

No Atlântico Equatorial e Austral foram descobertos pelos portugueses o Brasil (1500), as ilhas Ascensão (1502) e de Santa Helena (1503).

Nos Oceanos Índico e Pacífico, na rota marítima para a Índia, foi descoberta a Costa Africana Oriental, desde o Rio do Infante a Mogadoxo (1497), Madagáscar e a costa de Mogadoxo a Berbem (1500), a Costa Meridional da Arábia, Ilhas Curia-Muria (1503), ilhas Canacani (1504), a Costa Ocidental do Industão (1500-1503), Ceilão (1507), Mar Vermelho (1513), Golfo de Bengala (1516), Maldivas (1511), Seychelles ou Ilhas do Almirante (1513), Malaca (1508), Molucas (1512), Timor (1512), Austrália (1525), parte das Ilhas Carolinas (1537), China (1514) e Japão (1541).

“Os descobrimentos portugueses constituíram o primeiro passo na europeização do Mundo, deslocaram do Mediterrâneo para o Atlântico o intercâmbio comercial da Europa; deram a Lisboa características de primordial cidade europeia, estabelecendo-se nelas agências ou sucursais das mais categorizadas casas comerciais da Europa.” (3)

Portugal atingiu também, nos séculos XV e XVI, a tecnologia mais avançada do Mundo na arte de marear.

O Infante D. Henrique teve ao seu serviço alguns dos mais categorizados cartógrafos e cosmógrafos.

A prolongada e intensa actividade marítima de Portugal, de que resultou o descobrimento de inúmeras terras em todas as latitudes, como ficou atrás referido, veio juntar-se posteriormente a exploração dos continentes em que se inseriam.

Dessa gesta resultou que Portugal se tornou um dos maiores países do Mundo e dos mais ricos também.

De tal maneira rico que, quando do casamento da Infanta D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, em Junho de 1661, fizeram parte do dote da nossa princesa duas cidades; Tânger, no norte de África (que possuíamos por conquista, com outras que hoje fazem parte do Reino de Marrocos) e Bombaím (na Índia), que passaram a pertencer desde essa data à Coroa Inglesa.

Mapa anacrónico do Império Português (1415-1999).
Vermelho - possessões efectivas | Verde Oliva - explorações | Laranja - áreas de influência e comércio | Rosa - reivindicações de soberania | Verde claro - postos comerciais | Azul - principais explorações marinhas, rotas e áreas de influência.

O Império Colonial Português foi o primeiro império global da história, sendo considerado o mais antigo dos impérios coloniais europeus modernos, abrangendo quase seis séculos de existência, a partir da Conquista de Ceuta, em 1415, até a devolução da soberania sobre Macau à China em 20 de Dezembro de 1999.
Fonte: Wikipédia


Esse imenso Império, onde o sol nunca se punha, foi-se reduzindo, ao longo dos séculos, por variadíssimas circunstâncias; quer por guerras que nos moveram franceses e holandeses, quer porque algumas das nossas colónias não voltaram mais à posse de Portugal na restauração de 1640, quer, como aconteceu com o Brasil em 1822, por este grande país da América do Sul se ter tornado independente.

De qualquer forma, ainda em 1960, o Império Colonial Português abrangia uma superfície total de 2.031.935 Km2, correspondendo às superfícies dos seguintes países europeus: Portugal continental, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suíça, Inglaterra e Alemanha.

Em área, Portugal ocupava em 1960 o quarto lugar do Mundo entre os Impérios coloniais dessa altura.

Os territórios que estavam sob o domínio de Portugal eram, além do rectângulo europeu e das ilhas adjacentes, constituídas pelos arquipélagos da Madeira e dos Açores, o arquipélago de Cabo Verde, a Guiné, S. Tomé e Príncipe, S. João Baptista de Ajudá, Angola, Moçambique, Estado da Índia (composto por Goa, Damão e Diu), Macau (na China) e Timor (na Indonésia).

Mas a partir de 1960 este ainda vasto Império começa a desmoronar-se, devido a movimentos de emancipação dos seus povos.

A primeira perda foi a de S. João Baptista de Ajudá, uma presença portuguesa simbólica na costa do Daomé, uma vez que era constituída praticamente por uma fortaleza e um pequeno território – o Sarame – a envolvê-la.

A dezassete de Dezembro de 1961 a União Indiana ocupa militarmente o Estado Português da Índia e anexa Goa, Damão e Diu ao seu território.

Nesse mesmo ano de 1961, em Angola, é iniciada uma guerra de guerrilha contra a nossa permanência naquela área de África, guerra que se estende rapidamente à Guiné e a Moçambique.

Essa guerra, em três frentes, tornar-se-á longa, obrigando a um grande esforço material e humano, com sacrifício de várias gerações de jovens soldados, enquadrados por sargentos e oficiais do quadro permanente e do quadro de complemento (milicianos).

(3) – Damião Peres – Enciclopédia Luso-Brasileira



segunda-feira, 29 de abril de 2013

Abílio Magro
Bombeiro (in)Involuntário


Tendo cumprido uma comissão militar na Guiné, entre Março de 1973 e Setembro de 1974, apenas ali passei um Natal; o de 1973.
No dia de Natal era habitual, segundo creio, todas as unidades militares na Guiné entrarem em prevenção a 100%, isto é: toda a gente a trabalhar durante as 24 horas do dia.
Dias antes, na CSJD/QG/CTIG onde eu prestava serviço, iniciaram-se as "conversações" no sentido de definir a contribuição que cada um iria dar para a realização de um convívio natalício naquela noite, o que abrangia toda a gente, incluindo o Chefe (Ten.Cor. Manuel de Moura).
Imaginava um são e alegre convívio, mas toda a noite sem dormir, comendo e bebendo de tudo um pouco (excepto água), afigurava-se-me uma prevenção a rondar talvez os 5%, na melhor das hipóteses.
Se numa qualquer repartição do QG/CTIG esse facto não parecia diminuir muito significativamente a sua "capacidade de defesa", já no mato não se poderia afirmar o mesmo, mas, ainda assim, parece que o convívio nessa noite também por lá se efectuava, a julgar pelos relatos de alguns ex-combatentes publicados neste e noutros blogues.
Seria um Natal diferente, longe da família, é certo, mas onde a camaradagem própria dos militares proporcionaria, certamente, alguns momentos de alegria atenuando minimamente a saudades próprias da época.
Tanto na tropa como na vida civil, um bom desempenho, coragem, grande sentido do dever, e outros atributos que me são característicos e que a minha modéstia me impede de referir, trazem-nos por vezes trabalhos redobrados, já que nos momentos mais difíceis somos os primeiros a ser chamados para a "frente da batalha".
E foi assim que, naquele Natal de 1973, me escalaram para o serviço de Sargento de Piquete.
O Piquete raramente era chamado para qualquer tarefa e limitava-se a estar pronto para o que "desse e viesse", mas originou o meu afastamento do convívio natalício com os meus camaradas e superiores da CSJD.
Mas, se andava algo entusiasmado com a ideia de um Natal diferente passado entre militares, não posso dizer que as minhas expectativas tivessesm saído frustadas, pois acabei por passar uma noite de Natal bem diferente e bem regada, entre militares, população e bombeiros.
Então não é que, a meio da noite, nos colocaram pás e picaretas nas mãos e nos mandaram para o Pilão atacar um incêndio que deflagrara numa tabanca?!
Se com a HK-21 não me entendia lá muito bem, apesar da formação obtida (+/- 10 minutos), imaginem a minha destreza a manusear uma pá, ou picareta sem nunca ter tido qualquer formação, nem tão pouco saber como se puxava a culatra atrás!
- "Os generais devem estar loucos!", pensava eu com os meus botões.
Lá seguimos de Unimog até ao Pilão, armados de pás e picaretas para fazer não sabia bem o quê.
Demoramos algum tempo a chegar ao objectivo já que o Unimog se deparava com algumas dificuldades de manobra dentro do Pilão e a tabanca em chamas se situava numa das extremidades do bairro.
Tivemos de circundar o bairro e, chegados lá, encontramos os bombeiros de Bissau a atacar o fogo que se circunscrevia apenas às travessas que suportavam o telhado de colmo que, entretanto, havia já sido consumido pelas chamas.
Sentindo-me perfeitamente ridículo no comando de um pelotão armado de pás e picaretas, por ali ficamos quedos e mudos na esperança que o breu da noite encobrisse a nossa triste figura.
O pessoal dos bombeiros era todo guinéu e tendo, provavelmente, detectado a nossa caricata presença, resolveu atacar o fogo pelo lado oposto àquele onde nos encontrava-mos e como as agulhetas eram apontadas para as travessas do tecto, a água que não acertava nas mesmas, ia cair direitinha em cima do Piquete, no outro lado da tabanca.
E assim passei o meu Natal de 1973 bem regado, com alguns militares, no meio da população do Pilão e com bombeiros danados p'ra agulheta. (à falta de champagne...!)

