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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Abílio Magro
O Major Francisco Leal de Almeida



IN MEMORIAM
Major Leal de Almeida


Conheci na Guiné o Major Francisco Leal de Almeida em Junho/Julho de 1973 quando, com ele e outros militares, participei numa operação em Cacine como seu “secretário”, operação essa destinada a evitar o abandono das NT (nossas tropas) do quartel de Gadamael que se encontrava a ser constantemente flagelado por bombardeamentos do IN (inimigo – PAIGC).

Não convivi muito tempo com este oficial superior porque, além de eu ter sido substituído em Cacine passado pouco tempo (3/4 semanas), o Major Leal de Almeida fazia muitas incursões a Gadamael, conforme descrevo no post "Férias em Cacine".

Do que sabia na altura acerca deste Major era apenas que tinha o curso de “comandos”, tinha sido Coordenador do Batalhão de Comandos da Guiné e não estava ali para me “chatear”, pelo que me fui apercebendo e por me parecer tratar-se de boa pessoa.

Soube mais tarde, pelo meu irmão Álvaro [na Guiné também] e quando regressei a Bissau, que o Major L. Almeida era grande amigo do meu irmão Fernando, conforme refiro em nota de rodapé no post "O Sargento da Guarda".

Ainda mais tarde, já na Metrópole e posta a nu a Operação Mar Verde – Invasão de Conacry por parte de tropas portuguesas, veio-se a saber que o Major Leal de Almeida foi o militar que mais resistência opôs a essa invasão planeada pelo Comandante Alpoim Calvão, tendo-se, inclusive, negado a participar na mesma.

Numa carta que, em tempos, recebi do meu irmão Fernando, este refere-se à amizade que existia entre ele e o Major Leal de Almeida e ao seu carácter. Transcrevo a seguir alguns excertos dessa mesma carta:

[…] É verdade que resistiu, acompanhado por toda a sua Companhia de Comandos, à invasão de Conacry, capital da República da Guiné, em desacordo com o plano do Comandante Alpoim Calvão.
Mas depois de ter sido levado à presença do General Spínola e das explicações dadas pelo mesmo General a toda a Companhia de Comandos, na ilha de Soga (no Arquipélago de Bijagós) aceitou a missão e cumpriu-a inteiramente, ao contrário do Tenente Januário que desertou.

Não era só o Major Leal de Almeida que não estava de acordo em invadir Conacry. Os elementos da Companhia de Comandos Africanos na sua totalidade também não estavam de acordo em combater em Conacry para colocar no Governo uma facção contrária a Sékou Touré. Ele foi o porta-voz dessa discordância. Eram militares portugueses e não mercenários.
Só concordaram em ir porque o General Spínola lhes disse que conduziriam à República da Guiné os dissidentes do Governo de Sékou Touré, mas não seriam obrigados a desembarcar. Somente desembarcariam os que fossem necessários para libertar os portugueses aprisionados.
O Major Leal de Almeida disse-me que desembarcou. Que fez parte das tropas que tomaram o Palácio do Povo (sede do Governo). […]


Conheceram-se em Lamego quando o meu irmão Fernando por lá andou, no final do Curso de Promoção a Capitão e onde, um dia, levou a Lena, sua mulher, a almoçar na Messe dos Oficiais dos Comandos, tendo aí encontrado a Maria da Graça, ex-colega da Lena no colégio de Moncorvo e mulher do Major Leal de Almeida.

Fizeram amizade em Lamego e, mais tarde, encontraram-se na Guiné. Ele Major, Coordenador do Batalhão de Comandos da Guiné e o meu irmão Fernando, Chefe dos Serviços de Reordenamentos do Batalhão de Engenharia 447.

O meu irmão Fernando tinha conseguido alugar casa em Bissau, o que, à época, era extremamente difícil de conseguir e, em Junho de 1970, a família (mulher e filho) juntou-se-lhe.

O Major Leal de Almeida “vendo-o razoavelmente instalado e na companhia da família, tinha a ambição de ter também em Bissau a companhia da mulher e filhos” e foi ele [meu irmão] quem lhe resolveu o problema.
No Batalhão de Engenharia havia um alferes que “tinha conseguido alugar uma casa onde viveu durante vários meses com a sua jovem mulher. No fim da comissão ele ficou sozinho porque resolveram que a esposa regressaria ao Porto, cidade onde viviam”.

O meu irmão tentou “que o alferes cedesse a casa ao Major Leal de Almeida para que este pudesse chamar a família para junto de si”, mas o alferes não cedia a casa porque não queria dormir no quartel. “Dormir no Quartel, nem pensar …”, dizia ele.

Acabou, o meu irmão, por desbloquear a situação propondo ao alferes que fosse viver com ele nos seus três últimos meses de comissão.
Convidou-o a ir lá casa, mostrou-lhe as divisões e lá o convenceu, podendo, assim, a família do Major Leal de Almeida viajar até Bissau e lá se instalar.

Como o Major Leal de Almeida passava muito tempo fora de Bissau, principalmente em Madina de Boé, o meu irmão e a mulher acompanhavam de perto a família do Major e o meu irmão até tratou de toda a papelada para que a mulher dele pudesse concorrer a professora primária, como a tinha aconselhado a fazer. Foi bem-sucedida no concurso e conseguiu colocação numa escola de Bissau.

Mais tarde, permanecendo o Major mais tempo em Bissau, o meu irmão também lhe conseguiu colocação como professor de Educação Física na Escola Comercial e Industrial de Bissau.

[…] Ele era bom atleta e na sua juventude tinha sido campeão militar em Voleibol e Basquetebol. […]

[…] Em Lamego, era ele o responsável pela preparação física dos oficiais que estavam a ser preparados para as guerras de África. […]


Depois do 25 de Abril, já com a patente de Tenente-Coronel é-lhe entregue o Comando do RALIS (Regimento de Artilharia de Lisboa), onde o “Fitipaldi das Chaimites”, o Capitão Diniz de Almeida, que rapidamente chega a Major, […] o coloca por diversas vezes em situações tais que levaram os seus superiores a julgarem-no mal, colocando-o no rol dos comunistas. Não era nada disso. Era tão comunista como eu. […]

[…] era um bom homem, generoso e grato […] Muito crédulo, acreditava nos seus subordinados […]

[…] Na minha ideia, no RALIS, o Dinis de Almeida usou e abusou da bondade e generosidade do Major Leal de Almeida que foi porventura enganado pelo "Fitipaldi das chaimites" diversas vezes.[…]

[…] Foi muito mal tratado pelos seus superiores hierárquicos e nunca passou de tenente-coronel. […]

[…] Foi sempre um homem que se mostrava muito grato para comigo. […]

[…] Em toda a parte por onde passava dizia que eu tinha sido um pai para ele: porque lhe tinha arranjado uma casa em Bissau, o que permitiu a ida da família para lá e também porque lhe arranjei, a ele próprio e a sua mulher, colocação no professorado. […]

[…] Na minha frente e sempre que tinha oportunidade, dizia às pessoas que nos acompanhavam:

Na Guiné, o Pinho Valente foi para mim como um pai. […]

[…] Paz à sua alma pois há já alguns anos que não faz parte desta vida. […]


Embora eu tenha convivido muito pouco com o, então Major e depois Tenente-Coronel Francisco Leal de Almeida e que mal o conheci, não queria deixar de lhe prestar a minha homenagem publicando aqui, em sua memória, este singelo post.




Reencontro dos casais Fernando Valente/Maria Helena – Leal de Almeida/Maria da Graça:
- em Viseu (foto 1)
- nas instalações do Inatel em V.N. de Cerveira (foto 2).


Nota: Os fragmentos de texto a itálico foram retirados de um texto da autoria do meu irmão Fernando de Pinho Valente (Magro), ex-Cap. Milº Artª – Guiné – BEng 447 - 1970/1972






quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Abílio Magro
N'fendi Cadera Goss!


O crioulo é uma língua natural, isto é; uma linguagem que foi desenvolvida naturalmente pelo ser humano, de forma espontânea e serve de meio de comunicação entre os falantes de idiomas diferentes.

Estas linguagens: “Possuem normalmente gramáticas rudimentares e um vocabulário restrito, servindo como línguas de contacto auxiliares. São improvisadas e não são aprendidas de forma nativa.”

Consta que o crioulo da Guiné-Bissau (kriol) terá surgido como uma mistura de vários dialectos das mais variadas etnias, de modo a dificultar a compreensão dos portugueses, na época do colonialismo. Trata-se de uma língua falada, e não escrita, pois há poucos livros escritos em crioulo, e também não é a língua oficial do país, não sendo portanto, ensinada nas escolas.

Durante a guerra colonial na Guiné-Bissau (1963-1974), com a chegada massiva de tropas oriundas das várias regiões de Portugal, o crioulo da Guiné acabou por absorver muitos vocábulos portugueses.

Por outro lado, os militares portugueses, “na caserna”, acabaram por “inventar” algumas expressões, misturando crioulo com regionalismos e algum calão, originando uma linguagem digna de inclusão num qualquer compêndio linguístico.

Mas como, efectivamente, não existia qualquer dicionário, nem documento escrito que informasse qual o real significado de alguns termos em crioulo, estes eram por vezes usados de maneira diferente pelos militares, conforme a época e a região em que permaneceram na Guiné.

Por ex.:
“- Djubi lá!” (para alguns “Djubi” significava “Jovem” e, para outros, significaria “Olha”; “lá” significava “ali” para todos).
Assim, para uns, “djubi lá!” queria dizer: “Jovem, olha ali!”; para outros queria dizer: “Olha ali!”

De qualquer maneira este pequeno exemplo serve para demonstrar a imaginação de caserna, pois era frequente ouvir-se os militares a usarem um novo verbo; “jubilar” (de “djubi lá”), como por ex.:

“- Eh pá, estás a ‘jubilar’ a bunda da bajuda?!”
Que se podia traduzir por :
“- Eh pá, estás a olhar para o ‘traseiro’ da moça?!”

Conforme referi numa mensagem anterior, havia na sala onde eu prestava serviço na CSJD/QG/CTIG quatro escriturários, dois brancos e dois negros. Um dos escriturários brancos era também ajudante na Igreja Católica de Bissau (sacristão?) e falava crioulo muito bem. Deu-me algumas “aulas” e eu, na altura, “desenrascava-me” razoavelmente a falar crioulo.

Conhecia muitas frases e, embora seja minha intenção deixar aqui alguma informação sobre o assunto, não asseguro que a ortografia seja a correcta, já que o meu crioulo foi aprendido de ouvido, aliás como quase toda a gente por não existirem livros sobre o assunto.