Outros pequenos episódios

1 - Guarda de Honra em julgamento militar

Nos tribunais militares os julgamentos eram efectuados com a presença de uma Guarda de Honra e durante a minha comissão na Guiné, apenas uma vez fui escalado para comandar um pequeno pelotão numa "cena dessas".
De camuflado, luvas e cordões brancos, sob uma temperatura a rondar talvez os 40ºC e com alguns 80% de humidade no ar, lá fomos para a sala de audiências que não tinha ar condicionado, mas sim uma ventoinha "gigantola" no tecto.
Quando o Juíz entrava todo de branco fardado, fazendo lembrar um vendedor de gelados que ali bem-vindo seria, a Guarda levantava-se, eu dava ordens de sentido-ombro armas-apresentar armas, "comme d'habitude" nestas ocasiões.
Durante o julgamento permanecía-mos de pé, de mãos quentinhas e com o suor a escorrer por todo o corpo, fazendo-nos sentir sermos nós os verdadeiros réus a cumprir já parte da pena.
Recordo-me que, nesse dia, foram três julgamentos seguidos (era talvez época de saldos).
A situação lá se foi aguentando (que remédio!), mas na hora da leitura da sentença é que a coisa se tornava feia. Todos em sentido enquanto o homem lia os "preliminares" e, quando proferia uma frase semelhante a: "Determino em nome da lei", eu dava voz de apresentar armas e assim permanecíamos até ao fim da leitura que demorava uma eternidade, fazendo com que as armas aumentassem exponencialmente de peso.
No meu caso a arma era uma FBP cujo peso era bem inferior ao da G3 e cujo apresentar d'armas era sobre o peito aguentando-se razoavelmente a posição, mas o resto do pessoal armado de G3, ao fim de alguns minutos já não conseguia manter a arma firme na vertical, tremendo como varas verdes.
De soslaio, apercebi-me que alguns foram aproximando as respectivas coronhas da barriga, acabando por as poisar no cinturão, transformando a Guarda de Honra num cerimonial com pouca verticalidade.
Segundo me recordo, um dos julgamentos referia-se a um soldado metropolitano que, a caminho de uma qualquer patrulha, saltou da viatura e regressou ao aquartelamento, desobedecendo ao Alferes. Este ter-lhe-á posteriormente aplicado apenas um castigo de alguns "reforços à benfica", castigo esse que foi considerado demasiado brando, o que terá originado, também, um processo disciplinar ao Alferes.
Quanto à pena sofrida pelo soldado, não me recordo bem, mas julgo que foi de alguma dureza.
Num outro julgamento o réu era um civil negro, já com algumas chuvas passadas, baixote, descalço (e eu de luvas brancas!) e de uma etnia qualquer que obrigou à presença de um outro militar, também negro, no papel de tradutor.
Não me recordo já de qual o crime cometido por aquele civil, nem da pena a que foi condenado, mas apenas que, após uma pergunta do Juíz, o "intérprete" ter entrado em longa algaraviada com o réu, finda a qual simplesmente respondeu:
- "Ele disse que não"

2 - Certidão de óbito cacimbada

Como referi anteriormente, quando cheguei à Guiné já lá se encontrava o meu irmão Álvaro que prestava serviço na Secretaria do HMBIS e a quem ainda faltava cerca de um ano para terminar a comissão.
Claro que eu, sendo "piriquito fresquinho", fui alvo de muita "música" do "velhinho", nomeadamente com telefonemas sobre os assuntos mais estapafúrdios que se possam imaginar.
Um certo dia encontro num dos processos que me chegaram às mãos uma certidão de óbito que, após a respectiva assinatura, continha mais ou menos, os seguintes dizeres:



Panderonga Parabó Lundó
Médico Anatomopato

Tratando-se embora de uma brincadeira algo tétrica, não deixei de esboçar um sorriso e associar aquele acto mórbido ao cacimbo entretanto já suportado pelo mano Álvaro.
Telefonei-lhe imediatamente para o Hospital e ele desatou a rir à custa da ignorância do "piriquito".
Afinal - Panderonga Parabó Lundó - era o nome de um médico Anatomopatologista, de origem indiana, que prestava serviço no HMBIS.

Ia lá eu adivinhar semelhante tal!






quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Abílio Magro
Patrulhamentos no Cupilom (Pilão)


Durante os cerca de 30 meses em que permaneci nas fileiras do Exército, em cumprimento do Serviço Militar obrigatório, muito enriqueci o meu vocabulário à custa da chamada "linguagem de caserna", particularmente na Guiné.
E se em relação aos vocábulos "ordinários", pouco tinha a aprender, confesso, já no que se refere a expressões mais "pacíficas", o ganho foi substancial.
Efectivamente aprendi e usei expressões (e ainda uso algumas) que, embora sendo consideradas calão, não são pejorativas e fazem, também elas, parte integrante da história de uma época e de um contexto onde todos nós, ex-combatentes, vivemos durante algum tempo da nossa juventude.
Com o fim da guerra colonial, muitas daquelas expressões caíram em desuso e, para que se preserve este valioso património, tentarei usar e abusar, nesta "Tabanca", de expressões usadas entre os militares em serviço na Guiné e que me ficaram na memória.
Dito isto, vamos aos "famosos" patrulhamentos no Pilão.

O Pilão (assim se designava habitualmente o Cupilom) era o maior bairro negro de Bissau e situava-se perto das instalações Militares de Santa Luzia, onde estava instalado o QG/CTIG. Era composto por numerosas tabancas, sem energia eléctrica, sem água canalizada e sem rede de esgotos. Era ali que vivia a maior parte da população pobre de Bissau. Era também ali que havia "manga de fudi-fudi"(1) onde muitos militares iam "desenferrujar o prego". À noite era perigoso andar por ali sozinho.
Recordo-me de, ainda na Metrópole e terminadas a férias que antecediam o embarque, ter-me deslocado a uma barbearia para um corte de cabelo curto, e o barbeiro que me atendeu ter-me perguntado se ia para a tropa. Tendo-lhe respondido que não, que já lá andava há quási um ano, mas que ia para a Guiné, ele logo me avisou: "Cuidado com o Pilão, um 'gajo' entra lá e sai com a cabeça debaixo do braço!". Fiquei esclarecido.
Efectivamente, vim a constatar depois que, à noite no Pilão, havia constantes conflitos por variadíssimas razões, entre as quais o "fudi-fudi". Era também habitual o rebentamento de granadas naquela bairro e constava até, que por lá havia muita gente simpatizante do PAIGC e que alguns guerrilheiros ali vinham passar os fins de semana, recolhendo informações.
Os patrulhamentos estavam a cargo do pessoal da CCS do QG/CTIG e eram efectuados em três turnos; 20h-24h, 24h-04h, 04h08h e eram controlados por um Capitão do COMBIS (Comando de Defesa de Bissau).
E é neste contexto que este vosso camarada "operacional do ar condicionado", apenas com alguns dias de Guiné, é chamado a efectuar o seu primeiro patrulhamento nocturno ao Pilão.
"Piriquito"(2) como era, estava decidido a seguir à risca todas as instruções que me fossem transmitidas para o efeito.
Munido de G3, telemóvel matulão (já não sei como se chamava aquilo) e um croquis mal-ajambrado, com notas escritas à máquina e envolto num plástico transparente, lá vou eu comandar uma patrulha de seis homens, transformados em guarda-nocturnos.
Vamos de Unimog e largam-nos no local indicado no croquis. Este, tinha aspecto de já ter cumprido dezassete comissões e apresentava-se com a farda toda esfarrapada. Isto é: o plástico estava a desfazer-se e o papel mal se conseguia ler. Então de noite, sem luz, era giro!
Mas eu estava determinado a fazer tudo certinho direitinho (era mesmo muito "pira"!(2)) e esforço-me por estudar o croquis, quando um elemento da patrulha me diz que o "télélé" tinha lanterna o que me levou a concluir que, afinal, a tropa portuguesa estava bem equipada. Às apalpadelas tentei acertar com o botão respectivo, mas acabou por ser o tal elemento da patrulha a dar à luz. Logo pensei: "este deve ser Engenheiro".
Os caracteres esbatidos daquele croquis já se me apresentavam mais legíveis e tratei de perceber qual o trajecto que teria de seguir para cumprir cabalmente a misão que me havia sido confiada, quando dou com o seguinte fragmento de texto: "(...) junto a um mangueiro com uma faixa branca (...).
"Porra! Esta merda está toda rota, a luz é fraca comó caraças, um gajo num bê a ponta dum chabelho e, ainda por cima, estes gajos num sabem escreber, ou estom a gozar comigo?! Como é que bou encontrar uma mangueira com uma risca branca, no meio desta escuridom?! Tá tudo doido!" (Em 1973, com 4 ou 5 dias de Guiné, sabia lá eu que existiam mangueiros!)
Fartei-me de olhar para o chão à cata da tal mangueira!
Resumindo: perdi-me completamente e, a páginas tantas:
"- kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto. - kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto.".
O "télélé" tinha acordado - era o Capitão do COMBIS!
Respondo: "- celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto - celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto (duas vezes - tinham-me dito que era assim).
Do outro lado respondem:
"kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto - kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto".
E eu novamente: "- celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto - celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto
Aquilo até estava a ser giro, mas o tal "engenheiro" diz-me: "- Meu Furriel, tem de carregar num botão aí ao lado! (o tipo sabia mesmo daquilo!).
Carreguei no botão, mas a conversa continuava monótona como tinha começado: "kalar, kalar para cá - celta, celta para lá" e já começava a chatear!
Então o "engenheiro" diz: "Meu furriel, tem um botão de cada lado, tem de carregar nos dois ao mesmo tempo! Aí convenci-me mesmo que o "bacano" era Engenheiro, e dos bons! Talvez electrotécnico.
Bom, lá consegui chegar à fala com o Capitão que me perguntou onde é que eu estava, e eu lá tive de lhe dizer que me tinha enganado no autocarro, que era a 1ª vez, etc. e tal e ele lá me disse que estava junto à igreja, o que me deixou mais sossegado pois, provavelmente, estaria em meditação e dava-me algum tempo para lá chegar.
Como não fazia a mínima ideia onde ficava a igreja, perguntei ao pessoal e um dos negros que compunham a patrulha lá nos encaminhou até lá.
Chegados lá, nem Capitão, nem Padre, nem Sacristão, nem o raio que os parta!
Recomeça a cantoria:
"- kalar, kalar..."
A sério que me apeteceu mesmo mandá-lo calar, mas lá carreguei nos dois botões (a gente está sempre a aprender) e o Capitão pergunta-me:
"- Então, onde é que você anda?!
O tom de voz dele já não me estava a agradar.
Respondi-lhe com alguma sobranceria:
"Estou junto à Igreja!"
E ele: - "Junto à Igreja estou eu e não vejo aqui ninguém!"
$#"&%/$"$#!!! - Eu, afinal, estava junto a uma mesquita!!
"Ai meu Deus que desta é que eu vou parar a São Crincalho! Já me estava a imaginar no centro de Madina de Boé a fazer patrulhamentos com uma moca de Rio Maior na mão e uma fisga no bolso!"
Lá me explicou mais ou menos onde ficava a Igreja e, como o pessoal mostrou conhecer o caminho, para lá avançamos a todo o vapor!
Lá chegados, continuei com as minhas desculpas e não notei nele grande ressentimento. Julgo que era Capitão Milº. Assinei o mapa de controlo e lá me embrenhei novamente na "densa mata", até ser rendido.
Eu era de rendição individual, estava há três ou quatro dias na Guiné e ainda não tinha tido tempo para conhecer todos os "cantos à casa".
Vim mais tarde a saber como a "coisa" funcionava e, até ao fim da comissão, agi de acordo com as regras vigentes e..., "tá na mala!"(3)
Então era assim:
O Capitão do COMBIS ligava para o Oficial de Prevenção - Alf. Milº - informando-o da hora e local onde seria efectuado o controlo. O Oficial de Prev. avisava o Sargento de Ronda. Este seguia directamente com a patrulha para perto do local de controlo e, minutos antes da hora marcada, avançava destemido para o "objectivo". Nunca falhava!
Eu nunca dormia (forte sentido de responsabilidade), mas algum pessoal era "tiro e queda!".
Uma das vezes dei comigo a guardar seis "bacanos" a ressonar!
"Oh c'um carago, mas que é isto?! Tudo a "ferrar o galho" e eu aqui feito camelo, de sentinela a velar por eles?!"
"- Toca a acordar pessoal, vamos dar uma volta que estou a ficar com frio!" Acordaram e lá foram, meio a resmungar.
Em Setembro de 1973, vim de férias à Metrópole e, regressado a Bissau, "tungas, bora lá alinhar" numa rondazinha ao Pilão.
Era o turno das 20h às 24h, o pior em termos de conflitos. Eu tinha regressado no dia anterior e estava atarefado a tentar descansar da azáfama das férias. Sossegadinhos no canto de uma tabanca (do lado de fora, claro), fomos sobressaltados com o rebentamento de uma granada. Ouvi, registei e esperei. Logo de seguida, rebenta outra, depois outra... Mau, vim ontem de férias e ainda me sinto em convalescença, sem vontade para entrar em "festas"!.
Continuam a rebentar, tenho de ir, pois vai aparecer o COMBIS de certeza.
Inicio, então, a deslocação das tropas exactamente em sentido contrário ao do som dos rebentamentos (cautelas e caldos de galinha...).
O pessoal alerta-me, mas eu não ouço. É para este lado e "mai nada!" Rebenta mais outra e aqueles "camelos" insistem: "- Meu Furriel é para ali!" (militares impreparados!).
Lá tive de inverter o sentido da marcha. Aqueles "gajos" não estavam a facilitar nada.
"Calma, nada de pressas", ordenei eu!
Entretanto rebenta uma granada incendiária que provocou um grande clarão e pude ver que já lá se encontrava alguma tropa e aí sim, acelerei a marcha. Não façam já juízos precipitados! Acelerei a marcha, não porque me sentisse mais seguro, mas porque estavam lá camaradas meus que podiam necessitar da minha ajuda (a isto chama-se altruísmo!).
O Capitão da COMBIS manda-me fazer um cordão de segurança ao local (eu mais 6 homens, quando muito uma cordinha!), pois estava uma granada descavilhada junto à porta de entrada da casa de um 1º Sargento e era preciso fazer segurança aos homens que iriam tentar resolver o assunto.
Aquela granada podia rebentar por simpatia a qualquer momento. Colocaram sacos de areia junto à entrada da casa.
Pensou-se em dar um tiro de longe à granada, mas não seria fácil acertar-lhe e, além disso, parece que havia uma determinação qualquer que não permitia tiros em Bissau.
Se algum tabanqueiro tiver informações àcerca do assunto, seria interessante divulgá-las aqui na Tabanca, pois sempre me pareceu absurda a ideia, tanto mais que era frequente o rebentamento de granadas, mas, realmente e apesar da quantidade de armas que por ali circulavam, nunca tive conhecimento de cenas de tiroteio em Bissau. Talvez eu andasse distraído, não sei.
Aquilo demorou uma eternidade. Toda a gente dava palpites e eu, experimentado como era no assunto, também dou o meu.
"E se se abrissem algumas munições e se fizesse no chão um carreiro de pólvora até à granada e se espalhasse em cima desta alguma pólvora. Depois, era só chegar fogo à outra extremidado do carreiro e proteger-mo-nos."
A sugestão foi bem recebida, mas o pior veio a seguir. Era preciso um voluntário...
"Querem ver que estes gajos estão a pensar na minha pessoa para pôr em prática o meu plano?! Estão doidos!"
Realmente, isto de fazer planos para os outros executarem é muito lindo. Não deixavam de ter razão, mas eu tinha regressado de férias no dia anterior, carago! Era só por isso, mais nada.
E não é que um "bacano" do meu "grupo de combate" se oferece como voluntário?!
Este gajo é maluco! Esta merda ainda rebenta, o "gajo" vai pelos ares, e eu fico com um "molho de bróculos" nas mãos do carago!
O "bacano" lá começa a fazer o carreiro de pólvora até à granada e eu sempre a "rezar" para que ela se aguentasse muda e queda e a pedir que o "bacano" se despachasse.
Quando chega à granada e começa a despejar pólvora em cima dela, eu já tremia todo só de imaginar a "gaja" a explodir, o "bacano" a ficar feito em fricassé e eu a "sentar o cu no mocho".
Lá terminou sem problemas aquela tarefa e, então, chegou fogo à pólvora no início do carreiro que tinha feito. Todos nos abrigamos a aguardar os acontecimentos. A pólvora lá foi ardendo pelo e carreiro e, quando chegou à granada, dá-se um clarão e... "um autêntico flato em pantufas!". A "gaja" não rebentou, chegou o pelotão para me render, eu regressei a quarteis e no dia seguinte soube que lá tinha ido o pessoal das minas e armadilhas que tratou do assunto.