O título deste capítulo “n’fendi cadera goss!”, era uma frase frequentemente usada pelos negros quando se “pegavam” uns com os outros e estavam prestes a chegar a vias de facto. Significava:
- n’ (eu)
- fendi (parto)
- cadera (cadeira, bunda)
- goss (rápido, depressa)

Isto é: “- Eu parto bunda rápido!” o que, traduzido para um português mais vernáculo, queria dizer: “- Eu parto-te já o ‘focinho’!”

Uma vez que já se passaram mais de quarenta anos e muitos dos termos se me “varreram” completamente, fiz umas pesquisas na net, onde encontrei a informação abaixo, à qual acrescentei algumas frases que aprendi de ouvido.

“Em português temos: eu, tu, ele, nós, vós, eles. Em crioulo: n', bu, i, no, bo, e. Estes são os chamados pronomes «fortes». Algumas vezes é possível usar os «fracos»; Ami, abo, elis. (eu, tu , eles).

Kuma ke bu sta? (como é que tu estás?)
Kuma bai kurpu di bo? (Como vai o seu corpo? = Como vai sua saúde?)
No na bai nus nima (nós vamos ao cinema)
Sta dretu (está certo, está bem), (o «está» virou «sta» e o «direito» virou «dretu»)
Pa bia di kê? (porquê?), (talvez uma derivação de “por via de quê”)
Alin'li (aqui estou, no sentido de «tou na boa»)

Como curiosidade, aqui vos deixo um "Pai nosso” em crioulo da Guiné-Bissau:

“No pape ku sta na seu,(Pai Nosso, que estais no Céu)
pa bu nomi santifikadu, (Santificado seja o Vosso Nome)
pa bu renu bin, (Venha a nós o Vosso Reino)
pa bu vontadi fasidu (Seja feita a Vossa Vontade), (talvez traduzido à letra: 'para vós vontade fazida')
na tera suma na seu. (Assim na Terra como no Céu)
Partinu aos no pon di kada dia, (O Pão-Nosso de cada dia nos dai hoje)
purdanu no pekadus (Perdoai-nos as nossas ofensas)
suma ke no purda kilis ki iaranu, (Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido)
ka bu disanu kai na tentason (E não nos deixeis cair em tentação)
ma libranu di mal. (Mas livrai-nos do mal.)
Amen. (Amém)

Alguns sinónimos: ka =não; ka bai=não vou; ka tem=não tenho; ka sabe=sabe mal, não presta;
ka sibe=não sei; ka miste=não quero;
parte (de reparte?)=dá;
catota=vagina;
peso=escudo, dinheiro;
parte peso=dá escudo, dinheiro;
parte catota=anda fazer amor ;
parte punho=(adivinhem…);
Manga=muito;
Ronco=festa, bom, fixe, etc.

Se a duas ou três palavras em crioulo juntarmos uma ou outra palavra em português, ficamos a falar crioulo que nem um manjaco!

Por exemplo:
- Furriê, parte peso(1) (furriel dá um peso).
- Ka tem patacom (não tenho dinheiro).

Quando nos aparecia um preto que ainda não conhecíamos.
- Kal raça di bó?
- Fula.
- Manga de ronco!

Se fosse de uma outra etnia qualquer (são cerca de trinta) respondia-se de igual modo e eles ficavam felizes, claro, porque tinham orgulho na sua raça.

Nos anos de 1960-70 estava em moda uma canção de Gianni Morandi (cantor italiano) que tinha o título; “Não sou digno de ti”.

Na maioria das vezes as rádios locais transmitiam os seus programas totalmente em crioulo e, entre os militares, constava que a dada altura o locutor de serviço terá anunciado:

“- Pa tudu irmon de no tera e Mamadu Djaló cabita Catió, Giani Morandi na bai na canta pra bo, ‘Ka so dinho di bo’ ”.

Provavelmente tratar-se-ia apenas de uma ‘caricatura’, onde o uso de muitos «ós» dava à frase uma sonoridade engraçada.

“Pa tudu irmon de no tera” – Para todos os irmão da nossa terra, para todos os guineenses.
“Mamadu Djaló” – nome muito frequente na Guiné-Bissau.
“cabita Catió” – que mora em Catió (pequena cidade da Guiné-Bissau).
“na bai na canta pra bo” – vai cantar para vocês.
“Ka so dinho di bo” – Não sou digno de ti.


Fontes:
Wikipédia
http://marcoembissau.blogspot.pt

(1) – O peso foi a moeda da Ginué-Bissau entre 1975 e 1997, após o que foi substituído pelo Franco CFA (Colónias Francesas Africanas) aquando da sua entrada na União Monetária dos Estados da África Oriental - UEMOA (Union Économique et Monétaire Ouest Africaine).
Já antes da independência os guineenses chamavam “peso” ao escudo português da Guiné.


Abílio Magro
O Prisioneiro da Ilha das Galinhas


A azáfama fazia lembrar uma tarde de fim de feira numa qualquer terra do interior de Portugal, onde as embalagens vazias de cartão se amontoam ao lado de cada tenda e os feirantes se apressam a recolher os artefactos e produtos não transaccionados para, na madrugada seguinte, regressarem à estrada e ocupar novamente as “montras” numa outra feira qualquer.

Estávamos em finais de Setembro de 1974 e o recinto da “feira” era a pequena “parada” defronte do edifício do QG/CTIG.

Com efeito, havia muita movimentação de pessoas e bens e o asseio parecia ter sido algo descurado. Notava-se algum nervosismo e pressa em fazer malas. Lembrava o términus de um qualquer período de férias de Agosto no Algarve em que havia necessidade de andar lesto, a fim de se evitar as longas filas de trânsito das estradas algarvias daqueles tempos.

As entradas e saídas do Quartel-General eram constantes e respirava-se, efectivamente, um fim de feira com desfazer de tendas. A grande maioria das Unidades Militares que tinham estado sediadas no interior do território, já tinha regressado à Metrópole e era agora chegado o momento dos últimos “moicanos”, nomeadamente os militares metropolitanos que se encontravam presos na Ilha das Galinhas.
A pequena Ilha das Galinhas, com apenas 50 km² de área é uma das oitenta e oito ilhas que compõem o Arquipélago de Bijagós.

Durante o período colonial funcionou nesta ilha uma prisão, designada por "Colónia Penal e Agrícola da Ilha das Galinhas".
Esta colónia estava destinada, essencialmente, a presos políticos, incluindo elementos do PAIGC, alguns dos quais ali estariam em trânsito para a prisão do Tarrafal (Ilha de Santiago - Cabo Verde).

Os prisioneiros andavam soltos pela ilha e a maioria trabalhava na bolanha (cultivo de arroz) e nas plantações de ananás e mancarra (amendoim) que havia pelo campo.

Nos finais de Setembro de 1974, um desses prisioneiros, militar metropolitano, andava por ali no recinto da “feira” do QG/CTIG a aguardar não se sabia muito bem o quê.
Fazia-se acompanhar por um corpulento macaco-cão que segurava por uma trela de corrente de aço.
Este “prisioneiro à solta” apresentava uma tez bastante avermelhada, indiciando excesso de sol recente (ou algum excesso de aguardente) e trajava de um modo demasiadamente informal para um militar naquele local; camisa, calções e sapatos de ténis militares. Na cabeça, sempre descoberta, ostentava uma farta cabeleira arruivada e encaracolada e, nas pernas e coxas, várias tatuagens “pornográficas” a necessitarem de “bolinha vermelha”.

Era de poucas falas e parecia andar por ali apenas com o intuito de desafiar “altas patentes”, digo eu.

Com efeito, dava-me um certo gozo ver majores, ten.-coronéis, coronéis, etc., que entravam ou a saíam do QG, depararem-se com aquela figura acompanhada do “seu animalzinho de estimação” e, pasmados, fitando o “moicano”, receberem em troca um olhar ostensivamente desafiador que os desarmava por completo e os “aconselhava” a prosseguir o seu caminho, o que faziam sem pestanejar.

Com muito custo lá conseguimos chegar à fala com o “moicano” e, segundo recordo, ele aguardava autorização para trazer o “companheiro” para a Metrópole, mas, confrontado com a nossa convicção de que isso não seria possível, logo afirmou que: “então cortava o pescoço ao símio!”

Eram dias de muita rebaldaria e, lá fora, na estrada que passava em frente ao QG/CTIG, era constante o movimento de negros alombando para suas tabancas “troféus de guerra” diversos, tais como; colchões, frigoríficos, aparelhos de ar condicionado, etc..
Alguns capitães conduziam jipes bastante “mal-tratados” que avariavam constantemente e era vê-los a empurrar a “sucata” com a ajuda de um ou outro militar…, imagens vivas do fim do Império Colonial Português.

Uns dias depois é chegada a hora do meu regresso a casa e lá estava no aeroporto de Bissalanca o “moicano”, sem macaco.

Viajou connosco e disse-nos que o tinha matado (??).






Abílio Magro
Um Herói à Minha Porta


Como referi anteriormente, eu prestava serviço na CSJD/QG/CTIG - Chefia de Serviço de Justiça e Disciplina do Quartel General do Comando Territorial Independente da Guiné, onde, como Furriel Miliciano Amanuense, coadjuvava um Alferes Miliciano na Secção de “Doenças”.
Esta Secção tratava dos processos de doenças, acidentes, ferimentos e mortes (em campanha, em serviço ou em combate) e a minha principal tarefa, para além dos registos, controle e arquivo, era a de verificar se os mesmos estavam devidamente instruídos, isto é; se continham todos os documentos obrigatórios (ficha do militar, testemunhos, relatórios médicos, etc.) e devolvê-los às Unidades instrutoras, se fosse caso disso.

Como devem calcular, durante a minha comissão militar na Guiné, passaram-me pelas mãos inúmeros processos daqueles, proporcionando-me um bom conhecimento do que, oficialmente, sucedeu em muitas das acções em que as NT (nossas tropas) sofreram baixas (ferimentos ou mortes) por acção directa ou indirecta do IN (inimigo – PAIGC).

Sendo o território da Guiné-Bissau muito pequeno (área equivalente ao nosso Alentejo), qualquer “embrulhanço” (ataque IN) sofrido pelas NT, era rapidamente conhecido em Bissau e os respectivos pormenores eram transmitidos facilmente de boca em boca. Contudo, à boa maneira portuguesa onde; “quem conta um conto acrescenta um ponto”, as notícias chegavam quase sempre exageradas, com algumas bravatas e inúmeras baixas à mistura, factos que não eram minimamente confirmados nos processos que, havendo feridos ou mortos, mais tarde me vinham “parar às mãos”.