A esta distância (40 anos) estes episódios são relatados com esta ligeireza da "calma, descontração e estupidez natural", mas não deixei de apanhar alguns "cagaços" e temos de levar em conta que o meu nome completo inclui os apelidos Valente e Magro e que, o último me assentava na perfeição, à época.


(1) - "manga de fudi-fudi" - muito sexo
(2 - "piriquito" ou "pira" (abrev.) - expressões que designavam um militar recém chegado à Guiné e cujo camuflado, com pouco uso, nos levava a assemelhá-lo ao periquito verde da Guiné (papagaio do Senegal).
(3) - "tá na mala!" - Está feito, siga!







sábado, 23 de fevereiro de 2013

Acácio Magro
A Diáspora dos Magros

Acácio Alberto Lamares Magro
ex-Comandante da Companhia "Os Magros do capim"


(Tentei apropriar-me do espírito jocoso tão caracterítico de El Comandante, fazendo estas aldrabadas rimas imaginando-o hoje, entre nós, a escrever sobre a diáspora dos Magros do capim.
Se consegui retratar minimamente a sua subtil jocosidade, não sei. Fica a intenção em sua memória. AM)




Tantos anos a procriar
Seis mancebos vi crescer
A tropa os veio buscar
Como era de prever

Foram todos p'ro Quartel
Aprenderam a marchar
Apanharam um batel
Rumaram ao Ultramar

Na a vida sempre a sorrir
Muitas vezes quis chorar
Vendo seis filhos partir
Para terras de além-mar

Uns após outros partiram
Pra guerra, com valentia
Foram seis, todos saíram
Ficou a casa vazia


Rogério
1967/1969

Foi pra guerra o Rogério
Para Angola, pr'o Lumbala
Zona de mato a sério
Vai pedrada se não há bala

No "meco" a roupa lavava
No Zambeze tomava banho
E na Diamang fumava
No seu cachimbo castanho

Uma linda escola ergueu
Um rádio velho consertou
Um bom cabrito recebeu
Muita picada no cú levou

Operações, rancho e escola
Renderam-lhe alguma estima
Os frangos viraram-lhe a "tola"
"Meta-os pelo cú acima!"

Fernando
1970/1972

Pra Guiné segue o Fernando
Que na tropa já tinha andado
Dão-lhe galões pro comando
De pessoal todo artilhado

Pelo Kako é recebido
Expõe-lhe seus argumentos
O General é convencido
Fica nos Reordenamentos

Foi professor em Bissau
E a Tecnil apoiou
Encheu bolsos com "cacau"
Enquanto a tropa durou

Sempre bem acompanhado
Com mulher, filho e "canito"
Nunca se sentiu atacado
E não deu qualquer "tirito"

Dálio
1970/1972

E o Dálio marcha também
Para as minas e armadilhas
Com os "turras" não se dá bem
Vai p'ra bola com sapatilhas

Em Moçambique - Marrupa
Organiza alguns joguitos
Esquece os filhos da tupa
E vai marcando uns golitos

Cria os super-Marrupões
Joga ao centro e pelas alas
Vai à final, são campeões
Festa rija pros "magalas"

Tem problemas num dente
Vai à "cata" dum dentista
É tratado como um Valente
Sem anestesia, por um "artista"


Carlos
1970/1972

Em Angola na aviação
No Luso e Henrique Carvalho
O Carlos com o heli-canhão
Manda tudo p'ra São Crincalho!

Integrou os Saltimbancos
Na Siroco também entrou
Evacuou pretos e brancos
Com o heli-canhão lidou

Nos Alouettes, os noviços
Pouco sabiam da matéria
Pra ele, pelos bons serviços
Seis anos de Força Aérea!

A mulher foi lá pró ver
Foi amor e uma cabana
Viu-se a barriga a crescer
Oh Marta, és Angolana!

Álvaro
1971/1973

Para a Guiné marcha também
Pelo mano é hospedado
Umas férias sabem-lhe bem
Passa uns dias descansado

Em Mansambo tem estadia
“Boa comida e rico vinho”
Sai p'ro mato co'a Companhia
Adormece..., fica sozinho!

Queixa-se ao mano capitão
Da vida dura, do mato mau
Este pensa numa solução
Pro trazer para Bissau

O "mais velho" não descansa
De o ajudar, tem vontade
Quem porfia, sempre alcança
Traz o Álvaro pra cidade!

Abílio
1972/1974

Se já foram cinco pra guerra
Porquê mais um, acto tão vil?
Ó generais da nossa terra
Ouçam bem o Augusto Gil:

Que quem é atirador
Vá pro mato, tudo bem!
Mas o "finguelas" Senhor,
Porque lhe dais tanta dor?
Porque o quereis lá também?


General Spínola, meu General!
O que vai este fazer p'ra Guiné?!
O rapaz é enfezado, come mal
Tem varizes, não s'aguenta em pé!