Num determinado dia em Bissau, constou ter havido um “embrulhanço” às portas da cidade, sofrido por uma qualquer coluna de reabastecimento que dali saíra.
Falava-se então à boca cheia, entre militares, ter sido esse “embrulhanço” fruto de uma acção muito violenta do IN e onde morreram algos militares e muitos outros ficaram feridos.

Nestes casos mais “mediáticos” eu tinha por hábito registar a notícia no meu “disco duro” e ficar a aguardar os eventuais processos referentes aos feridos e mortos, se os houvesse.
E houve! Não mortos, mas apenas dois ou três feridos ligeiros e os respectivos processos lá me vieram parar às mãos mais tarde e, se bem me lembro, o que afinal acontecera terá sido o seguinte:
Era uma pequena coluna de reabastecimento cujo destino já não me recordo. Lembro-me que na frente seguia um Unimog com milícias, no meio da coluna duas ou três viaturas com a carga e, a fechar, outro Unimog, mas com militares. A data altura rebenta um pneu da viatura da frente, o pessoal atira-se de imediato para o chão e desata a disparar a torto e a direito.

Resumindo: na queda uma milícia partiu um pé, outra deslocou um braço e acho que foi só isso que aconteceu…

Passaram-me pelas mãos muitos processos do género, mas também muitos em que os nossos militares foram gravemente feridos ou mortos em circunstâncias horríveis. Muitos deles por falta de assistência, principalmente após a introdução na guerra, por parte do PAIGC, dos misseis Strella, que impediam a Força Aérea de prestar o apoio célere que até aí prestavam às forças terrestres.
Mas havia também muita bazófia e esta julgo que se estendia aos três TO’s (Teatros de Operações); Angola, Moçambique e Guiné e era usada mais frequentemente e provavelmente por quem, naquelas guerras, levou uma vida sossegada.

Um dos militares mais condecorados do Exército Português, o famoso Alferes Graduado Comando e guineense Marcelino da Mata (hoje Tenente- Coronel), embora reconhecidamente um grande guerreiro, exagerava imenso nos relatos das suas façanhas, referindo algumas vezes ter enfrentado e derrotado, com reduzido número de efectivos, um número elevado de elementos IN, verificando-se posteriormente em relatórios oficiais que nem o seu grupo era tão reduzido, nem o grupo IN tão elevado. Por vezes referia também árvores com mais de cem metros de altura [??].

Se mesmo aqueles cujos actos heroicos eram reconhecidos gostavam de acrescentar uns “pontos”, imaginem os outros que nunca se viram na necessidade de dar um tiro.
Recordo-me que, já depois do 25 de Abril e numa das minhas vindas de férias à Metrópole, ter-se passado comigo um pequeno episódio ao qual me lembrei de dar o título de : “Um herói à minha porta”.

Morava eu então na cidade do Porto, na Rua Aníbal Cunha onde, perto da minha residência, estava instalada a DORN do PCP.
Estávamos no mês de Agosto ou princípios de Setembro de 1974 e houve uma tentativa de assalto àquela sede do PCP, com tiros à mistura, pelo que havia dois cordões militares; um junto à Rua da Torrinha e outro junto à Faculdade de Farmácia (portanto, um no início e outro quase no final da rua) para impedir a passagem de pessoas. A mim deixaram-me passar por ser morador, mas fiquei por ali, junto à porta de entrada da minha residência, a ver o evoluir dos acontecimentos.

Acalmados os ânimos e abrandada a segurança, chega-se junto a mim um camarada da Guiné, dali daquelas Unidades Militares perto do QG/CTIG e que por cá se encontrava de férias, ou tinha terminado a comissão (não me recordo) e, acompanhado da respectiva namorada / mulher (?), começa com esta conversa:

“- Ó Magro, estes gajos aqui a brincar às guerrinhas! Queria ve-los lá na Guiné, como nós, a aguentar aqueles ‘embrulhanços’!”

Claro que não tive coragem para desmascarar o “herói do ar condicionado” junto da namorada, ou mulher, mas aquela narrativa era bem demonstrativa da bazófia que alguns dos nossos camaradas usavam junto de familiares e amigos para se arvorarem em bravos combatentes, ainda que muitos deles não tivessem dado qualquer tirito.

Provavelmente “arrumavam com eles à chapada”!

Nunca se sabe…, ele há “heróis” p'ra tudo…!






quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Abílio Magro
Guerra "Copofónica"


Pelas tarefas que desempenhava na CSJD/QG/CTIG (Serviço de Justiça), fui-me apercebendo que muitas doenças, ferimentos e até mortes eram resultantes do abuso da ingestão de bebidas alcoólicas, mas quem, durante a sua comissão, não apanhou a sua "tosgazita"?
Porém, quando estamos num TO e somos possuidores de uma arma de guerra, uns copitos com os camaradas e algum descontrolo podem resultar em tragédia.

Este pequeno episódio que se passou comigo é bem elucidativo disso mesmo, e se o multiplicarmos por dezenas, ou até centenas (durante toda a guerra colonial, talvez milhares) e o transpusermos para uma qualquer companhia no mato, não será difícil adivinhar a quantidade de incidentes com finais trágicos que ocorreram durante aquela guerra.

Numa das minhas várias seguranças nocturnas que fiz às instalações da PIDE/DGS em Bissau, junto ao bairro do "Pilão", comandando um pequeno grupo de seis ou sete homens, deu-se um episódio que me deixou bastante incomodado e "acagaçado".

O pessoal que integrava estes pelotões pertencia à CCS/QG e apresentava-se à noite, para efectuar o "serviço", já bastante cansado das muitas “picadas” percorridas durante o dia entre gabinetes e, alguns com muitas paragens para reabastecimento no Bar.

Por norma, estacionávamos numa pequena ruela, nas traseiras da DGS, que dava acesso ao Bairro do Cupilom e ali, junto a uma tabanca, o pessoal "ferrava o galho" com uma "pinta do caraças"!

Eu nunca dormia e não era por medo ..., não senhor! Era pelo meu elevado sentido de responsabilidade e pela obrigação moral de zelar pelo merecido descanso daqueles bravos militares.

Nessa noite, íamos talvez fazer o turno das 00h00 às 04h00 e tínhamos acabado de chegar ao "objectivo" quando entra na ruela um táxi conduzido por um negro e com um "pendura" negro também.
De repente, um "fabiano" do pelotão manda parar o táxi, puxa a culatra a trás, e apontando a arma ao "pendura", indaga: - "Quem és tu, para onde vais!?"

Oh valha-me Deus, “carago”, que é isto!? Pergunto-me a mim próprio, completamente apalermado.

Passados uns segundos logo me apercebi que o "fabiano" estava com uma valente "tosga", daquelas chamadas de "caixão à cova". Ai meu Deus se o “gajo” dispara aquela merda!

Com “pinças” e tentando manter a calma do "fabiano" (eu tremia todo e devia estar azul - ai s'aquilo dispara!), a muito custo, mas muito de levezinho, lá consegui retirar-lhe a arma e desarmá-la, apetecendo-me logo de seguida dar-lhe uma valente coronhada na "tola", mas lembrando-me de algumas "tosgas" próprias, lá pedi desculpas ao taxista e Cª e mandei-os seguir viagem.

Pelo "telemóvel" contactei o Af.Milº de prevenção (um amigo dos tempos do QG de Lisboa) e, com receio de possíveis escutas, disse-lhe apenas que precisava da presença dele pois havia um pequeno problema.

Apareceu passado pouco tempo de Unimog e com mais um pelotão, meio confuso por não perceber nada do que se estava a passar.

Chamei-o à parte e lá lhe contei o que acontecera. Substituiu-se o "fabiano" que seguiu de Unimog para o Quartel e tudo o resto decorreu normalmente.

Acordamos depois que não faríamos qualquer participação e o "fabiano" livrou-se duma valente "porrada".

Eu ..., apanhei mais um valente "cagaço".






segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Abílio Magro
Djassi - O Ordenança


Como já referi em post anterior, prestei serviço na CSJD/QG/CTIG (Chefia do Serviço de Justiça e Disciplina do Quartel General do Comando Territorial Independente da Guiné) situado nas instalações militares de Santa Luzia.
Há quem confunda o QG/CTIG com o QG da Amura. Aí estava instalado o QG/CCFAG (Quartel General do Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné. Isto é: O QG/CTIG era o Quartel General do Exército, enquanto o QG/CCFAG era o Quartel General de todas as Forças Armadas em serviço naquele território.
No tempo em que por ali andei (1973/74), o primeiro foi comandado pelo Brigadeiro Alberto da Silva Banazol e depois pelo Brigadeiro Galvão de Figueiredo; o segundo pelo General Spínola e depois pelo General Bettencourt Rodrigues.
Em Agosto de 1974 na CSJD tínhamos um ordenança, o Djassi, soldado nativo que aparentava ter já ultrapassado os 30 anos de idade e que, enquanto operacional, foi gravemente ferido, tendo-lhe sido retirado um pulmão e integrado nos serviços auxiliares, sendo ali colocado para efectuar pequenas tarefas relacionados com aquele Serviço.
O Djassi apresentava invariavelmente um semblante carregado e raramente esboçava qualquer sorriso, denotando, porventura, algum sofrimento pelo seu débil estado de saúde, mas era um indivíduo afável, educado, disciplinado e prestável. Dava gosto lidar com ele. Nunca o vi aceitar com azedume qualquer tarefa oficial ou particular que se lhe solicitasse.
Nessa altura, Agosto de 1974, já muitas Companhias tinham abandonado os seus quartéis no mato e regressado à Metrópole, e outras encontravam-se estacionadas em Bissau a aguardar igual destino.
Por essa razão, estavamos assoberbados com papelada decorrente do "fecho de contas" daquelas Companhias o que indiciava que nós, os do "ar condicionado" seríamos talvez os últimos a "abandonar o barco".
A situação era confusa. Sabíamos que iríamos abandonar a Guiné, mas não sabíamos como, nem se o faríamos definitivamente, nem quando.
Começou a correr a informação de que a partir de finais de Agosto não seriam autorizadas férias a ninguém.
Ora, eu e o meu camarada Silva, do Barreiro, nessa altura já os mais "velhinhos" da CSJD com excepção do Ten-Cor e do Major, estávamos há já mais de um ano sem gozar férias e começamos logo a tratar da papelada para o efeito.
Lá viemos de férias em meados de Agosto e, entretanto, o "êxodo" continuava e com maior cadência.
Findas as férias, regressamos à Guiné exactamente no dia em que foi reconhecida a independência por parte de Portugal - 12 de Setembro de 1974.
As patrulhas na cidade eram efectuadas pela PM conjuntamente com elementos do PAIGC, muitos estabelecimentos tinham encerrado, a tropa que ainda restava era composta de "piriquitos" oriundos das Companhias mais recentemente chegadas à Guiné, na CSJD só o Ten.Cor e o Major não tinham ainda sido substituídos, os bens escasseavam, na messe de Sargentos só se encontravam "piriquitos", etc., etc.. Ou seja: eu e o Silva estávamos completamente deslocados e se não tivessemos a estúpida ideia de meter férias naquela altura, teríamos certamente regressado definitivamente, sem necessidade de desembolsar os "pesos" que nos custou a viagem.
Logo tratamos de, junto do Ten.Cor., dar conhecimento da nossa "triste" situação e efectuar o "choradinho" adequado.
Fomos então incumbidos de queimar todo o arquivo morto da CSJD que ocupava totalmente uma daquelas pequenas vivendas tipo colonial e que era composto por processos instaurados desde o tempo em que ainda não havia guerra na "Província", após o que poderíamos "meter os papéis" para regressar à Metrópole.
A tarefa impunha alguma responsabilidade e cuidado pois não podia ficar qualquer fracção de papel por arder o que, nos processos mais volumosos, nos obrigava quase a arrancar folha por folha.
Ali estivemos quinze dias a queimar papel que, quando amontoado, nos obrigava a remexê-lo com um pau para que não se apagasse e, no fim de cada dia, só abandonávamos o local quando existissem apenas cinzas.
De quando em vez, um ou outro processo despertava a nossa curiosidade pelos objectos de prova que continha e cheguei mesmo à tentação de desviar alguns, mas o desejo de regressar a casa depressa e bem, falava mais alto.
A nossa vontade em terminar a tarefa o mais rapidamente possível era tanta que logo que o sol dava sinais de vida, lá íamos nós p'ra "incineradora" e um dia tivemos a sorte de nos cruzarmos com o Ten.Cor. que, talvez sensibilizado pela nossa madrugadora actividade, nos mandou chamar para que "metêssemos a papelada para bazar dali".
A tarefa ainda não estava terminada, mas o Ten.Cor., face à nossa proficiência e empenho, achou por bem mandar para lá alguém mais "piriquito" e nós lá regressamos à Metrópole quinze dias depois de lá termos vindo no final das férias.
E foi numa deslocação a Bissau para, no mercado negro, "despachar" os últimos pesos que tinha comigo (na messe de sargentos de Santa Luzia já nada havia para comprar) que encontrei o Djassi, já civil e que me interpelou de uma maneira agressiva como nunca imaginei que fosse capaz, confrontando-me com a situação para a qual o Exército Português o tinha atirado e dando-me a entender que, naquele momento, para ele, eu era o representante daquele Exército e exigia-me explicações que eu não podia dar.

- Furriel, eu fui ensinado a respeitar a bandeira portuguesa desde que nasci, andei muitos anos no mato a lutar por Portugal, fui ferido várias vezes, fiquei sem um pulmão, sou português, sempre me considerei português! E agora, dão-me dinheiro e vão-se todos embora?! O que vai ser de mim?! O que é que o PAIGC vai fazer comigo?!

Naquele momento senti-me envergonhado por ainda pertencer ao Exército que abandonara à sua sorte o exemplar militar português que era o Djassi.
Emudeci e não me recordo de lhe ter dirigido grandes palavras de conforto para além de um lacónico: "Calma, vai correr tudo bem".
Cabisbaixo e algo deprimido retirei-me do local, mas confesso que, minutos depois, o egoísmo veio ao de cima e já só pensava nas "voltas" a dar no sentido de embarcar com destino à Metrópole.
Quando, tempos depois, já na Metrópole, comecei a ouvir os noticiários sobre os fuzilamentos de antigos militares portugueses da Guiné, muitas vezes me veio à memória (e continua a vir quando se fala no assunto) o exemplar militar Djassi e questiono-me sobre o destino que teria tido e se os capitães de Abril (na altura no poder) não teriam podido fazer mais por aqueles que combateram ao nosso lado.
Há muito que tinha em mente falar sobre o Djassi, ordenança da CSJD/QG/CTIG, mas como tenho o hábito de salpicar a minha "prosa" com tiradas pseudo-humorísticas (está-me no sangue), tenho alguma dificuldade de escrita para assuntos mais sérios como este. Dispus-me agora a fazê-lo, reconhecendo, no entanto, que este episódio era merecedor de uma escrita mais adequada ao fim a que me propus:

Prestar uma sentida homenagem a todos os "Djassis" da Guiné-Bissau.






segunda-feira, 29 de abril de 2013

Abílio Magro
Bombeiro (in)Involuntário


Tendo cumprido uma comissão militar na Guiné, entre Março de 1973 e Setembro de 1974, apenas ali passei um Natal; o de 1973.
No dia de Natal era habitual, segundo creio, todas as unidades militares na Guiné entrarem em prevenção a 100%, isto é: toda a gente a trabalhar durante as 24 horas do dia.
Dias antes, na CSJD/QG/CTIG onde eu prestava serviço, iniciaram-se as "conversações" no sentido de definir a contribuição que cada um iria dar para a realização de um convívio natalício naquela noite, o que abrangia toda a gente, incluindo o Chefe (Ten.Cor. Manuel de Moura).
Imaginava um são e alegre convívio, mas toda a noite sem dormir, comendo e bebendo de tudo um pouco (excepto água), afigurava-se-me uma prevenção a rondar talvez os 5%, na melhor das hipóteses.
Se numa qualquer repartição do QG/CTIG esse facto não parecia diminuir muito significativamente a sua "capacidade de defesa", já no mato não se poderia afirmar o mesmo, mas, ainda assim, parece que o convívio nessa noite também por lá se efectuava, a julgar pelos relatos de alguns ex-combatentes publicados neste e noutros blogues.
Seria um Natal diferente, longe da família, é certo, mas onde a camaradagem própria dos militares proporcionaria, certamente, alguns momentos de alegria atenuando minimamente a saudades próprias da época.
Tanto na tropa como na vida civil, um bom desempenho, coragem, grande sentido do dever, e outros atributos que me são característicos e que a minha modéstia me impede de referir, trazem-nos por vezes trabalhos redobrados, já que nos momentos mais difíceis somos os primeiros a ser chamados para a "frente da batalha".
E foi assim que, naquele Natal de 1973, me escalaram para o serviço de Sargento de Piquete.
O Piquete raramente era chamado para qualquer tarefa e limitava-se a estar pronto para o que "desse e viesse", mas originou o meu afastamento do convívio natalício com os meus camaradas e superiores da CSJD.
Mas, se andava algo entusiasmado com a ideia de um Natal diferente passado entre militares, não posso dizer que as minhas expectativas tivessesm saído frustadas, pois acabei por passar uma noite de Natal bem diferente e bem regada, entre militares, população e bombeiros.
Então não é que, a meio da noite, nos colocaram pás e picaretas nas mãos e nos mandaram para o Pilão atacar um incêndio que deflagrara numa tabanca?!
Se com a HK-21 não me entendia lá muito bem, apesar da formação obtida (+/- 10 minutos), imaginem a minha destreza a manusear uma pá, ou picareta sem nunca ter tido qualquer formação, nem tão pouco saber como se puxava a culatra atrás!
- "Os generais devem estar loucos!", pensava eu com os meus botões.
Lá seguimos de Unimog até ao Pilão, armados de pás e picaretas para fazer não sabia bem o quê.
Demoramos algum tempo a chegar ao objectivo já que o Unimog se deparava com algumas dificuldades de manobra dentro do Pilão e a tabanca em chamas se situava numa das extremidades do bairro.
Tivemos de circundar o bairro e, chegados lá, encontramos os bombeiros de Bissau a atacar o fogo que se circunscrevia apenas às travessas que suportavam o telhado de colmo que, entretanto, havia já sido consumido pelas chamas.
Sentindo-me perfeitamente ridículo no comando de um pelotão armado de pás e picaretas, por ali ficamos quedos e mudos na esperança que o breu da noite encobrisse a nossa triste figura.
O pessoal dos bombeiros era todo guinéu e tendo, provavelmente, detectado a nossa caricata presença, resolveu atacar o fogo pelo lado oposto àquele onde nos encontrava-mos e como as agulhetas eram apontadas para as travessas do tecto, a água que não acertava nas mesmas, ia cair direitinha em cima do Piquete, no outro lado da tabanca.
E assim passei o meu Natal de 1973 bem regado, com alguns militares, no meio da população do Pilão e com bombeiros danados p'ra agulheta. (à falta de champagne...!)

Outros pequenos episódios

1 - Guarda de Honra em julgamento militar

Nos tribunais militares os julgamentos eram efectuados com a presença de uma Guarda de Honra e durante a minha comissão na Guiné, apenas uma vez fui escalado para comandar um pequeno pelotão numa "cena dessas".
De camuflado, luvas e cordões brancos, sob uma temperatura a rondar talvez os 40ºC e com alguns 80% de humidade no ar, lá fomos para a sala de audiências que não tinha ar condicionado, mas sim uma ventoinha "gigantola" no tecto.
Quando o Juíz entrava todo de branco fardado, fazendo lembrar um vendedor de gelados que ali bem-vindo seria, a Guarda levantava-se, eu dava ordens de sentido-ombro armas-apresentar armas, "comme d'habitude" nestas ocasiões.
Durante o julgamento permanecía-mos de pé, de mãos quentinhas e com o suor a escorrer por todo o corpo, fazendo-nos sentir sermos nós os verdadeiros réus a cumprir já parte da pena.
Recordo-me que, nesse dia, foram três julgamentos seguidos (era talvez época de saldos).
A situação lá se foi aguentando (que remédio!), mas na hora da leitura da sentença é que a coisa se tornava feia. Todos em sentido enquanto o homem lia os "preliminares" e, quando proferia uma frase semelhante a: "Determino em nome da lei", eu dava voz de apresentar armas e assim permanecíamos até ao fim da leitura que demorava uma eternidade, fazendo com que as armas aumentassem exponencialmente de peso.
No meu caso a arma era uma FBP cujo peso era bem inferior ao da G3 e cujo apresentar d'armas era sobre o peito aguentando-se razoavelmente a posição, mas o resto do pessoal armado de G3, ao fim de alguns minutos já não conseguia manter a arma firme na vertical, tremendo como varas verdes.
De soslaio, apercebi-me que alguns foram aproximando as respectivas coronhas da barriga, acabando por as poisar no cinturão, transformando a Guarda de Honra num cerimonial com pouca verticalidade.
Segundo me recordo, um dos julgamentos referia-se a um soldado metropolitano que, a caminho de uma qualquer patrulha, saltou da viatura e regressou ao aquartelamento, desobedecendo ao Alferes. Este ter-lhe-á posteriormente aplicado apenas um castigo de alguns "reforços à benfica", castigo esse que foi considerado demasiado brando, o que terá originado, também, um processo disciplinar ao Alferes.
Quanto à pena sofrida pelo soldado, não me recordo bem, mas julgo que foi de alguma dureza.
Num outro julgamento o réu era um civil negro, já com algumas chuvas passadas, baixote, descalço (e eu de luvas brancas!) e de uma etnia qualquer que obrigou à presença de um outro militar, também negro, no papel de tradutor.
Não me recordo já de qual o crime cometido por aquele civil, nem da pena a que foi condenado, mas apenas que, após uma pergunta do Juíz, o "intérprete" ter entrado em longa algaraviada com o réu, finda a qual simplesmente respondeu:
- "Ele disse que não"