Deixem-no comigo, por favor
Encarregar-me-ei de o encorpar
Torná-lo-ei num bravo atirador
Mais dez anitos pro preparar!




quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Dálio Magro
Cancioneiro do Niassa

As canções do cancioneiro do Niassa não eram mais do que canções populares (do Fernando Farinha, do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira e de outros) com letras adaptadas. As letras eram mais ou menos como transcrevo a seguir:

1 – O Turra das Minas

O turra das minas
Pequeno e traquinas
Lá vai na picada
E a malta escondida
Na mata batida
Monta a emboscada

O turra passou
A malta esperou
Já toda estafada
E a Berliet
Sempre foi estoirada

Há mortes e feridos
E os mais aguerridos
Somos sempre nós
Vamos pelos ares
Gritando por todos
Até pelos avós

Oh Turras bairristas
Mas pouco fadistas
Já é tradição
Ser para-quedista
Sem tirar o curso
Ai isso é que não

Oh turra das minas
A tua vida agora
É por as marmitas
Pela picada fora

Oh turra das minas
A tua arma soa
Por léguas e léguas
Aqui no Niassa
Onde a guerra entoa
---X---
(letra para a música do Fado ‘Ó Júlia Florista’)
2 – Merda … Merda

Há erva lá na picada
Pisam-na os guerrilheiros
O coração do soldado
Pisam-na os coronéis
E ajudam os machambeiros

Que culpa tem o soldado
de ter raiva à sua sorte
Se vem um filho da puta
que o mete numa farda
e o manda para a morte

E o sr. Brigadeiro
vive muito descansado
Até comprou um balança
Para pesar o dinheiro
Que rouba ao pobre soldado

Quando será Deus do Céu
Que um dia haverá verba
Quando será Deus do Céu
Que um dia haverá verba
Para a malta comer pão
e os xicos merda.. merda
merda …merda
--- X ---
Canção feita em Nampula em 1970.
Inspira-se numa conhecida canção da guerra civil espanhola:
"La hierba de los caminos
la pisan los caminantes
y la mujer de lo obrero
la pisan quatro tonantes
de essos que tienen dinero" (...)
(João Maria Pinto -1999)
http://blogueforanada.blogspot.pt/2004_05_09_blogueforanada_archive.html
3 – Estou Farto Deles

Todos os cabecinhas
Têm as suas caminhas
Com lençol e almofadas

Mas a malta cá no Norte
Já está com muita sorte
Se não dormir na picada

Eles comem em sua mesa
E com decoro e subtileza
demonstram a sua arte

Mas a malta variando
cá continua lerpando
é a ração de combate

Estou farto deles
que da guerra não sabem nada
só chateiam a rapaziada
para fazer um figurão

É descansando
que o tempo vai passando (Ai)
Só estamos esperando
acabar a comissão

Andei cá pelo Norte
Lado a lado com a morte
Lutando sempre na frente

Mas eles sem fazerem nada
Vão vestindo a sua farda
Como se não tivessem medo

Vão mandando suas bocas
Mostrando suas ideias loucas
para estes e para aqueles

Por isso digo a quem passa
Em Mueda ou no Niassa
Estou mesmo farto deles

Que da guerra não sabem nada
só chateiam a rapaziada
para fazerem um figurão

È descansando
que o tempo vai passando (Ai)
Só estamos esperando
acabar a comissão
--- X ---
(Letra adaptada para o Fado do Cacilheiro de José Viana)
4- Estranha forma de vida

Estranha forma de vida
Estranha comparação
Vive-se em Lourenço Marques
Vive-se em Lourenço Marques
Cá estoura-se o coirão

Vida boa vida airada
Boites é só festança
Lá não se fala em matança
Lá não se fala em matança
Nem em turras à sá morgado

Niassa por onde dança
Guerra como essa ignorada
Conversa que é evitada
Conversa que é evitada
Pelos que vivem na abastança

Falar da nossa desdita
Fica ao lado e aborrece
E como lembrar evita
E como lembrar evita
Toda a gente se entristece

Ao passar pela cidade
Com tanta tranquilidade
Deu-me para comparar

Ao passar pela cidade
com tanta tranquilidade
deu-me para comparar

Meninas de mini-saia
Mandai-as para as nossas praias
Para a manobra de atracar

Meninas de mini-saia
Mandai-as para as nossas praias
Para a manobra de atracar

Pipis com carros “Gts”
Mandai-os para as Berliets
Tirai-lhes as modas finas

Pipis com carros “GTS ”
Mandai-os para as Berliets
Tirai-lhes as modas finas

Menús afeminados
eram bem utilizados
para fazer rebentar minas

Menús afeminados
eram bem utilizados
fazer rebentar minas

Bem como essas tais meninas
Que apesar de enfiesadinhas
Mas com ar da sua graça

Bem como essas tais meninas
Que apesar de enfiezadinhas
Mas com ar da sua graça

Serviam muito a jeito
para salvar a dor de peito
Cá da malta do Niassa

Serviam muito a jeito
Para salvar a dor de peito
Cá da malta do Niassa

Mas se não for só por pirraça
Hão-de lá continuar
E nós temos de lerpar

Mas se não for só por pirraça
Hão-de lá continuar
E nós temos de lerpar

Invertam-se as posições
Troquem-se as situações
Continuamos a aguentar

Invertam-se as posições
Troquem-se as situações
Continuamos a aguentar

Eles os daqui naturais
Gastando dinheiro aos pais
Vão para o Matola Rios

Os daqui naturais
Gastando dinheiro aos pais
Vão para o Matola Rios

Acabe-se com a tradição
Entre-se na mobilização
Utilize-se a manada

Acabe-se com a tradição
Entre-se na mobilização
utilize-se a manada

Dentro de poucas semanas
Como quem come bananas
Estará a guerra acabada

Dentro de poucas semanas
Como quem come bananas
Estará a guerra acabada






quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Dálio Magro
Cantigas do Capim

O Primeiro-Sargento da Companhia era muito miltarista e implicava com os cabelos compridos dos condutores quando estes iam a Marrupa para reabastecimento de material. Então, eu escrevia na tampa de uma ração de combate (não havia papel no meio do mato) uma declaração em que autorizava o condutor a usar os cabelos compridos durante o período que levaria a fazer o trajecto entre o mato e o Quartel e respectivo regresso.
A primeira coluna para o mato (Chiulezi) foi chefiada por mim, mas, para meu espanto, com a segunda coluna não seguiu qualquer oficial.
Os condutores queixavam-se que o Primeiro-Sargento tinha construído um jardim à entrada do aquartelamento que dificultava a manobra dos camiões.
Pelos motivos acima apontados o "vidrinhos" fez algumas quadras que o pessoal passava a vida a cantarolar.


O Primeiro-Sargento Bruno

Há injustiças que tanto puno
Já estamos fartos do Sargento Bruno
do Sargento Bruno

Que mal tão grande e derradeiro
Artilharia mandou um primeiro
mandou um primeiro

Já cheira mal, a merda é tanta
Sempre nos lixam, mas a malta canta
mas a malta canta

O artilheiro fez um jardim
Mas cá o Magro não o quis assim
não o quis assim

Oh artilheiro a ideia é sua
E o capitão pô-lo na rua
pô-lo na rua

Com o capitão ninguém se mete
E arrasou tudo com o D7
tudo com o D7

Eles bem se escondem lá no buraco
Mas o Jesuino já cá veio ao mato
Já cá veio ao mato

Dizem que o Bruno é muito vera
Mandem para o mato essa grande fera
essa grande fera

Se ele aqui vem, ai que grande carola
Pois os mauzões cá baixam a bola
Cá baixam a bola

O Laranjinha que grande rato
Foi para o conjunto para se safar do mato
para se safar do mato

Já me esquecia cá do xarola
Que no morteiro é um pintarola
É um pintarola

Versos feitos na picada entre o Candulo e o Xiulezi

Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda
Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda

Chegamos ao Xiulezi não trouxemos oficiais
Ficaram em Marrupa para mandarem vir mais
Chegamos ao Xiulezi não trouxemos oficiais
ficaram em Marrupa para mandarem vir mais

Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda
Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda

Vamos arranjar a pista para virem de avião
eles mandam muitas papaias mas não gostam da confusão
Vamos arranjar a pista para virem de avião
eles mandam muitas papaias mas não gostam da confusão

Mandem os xicos para o mato
Já estou farto desta merda
Mandem os xicos para o mato
já estou farto esta merda

O medo era mato do Candulo para cá
mas houve um dos valentes que preferiu ficar lá
O medo era mato do Candulo para cá
mas ouve um dos valentes que preferiu ficar lá

Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda
mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda

Dos sorjas nem se fala
eles só estão preocupados com o braçal de sargento de dia
Dos sorjas nem se fala
eles só estão preocupados com o braçal de sargento de dia

Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda
mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda

Para a guerra não querem ir
recusam-se a todo o momento
Assim também eu queria
ser segundo sargento

Para a guerra não querem ir
recusam-se a todo o momento
assim também eu queria ser segundo-sargento

Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda
Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda

Se um dia a sorte mudar
e a gente puder mandar vir
serão sempre eles a alinhar
e há-de ser até partir

Se um dia a sorte mudar
e a gente puder mandar vir
serão sempre eles a alinhar
e há–de ser até partir

Mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda
mandem os xicos para o mato
já estou farto desta merda

Estou farto deles
Estou farto deles da xicalhada
Só mandam vir e não fazem nada
E não fazem nada
E não Fazem nada

Vai para o mato xico lateiro
Por esse andar chegas a 1º
Chegas a primeiro
Chegas a primeiro

Estou farto deles da xicalhada
Eles no quartel e nós na picada
E nós na picada
E nós na picada

Só há trabalho e maus tratos
e na picada a fome é mato
A fome é mato
A fome é mato

O vagomestre que grande pinta
Está a cortar-se com a ração trinta
Com a ração trinta
Com a ração trinta

Ai que cheirinho a verde pinho
Só não cheiramos o nosso vinho
O nosso vinho
O nosso vinho

Não é só o vinho a nossa luta
Mas o lerpanço é também na fruta
É também na fruta
è também na fruta

Tanta miséria que devaneio
Ainda por cima não temos correio
Não temos correio
não temos correio

De tanta merda já não estranho
há quinze dias que não tomo banho
que não tomo banho
que não tomo banho

Tudo a ralhar com razão
Ainda por cima também não há pão
Também não há pão
Também não há pão

Não há pão come borracha
Pois nem sequer trouxeram bolacha
Trouxeram bolacha
Trouxeram bolacha

Que vida esta tão desgraçada
Se um homem fala leva uma porrada
Leva uma porrada
Leva uma porrada

De tanta dor ninguém contesta
Se vem os turras é o fim da esta
è o fim da festa
é o fim da festa







Dálio Magro
O Futebol e os Super-Marrupões



A Companhia de Engenharia 2686 foi formada sem comandante, uma vez que o Capitão que tinha sido nomeado fez uma exposição alegando que existia um capitão a mais na Região Militar de Moçambique. Assim, o comando da Companhia foi entregue ao Alferes mais antigo (Alferes Ferreira já falecido em virtude de ter sido atingido com um estilhaço de uma granada que se alojou no cérebro e que o deixou em coma durante bastante tempo).
Embarcamos no paquete Vera Cruz, tendo a viagem terminado em Nacala após 22 dias com paragem em S.Vicente (Cabo Verde) para carregar algum material que o “Niassa” teria deixado em virtude de ter ocorrido um pequeno incêndio a bordo, e com paragem também em Luanda.
A Companhia era constituída por quatro Alferes , doze Furriéis e quatro Segundo-Sargentos. Já em Moçambique apresentou-se um Primeiro Sargento, oriundo da arma de artilharia, bem como o Capitão de Engenharia Rosas Leitão que passou a ser o Comandante da Companhia até ao termo da sua comissão (cerca de 7 meses) sendo, então, substituído pelo Capitão Jorge Maçarico que era Engenheiro na Câmara Municipal de Aveiro e que já faleceu.
O Capitão Maçarico foi em rendição individual e parece que estava previsto ficar numa cidade (até tinha levado o seu automóvel Peugeot 404, que depois fomos buscar à cidade da Beira), mas como era miliciano foi empurrado para o mato.
Ao fim de um ano foi deslocado para Tete e para o substituir foi nomeado o Capitão Deus Alves, oriundo da arma de Engenharia e que chegou a brigadeiro.
Normalmente havia sempre um Alferes em Marrupa para dar apoio logístico aos trabalhos que se iam realizando no mato (abertura de picadas, arranjo e alargamento de pistas, etc.).
De um modo geral as diversas companhias que nos davam protecção aos trabalhos, eram atacadas devido ao barulho das niveladoras e rectroescavadoras que denunciavam ao inimigo a nossa localização.
Em face das missões que teríamos de realizar, a permanência no aquartelamento era apenas durante a época das chuvas que normalmente ocorriam entre Novembro e Abril e mais cerca de um mês por ano, relativo ao roulement que era efetuado entre os Alferes.
Durante a permanência no aquartelamento organizei vários torneios de futebol, de cinco e de onze, como se pode verificar nas fotos que anexo.
Fiquei bastante surpreendido com a força das claques, pois com pouco mais de 15 dias de permanência em Moçambique já havia grafitis no campo de futebol a saudar o Alferes Magro (fotos abaixo).




Antes de iniciarmos os preparativos da deslocação para o mato apareceu um dentista em Marrupa para efectuar uma vistoria à dentição do contingente militar e no que à minha pessoa dizia respeito, detectou que existia um dente que tinha um buraquito. Andou a escarafunchar e aplicou uma massa que, passados alguns dias, acabou por sair e apareceu-me um enorme abcesso no céu da boca junto à garganta. Ora como tinha muita dificuldade em respirar, fui a Nova Freixo ao consultório de um dentista que ficou alarmado com a situação e que disse:
- "Vou ter de lhe lancetar isso mas não tenho qualquer anestesia e como é 'Valente' vai ter de aguentar." Quando o vi com um objecto em brasa que parecia quase um ferro de soldar e a introduzi-lo na minha boquinha comecei a transpirar e o sistema nervoso a trabalhar em rotações aceleradas.
Terminado este serviço o doutor perguntou-me se era alérgico à penicilina e se já tinha levado alguma injecção. Respondi-lhe que tinha sido a primeira vez que tinha ido ao médico e que, portanto, desconhecia se era ou não alérgico à penicilina.
"Oh pá não há alternativa, tens mesmo que levar uma injecção!", retorquiu o médico.
Depois de me levantar da cadeira e ter percorrido 2 ou 3 metros caí redondo no chão e quando acordei estava a receber respiração boca a boca.
À despedida o médico estava tão assustado que me pediu encarecidamente para não voltar lá mais.







terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Adelina Valente
Batatas a Pataco

Adelina de Pinho Valente
ex-2ª Comandante da Companhia "Os Magros do capim"