2 - Certidão de óbito cacimbada

Como referi anteriormente, quando cheguei à Guiné já lá se encontrava o meu irmão Álvaro que prestava serviço na Secretaria do HMBIS e a quem ainda faltava cerca de um ano para terminar a comissão.
Claro que eu, sendo "piriquito fresquinho", fui alvo de muita "música" do "velhinho", nomeadamente com telefonemas sobre os assuntos mais estapafúrdios que se possam imaginar.
Um certo dia encontro num dos processos que me chegaram às mãos uma certidão de óbito que, após a respectiva assinatura, continha mais ou menos, os seguintes dizeres:



Panderonga Parabó Lundó
Médico Anatomopato

Tratando-se embora de uma brincadeira algo tétrica, não deixei de esboçar um sorriso e associar aquele acto mórbido ao cacimbo entretanto já suportado pelo mano Álvaro.
Telefonei-lhe imediatamente para o Hospital e ele desatou a rir à custa da ignorância do "piriquito".
Afinal - Panderonga Parabó Lundó - era o nome de um médico Anatomopatologista, de origem indiana, que prestava serviço no HMBIS.

Ia lá eu adivinhar semelhante tal!






sábado, 9 de março de 2013

Abílio Magro
Rancho Melhorado


Tal como nas outras Unidades militares, segundo creio, também no QG/CTIG as refeições para o Oficial de Dia, Oficial de Prevenção e Sargento da Guarda, provinham das respectivas Messes e eram levadas por um ordenança até aos militares em serviço naquelas tarefas.
Durante mais um serviço de Sargento da Guarda que fiz ao QG/CTIG, fui inesperadamente contemplado com um rancho melhorado como nunca mais fui até ao fim da comissão.
Não era o dia da Unidade, nem o dia do meu aniversário!
Seria uma gentileza do Brig. Banazol pelo meu aprumo e competência no comando da Guarda de Honra?! Quem sabe!
"Isso agora não interessa para nada e vamos é 'enfardar' isto e o que fôr, soará!"Pensei eu com os meus botões.
"Abarbatei-me" ao apetitoso conteúdo do prato e, à medida que "metia p'ra blusa", mais aumentava a empatia entre mim e o serviço de Sargento da Guarda.
Efectivamente sentia que, finalmente, alguém dava valor ao esforço e empenho que eu colocava na execução de uma Guarda de Honra a um Comandante estrelado. No resto ..., nem por isso, mas agora também não interessa nada.
Terminado o faustoso repasto, abeira-se de mim o Capitão - Oficial de dia - que simpaticamente me pergunta:
- "Já almoçou?! Então, e o almoço estava bom?"
- "Sim, obrigado, por acaso hoje até que nem estava nada mau."
E a simpatia continuava, levando-me a pensar que estaríamos com toda a certeza no dia do "Sargento da Guarda". E porque não, ele há dias para tudo?!
Pergunta-me então: - "E um cafézinho, não ia agora?"
Nessa altura até já me apetecia dar-lhe um beijo na boca, tanta era a simpatia com que me tratava!
- "Ah sim, obrigado, por acaso agora até caía bem um cafézinho.
Ao contrário do que sucedia com muitos oficiais, a este Capitão os galões não o impediam de ter um gesto de cortesia para com um seu subordinado. E se ia pedir ao ordenança para lhe trazer dois cafés (para ele e para o Oficial de Prevenção) que lhe custava pedir que trouxesse mais um para o desgraçado do Sargento da Guarda?!
O café não fazia parte do "Menu do dia" e teria de ser pago. Achei que não seria correcto da minha parte entregar-lhe, logo ali, o dinheiro correspondente ao meu "cimbalino" (1 escudo, salvo erro) e não o fiz, até porque seria pouco provável que o Capitão o aceitasse (julgo eu).
Sentia-me que nem um Abade e, sentado à mesa, de papo cheio, debaixo da ventoínha da Casa da Guarda, aguardava o cafézinho, imaginando até o Capitão a providenciar para que o "cimbalino" fosse devidamente acompanhado com um bagacito pr'ajudar à digestão.
Os minutos foram passando e o café não aparecia. Comecei a pensar que talvez o Capitão tivesse ficado chateado por eu não lhe ter pago o café antecipadamente, mas isso parecia-me pouco plausível.
Também não me parecia normal que o café já tivesse chegado e que fosse o Capitão a trazer-mo à Casa da Guarda. Assim, fui passando várias vezes pela porta do Oficial de Dia (mesmo em frente à do Sargento da Guarda) para ver se o café já tinha chegado. Também pensei que, quando chegasse, o Capitão me chamaria com toda a certeza.
O tempo continuou a passar e, de café, nem cheiro!
Era também estranho que, não havendo café p'ra ninguém, não tivessem a gentileza de me informar.
Rebobinei a cassete toda e comecei a rever o filme. Juntei algumas peças do puzzle e, de repente, fez-se luz no meu espírito!
Um almocinho "à maneira" - o Capitão a perguntar: "E um cafézinho, não vai agora?! ... "Querem ver que o ordenança trocou as "marmitas" e eu "mamei" o almoço do Capitão e esta conversa do cafézinho é só tanga?!
Pois, aquele "E um cafézinho, não vai agora?!", não se tratava de qualquer cortesia do Capitão, mas sim de alguma ironia de quem se via na contingência de almoçar "que nem um Sargento".
Resumindo:
Entregaram-me o almoço, estava bem servido e eu estava com fome - atirei-me a ele! E..., digo-o com toda a sinceridade, nunca supus que tivesse havido troca, tanto mais que do outro lado eram dois almoços e, a haver troca, a mesma seria imediatamente detectada. Provavelmente o Alferes também se aviou primeiro, não sei. Apenas sei que almocei melhor do que era costume. O cafézinho é que, pelos vistos, tinha ficado na Alfândega!

Durante a minha vida militar no TO da Guiné, vários pequenos episódios sem grande importância foram acontecendo e a sua grande maioria estava já no arquivo morto e só agora, depois que me tornei escriba desta grande Tabanca, é que alguns me têm vindo à memória. Parecendo-me, no entanto, que o pessoal das "bolanhas" demonstra algum interesse em conhecer este tipo de episódios vividos pelo pessoal do "ar condicionado" e ainda que sejam, realmente, episódios insignificantes do meu dia-a-dia no QG/CTIG, continuarei a relatá-los até que alguém me mande calar, tenha eu "pachorra" e tempo para o efeito.

Convencido que estou de que isto não sairá daqui por me encontrar entre ex-camaradas da Guiné, vou, aqui e agora, fazer uma confissão que nunca fiz publicamente, para que se perceba minimamente o contexto em que alguns episódios se deram e tendo em conta que estavamos num Quartel General em pleno Teatro de Operações da ex-Província Ultramarina da Guiné (considerada, na altura, zona 100% operacional).

Como já deveriam ter percebido, este vosso ex-camarada, cujas acções militares na Guiné roçaram, ainda que ao de leve, as façanhas do famoso Rambo, fez vários serviços de Sargento da Guarda ao QG/CTIG.
Durante esses serviços nunca visitou nenhuma guarita, nem nunca quis saber, sequer, onde se situavam as mesmas.
Acredite quem quiser, mas é realmente verdade e passo a justificar:
Como sabem, havia sempre uma senha e uma contra-senha para efeitos de ronda. A senha era-me transmitida pelo Oficial de Dia através de uma carteira de fósforos, ou outro artefacto do género e era usual (para mim acho que foi sempre) utilizarem nomes de frutos (banana/pera - uva/maçã - cereja/morango, etc.). Pelo mesmo método eu transmitia as senhas ao Cabo da Guarda.
O pessoal era sempre guineense com excepção do Cabo da Guarda que, uma ou outra vez, era europeu. Imaginem a confusão que se poderia fazer com uma salada de fruta de senhas e contra-senhas!
Nunca efectuei qualquer ronda, nem sabia onde ficavam as guaritas (eu era Amanuense, porra!). Estão a imaginar-me na escuridão da noite a aproximar-me de uma sentinela e não me lembrar de qual era a fruta da época e o "bacano" já ter entornado alguma "água de Lisboa"?! "Bai lá bai, até o Barack Obama!"

Recordo-me de uma certa noite, já com os portões fechados, me aparecer do lado de fora e agarrado às grades do portão, um soldado negro a quem só se via o "teclado" de tanto se rir e apenas dizia: "esfuriel...esfuriel...esfuriel".
Estava com uma "tosga do carago", pois tinha abandonado a guarita para ir até à messe, onde trabalhava, beber uns copos.
Aquela triste figura só me dava vontade de rir, mas, por outro lado, tinha receio que o Oficial de Dia se apercebesse (nessa dia era um Capitão do QP) e lá estaria eu metido em sarilhos e aquele desgraçado com a vida estragada, pois a tropa era o seu ganha-pão (ou arroz). Abrir-lhe o portão para ele entrar, podia alertar o Capitão.
Disse ao Cabo da Guarda, também negro, que colocasse um substituto no posto e que fosse dar a volta ao Quartel, saindo pela CCS, e o trouxesse caladinho e o enfiasse na cama. Assim fez e tudo correu sem problemas.

Uma outra vez, sendo o Oficial de Dia novamente um Capitão do QP, aparece-me um 1º Sargento, daqueles que gostam de mostrar serviço, com uma G3 na mão dizendo que tinha encontrado uma sentinela a dormir e que lhe tinha sacado a arma. Sugeria que eu fosse lá à guarita ver o homem e fazia-o em voz alta para o Capitão ouvir e me tramar a vida a mim e ao soldado. Já algo furioso com ele, lá consegui que baixasse o tom de voz e me entregasse a G3.

Resumindo: O pessoal, que era quase sempre o mesmo, já devia conhecer o meu modo de actuar e, quando eu estava de Sargento da Guarda, era uma "rabaldaria do caraças"! Eu só queria que não dessem muito nas vistas. Quanto ao resto, cada um que se desenrascasse que eu tentava fazer o mesmo, papando os almoços aos Oficiais de Dia.

Ainda uma outra vez em que me encontrava de Sargento da Guarda, logo pela manhã aparece-me esbaforido o Cabo da Guarda informando-me de qualquer coisa que se estaria a passar na casa de banho. Para lá me dirigi de imediato e encontrei no chão, acometido de um ataque epiléptico, um nosso camarada que estava de Sargento de Dia. Lá providenciei para que o levassem de Jeep ao HMBIS.
Era um camarada ainda mais franzino do que eu e deixei de o ver durante uns tempos. Teria sido evacuado para a Metrópole?!
Não! Num outro dia em que voltei a fazer serviço de Sargento da Guarda, lá estava ele novamente de Sargento de Dia.



"Que Deus me perdoe, mas eu adoro isto aqui" (Frase do General George Patton proferida no decorrer de uma batalha).
"Que Deus me perdoe, mas eu piro-me já d'aqui" (Frase do Furriel Abílio Magro proferida no decorrer de um serviço de Sargento da Guarda).






quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Abílio Magro
Patrulhamentos no Cupilom (Pilão)


Durante os cerca de 30 meses em que permaneci nas fileiras do Exército, em cumprimento do Serviço Militar obrigatório, muito enriqueci o meu vocabulário à custa da chamada "linguagem de caserna", particularmente na Guiné.
E se em relação aos vocábulos "ordinários", pouco tinha a aprender, confesso, já no que se refere a expressões mais "pacíficas", o ganho foi substancial.
Efectivamente aprendi e usei expressões (e ainda uso algumas) que, embora sendo consideradas calão, não são pejorativas e fazem, também elas, parte integrante da história de uma época e de um contexto onde todos nós, ex-combatentes, vivemos durante algum tempo da nossa juventude.
Com o fim da guerra colonial, muitas daquelas expressões caíram em desuso e, para que se preserve este valioso património, tentarei usar e abusar, nesta "Tabanca", de expressões usadas entre os militares em serviço na Guiné e que me ficaram na memória.
Dito isto, vamos aos "famosos" patrulhamentos no Pilão.

O Pilão (assim se designava habitualmente o Cupilom) era o maior bairro negro de Bissau e situava-se perto das instalações Militares de Santa Luzia, onde estava instalado o QG/CTIG. Era composto por numerosas tabancas, sem energia eléctrica, sem água canalizada e sem rede de esgotos. Era ali que vivia a maior parte da população pobre de Bissau. Era também ali que havia "manga de fudi-fudi"(1) onde muitos militares iam "desenferrujar o prego". À noite era perigoso andar por ali sozinho.
Recordo-me de, ainda na Metrópole e terminadas a férias que antecediam o embarque, ter-me deslocado a uma barbearia para um corte de cabelo curto, e o barbeiro que me atendeu ter-me perguntado se ia para a tropa. Tendo-lhe respondido que não, que já lá andava há quási um ano, mas que ia para a Guiné, ele logo me avisou: "Cuidado com o Pilão, um 'gajo' entra lá e sai com a cabeça debaixo do braço!". Fiquei esclarecido.
Efectivamente, vim a constatar depois que, à noite no Pilão, havia constantes conflitos por variadíssimas razões, entre as quais o "fudi-fudi". Era também habitual o rebentamento de granadas naquela bairro e constava até, que por lá havia muita gente simpatizante do PAIGC e que alguns guerrilheiros ali vinham passar os fins de semana, recolhendo informações.
Os patrulhamentos estavam a cargo do pessoal da CCS do QG/CTIG e eram efectuados em três turnos; 20h-24h, 24h-04h, 04h08h e eram controlados por um Capitão do COMBIS (Comando de Defesa de Bissau).
E é neste contexto que este vosso camarada "operacional do ar condicionado", apenas com alguns dias de Guiné, é chamado a efectuar o seu primeiro patrulhamento nocturno ao Pilão.
"Piriquito"(2) como era, estava decidido a seguir à risca todas as instruções que me fossem transmitidas para o efeito.
Munido de G3, telemóvel matulão (já não sei como se chamava aquilo) e um croquis mal-ajambrado, com notas escritas à máquina e envolto num plástico transparente, lá vou eu comandar uma patrulha de seis homens, transformados em guarda-nocturnos.
Vamos de Unimog e largam-nos no local indicado no croquis. Este, tinha aspecto de já ter cumprido dezassete comissões e apresentava-se com a farda toda esfarrapada. Isto é: o plástico estava a desfazer-se e o papel mal se conseguia ler. Então de noite, sem luz, era giro!
Mas eu estava determinado a fazer tudo certinho direitinho (era mesmo muito "pira"!(2)) e esforço-me por estudar o croquis, quando um elemento da patrulha me diz que o "télélé" tinha lanterna o que me levou a concluir que, afinal, a tropa portuguesa estava bem equipada. Às apalpadelas tentei acertar com o botão respectivo, mas acabou por ser o tal elemento da patrulha a dar à luz. Logo pensei: "este deve ser Engenheiro".
Os caracteres esbatidos daquele croquis já se me apresentavam mais legíveis e tratei de perceber qual o trajecto que teria de seguir para cumprir cabalmente a misão que me havia sido confiada, quando dou com o seguinte fragmento de texto: "(...) junto a um mangueiro com uma faixa branca (...).
"Porra! Esta merda está toda rota, a luz é fraca comó caraças, um gajo num bê a ponta dum chabelho e, ainda por cima, estes gajos num sabem escreber, ou estom a gozar comigo?! Como é que bou encontrar uma mangueira com uma risca branca, no meio desta escuridom?! Tá tudo doido!" (Em 1973, com 4 ou 5 dias de Guiné, sabia lá eu que existiam mangueiros!)
Fartei-me de olhar para o chão à cata da tal mangueira!
Resumindo: perdi-me completamente e, a páginas tantas:
"- kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto. - kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto.".
O "télélé" tinha acordado - era o Capitão do COMBIS!
Respondo: "- celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto - celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto (duas vezes - tinham-me dito que era assim).
Do outro lado respondem:
"kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto - kalar, kalar, aqui celta, diga se me ouve, escuto".
E eu novamente: "- celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto - celta, celta, aqui kalar, diga se me ouve, escuto
Aquilo até estava a ser giro, mas o tal "engenheiro" diz-me: "- Meu Furriel, tem de carregar num botão aí ao lado! (o tipo sabia mesmo daquilo!).
Carreguei no botão, mas a conversa continuava monótona como tinha começado: "kalar, kalar para cá - celta, celta para lá" e já começava a chatear!
Então o "engenheiro" diz: "Meu furriel, tem um botão de cada lado, tem de carregar nos dois ao mesmo tempo! Aí convenci-me mesmo que o "bacano" era Engenheiro, e dos bons! Talvez electrotécnico.
Bom, lá consegui chegar à fala com o Capitão que me perguntou onde é que eu estava, e eu lá tive de lhe dizer que me tinha enganado no autocarro, que era a 1ª vez, etc. e tal e ele lá me disse que estava junto à igreja, o que me deixou mais sossegado pois, provavelmente, estaria em meditação e dava-me algum tempo para lá chegar.
Como não fazia a mínima ideia onde ficava a igreja, perguntei ao pessoal e um dos negros que compunham a patrulha lá nos encaminhou até lá.
Chegados lá, nem Capitão, nem Padre, nem Sacristão, nem o raio que os parta!
Recomeça a cantoria:
"- kalar, kalar..."
A sério que me apeteceu mesmo mandá-lo calar, mas lá carreguei nos dois botões (a gente está sempre a aprender) e o Capitão pergunta-me:
"- Então, onde é que você anda?!
O tom de voz dele já não me estava a agradar.
Respondi-lhe com alguma sobranceria:
"Estou junto à Igreja!"
E ele: - "Junto à Igreja estou eu e não vejo aqui ninguém!"
$#"&%/$"$#!!! - Eu, afinal, estava junto a uma mesquita!!
"Ai meu Deus que desta é que eu vou parar a São Crincalho! Já me estava a imaginar no centro de Madina de Boé a fazer patrulhamentos com uma moca de Rio Maior na mão e uma fisga no bolso!"
Lá me explicou mais ou menos onde ficava a Igreja e, como o pessoal mostrou conhecer o caminho, para lá avançamos a todo o vapor!
Lá chegados, continuei com as minhas desculpas e não notei nele grande ressentimento. Julgo que era Capitão Milº. Assinei o mapa de controlo e lá me embrenhei novamente na "densa mata", até ser rendido.
Eu era de rendição individual, estava há três ou quatro dias na Guiné e ainda não tinha tido tempo para conhecer todos os "cantos à casa".
Vim mais tarde a saber como a "coisa" funcionava e, até ao fim da comissão, agi de acordo com as regras vigentes e..., "tá na mala!"(3)
Então era assim:
O Capitão do COMBIS ligava para o Oficial de Prevenção - Alf. Milº - informando-o da hora e local onde seria efectuado o controlo. O Oficial de Prev. avisava o Sargento de Ronda. Este seguia directamente com a patrulha para perto do local de controlo e, minutos antes da hora marcada, avançava destemido para o "objectivo". Nunca falhava!
Eu nunca dormia (forte sentido de responsabilidade), mas algum pessoal era "tiro e queda!".
Uma das vezes dei comigo a guardar seis "bacanos" a ressonar!
"Oh c'um carago, mas que é isto?! Tudo a "ferrar o galho" e eu aqui feito camelo, de sentinela a velar por eles?!"
"- Toca a acordar pessoal, vamos dar uma volta que estou a ficar com frio!" Acordaram e lá foram, meio a resmungar.
Em Setembro de 1973, vim de férias à Metrópole e, regressado a Bissau, "tungas, bora lá alinhar" numa rondazinha ao Pilão.
Era o turno das 20h às 24h, o pior em termos de conflitos. Eu tinha regressado no dia anterior e estava atarefado a tentar descansar da azáfama das férias. Sossegadinhos no canto de uma tabanca (do lado de fora, claro), fomos sobressaltados com o rebentamento de uma granada. Ouvi, registei e esperei. Logo de seguida, rebenta outra, depois outra... Mau, vim ontem de férias e ainda me sinto em convalescença, sem vontade para entrar em "festas"!.
Continuam a rebentar, tenho de ir, pois vai aparecer o COMBIS de certeza.
Inicio, então, a deslocação das tropas exactamente em sentido contrário ao do som dos rebentamentos (cautelas e caldos de galinha...).
O pessoal alerta-me, mas eu não ouço. É para este lado e "mai nada!" Rebenta mais outra e aqueles "camelos" insistem: "- Meu Furriel é para ali!" (militares impreparados!).
Lá tive de inverter o sentido da marcha. Aqueles "gajos" não estavam a facilitar nada.
"Calma, nada de pressas", ordenei eu!
Entretanto rebenta uma granada incendiária que provocou um grande clarão e pude ver que já lá se encontrava alguma tropa e aí sim, acelerei a marcha. Não façam já juízos precipitados! Acelerei a marcha, não porque me sentisse mais seguro, mas porque estavam lá camaradas meus que podiam necessitar da minha ajuda (a isto chama-se altruísmo!).
O Capitão da COMBIS manda-me fazer um cordão de segurança ao local (eu mais 6 homens, quando muito uma cordinha!), pois estava uma granada descavilhada junto à porta de entrada da casa de um 1º Sargento e era preciso fazer segurança aos homens que iriam tentar resolver o assunto.
Aquela granada podia rebentar por simpatia a qualquer momento. Colocaram sacos de areia junto à entrada da casa.
Pensou-se em dar um tiro de longe à granada, mas não seria fácil acertar-lhe e, além disso, parece que havia uma determinação qualquer que não permitia tiros em Bissau.
Se algum tabanqueiro tiver informações àcerca do assunto, seria interessante divulgá-las aqui na Tabanca, pois sempre me pareceu absurda a ideia, tanto mais que era frequente o rebentamento de granadas, mas, realmente e apesar da quantidade de armas que por ali circulavam, nunca tive conhecimento de cenas de tiroteio em Bissau. Talvez eu andasse distraído, não sei.
Aquilo demorou uma eternidade. Toda a gente dava palpites e eu, experimentado como era no assunto, também dou o meu.
"E se se abrissem algumas munições e se fizesse no chão um carreiro de pólvora até à granada e se espalhasse em cima desta alguma pólvora. Depois, era só chegar fogo à outra extremidado do carreiro e proteger-mo-nos."
A sugestão foi bem recebida, mas o pior veio a seguir. Era preciso um voluntário...
"Querem ver que estes gajos estão a pensar na minha pessoa para pôr em prática o meu plano?! Estão doidos!"
Realmente, isto de fazer planos para os outros executarem é muito lindo. Não deixavam de ter razão, mas eu tinha regressado de férias no dia anterior, carago! Era só por isso, mais nada.
E não é que um "bacano" do meu "grupo de combate" se oferece como voluntário?!
Este gajo é maluco! Esta merda ainda rebenta, o "gajo" vai pelos ares, e eu fico com um "molho de bróculos" nas mãos do carago!
O "bacano" lá começa a fazer o carreiro de pólvora até à granada e eu sempre a "rezar" para que ela se aguentasse muda e queda e a pedir que o "bacano" se despachasse.
Quando chega à granada e começa a despejar pólvora em cima dela, eu já tremia todo só de imaginar a "gaja" a explodir, o "bacano" a ficar feito em fricassé e eu a "sentar o cu no mocho".
Lá terminou sem problemas aquela tarefa e, então, chegou fogo à pólvora no início do carreiro que tinha feito. Todos nos abrigamos a aguardar os acontecimentos. A pólvora lá foi ardendo pelo e carreiro e, quando chegou à granada, dá-se um clarão e... "um autêntico flato em pantufas!". A "gaja" não rebentou, chegou o pelotão para me render, eu regressei a quarteis e no dia seguinte soube que lá tinha ido o pessoal das minas e armadilhas que tratou do assunto.