Teria eu os meus 12, 13, 14 anos (não sei bem) mas estaríamos, seguramente, no início ou meados da década de 60.
El Comandante ter-se-ia encontrado na rua com um antigo cantoneiro de Valença que já não via há alguns anos (julgo que se chamava Seixas, nome muito comum naquela região).
Chega ao Quartel muito entusiasmado com a notícia de que tinha encontrado o Seixas e que este lhe teria proposto a venda de batatas a um preço que já não me recordo, mas que pela expressão da 2ª Comandante (Adelina P. Valente), seria ao preço da "uva diurética".
El Comandante, com ar triunfal, declara então ter encomendado dois sacos de batatas e que até já os tinha pago (talvez com receio da subida de preços) e que no dia seguinte as entregariam lá no Quartel.
De imediato, a 2ª Comandante, eu, Carlos e julgo que o Álvaro também, olhamos uns para os outros e ficamos logo ali com a nítida sensação de que: "já foste comido de cebolada!".
A 2ª Comandante, com um sorriso matreiro nos lábios proferiu em surdina uma frase que, traduzida para linguagem actual, seria do tipo: "É que é já a seguir, bem podes esperar sentado!".
Claro que, a partir desse dia, fartamo-nos de "matraquear" a cabeça de El Comandante com a ideia de que tinha sido levado no "conto do vigáro", ao que ele retorquia de imediato com:
- "Oh, oh, o Seixas ia lá fazer uma coisa dessas!"
A partir daí, todos os dias e sempre que chegava ao Quartel para almoçar ou no fim das operações militares do dia, vinha com a pergunta sacramental:
- "Então, as batatas já vieram?".
E dia após dia lá vinha a pergunta e nós sempre a "dar música". Julgo que a cena se repetiu durante, pelo menos, 2 semanas.
Até que, já fartos daquilo e constatando que El Comandante ainda não se convencera de que tinha sido "comido de cebolada", resolvemos, com o conluio da 2ª Comandante, encher um saco de serapilheira com jornais amarrotados e, por cima, todas as batatas que lá havia em casa e que não eram muitas, nem grandes.
Colocamos o saco (só um) ao cimo das escadas de acesso ao Quartel de modo a que ele, ao chegar, desse logo com elas de frente e, à hora prevista da sua chegada, combinamos lugares estratégicos (2ª Comandante incluída) para assistir à reacção de El Comandante.
Eis, então, que se ouvem passos nas escadas!
Cada qual ocupa a posição previamente combinada!
A 2ª Comandante, que se encontrava no Departamento de Alimentação, é avisada!
Os passos são cada vez mais audíveis!
O momento aproxima-se!
Nas "guaritas" o silêncio é total!
Ainda El Comandante não tinha transposto os últimos degraus e, vislumbrando já a parte superior do saco, exclama: - "Ah, vieram, ou não vieram?!" E subindo mais um degrau: - "Só um saco?! O outro também há-de vir!"
Claro que os "observadores", nos seus postos de vigília, começavam a ter dificuldade em conter o riso e a "explosão" deu-se quando, finalmente transpostos todos os degraus, El Comandante se abeira do saco, vê e apalpa as batatas, e afirma com algum desalento: - "Afinal são pequenitas".
A risada é geral, os "observadores" saem das "guaritas", a 2ª Comandante retira-se para o seu Departamento com um sorrisinho cúmplice no rosto, como quem diz:
- "toma e embrulha!"
El Comandante verificando mais abaixo que apenas havia papel, riu-se da "tramóia" e nunca mais perguntou pelas batatas.

Moral da história: El Comandante estava sempre pronto a brincar com tudo e com todos, mas também aceitava com grande "fair play" e com um sorriso nos lábios qualquer partida de que fosse alvo, ainda que daí resultassem prejuízos para a sua pobre carteira.

Abílio Magro






sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Rogério Magro
Gratidão


No início de 1969, instalados no Dundo, capital da Diamang, mais concretamente no quartel do Camaquenzo, por sinal muito bem instalados comparados com os 18 meses de intensa actividade operacional, a Companhia de Caçadores 1719 encontrava-se a descomprimir e a repousar, exceptuando as duas vezes que tivemos que aguentar na zona do Dala, um mês de cada vez, ainda em actividade operacional.

Um magnata no Quartel - Dundo - capital da Diamang - 1969

No Dundo não faltava nada, era uma pequena cidade onde habitavam os funcionários da Diamang que na altura tinha o monopólio da exploração de diamantes em Angola e como tal havia de tudo.
Todos os espectáculos de teatro e/ou variedades que passavam por Luanda, vinham igualmente actuar no Dundo, que tinha uma sala de espectáculos formidável.
Feito este pequeno preâmbulo, vamos directos à história.
O Capitão manda-me chamar, entrega-me uma planta com o desenho de uma escola e ordena-me que recrute dois ou três pedreiros e um carpinteiro no pessoal da Companhia e que, junto dos serviços da Diamang, proceda ao levantamento de todos os materiais para a construção da escola que se iria erigir no aldeamento do Fucaúma, o qual se situava a cerca de 20 Kms do quartel do Camaquenzo.

Nunca me tinha passado pela cabeça vir a ser mestre de obras, mas foi aí que eu dei os primeiros passos na ligação à construção civil. Também nunca percebi porque quando era preciso fazer algo de novo o Capitão se lembrava sempre de mim, muito embora houvesse 3 alferes, 7 furrieis e dois sargentos, mas enfim, lá fui eu com dois pedreiros e um carpinteiro tratar de construir a escola no Fucaúma que, segundo afirmavam, seria o único aldeamento naquela zona que ainda não possuía escola.
Lá fui com uma GMC requisitar o cimento e os tijolos ao armazém da Diamang e lá me dirigi para o Fucaúma. Fui ter com o soba, um velhote estimável que não falava português, mas através de um sipaio que fez de tradutor do dialecto quioco para o português, lá fizemos as apresentações. Ele já estava informado ao que íamos e prontificou-se a arranjar alguns homens para nos ajudarem na construção da escola, nomeadamente irem buscar água ao rio para encher os bidões de 200 litros que levamos.
Diariamente saíamos de jeep do quartel pelas 8 horas. Ao meio dia o jeep ia-nos buscar para o almoço e depois do almoço lá voltávamos para a obra e às cinco horas o jeep tornava a ir buscar-nos.
A escola tinha o formato rectangular e, se bem me lembro, teria aí uns 20 metros de comprimento por 12 de largura, duas janelas de cada lado e uma porta larga na entrada.
Tudo correu sempre sem problemas, à excepção de um dia em que o pessoal não apareceu para encher os bidões de água e tive que chamar o soba para lhe pedir que arranjasse pessoal para ir ao rio buscar água para a obra não parar. Lá conseguiu arranjar alguns homens, trazidos pelo sipaio, mas foram mais as mulheres que ajudaram a ir buscar água ao rio.
A obra lá se foi erguendo, ainda que por dois meses (um de cada vez intercalados) estivesse parada, dado termos ido para o Dala em operações militares. Durante o tempo que permanecemos no dia a dia na aldeia, fomos sempre bem tratados e era usual transportarmos de boleia as pessoas que se apresentavam pelas cinco horas, aquando do nosso regresso ao quartel e, nomeadamente quando traziamos a GMC (camião), havia alturas em que este ficava superlotado.
Tenho vários episódios que, durante o tempo que demorou a construção da escola, me ficaram na memória, mas este que vou passar a referir foi, de todos, para mim, o mais marcante.
Estava eu sentado à sombra de um embondeiro, numa cadeira de ripas verdes que o soba todos os dias lá colocava, quando se dirigiu a mim com um rádio na mão, um homem muito alto e já com alguma idade. Como não falava português, não o entendi e, após ter chamado alguém que traduzisse o dialecto da etnia quioco, fiquei a saber que ele me pedia para consertar o rádio, dado que o mesmo tinha deixado de funcionar.
Tratava-se de um rádio a pilhas, grande e com uma pega na parte superior. Eu não percebia nada de rádios, mas como estava a dirigir a obra que, tijolo a tijolo, ia avançando, disse-lhe que deixasse o rádio que eu ia ver se o conseguia compor.
Com um canivete, que sempre me acompanhou e que ainda hoje tenho guardado, pus-me a desapertar os parafusos e lá consegui abrir o rádio. Verifiquei que havia um fio que se tinha dessoldado, encostei-o no sitio devido, liguei o rádio e este começou a tocar. Fechei novamente o rádio e mandei chamar o sipaio para transmitir ao homem alto e velho que ia levar o rádio para o quartel e que no dia seguinte o traria a funcionar.
No quartel pedi na oficina auto que me soldassem o fio que estava solto.
No dia seguinte, quando chegamos ao aldeamento, lá estava o homem alto e velho à espera junto á palhota do soba.
Eu, maldosamente, tinha escondido o rádio debaixo do banco da frente do jeep e, quando saí sem o rádio, observei que o homem estava com uma cara de grande decepção.
Dei a volta ao jeep, tirei o rádio debaixo do assento e, junto dele, liguei-o e de imediato começou a tocar.
Vi logo no rosto do homem uma grande satisfação. Entreguei-lhe o rádio e ele, sempre muito sorridente e agradecido, puxou do bolso uma nota toda embrulhada de cem escudos de Angola e estendeu a mão para ma dar.
Ralhei-lhe e mandei transmitir-lhe pelo sipaio que a reparação não custara nada e que ele guardasse o dinheiro, o que fez com alguma relutância. Voltou a agradecer-me, bateu palmas e lá desapareceu com o rádio a tocar.
Durante bastante tempo deixei de ver o homem alto e velho até que um dia, ao chegar à sanzala pelas nove horas, vi que junto ao embondeiro estava no chão um cabrito com as quatro patas amarradas, mas não dei grande atenção à situação.
Passados alguns minutos aparece-me o homem alto e velho e, no seu dialecto e com alguns gestos, deu-me a entender que o cabrito era para me oferecer. Mandei chamar o sipaio para ele melhor traduzir o que eu adivinhava entender e este confirmou que ele fazia muito gosto em me oferecer o cabrito.
Eu não estava lá muito pelos ajustes e perguntei ao sipaio se ele tinha cabritos e este respondeu-me que não, que o homem alto e velho era muito pobre.
Então pedi-lhe para ele perguntar ao velho aonde ele tinha arranjado o cabrito.
Após o sipaio lhe ter efectuado a pergunta, este respondeu-me que ele tinha ido comprar o cabrito a uma sanzala que se situava a mais de 100 Kms do local em que estávamos.
Fiquei ainda mais perplexo e respondi que lamentava muito mas não podia aceitar o cabrito.
Após diálogo entre o sipaio e o homem velho, o sipaio transmitiu-me que a ser assim, ele, homem velho, ficaria muito triste.
Então eu respondi-lhe que até ao meio dia, quando nos viessem buscar de jeep, eu tomava uma decisão final.
O jeep chegou perto do meio dia e o homem alto e velho esteve durante toda a manhã a aguardar pela sua vinda junto ao cabrito. Eu solicitei então a um soldado que colocasse o cabrito no jeep e dirigi-me ao homem alto e velho e disse-lhe, obrigado.
O homem alto e velho de imediato começou a bater palmas de contentamento e mal o jeep arrancou, percorreu alguns metros atrás do mesmo a bater palmas e com um sorriso de contentamento que ainda hoje guardo na memória e que eu gravei como o maior acto de gratidão que registei em toda a minha vida.