A esta distância (40 anos) estes episódios são relatados com esta ligeireza da "calma, descontração e estupidez natural", mas não deixei de apanhar alguns "cagaços" e temos de levar em conta que o meu nome completo inclui os apelidos Valente e Magro e que, o último me assentava na perfeição, à época.


(1) - "manga de fudi-fudi" - muito sexo
(2 - "piriquito" ou "pira" (abrev.) - expressões que designavam um militar recém chegado à Guiné e cujo camuflado, com pouco uso, nos levava a assemelhá-lo ao periquito verde da Guiné (papagaio do Senegal).
(3) - "tá na mala!" - Está feito, siga!







segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Abílio Magro
O Meu 25 de Abril


No dia 25 de Abril de 1974, logo pela manhã, com uma molhada de documentos debaixo do braço, dirigi-me como de costume, à repartição que possuía o selo branco do CTIG (1ª, 2ª ???) a fim de o apor, nas assinaturas do Brig. Alberto da Silva Banazol, Comandante do CTIG.
Esta repartição era chefiada por um Major do SGE, já de meia idade e de quem já não me recordo o nome.
Eram talvez 9h30 da manhã, estava eu muito entretido a "trincar" o Banazol com o selo branco e entra o Capitão Cirne (julgo que Miliciano) e, virando-se para o Major, de braços abertos e punhos cerrados "grita", mais ou menos em surdina: - "vive la revolution, vive la revolution!" e continua: "o Marcelo refugiou-se no Quartel da GNR, no Carmo e está cercado pela tropa!".
Claro que orientei logo as "antenas" para o Capitão Cirne e aguardei o desenvolvimento da conversa, mas este deitou-me um olhar que transparecia alguma felicidade, mas algum receio também, e diz: -"Furriel ...!" como quem diz: "Tem lá calma pá e vê lá o que vais para aí espalhar!".
A conversa pareceu-me ter alguma consistência e como, umas semanas antes, tinha havido aquele episódio da coluna das Caldas da Rainha que avançara sobre Lisboa, fiquei intrigado e, na CSJD tratei de contar aos meus camaradas o que tinha ouvido e aguardar algum "feed back".
Nessa altura já o tal 1º Sargento, a quem o Major Lobão chamava de "gebo", tinha terminado a comissão e tinha sido substituído por um 1º Sargento que usava sempre chapéu de pala. Em 18 meses de Guiné, julgo nunca ter visto nenhum militar do Exército usar chapéu de pala.
O homem tinha mesmo queda para polícia e, tendo ouvido o meu relato, tratou logo de dizer: - "Tenha cuidado com o que anda para aí a dizer, que ainda pode ter chatices...". Claro que eu traduzi para: "Põe-te a pau que eu conheço uns gajos na Pide e não tarda nada vais até Guiledje tomar conta daquilo sozinho!" Enfiei a viola no saco.
Entretanto o «PIFAS» (Programa de Informação das Forças Armadas - julgo que era assim) dedicava-se à música sinfónica, o que fazia pensar que efectivamente havia qualquer coisa no ar, embora ainda se tivesse ouvido, nesse dia, um discurso qualquer do Ministro dos Negócios Estrageiros - Dr. Rui Patrício. Mas, pasmem-se, também se ouviu, aqui e ali, alguma música do Zeca Afonso! Das mais suavezinhas, é certo, mas - alto lá, que aqui há coisa!
Aguardava-mos com alguma ansiedade pela hora do almoço, altura em que o «PIFAS» transmitia um serviço noticioso mais elaborado.
Na messe de Sargentos havia uma aparelhagem de som com várias colunas espalhadas pelo recinto - Bar, Esplanada e Sala de Jantar.
Na sala de jantar as mesas eram para 4 pessoas e, embora não houvesse lugares marcados, os "habitués da casa" sentavam-se sempre nos mesmos lugares.
Numa mesa à minha direita, com outra de permeio, sentavam-se quatro camaradas sui generis, já que dois deles eram completamente fanáticos pelos seus clubes (um do Belenenses e outro do Sporting) discutindo constante e acaloradamente sobre futebol e, os outros dois, aguentavam impávidos e serenos.
O fanatismo era de tal ordem que, tanto um como outro, chegavam ao ponto de relatar com algum pormenor a vida dos futebolistas do seus clubes (onde e quando nasceram, onde moravam, que clubes representaram e em que ano, etc., etc.) numa demonstração de grande cultura futebolística.
Pois naquele dia 25 de Abril de 1974, à hora do almoço, quando toda a gente, em silêncio, aguardava com alguma ansiedade novas de Lisboa sobre o que por lá estaria a passar-se na realidade, estavam aqueles dois "fabianos" em acesa discusão acerca, provavelmente, da cor das cuecas que determinado jogador usou no jogo tal, marimbando-se completamente para o que se estava a passar na Capital do Império!
Nesse dia foram-se adensando as suspeitas de que algo de importante se estaria a passar em Lisboa. Aos poucos as notícias foram chegando, mas nada de oficial. Eram transmitidas de boca em boca e, nessa situação, não havia que fiar e continuava-se a combater no mato.
O Brigadeiro Alberto da Silva Banazol, estaria a banhos na Ilha de Bubaque, mas tardava em aparecer.
O General Bettencourt Rodrigues nada dizia.
Começa a "boatice". Que houve um golpe de Estado liderado pelo Gen. Spínola..., que o Gen. Bettencourt estava contra..., que íamos ficar sem reabastecimentos de Lisboa..., etc., etc..
Baixou a qualidade da alimentação... Faz-se um levantamento de rancho... Fazem-se reuniões por tudo e por nada... A confusão é mais que muita...
O Brig. Banazol desaparece... O QG/CCFAG - Amura é cercado e o Gen. Bttencourt preso.
Em Bissau os estabelecimentos são pilhados... É reforçado o pratulhamento nas ruas... A sede da Pide em Bissau corre perigo ...
Sou escalado para Sargento de piquete e, à noite, põem-me uma HK-21 nas mãos e o respectivo pente de balas... Não sei o que hei-de fazer com aquilo... Mandam-me com mais 6 homens fazer segurança à Pide/DGS... Eu sou Amanuense, mas ninguém quer saber... Eu também já não quero saber... Só quero que ninguém me chateie...
E lá vou eu!
Coloco a fita de balas ao pescoço e cruzo-o no peito, qual Pancho Villa liofilizado (podem verificar as semelhanças na foto ao lado, colocando o ponteiro do rato em cima da imagem).
Seguimos de Unimog em direcção ao objectivo - Sede da PIDE/DGS, em Bissau.
Lá chegados, havia que montar o dispositivo de segurança... Começam os problemas... Nas Caldas da Rainha tinha tido uma formação em HK-21 de cerca de ... 10 minutos e recordava-me bem de como colocar a arma com o tripé no chão, mas como se metia o pente, aí é que já era pior..., tinha-se-me varrido completamente.
Um homem nunca se atrapalha:
- "Há aqui algum atirador?"
- "Eu sou!", responde alguém.
- "Então monta lá isso e anda para aqui!"
O equipamento estava montado no meio da ruela que passava por detrás da DGS. Havia agora que colocar estratégicamente o pessoal, e assim fiz:
- "Sentem-se aí nesse canto e façam pouco barulho" (estratégia para não espantar a caça).
Entretanto, como já me estava a dar o sono por ouvir ressonar, levantei-me e fui andar um pouco para perto da HK, não fosse alguém a "gamar", e vi uma caixa de papelão que me deu uma ideia genial!
A HK ali sozinha, montada no chão, não fazia muito sentido. Era conveniente pôr lá um homem a apontar para qualquer lado (o factor psicológico é muito importante nestas ocasiões). Como a arma me tinha sido entregue a mim, parecia-me óbvio que o homem seria eu. Mas eu sou pacifista e, além disso, tinha de me deitar no chão e ia sujar-me todo naquela terra barrenta.
Desfiz a caixa de papelão e fiz uma espécie de tapete que coloquei atrás da HK.
Chamei o atirador e disse-lhe para se deitar que a cama já estava feita.
E ali estava, em todo o seu esplendor, uma segurança com preocupações estéticas, de higiene e de conforto.
E foi neste quadro burlesco que a força que nos veio render nos encontrou, às 4 horas da madrugada, não se tendo registado qualquer incidente.






segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Abílio Magro
Bombas em Bissau


Bomba no Café Ronda

O Café Ronda situava-se na Av. da República, um pouco mais abaixo do cinema UDIB e do lado contrário ao deste.
Segundo me recordo, possuía uma espécie de esplanada coberta e ali se juntavam muitos militares (uns fardados, outros trajando à civil) que lá bebiam o seu cafézinho ou "bejeca", entre outras coisas. Tinha também um pequeno balcão que dava para uma rua transversal e onde também se podia beber o "cimbalino" ou a "bejeca" de pé e do lado de fora, com um atendimento muito mais célere.
Numa determinada noite do ano de 1973, eu e mais dois ou três camaradas meus, tomamos o nosso cafézinho no balcão referido e seguimos de imediato para o cinema UDIB para assistir à exibição de um qualquer filme que por lá andava.
Poucos minutos depois do início da exibição do filme, dá-se um tremendo rebentamento lá fora e, quase de seguida se ouvem diversas viaturas com buzinadelas e sirenes, indiciando haver constante transporte de feridos.
É interrompida a exibição do filme e surge uma voz aos altifalantes do cinema, solicitando a todos os médicos que eventualmente por ali se encontrassem, o favor de se dirigirem de imediato ao Hospital Militar.
Estão mesmo a ver onde este vosso camarada se dirigiu para ver o resto do filme, né? Pois, acertaram! Direitinho às Instalações Militares de Santa Luzia, onde se encontrava implantado o seu maravilhoso "T2"!
Tinham colocado uma bomba no Café Ronda, que explodiu quando este se encontrava repleto de clientes, tendo causado alguns mortos e muitos feridos.
Nesse atentado ficou gravemento ferido um "piriquito" com 2 ou 3 dias de Guiné e que eu tinha conhecido no dia anterior, pois tratava-se do "pira" que ia substituir na CSJD o meu camarada Fur. Milº Costa que terminara a sua comissão e tinha já viajado para a Metrópole.
Aquele "piriquito" acabou por ser evacuado para Lisboa e soubemos mais tarde que fora dado como incapaz. Recordo-me do nome - Romão.
Como é sabido, tratando-se de pessoal de 'rendição individual', tinha de haver um período mínimo de 10 dias de trabalho em conjunto, em que o substituído transmitia ao "pira" todas as informações relacionadas com as tarefas que este iria passar a executar e só depois isso, era autorizado o regresso a casa do "velhote".
Mas o camarada Costa, de Estarreja, era de "olho vivo e pé ligeiro" e teve artes de obter a lista oficial do pessoal que vinha no avião que estaria para chegar e onde constava o nome do seu substituto (Fur. Milº Romão) e, junto do Ten. Cor. (nessa altura o Major já tinha sido substituído), teve artes ainda maiores de o convencer que a substituição estava assegurada e que a transmissão de serviço se faria sem problemas de maior, com a colaboração dos Advogados a quem tinha solicitado previamente essa ajuda, obtendo, assim, o tão almejado papel.
E lá conseguiu embarcar e viajar para a Metrópole no mesmo avião em que o seu "pira" tinha viajado para Bssau.
Entretanto, deram-se os acontecimentos do Café Ronda, acima relatados, e a substuição não se deu, sobrecarregando durante algum tempo os Advogados (Alferes Milºs).

Bomba no QG/CTIG

Num certo dia de JAN/FEV de 1974, encontrando-me eu a convalescer de uma operação às varizes a que tinha sido submetido no HMBIS e bebendo uma "cervejola" sentado na esplanada da Messe de Sargentos de Santa Luzia, num final de tarde, dá-se semelhante rebentamento por ali perto que julgo me fez levitar por breves segundos. Segue-se de imediato o buzinar contínuo e enervante da sirene de alarme do QG e a debandada geral, desordenada e atarantada do pessoal que por ali estava.
Verificam-se então cenas dignas de um qualquer filme de Charlie Chaplin.
Com efeito, face ao crescente temor de que um dia a "coisa" ia chegar a Bissau, o pessoal andava algo receoso e muito nervoso. Quais baratas tontas, cada um reagiu da forma que julgou mais conveniente, vericando-se que alguns procuraram locais que se assemelhassem a valas, tipo condutas de águas pluviais, e aí se deitaram.
Eu, com a valentia que me é reconhecida e como é meu apanágio nestas situações, dirigi-me de imediato para o objectivo, isto é: direitinho ao quarto!
Nessa altura já não convivia com as baratas do "Biafra" e já habitava num "T2" (4 + 2 Furrieis) que, por sinal, ficava na direcção do QG e bem mais perto deste.
Quem me viu avançar decidido em direcção ao QG (leia-se quarto) terá pensado: "se este vai, vou também!".
O grupo foi engrossando e, quando passei à porta do meu "T2", não tive "lata" para entrar e lá segui com a "malta" até ao portão do QG. Aí, quem estava completamente atarantado era o meu camarada madeirense Fernandes que estava de Sargento da Guarda e não sabia para que lado se havia de virar.
Logo pensei: - "Olha se era comigo, ia ser bonito ia! Desta vez mandavam-me para o Burkina Faso!
Resumindo: Tinham colocado no QG uma bomba de alguma potência que mandou o telhado pelo ar e deitou paredes abaixo. Vi então sair em direcão ao Hospital o mercedes do Comando com o, já Brigadeiro, Galvão de Figueiredo que apresentava um ferimento no pescoço que, soube-se depois, era de pouca gravidade.
Se o rebentamento se tivesse dado mais cedo, as consequências teriam sido bem mais graves como constatei mais tarde quando regressei ao serviço, pós-convalescença.

Bomba no autocarro da Base Aérea

Não presenciei este acontecimento, do qual apenas me chegou alguma informação difusa de que teria sido colocada uma bomba no autocarro da Base Aérea, sem grandes consequências pelo facto de aquele se encontrar completamente vazio.

"Bomba" no Clube de Oficiais do CTIG

Nas Instalações Militares de Santa Luzia existia um Clube de Oficiais, composto de acomodações, messe, piscina, bar e cinema ao ar livre (podia-se fumar enquanto se via uma "sessão" - "porreiro pá!").
A classe de Sargentos tinha acesso a esse Clube para assistir à exibição de filmes e, uma vez por semana (5ªs-Feiras julgo eu) tinha também acesso à piscina.
O local era circundado por um muro formado com aqueles tijolos geométricos que permitem ver de um lado para o outro.
O cinema era montado no recinto da piscina e a tela era composta de um grande pano branco suportado por 2 altas estacas. As cadeiras eram metálicas, daquelas de fechar, usadas normalmente nos parques de campismo e nas nossas praias.
Nestas circunstâncias, as sessões de cinema eram efectuadas à noite como é óbvio e, como do outro lado do muro existiam tabancas, os respectivos habitantes viam o filme do outro lado da tela com as legendas do avesso, o que nunca impedia uma razoável assistência nativa.
Quando no filme se desenrolava uma qualquer cena de pancadaria entre um branco e um negro (Siney Poitier, por ex.) e o negro dava um murro no branco, invariavelmente se ouvia uma grande salva de palmas vinda do outro lado do muro. Compreensível, diga-se de passagem.
Alguns soldados sentavam-se nos muros e também assistiam ao espectáculo.
Naquela altura pairavam no ar receios fundados de provável início de guerrilha urbana em Bissau. Ali, no cinema ao ar livre e com as luzes apagadas por via da exibição cinematográfica, e com as tabancas do outro lado do muro..., uma bombita era "canja!"
O pessoal andava nervoso.
Naquela noite o cinema estava cheio como de costume. Eu também lá estava a ver uma "sessãozita".
De repente ouve-se o ruído de um rastilho seguido de um clarão e a debandada foi geral! Com a confusão, algumas cadeiras "ensarilharam-se" provocando tropeções e quedas e, os que caiam ao chão eram espezinhados pelos outros, como aconteveu comigo.
No chão, a ser espezinhado e com as cadeiras a atrapalhar, não conseguia fugir e entrei em pânico...! Ouvia o som das "Kalashnikov's"...! Ia ser apanhado à mão...! Despedi-me da família...!
Passadas longos minutos, lá me consegui erguer e, já pronto para saltar o muro, ouço risadas!
O pessoal da primeira fila tinha-se safado bem das cadeiras e, junto à tela, deliciava-se com o espectáculo. Extremamente nervoso e com o coração a bater a 200 r.p.m., mandei umas "bocas foleiras" aos de "tacha arreganhada" e dirigi-me ao chuveiro da piscina para lavar os arranhões (face, braços e pernas) e tive a companhia do Brig. Galvão de Figueiredo que lá foi fazer o mesmo às mãos e que vociferou: - "cambada de cretinos!"
Entretanto:

- "de quem são estas chaves?!"
- "ó Magro, olha aqui o teu cartão!"

Os meus "bens pessoais" lá foram aparecendo aos poucos.

Resumindo:
- a bomba tinha sido uma caixa de fósforos que se incendiara a um soldado enquanto acendia um cigarro em cima do muro e que se terá desiquilibrado. Na queda, terá arrastado consigo mais dois ou três camaradas;
- os longos minutos no chão a ser espezinhado, ter-se-ão resumido a meia dúzia de segundos;
- o tiros de Klashnikov seriam, afinal, as cadeiras metálicas a bater umas nas outras.

Mais um filme ficou a meio e eu, novamente, fui direitinho ao quarto!
Foi o maior susto que apanhei em 18 meses de Guiné.
Acreditem que, em pânico, a ser pisado e sem me poder levantar nem ver o que se passava ao redor, nem um feijão fradinho que fosse, me entraria no "uropígio"!
No dia seguinte, quando entro na CSJD vejo o cabo condutor-motorista do Ten. Cor. com a mão esquerda ligada.
- "Então que foi isso?"
- "Queimei-me ontem à noite no cinema."

Ali estava o autor do "crime"!