Nota : O cabrito foi bem recebido no quartel e deu lugar a uma caldeirada que acabou muito bem regada.

"A gratidão é o único tesouro dos humildes." (William Shakespeare)






quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Acácio Magro
Discuro de El-Comandante

Acácio Alberto Lamares Magro
ex-Comandante da Companhia "Os Magros do capim"

Discurso proferido por "El Comandante" no início das obras do Quartel de Aníbal Cunha


Decorria o ano de 1971 (mais coisa, menos coisa). Talvez início do ano de 72.
O Quartel de Aníbal Cunha estava reduzido a 2 elementos - O Comandante (Acácio Magro) e um raquítico mancebo de 53 Kg de peso a quem chegaram a dar, por analogia, o cognome de isca de fígado.
A restante prole, que desde a década de 30 do século passado tinha vindo a ser produzida quase de modo contínuo, foi sendo chamada a cumprir o mais alto dever pátrio, que era o de defender o Portugal multi-racial de aquém e além-mar.
Nessa altura, encontravam-se a cumprir serviço militar nas antigas Províncias Ultramarinas os seguintes elementos:
Guiné - Fernando (parte II) e Álvaro;
Moçambique - Dálio;
Angola - Carlos
Entretanto, o Rogério tinha terminado a sua comissão em Angola, mas não regressou àquele Quartel.
As manas Olga e Etelvina tinham abandonado o Quartel ainda antes da guerra se ter iniciado.
A mana Valdívia, embora tendo visitado o Quartel algumas vezes, julgo nunca lá ter pernoitado o que, em boa verdade, terá sido uma opção inteligente atendendo à superlotação da "caserna".
O "isca de fígado" estava na calha e pretendia fazer algum exercício físico no intuito de adquirir a robustez suficiente que lhe permitisse aguentar umas botas com cerca de meio quilo cada.
Foi então que El Comandante teve a ideia de efectuar alguns trabalhos de "embelezamento" do Quartel, talvez na secreta esperança de um dia ali receber Sua Excelência o Sr. Presidente do Concelho - Prof. Marcello Caetano, portador que fosse de uma qualquer medalha por tão valoroso contributo para o esforço de guerra.
El Comandante entendia que, com a sua superior orientação, alicerçada nos vastos ensinamentos obtidos na Escola Politécnica do Porto (Construção Civil e Química) e na Escola do Magistério Primário, poderia levar de vencida aquela batalha à frente de uma companhia composta de, apenas, um elemento.
Parecendo-me pouco provável que tal intento seria coroado de êxito, propuz que se recorresse à assessoria de um oficial superior perito no manejo de equipamento.


Concordou e, assim, recorremos ao Albino Seixas Ferreira (vulgo, "bigodes" - foto ao lado), trolha e meu amigo de infância que morava ali na Trav. da Carvalhosa.
Uma bela noite, quando nos preparava-mos para dar início aos trabalhos, surge-nos El Comandante, em pijama, com os óculos na ponta do nariz, com um papel na mão e, posicionando-se atrás de uma tábua de passar a ferro que ali se encontrava aberta a servir de apoio aos técnicos, começou a proferir, de improviso e em tom de orador político da época, um discurso de início dos trabalhos.
Atendendo à distância temporal que nos separa dos factos, é-me impossível reproduzir fielmente a totalidade daquele discurso, pelo que me limitarei a algumas frases que retive, mas que são demonstrativas do elevado sentido de humor do nosso saudoso Comandante.





Discurso de "El Comandante "

"É com imenso orgulho e com a voz embargada pela emoção que vejo, finalmente, dar-se início às tão adiadas obras de remodelação, pintura e, quiçá, de embelezamento do 3º andar do número 21 da Rua Aníbal Cunha, local de grandes tradições monárquicas!

(Nesta altura, o "bigodes" em cima da escada e de trincha na mão, ria já que nem um perdido o que fazia com que a escada abanasse e via-se em dificuldades para segurar a lata de tinta)
O discurso foi continuando no mesmo tom e, sempre com pinceladas humorísticas, lá foi debitando algumas frases alusivas às obras que se iriam iniciar, até que, apercebendo-se da iminência da queda da lata de tinta e já não conseguindo conter o riso, resolveu terminar o discurso da seguinte forma:

"Dou, assim, por iniciados os trabalhos.
Rapazes, agarrem-se ao pincel!"


Claro que, nesta altura, o "bigodes", desfeito em risos, se desiliquibrou completamente e eu, tentanto ajudá-lo e salvar a lata de tinta, levei uma valente pincelada na "tromba" e El Comandante, rindo até às lágrimas, bateu em retirada, abandonando as suas tropas.

(Abílio Magro)